revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Traduo de Danielle Chagas de LIMA

O romance dos massacres1

 

Eu sei.
Eu sei os nomes dos responsveis por aquilo que vem sendo chamado de golpe (e que, na realidade, uma srie de golpes instituda como sistema de proteo do poder).
Eu sei os nomes dos responsveis pelo massacre em Milo, em 12 de dezembro de 19692 .
Eu sei os nomes dos responsveis pelo massacre em Brescia e em Bolonha nos primeiros meses de 19743 .
Eu sei os nomes do “vrtice” que manobrou, portanto, sejam os velhos fascistas idealizadores de golpes, sejam os neofascistas, autores materiais dos primeiros massacres, sejam, enfim, os “desconhecidos” autores materiais dos massacres mais recentes.
Eu sei os nomes que administraram as duas diferentes - ou melhor, opostas - fases da tenso: uma primeira fase anticomunista (Milo, 1969), e uma segunda fase antifascista (Brescia e Bolonha, 1974).
Eu sei o nome do grupo de poderosos que, com a ajuda da Cia (e, em segundo lugar, dos coronis gregos e da mfia), primeiro criaram (falindo de modo miservel, alis) uma cruzada anticomunista, para encobrir 1968, e em seguida, sempre com a ajuda e pela inspirao da Cia, recuperaram uma virgindade antifascista, para amenizar o desastre do referendum4 .
Eu sei os nomes daqueles que, entre uma missa e outra, deliberaram e asseguraram a proteo poltica a velhos generais (para manter viva, por segurana, a organizao de um potencial golpe de Estado), a jovens neofacistas, ou melhor, neonazistas (para criar de fato uma tenso anticomunista) e, enfim, a criminosos comuns, at este momento, e talvez para sempre, sem nome (para criar a tenso antifascista seguinte). Eu sei o nome das pessoas srias e importantes que esto por trs de personagens cmicos como aquele general do Corpo Florestal5 que trabalhava, de modo um tanto quanto operstico, na Citt Ducale6 (enquanto os bosques italianos queimavam) ou o de figuras apagadas e simplesmente parte da administrao, como o general Miceli7 .
Eu sei o nome das pessoas srias e importantes que esto por trs dos trgicos rapazes que escolheram a suicida atrocidade fascista e dos malfeitores comuns, sicilianos ou no, que se colocaram disposio como killers e assassinos.
Eu sei todos esses nomes e sei todos os fatos (atentados s instituies e massacres) dos quais se tornaram culpados.
Eu sei. Mas, no tenho as provas. No tenho nem mesmo indcios.
Eu sei porque sou um intelectual, um escritor que busca acompanhar tudo o que acontece, conhecer tudo o que se escreve sobre isso, imaginar tudo aquilo que no se sabe ou que se cala; que coordena fatos tambm distantes, que rene as partes desorganizadas e fragmentrias de um quadro poltico inteiro e coerente, que restabelece a lgica l onde parece reinar a arbitrariedade, a loucura e o mistrio.
Tudo isso faz parte do meu trabalho e do instinto da minha profisso. Acredito que seja difcil que o meu “projeto de romance” esteja equivocado, isto , que no tenha nexo com a realidade e que as suas referncias a fatos e pessoas reais sejam inexatas. Acredito, alm disso, que muitos outros intelectuais e romancistas sabem o que eu sei enquanto intelectual e romancista. Porque a reconstruo da verdade sobre o que aconteceu na Itlia depois de 1968 no algo difcil.
Tal verdade - percebida com absoluta preciso - est tambm por trs de uma grande quantidade de intervenes tanto jornalsticas, quanto polticas, ou seja, no de imaginaes ou fices como a natureza de minha interveno. ltimo exemplo: claro que a verdade urgia, com todos os seus nomes, por trs do editorial do “Corriere della Sera”, de 1 de novembro de 19748 .
Provavelmente, os jornalistas e os polticos tm tambm provas ou, ao menos, indcios.
Ento, o problema este: os jornalistas e os polticos, ao terem, talvez, provas e, certamente, indcios, no apresentam os nomes.
A quem, portanto, compete exibir esses nomes? Evidentemente, quele que tem no s a coragem necessria, mas, ao mesmo tempo, que no est comprometido com a prtica do poder e, alm disso, que no tem, por definio, nada a perder: a saber, um intelectual.
Um intelectual, ento, poderia apresentar publicamente muitssimo bem esses nomes, mas ele no tem provas, nem indcios.
O poder e o mundo que, embora no sendo do poder tm relaes prticas com o poder, excluiu os intelectuais livres - justamente pelo seu modo de ser - da possibilidade de ter provas e indcios.
Poderia-se objetar que eu, por exemplo, como intelectual e inventor de histrias, poderia entrar naquele mundo explicitamente poltico (do poder ou ao redor do poder), comprometer-me com ele e, ento, participar do direito de ter, com uma probabilidade certamente alta, provas e indcios.
Mas a tal objeo eu responderia que isso no possvel porque exatamente a repugnncia de entrar em tal mundo poltico o que se identifica com a minha potencial coragem intelectual de dizer a verdade, ou seja, mostrar os nomes.
A coragem intelectual da verdade e a prtica poltica so duas coisas inconciliveis na Itlia.
Ao intelectual - profunda e visceralmente desprezado por toda a burguesia italiana - se concede um cargo falsamente alto e nobre, e na realidade, servil: o de debater problemas morais e ideolgicos.
Se ele faz falhar nessa funo, considerado traidor de seu papel: se apregoa, rapidamente (como se no se esperasse nada alm disso), uma “traio dos clrigos”9 . Clamar a “traio dos clrigos” um libi e uma gratificao para os polticos e para os servidores do poder.
Mas no existe apenas o poder, existe tambm a oposio ao poder. Na Itlia, essa oposio forte e vasta, ela mesma um poder: refiro-me, naturalmente, ao Partido comunista italiano.
fato que, nesse momento, a presena de um grande partido de oposio, como o Partido comunista italiano, a salvao da Itlia e de suas pobres instituies democrticas.
O Partido comunista italiano um pas limpo em um pas sujo, um pas desonesto em um pas honesto, um pas inteligente em um pas idiota, um pas culto em um pas ignorante, um pas humanstico em um pas consumidor.
Nestes ltimos anos, entre o Partido comunista italiano - compreendido aqui em sentido autenticamente unitrio, como um “conjunto” de dirigentes, base e eleitores - e o resto da Itlia, abriu-se um abismo de modo que o Partido comunista italiano se tornou propriamente um “pas separado”, uma ilha.
justamente por isso que possvel, hoje, haver relaes estreitas como nunca com o poder efetivo, corrupto, inepto, degradado, mas se trata de relaes diplomticas, quase de uma nao para com outra nao. Na realidade, as duas morais so incomensurveis, compreendidas na sua concretude, na sua totalidade. possvel, justamente sobre estas bases, anunciar aquele “compromisso”, realista, que talvez salvaria a Itlia do completo desastre, “compromisso” que, no entanto, seria, na realidade, uma “aliana” entre dois Estados fronteirios, ou entre dois estados intrinsecamente encaixados um ao outro.
Mas justamente tudo isso que eu disse de positivo sobre o Partido comunista italiano, constitui tambm o momento relativamente negativo.
A diviso do pas em dois pases, um afundado at o pescoo na degradao e na degenerao, e o outro, intacto e no comprometido, no pode ser motivo de paz e construo.
Alm disso, concebida assim como eu aqui a tracei, creio que de modo objetivo, como um pas num pas, a oposio se identifica com um outro poder, que, todavia, sempre poder.
Por consequncia, os homens polticos de tal oposio no podem no se comportar eles tambm como homens de poder.
No caso especfico, o deste momento que to dramaticamente nos reservado, tambm eles entregaram ao intelectual um mandato estabelecido por eles. E, se o intelectual falha nesse mandato - puramente moral e ideolgico - eis que ele , como muita satisfao de todos, um traidor.
Ora, por que nem sequer os homens polticos da oposio, se possuem - como possivelmente possuem - provas ou, ao menos, indcios, no apresentam os nomes dos reais responsveis, isto , os polticos, dos cmicos golpes e dos assustadores massacres deste ano? simples: eles no o fazem na medida em que distinguem - diferentemente do que faria um intelectual - verdade poltica de prtica poltica. E portanto, naturalmente, nem mesmo eles colocam o intelectual no funcionrio a par das provas e indcios. Ningum nem sequer sonha com isso, como de resto normal, dada, de fato, a situao objetiva.
O intelectual deve continuar a se ater ao que lhe vem imposto como seu dever, a repetir seu prprio modo codificado de interveno.
Eu sei bem que no o caso - neste momento particular da histria italiana - de fazer uma moo pblica de suspeita de toda a classe poltica.
No diplomtico, no oportuno. Mas essas so as categorias da poltica, e no da verdade poltica, essa a que - quando pode e como pode - o impotente intelectual deve servir.
Assim, justamente porque eu no posso apresentar os nomes dos responsveis pelas tentativas de golpe de Estado e pelos massacres (e no no lugar disso), eu no posso deixar de pronunciar a minha frgil e ideal acusao contra toda a classe poltica italiana.
E o fao por acreditar na poltica, acredito nos princpios “formais” da democracia, acredito no parlamento e nos partidos. E naturalmente atravs de um ponto de vista pessoal que o de um comunista.
Estou pronto a retirar minha moo de suspeita (ou melhor, no espero nada alm disso) somente quando um homem poltico - no por oportunidade, ou seja, no porque tenha chegado o momento, mas sobretudo por criar a possibilidade de tal momento - decidir apresentar os nomes dos responsveis pelos golpes de Estado e pelos massacres que, evidentemente, ele sabe, como eu sei, mas dos quais, diferentemente de mim, no pode no ter provas ou, ao menos, indcios.
Provavelmente - se o poder americano consenti-lo, talvez decidindo “diplomaticamente” conceder a outra democracia o que a democracia americana concedeu a si mesma a propsito de Nixon - esses nomes mais cedo ou mais tarde sero ditos. Mas a diz-los sero homens que compartilharam com esses o poder como menores responsveis contra maiores responsveis (o que no quer dizer, como no caso americano, que sejam melhores). Esse seria, definitivamente, o verdadeiro golpe de Estado.






























fevereiro #

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1Publicado no Corriere della sera, em 14 de novembro de 1974, com o ttulo Che cos' questo golpe. Traduo: Danielle Chagas de Lima.

2Nesse dia uma bomba foi explodida no salo central do Banco Nacional de Agricultura (Banca Nazionale dell'Agricoltora), situado na Piazza Fontana.

3 O massacre ocorreu no dia 28 de maio, na Piazza della Logia, em Brescia, durante uma manifestao contra o neofascismo, realizada pelo Comit Antifacista e por sindicatos. Em Bolonha, uma bomba explodiu dentro do trem Italicus, no dia 04 de agosto; o episdio ficou conhecido como “Massacre do Italicus” (Strage dell'Italicus). Outros massacres aconteceram pela Itlia e tal sucesso de ataques foi intitulada, na poca, “Estratgia da tenso” (Strategia della tensione).

4 Vide notas 1 e 2.

5 O Corpo Florestal do Estado umas das foras policiais na Itlia e tem como funo a proteo e fiscalizao ambiental. O Corpo Florestal teria auxiliado nos golpes aqui denunciados por Pasolini.

6A Citt Ducale se localiza na provncia de Rieti e onde se encontra a sede da escola do Corpo Florestal do Estado. Em 1971, o pas foi vtima do golpe Borghese. Pasolini refere-se, provavelmente, a Luciano Berti, coronel da Guarda Florestal da Citt Ducale.

7 Vito Miceli foi um dos generais integrantes do movimento neofascista e chefe do Servio de Informaes e Defesa - SID (Servizio informazioni difesa) at sua priso, em 31 de outubro de 1974, sob a acusao de conspirao poltica contra o Estado.

8 Trata-se do editorial de Paolo Meneghini acerca da priso do general Miceli, intitulado “L'ex-capo del Sid, generale Miceli arrestato per cospirazione politica”.

9 Pasolini faz referncia obra do intelectual francs Julien Benda, “A Traio dos Clrigos”, de 1927, que aborda a questo do comprometimento dos intelectuais com a verdade.