revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037



Cícero ARAUJO

discussão II

 

 


A política francesa contemporânea, e da Europa de um modo geral, ainda deve merecer um exame mais atento da Fevereiro. O artigo "Socialismo em tempos de crise", que Pierre Magne e Claire Tillier gentilmente enviaram para publicação neste número, dá o ponta-pé inicial. Eles comentam a vitória de François Hollande nas eleições presidenciais francesas de abril passado. Quem, como eu, está alarmado com a onda xenófoba que cresce em vários países europeus, não pode senão respirar aliviado com o simbolismo dessa vitória - a França é sempre uma referência a todo o continente, para o bem ou para o mal - e instintivamente abrir-se para a possibilidade de dias melhores. Contudo, Magne e Tillier não vêem muitos motivos para comemorar. Seu primeiro ponto é mais ou menos óbvio: a situação que o presidente socialista herda é das mais complicadas. O produto interno estagnado, desemprego forte e crescente, o Estado mais e mais endividado... Mas o principal motivo é o próprio Partido Socialista de Hollande, encravado demais no "sistema" para corresponder a essas esperanças: "a esquerda que acaba de ser eleita é uma esquerda parlamentar de alternância, que divide com a direita um certo número de princípios intangíveis", os quais aceitam o capitalismo como o limite da política.

Parece então que ficamos com esta encruzilhada: ou se coloca o capitalismo em questão, ou não há o que fazer. Ou melhor, não há o que fazer do ponto de vista da esquerda. Pois a direita, especialmente a extrema direita, ainda tem muito chão a explorar, como se viu na campanha relativamente bem-sucedida de Marine Le Pen, da neofascista Frente Nacional, com seus quase 18% de votos no primeiro turno. Os autores, naturalmente, vão buscar na própria crise econômica a razão desse sucesso, do qual o candidato conservador, o presidente Nicolas Sarkozy, acabou tentando pegar carona, ao perceber o risco de que sua base eleitoral fosse sugada por Le Pen. Assim, ao mesmo tempo que a crise acentua ao extremo as características deslocalizantes do capitalismo, cada vez mais volátil, ela faz despertar sentimentos atávicos de apego à terra, que politicamente se convertem num discurso identitário - a defesa dos nativos contra os imigrantes, da proteção das fronteiras etc. Como se o fascismo se apresentasse como uma alternativa anticapitalista, embora selvagem e destrutiva. Mas que se traduz num discurso muito simples, concreto e compreensível aos desesperados: "a Frente Nacional é hoje o primeiro partido operário". Para enfrentar a crise, Hollande, ao contrário, em vista de sua própria posição no regime parlamentar, só poderá oferecer "abstrações como euro-obrigações e taxas de juros". Inteiramente comprometido com o esforço de salvar o "sistema", ele não poderá escapar das pílulas amargas usuais - austeridade fiscal, novas doses de recessão, desemprego etc -, que logo frustrarão seus eleitores.

Ao ler esses argumentos, não há como deixar de pensar nas típicas objeções de esquerda contra o reformismo. Mas é curioso, ao mesmo tempo, que os autores acusem o Partido Socialista de só conseguir vender abstrações ao povo. Pois eis a opção que eles mesmos pretendem ser a justa: "criticar sistematicamente, no plano teórico e no plano prático, a relação capitalista como condição de existência entre as coisas e os seres". Duvido que o povo francês venha a entendê-la como algo mais concreto do que o programa de Hollande. Eu mesmo gostaria de ouvir mais o que eles querem dizer com isso. De qualquer modo, embora muito vago, tem o semblante de uma alternativa global - revolucionária, como se dizia antigamente. Contudo, ao final do artigo, os autores recusam explicitamente essa tradição: "Nós que não mais acreditamos na revolução, renunciamos a predizer o curso político das coisas. A espera de um momento em que se levantaria um despertar radical nos torna cegos para o que se passa".

Muito bem, vivamos o presente. Todavia, suas próprias objeções ao reformismo socialista têm o aspecto de uma predição. E ela não é nada reconfortante: no andar dessa carruagem, nuvens cada vez mais cinzentas vão se acumular no futuro. O que se poderia fazer perante essa perspectiva? A ansiedade que essa pergunta expressa não parece abalar nossos articulistas. É como se dissessem: vamos ficar atentos aos sinais e ver o que acontece; enquanto isso, nos somemos aos protestos, à indignação, enfim, à luta. Um desses sinais, e muito positivo, assinalam, é o fato de a maioria dos eleitores ter recusado a política-espetáculo de Sarkozy, e ter voltado a aceitar a política "normal" de um Hollande. O que isso indicaria? Os limites da ludibriação midiática que só espaço à imagem: "Vivemos atualmente uma salutar reação anti-espetáculo dos povos... A boa nova do dia não contém nenhuma formulação política sobre o futuro. Ela se resume numa recusa. As imagens não fascinam mas repugnam".

Suponhamos então que assim seja: as pessoas acumulam sua indignação, vão às ruas, voltam para casa e esperam; depois voltam a protestar, vão às ruas e assim por diante. Em algum momento, porém, esse embate solicitará mais do que viver o presente - se é que de fato algo com esse perfil poderia ter fôlego para o tamanho do enfrentamento que se pretende. Enquanto isso, é difícil não imaginar que uma alternativa, pelo menos um script para a ação, não emirja, e que acabe galvanizando a massa dos aflitos e desesperados. E os argumentos do artigo mesmo indicam o script mais plausível, porque mais concreto: o fascismo. A acrescentar algo também sugerido no texto: embora todos aqui compartilhem o horror a ele, o fascismo também é uma alternativa de protesto e de luta para os que sofrem com o capitalismo. De fato, a história do século XX nos ensinou essa lição.

Deixo, pois, este ponto para debate. Mesmo que seja indiscutível que o programa oferecido por Hollande tenha limites muito objetivos, não creio que eles sejam "de granito", como dizem os autores. Por outro lado, creio, ou pelo menos espero, que não se chegou ao ponto das opções extremas, do oito ou oitenta - aliás, seria melhor que não se deixasse chegar a elas. É muito provável que não apenas uma, mas ambas, venham a ser igualmente péssimas.

 

(a discussão continua no próximo número)

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