revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

Ruy FAUSTO

esquerda/direita:
em busca dos fundamentos, e reflexes crticas

 

(continuao)1

 

III. Totalitrios e antitotalitrios. O “quadrado poltico”

2. Observaes sobre III, 1 (ver Fevereiro, nmero 3).2 – E esquerda e direita, no plano internacional

O resultado a que chegamos, at aqui, tem dois aspectos. De um lado, tratava-se de reafirmar a validade da distino esquerda/direita, que, hoje, s vezes, posta em dvida, – e o primado da igualdade (no da igualdade absoluta), na linha do que escreve Bobbio, foi o trao principal que encontramos para caracterizar a esquerda. Por outro lado, tentei mostrar que essa distino, embora vlida e atual, era em si mesma insuficiente. dualidade esquerda/direita seria preciso acrescentar a polaridade totalitrios/antitotalitrios (ou pr-totalitrios/antitotalitrios). Essa exigncia, pode-se dizer, antiga. Ela gesta, como um problema, com o prprio desenvolvimento da idia de “esquerda”. Desde, pelo menos, a Revoluo Francesa. Problema que vai se tornar agudo no sculo XX, pela emergncia histrica de formaes totalitrias, do tipo das que eu chamei de “igualitaristas” (no de “igualitrias”). Qualquer que tenha sido o destino dessas formaes, o surgimento delas exige a posio de uma segunda polaridade, que, sob pena de confuso terica e de funestos mal-entendidos polticos, no pode mais permanecer em forma simplesmente implcita, o que significa, no-posta. Teramos assim dois eixos, e portanto quatro possibilidades ou opes: esquerda totalitria, esquerda democrtica, direita totalitria, direita democrtica. Mas a pem-se vrios problemas. Vou discutir alguns deles, antes de continuar a apresentao.

Depois de propor as quatro possibilidades, citei uma passagem de Bobbio para mostrar que, no seu livro (Destra e sinistra, op. cit.), ele chegara tambm, se no, s mesmas quatro possibilidades, pelo menos a quatro possibilidades. Na realidade, embora eu tenha feito alguma ressalva ao resultado a que chega Bobbio e insistido nos limites gerais do seu estilo terico, faltou assinalar com clareza o que havia de insuficiente, de incorreto mesmo, na sua resposta.3 no nvel do “socialismo democrtico” – como de resto, observei, mas em forma insuficiente – que o problema aparece. Bobbio tende a pensar como “democrtico”, isto , como antitotalitrio – uso aqui a minha terminologia, no a de Bobbio, ele fala em socialismo liberal – apenas a social-democracia. Ou, se se preferir: ele tende a supor que as tendncias totalitrias aumentam necessariamente com o radicalismo da esquerda, ou que o no-totalitrios de esquerda so necessariamente social-democratas. Ora, ainda que seja preciso voltar ao problema da relao entre legitimao da violncia e totalitarismo (vou discuti-lo no final), preciso dizer, por ora, pelo menos – como de resto o meu texto assinalava, mesmo se numa nota – que h esquerdas ao mesmo tempo radicais e libertrias. Eu dava os exemplos clssicos do jovem Trotski e de Rosa Luxemburgo (se no desenvolvi mais o tema, foi tambm porque o fiz, em alguma medida, em outros lugares, e porque pretendia voltar a ele no final). A eles se poderia aduzir o caso do anarquismo ou, pelo menos, de uma parte do movimento anarquista. – Assim, se h uma esquerda antitotalitria e moderada – digamos, reformista – pode haver tambm, e h, efetivamente, sem prejuzo de uma discusso posterior sobre a coerncia ou estabilidade dessa posio, uma esquerda ao mesmo tempo radical e antitotalitria, libertria, se se preferir (em sentido muito amplo). essa circunstncia que arruna um esquema mencionado no meu texto, mencionado, mas criticado (em proveito do esquema mais simples dos dois eixos), que pensa o conjunto das posies polticas como constituindo um espao curvo.4 prefervel – mesmo que o esquema parea menos rico ou brilhante – distinguir simplesmente dois eixos num plano. Mais adiante, haver lugar para uma terceira dimenso, isso, porm, atravs da introduo de um elemento novo.

Um problema logicamente anterior a este o de saber se existe efetivamente um totalitarismo de esquerda, ou – o que remete mesma coisa – se os totalitrios (pensemos nos mais terrveis deles) so mesmo de esquerda. Stlin era de esquerda? Seguindo o critrio proposto, poderamos dizer, a rigor, que no, e de fato h certa violncia em afirmar que ele teria sido um homem de esquerda, embora isso tenha sido, durante muitos anos, uma verdade inabalvel e de senso comum. De fato, a desigualdade que reinava na sociedade stalinista era muito grande, segundo alguns dos que a teorizaram (Castoriadis) mesmo maior do que no ocidente, embora este no parea ser o caso para todas as sociedades totalitrias. Porm, apesar de tudo – e por isso mesmo, chamei essa modalidade, de totalitaritarismo “igualitarista”, no entretanto de “igualitrio” – h razes para situ-la esquerda (e Stlin com ela) embora no seja fcil provar essa tese, to evidente h sessenta anos. que o totalitaritarismo igualitarista no simplesmente uma “pardia” do pensamento e dos movimentos de esquerda, embora, sem dvida, tambm o seja. Ele , na realidade, e mais ou menos literalmente, um parasita do pensamento e da prtica da esquerda. Mas isso significa que ele ocupa um espao na “regio” da esquerda, que ele se enraza, ou se enraizou nela.5

Porm isto significa que, com a emergncia do totalitarismo igualitarista, o “ser de esquerda” deixou de ser o nec plus ultra de uma poltica lcida visando o progresso social. Ele apenas condio, condio necessria. Por si s, ao mesmo tempo muito (pois, precisamente, condio necessria) e bem pouca coisa, e no s no sentido inerente a todas as condies necessrias – o de que elas podem estar presentes sem que o condicionado se produza – porm mais do que isso: no sentido de que a poltica de certos partidos que satisfazem “condio necessria“ pode ser pior do que a de outros que no a satisfazem... Como afirmei na parte III, seo 1 (publicada em Fevereiro, nmero 3), de um modo geral, uma direita democrtica prefervel a uma esquerda totalitria, por exemplo, um regime stalinista pior do que qualquer capitalismo ocidental. Afirmao que pode parecer paradoxal, mas a histria frtil em tais paradoxos. E por a se v como, contrariamente s aparncias – a experincia que se tira dessa discusso – considerar Stlin “de esquerda” representa uma atitude ou perspectiva muito mais radical do que consider-lo um poltico de direita. Porque uma atitude mais crtica. O Stlin, homem (monstro) de esquerda, levanta um problema grave a discutir. Um Stlin, suposto de direita, encerra a discusso. Se o exclumos da esquerda, no nos obrigamos a pensar os problemas que essa figura levantaria enquanto “participante” da histria da esquerda. Vamos dormir tranquilos.

Isso posto, podemos voltar linha central da discusso. Distinguimos dois eixos independentes, respectivamente, esquerda/direita, e totalitrios/antitotalitrios. Tentei explicar o contedo dos plos (muito mais os da primeira dualidade, pois o segundo, em si mesmo, oferece menos problemas de identificao). Porm, esses quatro pontos “cardiais” foram pensados principalmente num plano nacional. Entretanto, se a confuso entre os dois pares gera muitas dificuldades mesmo quando no samos do plano da poltica de uma nao, ela se potencia quando o contexto internacional. A falcia da posio tradicional a de supor que h apenas um eixo, esquerda e direita; e a de que se situar esquerda condio necessria e suficiente de uma poltica justa. Eventualmente, diz-se tambm que preciso estar “bem” esquerda, que tal ou tal poltico prefervel, porque est “mais” esquerda. Vimos que, pelo fato da emergncia de um segundo eixo, tais argumentos – embora contenham um elementos de verdade – so enganosos. E enganosos porque ocultam o fenmeno totalitrio, e as suas encarnaes em partidos ou personalidades polticas. Ora, se esse engano frequente, j no plano nacional, ele o muito mais no plano internacional. No plano nacional, perde-se de vista o carter totalitrio de um partido (de uma direo, de um governo) sob a alegao de que ele “de esquerda”. No plano internacional, onde, com freqncia, encontramos figuras (regimes, partidos...) totalitrios, ou protototalitrios – na realidade, em muitos casos, a figura que aparece agora a dos populismos tendendo mais, ou menos, ao totalitarismo – a ocultao se faz pela idia de que se trata de partidos ou lderes que encarnariam e praticariam uma poltica “anti-imperialista”. Agora a dualidade matricial esquerda/direita vem recoberta pelo par anti-imperialista/imperialista. Ora, se a atitude da esquerda radical clssica – refiro-me ao bolchevismo, e ao seu prolongamento-negao, o stalinismo –, no plano nacional, era a de optar sempre pela “esquerda”, pouco importando se se tratava de esquerda totalitria ou no (o prprio conceito de “totalitarismo” era, de resto, obliterado), no contexto internacional, a ordem era apoiar em termos mais ou menos absolutos o lder ou partido “anti-imperialista”, pouco importando se a sua poltica tinha carter totalitrio – mesmo inclinado direita, no limite – ou no. Supunha-se uma congruncia sem falha, pelo menos no plano prtico, entre “anti-imperialista” e “esquerda”, ou entre “imperialista” e “direita”. Da a possibilidade da transposio. Um texto clssico, nesse sentido, , a meu ver, uma passagem de uma entrevista de Trotski, de setembro de 1938, que, curiosamente, se refere ao Brasil. O sindicalista argentino Mateo Fossa quer saber a posio de Trotski em relao guerra que se anuncia, e em relao luta sindical e nacional nos pases latino-americanos. Troski se recusa a reconhecer diferena entre o campo democrtico e o campo fascista, e diz que a “prxima guerra ser ainda mais imperialista rapace do que a de 14-18”. Para explicar a sua posio, ele observa: “Tomo o exemplo mais simples e mais evidente. Domina hoje no Brasil um regime semifascista que nenhum revolucionrio pode considerar sem dio. Suponhamos entretanto que, amanh, a Inglaterra entre num conflito militar com o Brasil. Eu pergunto: de que lado estar a classe operria? Responderei, da minha parte, que, nesse caso, estarei do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrtica”. Por qu? Porque, no conflito que os oporia, no se trataria de democracia ou de fascismo. Se a Inglaterra ganhasse, ela instalaria no Rio de Janeiro um outro fascista e encadearia duplamente o Brasil. Se pelo contrrio o Brasil ganhasse, isto poderia dar um impulso considervel conscincia democrtica e nacional desse pas e conduzir derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra aplicaria ao mesmo tempo um golpe no imperialismo britnico e daria um impulso ao movimento revolucionrio do proletariado ingls. Realmente, preciso no ter nada na cabea para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares luta entre fascismo e democracia. preciso aprender a distinguir sob todas as mscaras os exploradores, os escravistas e os ladres!”6Tudo est dito a. E nada mais enganoso do que um texto como este, embora ele contenha certa – mas s “certa”– verdade (ou por isso mesmo). Digamos que a posio corrente da extrema esquerda at os nossos dias uma parfrase das palavras de Trotski. Mas o que serve e o que no serve nessas palavras? Poderamos dizer que no caso especfico – embora muito improvvel e portanto mais ou menos fictcio – de uma invaso do Brasil, governado por Vargas, perpetrada pela Inglaterra, no seria incorreto dizer que o “melhor” lado seria mesmo o Brasil – apesar de Vargas –, e no a Inglaterra. Isso supondo um caso de invaso imperialista “pura”, sem nenhum outro tipo de componente, por exemplo, o fato eventual de que o Brasil tivesse sido invadido pela Alemanha, ou outra circunstncia dessa ordem. (A propsito do cruzamento entre esquerda/direita e totalitrios/anti-totalitrios, se eu disse que, em princpio, um esquerdista totalitrio pior do que um direitista democrtico, disse tambm que essa regra no simples, e pode se modificar conforme a situao). A opo de Trotski, justificvel provavelmente nas condies que indiquei, poderia ser generalizada para outros casos, isto , para outras lutas de governos “fascistas”, ou totalitrios, contra governos democrticos (ou “democrticos”, se se preferir)? Ora, para pensar em que medida essa posio poderia ser justificvel nos nossos dias, ou, em geral, em outras situaes grosso modo “anlogas”, seria preciso considerar os seguintes elementos: 1) a natureza do poder “fascista” (ou “totalitrio”): no indiferente saber se se trata de um dirigente populista, digamos do tipo Crdenas, ou um ditador sanguinrio como Bocassa ou Amin-Dada; 2) O estado das relaes entre os pases mais desenvolvidos e os pases subdesenvolvidos como se dizia at h pouco, ou “emergentes”, como se diz agora para uma parte deles. tambm importante conhecer o peso poltico que tem, em cada caso, o centro sobre a poltica dos pases perifricos e o grau de eficcia nacional e internacional de cada um desses governos perifricos, ou de vrios deles em concerto.7Ora, se examinarmos a evoluo das relaes internacionais do tempo de Trotski aos nossos dias, evidente que, por mais que se conserve a eficcia dos instrumentos de hegemonia, certo que os pases do chamado terceiro mundo, pelo menos no que se refere aos chamados “emergentes”, tm um campo de manobra consideravelmente aumentado em relao ao que existia h 70 anos, e isso por vrias razes: evoluo das relaes centro/periferia atravs da prpria histria dessas relaes, enfraquecimento do poder americano, surgimento de novos poderes internacionais (emergentes ameaadores como a China), desenvolvimento econmico considervel dos emergentes etc. Por outro lado, o impacto negativo das ditaduras protototalitrias nos pases ditos perifricos hoje de uma ordem incomparvel. Basta ver os seus efeitos virtuais ou reais no plano da propaganda fundamentalista ou do terrorismo, ou nos dois planos. Nesse sentido, a ideia mesmo que estava na base do argumento de Trotski, a de uma congruncia entre “anti-imperialismo” e “esquerda”, isto , a de que a vitria de um poder quasitotalitrio significa ou anuncia uma vitria popular, completamente falsa.8Assim, para dar nome aos bois, quando Lula legitima a farsa eleitoral sangrenta de Ahmadinejad, ele no est ajudando em nada o povo iraniano. Esse povo, como outros – o que Trotski no v – no quer apenas mais igualdade, quer tambm democracia. A mesma coisa quando se sustenta Castro, ou at Kadhafi, ou se lava as mos diante da ditadura sria – tudo em nome dos “interesses progressistas”. Quando no se reivindica abertamente a Realpolitik, a qual, nas mos dos “subdesenvolvidos” se transmutaria milagrosamente em poltica socialista ou pelo menos progressista. O que se faz, em nome da luta anti-imperialista , na realidade, ajudar uma ditadura sangrenta a esmagar o movimento popular, cai-se no que h de mais reacionrio em matria de poltica internacional. Alis, voltando ao texto de Trotski. Eu disse que, no caso preciso, a posio proposta, dentro de certas condies, poderia se justificar. Mas ela enunciada no interior de uma argumentao destinada a provar que na guerra de 39 (que se anunciava) no haveria campo melhor... Isto , seria indiferente que Hitler ganhasse, ou que ganhassem a Inglaterra, a Frana e os Estados Unidos... Todo o irrealismo suicida de Trotski est presente naquela entrevista. Trotski manteve, alis, essa posio, mesmo depois do incio da guerra, por ocasio do desembarque na Noruega que ocorre meses ante do seu assassinato por um agente de Stlin. Assim, o quadrado poltico tem de ser o quadro de referncia no s no plano nacional, mas tambm no plano internacional. Bem entendido, neste ltimo h uma dimenso a ser considerada: a da luta colonial. Ela no coincide sem mais com o eixo esquerda/direita. H a um novo elemento, mas que, a meu ver, no constitui, propriamente, um plo autnomo, que devesse constituir um novo par de opostos, como fizemos para o totalitarismo. A luta colonial um novo fator a ser considerado para julgar e tomar posio diante de uma situao histrica, fator que no elimina as duas polaridades consideradas at aqui, mas que as modifica, em maior ou menor medida, conforme a situao.

A luta anticolonial tem a ver, em primeiro lugar, com a liberdade. luta pela autodeterminao de uma nao (se vlido continuar falando assim). O princpio de autonomia individual, que est na base da luta antitotalitria e democrtica, prolonga-se em princpio da autonomia de cada nao, autodeterminao das naes, a qual, na prtica, poderia se refletir em autonomia individual no plano nacional; poder-se-ia dizer, tambm, paralelamente – mas a transposio tem alguma coisa de artificial – que aquela luta tambm tem a ver com a igualdade – luta pela igualdade entre as naes – a qual, do mesmo modo, poderia se prolongar em igualdade interna. Assim: 1) a luta anticolonial insere-se, de certo modo, como prolongamento das duas dualidades fundamentais; 2) ela se situa, em princpio, por definio, no terreno externo, mas tem, de direito, uma dupla face. De fato, o lado externo inseparvel, de direito, da situao interna. Aparentemente, o erro da perspectiva clssica da (extrema) esquerda – l onde ela erra pela complacncia para com ditaduras “anti-imperialistas” – poderia ser esquematizado da seguinte maneira: no que se refere liberdade, ela privilegia de forma abusiva o lado externo, tomando-o como mais ou menos independente do interno (ou, se se quiser, ela perde de vista a liberdade interna como, de resto, costuma fazer). No que se refere igualdade, ela se situa de um modo um pouco diferente: eu diria que, explcita ou implicitamente, ela supe, sem muito esforo, que a luta anticolonial serve igualdade interna, mesmo se a mdio ou a longo prazo. H assim, ao mesmo tempo um eclipse da liberdade interna e algo como uma promessa implcita, s vezes a mdio ou a longo prazo – promessa ilegtima ou pelo menos excessiva na maioria dos casos – de uma igualdade interna.

[Segunda Unidade]

IV. Igualdade, liberdade, violncia... (β)9

1. Esquerda pr-violncia, e esquerda contra a violncia, em torno do sculo XIX – Socialismo e comunismo em torno do sculo XIX.

a) introduo – Trata-se agora de analisar o ramo “no-revolucionrio”, ou mais precisamente “no-violento”10, mas, como a anlise do outro ramo foi parcial, eu retomo as duas vertentes. – Ao acompanhar a histria da vertente “no-violenta” (na realidade, como no caso anterior, s de umas quantas figuras ou movimentos), meu interesse ser tambm o de estudar a “deriva” possvel do movimento (ou, mais precisamente, como na outra vertente, de uma parte dele). Mas aqui essa deriva no a rigor uma “hibris”. De um certo modo, mesmo o contrrio dela; e em virtude precisamente desse seu carter, ela no vai constituir uma nova polaridade. De fato, se no primeiro caso construmos ou reconstitumos pouco a pouco uma histria (ou pr-histria) do “totalitarismo”, que vai se cristalizando como um dos plos de uma nova dualidade, aqui, sendo a deriva antes a adeso ao sistema, no aparece, a rigor, um novo “ismo”. Sem dvida, existem os conceitos de “reformismo” ou de “revisionismo”, de que se fez grande uso, bom ou mau, em determinados momentos. Vou me ocupar deles (ou do que eles conotam) mais adiante, mas quaisquer que sejam os “estragos” que eles tenham produzido no corpo do movimento socialista, pelo prprio fato de ser, no fundo, uma forma de “adesismo” ao regime, aquela deriva no tem uma realidade propriamente substantiva (pelo menos no sentido em que o totalitarismo a tem). O que no prejulga nada, ou s muito pouco, sobre a gravidade do fenmeno.

Como expliquei na parte II, seo 1 (publicada no nmero anterior de Fevereiro), a distino, relativa aos meios, entre partidrios e adversrios da violncia, no se confunde com a distino, relativa aos fins, que tambm est no sculo, e que separa (principalmente) comunistas e socialistas. H uma certa congruncia entre “no-violentos” e “socialistas”, e entre “violentos” e “comunistas”. Mas ela no absoluta. s vezes, as determinaes se cruzam. Mas eu privilegiei aqui o problema dos meios. E permiti-me at mesmo chamar, em geral, de “socialistas” os adversrios da violncia. Talvez haja uma certa arbitrariedade da minha parte nesse procedimento, mas pareceu-me que ele se justifica, j que as afinidades internas entre cada um dos dois grupos que se opem quanto aos meios muito grande, seno decisiva, e, de certo modo, absorve a outra diferena.

Isso posto, vamos histria. Encontramo-nos diante de sries de figuras muito diferentes umas das outras, principalmente no que se refere aos “adversrios da violncia”.11Tentarei percorrer alguns temas, citando autores das duas vertentes, no incluindo Marx e Engels, fora breves aluses. (Ocupei-me um pouco de Marx e Engels na parte II, mas volto a eles, depois da caminhada pelo sculo XIX, como um caso especial, que merece um tratamento particular). claro que o que farei estar muito longe de ser um verdadeiro balano terico do “socialismo” e do “comunismo”, em torno do sculo XIX. Interessa, essencialmente, pr em relevo, principalmente entre os “socialistas”, um certo nmero de conceitos e de teses, que se revelam especialmente importantes para pensar as dificuldades do que seria a teoria hegemnica da esquerda a partir da ltima dcada do XIX, o marxismo. Mas interessa mostrar tambm, sobretudo entre os “comunistas”, certos temas ou conceitos que, se no so propriamente pr-totalitrios, trazem uma carga “holstica” que leva gua para projetos autoritrios. Selecionei e agrupei alguns temas: a) Ideologia e meios de interveno; b) Liberalismo econmico, economia poltica, propriedade. comunismo; c) Estado, ditadura, democracia; d) Moral, fundamentao tica.

a) Ideologia e meios de interveno

Pode-se dizer que o ponto de partida – tanto para “socialistas” como para “comunistas” – a idia de que se constata uma insuficincia entre o que prometiam os ideais da Revoluo Francesa e o seu resultado. A liberdade e a igualdade alcanada se revelam ilusrias. “Qual (...) o princpio que preside a esses trabalhos diversos [agricultura, indstria, comrcio, RF]? a igualdade, sob o nome da livre concorrncia. A mais atroz desigualdade (...) reina, de fato, nesse ponto. (...) Proclamando a concorrncia, a sociedade no fez mais, at aqui, de que uma grande ironia”.12“Os privilegiados do sculo enumeram com complacncia os progressos da liberdade, da filantropia (...) ironia cruel (...)”.13Desse descompasso, nasce a expresso que se encontra por toda parte, nos textos da esquerda do sculo – “a verdadeira igualdade”, “a verdadeira liberdade”... (at “a verdadeira propriedade”), ou “a igualdade real”, “a liberdade real” etc.14A efetivao da liberdade e da igualdade se far, para alguns, pela violncia, para outros por meios pacficos: educao, luzes simplesmente, ou luta poltica no-violenta. – Blanqui: “No existe, entre as duas metades desiguais da sociedade, outra relao que no a da luta, outra necessidade seno a de se fazer o maior mal possvel”.15O que contestaro os pacifistas. Desde antes da virada do sculo, William Godwin escreveria em Political Justice...: “Talvez, nenhuma revoluo importante tenha sido no-sangrenta. (...) observao (...) [sobre] o derramamento de sangue, se pode acrescentar que as revolues so necessariamente brutais (crude, grosseiras) e prematuras. (...) As revolues, em vez de serem realmente benficas para a espcie humana, no satisfazem a outro propsito que no o de frustrar (mar) o progresso salutar e ininterrupto, que se poderia esperar obter atravs da verdade poltica e do amelhoramento (improvement) social. Elas suspendem o avano salutar (wholesome) da cincia, e desconcertam (confound) o processo da natureza e da razo”.16Owen escreve, no mesmo sentido, vinte anos depois: “Uma reforma de qualquer uma das nossas grandes instituies nacionais, sem preparar e pr em prtica meios de bom treinamento, instruo e emprego vantajoso da grande massa do povo, criaria inevitavelmente [uma] revoluo imediata, e daria estmulo novo e extenso a todo tipo (every) de m paixo: seguir-se-ia violncia; e, em pouco tempo, este imprio e toda a Europa e as Amricas estariam mergulhados num panorama geral de anarquia e confuso terrvel, da qual a passada Revoluo Francesa nos d apenas uma plida antecipao”.17Proudhon, como se sabe, vai no mesmo sentido: “A teoria que lhes proponho tem como finalidade mostrar, se se dispuserem a isto (si vous le voulez bien), como nenhuma revoluo ocorrer mais”.18E na famosa carta a Marx: “Talvez voc ainda guarde a opinio de que nenhuma reforma atualmente possvel sem um ‘coup de main’, sem aquilo que se chamava outrora de revoluo, e que no mais do que um tremor (secousse). Essa opinio, que eu concebo (...) j que durante muito tempo acreditei nela, (...) meus ltimos estudos fizeram-me abandon-la completamente. (...) No devemos pr a ao “revolucionria” como meio de reforma social, porque esse pretenso meio ser simplesmente um apelo fora, ao arbitrrio, em resumo, uma contradio. (...) Eu creio saber o meio de resolver, a curto prazo, o problema: eu prefiro cozinhar (faire brler) a Propriedade em fogo baixo, e no lhe dar uma nova fora, fazendo um So Bartolomeu de proprietrios”.19Os dois lados representam posies opostas, e, entretanto, curioso constatar o elogio de Owen que faz o comunista Buonarotti, no seu famoso livro sobre a conjurao de Babeuf: “O que os democratas do ano IV no puderam executar na Frana, um homem generoso, recentemente, tentou pr em prtica por outros meios, nas ilhas britnicas e na Amrica. O escocs Robert Owen”, que quer organizar “estabelecimentos (...) onde vrios milhares de homens vivam pacificamente sob o doce regime da perfeita igualdade. (...) Babeuf tentou reunir um povo numeroso numa nica e grande comunidade; Owen, colocado em outras circunstncias, gostaria de multiplicar num pas as pequenas comunidades, que, unidas (...), se tornariam tantos indivduos de uma grande famlia. Babeuf queria que (...) se apropriassem da autoridade suprema (...); Owen espera ter xito atravs da predicao e do exemplo. Que ele possa mostrar ao mundo que a sabedoria pode operar um to grande bem sem o recurso da autoridade!”.20Inversamente, veremos que, de um modo surpreendente, o grande leitmotiv dos no-violentos, a educao, tem um peso considervel tambm entre os comunistas. – Se h acordo, em geral, sobre o descompasso entre as duas liberdades (ou igualdades) – no limite, mas s no limite, a primeira aparece como simplesmente falsa –, e desacordo quanto aos meios de eliminar esse descompasso, diferenas aparecem tambm quando se trata de precisar qual o peso respectivo das palavras que compem a grande divisa herdada da Revoluo, “liberdade, igualdade, fraternidade”. Alguma delas tem privilgio? Os comunistas so certamente os campees da igualdade. “A igualdade ser a primeira lei, escreve Blanqui. A fraternidade e a liberdade torna-se-o suas companheiras naturais, sempre por necessidade (...)”.21No livro de Buonarotti, publicado meio sculo antes, a “igualdade” , sem dvida, a noo dominante (o tema , de resto, a Conspirao dos Iguais), mas a “liberdade” no est ausente. No comunismo filosfico de Hess tem-se tambm liberdade e igualdade. A presena da “liberdade” em autores como Hess deve ser entendida se se precisar qual a idia de liberdade do autor. Nos partidrios da revoluo violenta, ela, mutatis mutandis, tem em geral alguma afinidade com a “liberdade dos antigos”, na clebre distino de Constant. Por outro lado, Hess, numa linha oposta de Leroux, tende a unificar igualdade e liberdade. – A discusso sobre o primado de um ou outro conceito, d-se tambm no interior do campo socialista. Assim, o primado da liberdade em Proudhon um dos pontos da clebre polmica entre Leroux e Proudhon. “(...) dos trs termos (...) voc s v um, o termo liberdade, o que faz tratar com desdm (...) aqueles que (...) desde h muito tempo, mostraram ter o mesmo cuidado (attachement) (...) em relao aos trs termos”.22Leroux insiste na necessidade de guardar os trs, mas coloca a fraternidade no centro, como princpio unificador: “Ponho a fraternidade no centro da frmula, porque ela serve de lao entre a liberdade de cada um e a liberdade de todos ou igualdade”.23

b) Liberalismo econmico, economia poltica, propriedade, comunismo

At aqui, tratei grosso modo da herana dos direitos do homem, que pode ser considerada como uma das expresses do liberalismo poltico. Passemos ao liberalismo econmico e economia poltica. O pensamento comunista nitidamente adversrio da economia poltica. O comunista Buonarotti faz dos economistas os grandes inimigos, e os ope a Rousseau, que reconhecido como o ancestral ilustre. “(...) Numerosos escritores fizeram com que a prosperidade da nao consistisse na multiplicidade das suas necessidades, (...) numa imensa indstria, num comrcio ilimitado, na rpida circulao dos metais em forma de moeda (monnoys) e, em ltima anlise, na inquieta e insacivel cupidez dos cidados“.24As instituies econmicas so mal recebidas pelos comunistas, para no dizer mais. O melhor exemplo talvez o do dinheiro.25A atitude dos socialistas26para com a economia poltica no era, em princpio, muito diferente. Proudhon escreve no Systme des Contradictions conomiques...: “(...) no considero como cincia o conjunto incoerente de teorias ao qual, a partir de mais ou menos cem anos, se deu o nome de economia poltica, e, que, a despeito da etimologia do nome, no ainda seno o cdigo ou a rotina imemorial da propriedade”.27“O socialismo conclui declarando a economia poltica uma hiptese falsa, uma sofstica inventada em benefcio explorao do maior nmero pelo menor (...)”.28

Leroux no escreve de modo mais favorvel a respeito da economia poltica: “Durante a Restaurao, alou-se uma espcie de cincia vazia e sutil, que tinha ousado tomar o nome da mais bela das cincias, e que, sem corao, sem olhos nem orelhas, pretendeu ser, entretanto, a reitora (rectrice) da sociedade: ela se chamava economia poltica. (...) Seu princpio universal, seu nico axioma era a liberdade e a concorrncia. Cada um por si, e, em definitivo, tudo para os ricos, nada para os pobres, eis o resumo dela; liberal em aparncia, assassina (meurtrire), na realidade. (...) Essa pretensa cincia era a prpria negao de toda cincia social (...)”.29Proudhon e Leroux criticam a economia poltica “realmente existente” mas no o projeto mesmo de uma economia poltica (ou “economia social”), cincia que, para Proudhon seria a “cincia superior e final, da qual as outras no so mais do que instrumentos e meios”.30Mas talvez na Gr-Bretanha (ou, de modo mais geral, no mundo anglo-saxo) que se encontra o mais interessante corpus pr-marxista de crtica da economia poltica, a saber, nos autores, como Hodgskin, Ravenstone, Bray, e um annimo, autor de The Source and Remedy of the national Difficulties.31

A questo da propriedade conexa crtica da economia poltica. Com Owen – a posio de Godwin muito crtica, mas, mesmo no horizonte, ele no se inscreve, de forma absoluta, contra a propriedade privada32– tem-se uma crtica radical, embora “no horizonte” da propriedade privada. Owen: “Sob o Sistema Racional da sociedade – depois que as crianas tiverem sido treinadas de modo a adquirir novos hbitos e sentimentos, derivados de um conhecimento das leis da natureza humana – no haver propriedade privada intil (there shall be no useless private property)”.33

Proudhon tem fama de crtico radical da propriedade, por causa do seu Qu’est-ce que la proprit ? (1840), mas, se considerarmos o conjunto da sua obra – ele afirma, de resto, no ter mudado de opinio –, Proudhon aparece, pelo contrrio, como um defensor da propriedade. interessante analisar, a esse respeito, entre outros textos, o Systme des Contradictions conomiques... e o seu livro pstumo Thorie de la Proprit. “Desse ponto de vista, a propriedade se distingue por uma tendncia justia, que se est longe de encontrar na comunidade.”34Mas na Thorie de la Proprit que se tem uma ampla reabilitao da propriedade, sem rejeitar, entretanto, o texto de 1840. “A propriedade a liberdade!”35“A propriedade o roubo; a propriedade a liberdade: essas duas proposies so igualmente demonstradas e subsistem uma ao lado da outra no Systme des Contradictions...”36“(...) a propriedade a maior fora revolucionria que existe e que se pode opor ao poder.”37“(....) nesse feixe de abusos, se deslinda uma funcionalidade enrgica, que desperta imediatamente no esprito a idia de um destino altamente civilizador, favorvel tanto ao direito quanto liberdade.”38

A defesa da propriedade no Systme des Contradictions conomiques... ser objeto da crtica do filsofo comunista Moses Hess. Se num primeiro momento (1843) ele ataca o famoso livro de Stein39por ter separado comunistas de socialistas40, na sua resenha (1847, publicada s em 1931)41do livro de Proudhon, ele implacvel com as “‘semimedidas’ (Halbheit) socialistas”:42“Proudhon quer unificar, por um mtodo puramente ‘especulativo’, dois opostos que se excluem reciprocamente, a propriedade privada e o comunismo. Ele pega um pedao de comunismo, a associao, e um pedao da propriedade privada, a aquisio privada, e cr salvar, atravs da ‘unificao’ deles, por um lado a igualdade, e por outro a liberdade pessoal (...). Ele no v que est sentado entre duas cadeiras, e que com o seu mtodo especulativo ele no obteve nem a propriedade privada, nem o comunismo, nem a igualdade, nem a liberdade (...) mas s a imaginao de todas essas belas coisas.”43O texto mais famoso de Hess “ber das Geldwesen” (“Sobre o dinheiro”), (1843/44, publicado em 1845).44Nele se encontra, entre outras coisas, boas ou ms, a clebre distino entre “pr-histria” e “histria” – no sentido de pr-comunismo e comunismo – que Marx retomaria. interessante notar o lado fortemente anti-individualista do texto. “Elevar o indivduo a fim, e rebaixar a espcie a Meio, esta a inverso que caracteriza a pr-histria. A relao autntica aquela em que o “homem oferece conscientemente sua vida individual espcie, quando ocorre uma coliso entre os dois.”45O comunista Moses Hess tinha motivos para atacar Proudhon. O Systme des Contradictions conomiques... no menos crtico em relao ao comunismo do que em relao propriedade privada. De fato, bem visvel no livro a crtica em duas frentes. A “comunidade”, isto , o comunismo – na figura de Villegardelle, e em parte de Cabet – criticado principalmente no famoso captulo XII (nona poca), do segundo volume do Systme des Contradictions conomiques.... Proudhon vai insistir inicialmente sobre a incompatibilidade entre a comunidade (o comunismo) e o indivduo tal como a histria o constituiu: “(...) como efeito de um instinto irresistvel ou por fora de um preconceito fascinador, que remonta aos tempos mais remotos da histria, todo operrio aspira empreender, todo companheiro quer se tornar mestre, todo trabalhador agrcola quer se estabelecer (mener train), todo plebeu quer se tornar nobre (...)”.46A esse argumento geral, ele acrescenta uma anlise crtica das dificuldades de funcionamento e das incoerncias da comunidade, tal como ele a encontra em Villegardelle, a quem o texto dirigido, e em Cabet. (Assim, Proudhon levanta microquestes do tipo: todas refeies sero em comum? Cabet admite excees, mas por que algumas excees e no muitas?)47O comunismo , para Proudhon, a outra face da economia poltica: “A primeira coisa que me ps em guarda contra a utopia comunista (...) que a comunidade uma das categorias da economia poltica, dessa pretensa cincia que o socialismo tem como misso combater. Como a propriedade o monoplio elevado segunda potncia, assim a comunidade no outra coisa seno a exaltao do Estado, a glorificao da polcia (...). O comunismo reproduz pois, mas num plano inverso, todas as contradies da economia poltica. Seu segredo consiste em substituir cada uma das funes sociais (...) pelo homem coletivo. E como (...) nunca concilia nem resolve nada, ela chega fatalmente, tanto quanto as precedentes, iniquidade e misria”.48Estamos assim, diante de dois abismos: “A humanidade, como um homem brio, hesita e cambaleia entre dois abismos, de um lado a propriedade49e de outro a comunidade: a questo de saber como ele passar esse desfiladeiro, em que se perdem a cabea, tomada de vertigem, e os ps.”50A soluo proposta a da “terceira forma social”: “A comunidade busca a igualdade e a lei: a propriedade, nascida da autonomia da razo e do sentimento do mrito pessoal, quer sobre todas as coisas a independncia e a proporcionalidade. Mas a comunidade, tomando a uniformidade pela lei, e o nivelamento pela igualdade, torna-se tirnica e injusta: a propriedade, pelo seu despotismo e suas intromisses, logo se mostra opressiva e insocivel”. A “terceira forma de sociedade, sntese da comunidade e da propriedade, ns a chamamos liberdade.51A posio de Leroux no diferente desta. O texto decisivo, a esse respeito, , a meu ver, “De l'Individualisme et du socialisme” (1833), onde se deve entender “socialismo”, como o autor explica em edies posteriores, por “socialismo absoluto”. “Atualmente, somos (...) presa desses dois sistemas exclusivos, do individualismo e do socialismo, repelidos (repousss) que somos da liberdade, por aquele que pretende faz-la reinar, e da associao, por aquele que a prega.”52“Estamos assim entre Carbide e Sila, entre a hiptese de um governo concentrando nele todas as luzes e toda a moralidade humana, e a de um governo destitudo pelo seu prprio mandato, e de toda luz e de toda moralidade; entre um papa infalvel de um lado, e um vil gendarme do outro. Uns chamam de liberdade o seu individualismo, eles o chamaram de bom grado uma fraternidade: os outros chamam de famlia o seu despotismo. Preservemo-nos de uma fraternidade to pouco caridosa, e evitemos uma famlia to invasiva (...).”53E Leroux utilisar tambm a imagem do desfiladeiro (mesmo se num contexto um pouco mais particularizado, o da legitimidade da interveno do Estado): “Dois abismos bordam a rota que o Estado deve seguir: ele deve caminhar entre esses dois abismos (...)”.54

c) Estado, ditadura, democracia

No pensamento radical do sculo XIX, encontramos um nmero importante de autores que fazem a crtica do Estado, e, mais do que isto, que propem, a mdio ou a longo prazo o fim do Estado. Digamos que h a idia da morte do Estado no horizonte; mas h tambm a do fim do Estado a um prazo mais curto; e, nos dois casos, tem-se tanto o modelo pr-violncia como o modelo antiviolncia. Na hiptese da revoluo violenta aparece a questo do poder revolucionrio, e a do (eventual) emprego da violncia no s antes, mas tambm depois da revoluo. Assim, nessa hiptese, a questo do destino do Estado inclui a da (eventual) ditadura revolucionria, questo que ela mesma pressupe a do destino do Estado aps a revoluo. A considerao do Estado, nos pe diante de um conceito quase no mencionado at aqui, o de anarquismo.

Godwin representa a figura, original sem dvida, do aufklrer anarquista. Aufklrer anarquista em estado puro. Godwin, j vimos, alrgico a todo tipo de violncia (at das leis!), e acredita no peso em ltima instncia sempre determinante da razo e da verdade. Mas o progresso das luzes no ficar no meio do caminho. Se ele no prope o fim da propriedade privada, ele supe e deseja a abolio final do Estado: “Todos os governos correspondem, em certa medida, quilo que os gregos chamavam de tirania. A diferena que, nos pases despticos, o pensamento (mind) oprimido (depressed) por uma usurpao uniforme; enquanto que, nas repblicas, ele preserva uma grande poro da atividade dele, e a usurpao se conforma mais facilmente com as flutuaes da opinio”.55

“Este um dos estgios mais memorveis do progresso humano. Com que prazer (delight), cada bem informado amigo da humanidade espera o perodo auspicioso da dissoluo do governo poltico, daquela mquina brutal (brute engine), que tem sido a nica causa perene dos vcios da espcie humana, e que, como apareceu abundantemente no curso do presente trabalho, tem inconvenientes (mischiefs) de vrios tipos incorporados na sua substncia, e que no so removveis a no ser atravs do seu total aniquilamento.”56Assim, Godwin radical em relao ao Estado, como Owen o para com a propriedade privada. De Godwin a Proudhon vai mais ou menos meio sculo.57J no Systme des Contradictions conomiques..., encontram-se os elementos da sua crtica do Estado.58Mas ela est presente, principalmente, em Confessions d'un rvolutionnaire (1849)59e em Ide gnrale de la rvolution au XIXe sicle60: “ necessrio, pois, para entrar na verdade orgnica, poltica, econmica ou social, pois aqui tudo uno (...) dar como base ao poder eclesistico como a todos os outros poderes do Estado, o sufrgio dos cidados. Por esse sistema, o que hoje Governo no mais do que administrao (...) apenas pelo fato de sua iniciativa eleitoral, o pas se governa a si mesmo (...) ele no mais governado”61. “No mais autoridade! Isto , dvidas pagas, servides abolidas, hipotecas liquidadas (....) despesas da Justia e do Estado suprimidas (...), no mais antagonismos, no mais guerra, no mais centralizao, no mais Governos (...) No a sociedade que saiu da sua esfera, caminhando em posio inversa, de cabea para baixo (sans dessus dessous)?”62“No h nada, absolutamente nada no Estado, do alto da hierarquia at em baixo, que no seja abuso a reformar, parasitismo a suprimir, instrumento de tirania a destruir.”63(Na medida em que esse apelo destruio do Estado , ao mesmo tempo, uma recusa do recurso ao Estado como instrumento de reforma social, o discurso de Proudhon poderia ser contraposto ao estilo de Lassalle, que faz da interveno do Estado um meio essencial de reforma). Leroux, com quem Proudhon polemiza, escreve, pelo contrrio: “Quem quer que fale de cincia social fala de associao, e quem quer que fale de associao, fala de governo; mas quem quer que fale de governo ou de autoridade, seja no Estado, seja na Comuna, seja na oficina no um intrigante e um dspota; pois no se trata de uma autoridade monrquica, saiba bem, mas da autoridade republicana; e isto que voc no compreende, voc, que no compreende a associao”.64At aqui, a propsito do Estado, s tratei de socialistas (entre os quais, inclui Godwin, pelas razes indicadas), alguns favorveis ao Estado, outros, adversrios dele. O comunista Blanqui, como a regra entre os comunistas, um inimigo do Estado, e quer liquid-lo no final do processo. “O homem da comunidade aquele que nem engana nem comanda (mne).”65“[Na comunidade, o] crime [ter] desaparecido com o capital e a religio, seu pai e sua me.”66“Eis quarenta a cinquenta milhes de homens (...) armados dos ps cabea contra a violncia e a astcia (...). Nada daquela coisa execrvel e execrada que se chama governo poderia mostrar o nariz no meio deles; nem uma sombra de autoridade, nem um tomo de coao, nem um sopro de influncia!”67Mas a comunidade, para Blanqui, vir s no final de um longo processo, que comea com um oposto da ausncia de governo, a ditadura revolucionria: “Governo, Ditadura parisiense (...) Um ano de ditadura parisiense em 48 teria poupado Frana e histria o quarto de sculo que termina. Se dessa vez forem necessrios dez anos, que no se hesite”.68Em sua forma geral (no na natureza particular da ditadura etc) esse projeto, como se sabe, foi tambm o de outros radicais. Original a maneira como Blanqui concebe o trabalho da ditadura revolucionria. No se deve atacar imediatamente a propriedade: “Importa preservao (salut) da revoluo, que ela saiba unir a prudncia energia. O ataque ao princpio de propriedade seria to intil quanto perigoso”.69A ditadura revolucionria blanquista uma ditadura aufklrer: “Longe de se impor por decreto, o comunismo deve esperar seu advento das resolues livres do pas, e essas resolues s podem vir da difuso geral das luzes”.70“Entre essas duas coisas instruo e comunismo, o lao to estreito que uma no poderia dar, sem a outra, nem um passo adiante, nem um passo atrs. Elas marcharam constantemente juntas (de conserve) e ao mesmo tempo (de front), e no se distanciaro jamais de uma linha at o final da sua viagem comum.”71“Trata-se de impor o comunismo a priori? De modo algum. Limitamo-nos a prever que ele ser o resultado infalvel da instruo universalizada. Quem poderia condenar o desenvolvimento rpido das luzes?”72“Que a civilizao tenha como coroamento inevitvel a comunidade, seria difcil negar essa evidncia (...) Tudo est em plena marcha na direo desse desfecho. Ele no remete seno instruo pblica, e em consequncia nossa vontade.”73Tem-se assim, ditadura, portanto conservao do Estado, mais instruo.74Se, do lado comunista, aparece a idia de ditadura, entre os que chamei de socialistas, tem-se a idia de democracia. Godwin, adversrio do Estado, , entretanto, um defensor da repblica e da democracia, como a melhor das formas – enquanto houver Estado. “A democracia o sistema de governo, para o qual, cada membro da sociedade considerado como um homem e nada mais. (...) [Ela] o mero reconhecimento do mais simples de todos os princpios morais, todo homem considerado igual. Os talentos e a riqueza, onde quer que existam no deixaro de obter certo grau de influncia, sem requerer instituio positiva que fecunde a sua operao. (...) Com todos esses erros a imputar, Atenas exibiu um espetculo mais ilustre e invejvel do que todas as monarquias e aristocracias que existiram. (....) A democracia restaura ao homem a conscincia do seu valor, ensina-o, ao remover a autoridade e a opresso, a ouvir somente as sugestes da razo, d-lhe confiana para tratar todos os outros homens com franqueza e simplicidade, e o induz a olh-los no mais como inimigos contra os quais nos pomos em guarda, mas como irmos a quem ocorre assistir. Quando olha para opresso e a injustia que prevalecem nos pases em torno, o cidado de um estado democrtico no pode deixar de nutrir uma inexprimvel estima pelas vantagens de que ele goza, e a mais inaltervel determinao de preserv-las”.75Em Leroux tambm se tem uma crtica da democracia e do governo representativo, mas, como em Godwin (por caminhos diferentes), uma crtica que reconhece a sua superioridade: “Ns consideramos a democracia como uma religio que se forma, acreditamos numa lei moral progressiva na humanidade; acreditamos que um grande desenvolvimento da lei moral se prepara. (...) A Democracia deve um dia substituir por uma religio verdadeira, a religio do passado (...)”76“O governo representativo, na nossa f profunda, no apenas um instrumento de transio, como o pretenderam [alguns]. (...) Para ns, o governo representativo , pelo contrrio, o instrumento permanente e necessrio do progresso, e a forma perfectvel mas indestrutvel da sociedade do futuro.”77Mas Leroux sabe que por trs da representao democrtica h luta entre “dois interesses contrrios”78, “os proletrios e os burgueses”79e quer o “progresso da Democracia”.80Nesse sentido, prope “uma representao especial para os proletrios”81, uma espcie de cmara dos lordes s avessas, algo como um “soviet” (!) democrtico, que coexistiria com uma outra cmara onde predominaria a burguesia.82

d) Moral, fundamentao tica

Uma linguagem moralizante a regra entre os socialistas. Mas no est ausente da literatura comunista. A palavra dominante provavelmente “justia”, a qual compete com o vocabulrio ideolgico-poltico, em particular com a noo de igualdade.

Se Godwin sofre alguma influncia de Helvetius, ele parece depender tambm e talvez muito mais – como sustenta o editor da Political Justice... – de um modelo tico racionalista83em que a noo de justia tem um papel fundamental. No captulo II, “Da justia”, do livro II, “Princpios da sociedade”, ele escreve: “(...) o assunto da presente investigao , falando estritamente, uma diviso (departement) da cincia da moral (science of morals). A moralidade (morality) a fora da qual se deve tirar os seus axiomas fundamentais, e eles se tornaro de algum modo mais claros no presente contexto (instance), se assumirmos o termo justia como a denominao geral de todo dever moral”.84Se no um apelo explcito a um fundamento tico, o recurso a uma linguagem permeada por um vocabulrio moralizante, est presente tambm nos textos dos autores comunistas. O termo Gerechtigkeit (justia, equidade) do vocabulrio de Hess: “Mas l onde a liberdade negada, tambm no pode haver (bestehen) igualdade alguma, justia alguma (keine Gleicheit, keine Gerechtigkeit)”.85Se em Buonarotti, o termo dominante parece ser a virtude, na sua acepo jacobina, a “justia” e tambm a “moral” esto presentes em Blanqui: “(...) a moral, flor da rvore do pensamento, no mais do que a expresso mais ou menos poderosa do instinto humanitrio que probe aos homens que eles se matem entre si, e os conclama a se ajudarem mutuamente. (...) Uma trilogia simples e clara, que exprime a dedicao (dvouement), o dever, o direito, se tornar a aplicao da moral ao governo da humanidade. Faz aos outros o que voc gostaria que lhe fizessem... o ideal. No faz a ningum o que voc no gostaria que lhe fizessem... a justia. Far-se- a voc como voc faz aos outros... a lei. A lei no seno uma reivindicao da justia. (...) V-se, a moral a reciprocidade. (...) Tudo o que entrava, tudo o que perverte esses dois elementos essenciais da humanidade [a conscincia e o pensamento, RF] deve ser julgado (est justiciable) pela moral.”86Mas a justia tambm, e muito mais ainda, uma palavra-chave dos socialistas. Veja-se os dois “frres ennemis”, Leroux e Proudhon. “A terra, repito, est prometida justia e igualdade (...)”,87escreve Leroux em 1833. “Amo a justia e s encontro o acaso.”88“Assim, isolado no meio da Humanidade do sculo XIX, o homem mais pobre em cincia, em certeza, em moral, do que jamais o foi nas idades menos avanadas da humanidade.”89Mas, para ele, a igualdade passa antes da justia: “Esta igualdade [a igualdade reconhecida pelos homens RF] vem antes (est avant) da justia, ela que a causa e a constitui.”90No o caso em Proudhon.91“Que com efeito essa Justia, seno a essncia soberana que a Humanidade adorou em todos os tempos sob o nome de Deus; que a filosofia, por sua vez, no cessou de procurar sob nomes diversos (...).”92Mas o que a justia? “(...) razo [] a faculdade [do homem] de sentir sua dignidade na pessoa do seu semelhante, como na da sua prpria pessoa, e de se afirmar ao mesmo tempo como indivduo e como espcie. (...) A Justia o produto dessa faculdade: o respeito, espontaneamente sentido (prouv), e reciprocamente garantido da dignidade humana, em qualquer pessoa e em qualquer circunstncia em que ela se encontre comprometida, e qualquer que seja o risco que nos expe a sua defesa.93Mas a noo de justia , ao mesmo tempo, objeto de um investimento, e a, ela inseparvel da idia de equao e de equilbrio, em particular nas trocas de produtos e de servios: “(...) ponho como ponto fixo, lei da natureza, do esprito e da conscincia, esse fato universal: Justia, igualdade, equao, equilbrio, acordo, harmonia”.94“Vantagem por vantagem, utilidade por utilidade, servio por servio, produto por produto, apreciao equitvel dos valores e servios trocados, sem nenhum privilgio e situao (...) sem nenhum favor legislativo em benefcio de uma das partes. (...) Eis a verdade, eis o direito, eis a justia! o que se chama de ‘mutualidade’ (mutualit).”95“A utilidade vale a utilidade; a funo vale a funo; o servio vale o servio; a jornada de trabalho equilibra (balance) a jornada de trabalho; e todo produto ser pago pelo produto que custara a mesma soma de sacrifcios (peines) e de gastos.”96S que, pelo fato mesmo de que uma contabilidade das horas de trabalho97coexiste com o critrio da utilidade, e que tudo depende do “motivo justo” fundado na “conscincia universal”98, o elemento no quantitativo e moral subsiste como elemento fundante.

A tendncia a fundar o socialismo em valores morais iria florescer anos depois, para alm de Marx. Quebrando os limites temporais em que me movi at aqui, necessrio introduzir – finalizando esse desenvolvimento – os projetos posteriores de fundao tica do socialismo, ou antes, um desses projetos, o mais famoso. Refiro-me a Bernstein.

Em Bernstein – autor pouco lido, o que lamentvel, porque, qualquer que seja o valor dos seus resultados, a polmica com Kautsky e outros interessante, sob mais de um aspecto, e no se pode dizer que Bernstein se saa mal ao discutir com Kautski – tem-se, com todas as letras, no interior de uma atmosfera intelectual e poltica bastante diferente da que vimos, at aqui – Marx j havia morrido e o marxismo se tornava a teoria hegemnica – a ideia da necessidade de introduzir uma dimenso tica explcita no projeto e, no limite, de fund-lo numa tica.99Bernstein critica “a oposio [por parte de Marx e dos marxistas, RF] derivao (Ableitung) do socialismo a partir de princpios ticos”.100 Em (alguma) continuidade com Proudhon101, a referncia essencial ser Kant. “(...) No posso subscrever a frase ‘a classe operria no tem nenhum ideal a realizar’, vejo nela antes apenas um produto de uma autoiluso, se no for um simples jogo de palavras do seu autor. E nesse sentido, h tempos, contra os clichs (cant) que procuram se incrustar no movimento operrio e aos quais a dialtica hegeliana oferece um abrigo confortvel, eu fiz apelo ao esprito do grande filsofo de Knigsberg, o crtico da razo pura (...) a social-democracia necessita de um Kant, que, examinando de forma crtica (kritisch-sichtend) julgue com plena acuidade, a doutrina (Lehrmeinung, dogma) tradicional, mostre como (wo) o aparente materialismo a mais alta (hchste) e por isso a mais enganosa ideologia (...).”102“At certo ponto, a meu ver, o ‘De volta a Kant’ vale tambm para a teoria do socialismo.”103“Na teoria de Marx em nenhum lugar se remonta tica (como fora fundante [grundlegende Kraft]).”104“Por que a degradao do discernimento (Einsicht), da conscincia do [que ] direito (Rechtsbewusstseins) (...)? Considero tudo isso insustentvel e suprfluo.”105

e) Balano, consideraes gerais

Chegamos assim ao final desse priplo em torno do socialismo e o comunismo do sculo XIX. Deixei de tocar em alguns pontos importantes, um principalmente: a histria. Deixo-a para a parte final desse texto.106L tambm ser o lugar em que vou me referir um pouco a uma figura de que quase no me ocupei at aqui: Fourier – algum que interessa, entre outros motivos, precisamente pela sua viso original, nada linear, do processo histrico. Faltaria, tambm, entre outras coisas – mas no o farei neste artigo, ou s o farei muito limitadamente – discutir os dois textos “maiores” de Blanqui, L‘Eternit par les astres, e as Instructions pour une prise d‘ armes. Curiosamente, eles nos reconduzem a Fourier e histria. O primeiro, que interessou muito a Benjamin e a outros crticos, introduz um tempo cclico que no exclui o progresso, tudo numa atmosfera pr-surrealista, que lembra Fourier. Quanto ao segundo, a multiplicao de detalhes faz dele uma espcie de quase-Falanstrio, mas no Falanstrio de sociedade sem explorao realizada, mas do processo que levaria a essa sociedade. A ruptura, em Blanqui, dada pela insurreio, que, entretanto, como vimos, vai instaurar uma continuidade. A ruptura em Hess (nos textos em torno de 1844/45) a referida passagem da pr-histria histria.

Como escrevi na seo II, a referncia dos comunistas no que tange ao sculo XVIII , principalmente, Rousseau. (Hess um caso um pouco parte: ele deve a Fichte, e, pelo menos nos primeiros textos, tambm a Espinosa.) As referncias dos socialistas so muitas e diversas. Se tambm Rousseau, em geral, no o Rousseau do Contrato...;107tambm Helvtius, Paine, Smith, certos aspectos do utilitarismo, o romantismo108, e Kant. Quase no falei de Deus e da religio, que esto presentes por quase todo lado, inclusive entre alguns comunistas. O socialismo/comunismo ateu , essencialmente, alemo (embora a religiosidade no seja estranha extrema esquerda alem: ver pelo menos um dos textos de Weitling).109Mas o que me interessava nesse percurso – ao qual, como anunciara, no integrei Marx e Engels, seno excepcionalmente – era, por um lado, pr em evidncia, principalmente entre os socialistas, certos conceitos ou temas que, de algum modo se perderiam no marxismo, e que me parecem vlidos para uma reconstruo atual do socialismo. Por outro lado, em contraponto, interessava assinalar alguns motivos, digamos, holistas (se no pr-totalitrios) que j se encontram no comunismo do sculo XIX.110Sobre esse segundo aspecto, limito-me a remeter concepo quase instrumental do indivduo – o indivduo se sacrificando em benefcio da espcie – no “ber das Geldwesen“ de Hess. Interessa mais, aqui, o primeiro trabalho, o de pr em evidncia conceitos e temas crticos. Creio que, a esse propsito, conviria assinalar os seguintes temas ou conceitos (sobre os quais ainda volto): 1) A defesa da no-violncia; 2) a crtica do comunismo, solidria da idia de que existe no um “abismo”, mas dois (comunismo e propriedade privada, pensada em termos absolutos); 3) a defesa da democracia e do governo representativo; 4) a defesa da propriedade individual e a nfase na exigncia de trocas “justas” (o que significa a justificao daquilo que Marx chamaria de “circulao simples”, por oposio produo-circulao do capital).

Como j escrevi, em relao ao ramo comunista, o risco era uma deriva de natureza robespierrista-terrorista, e, mais tarde, totalitria. Se no caso do comunismo o perigo era assim a hibris da violncia, no dos socialistas era o da adaptao sociedade capitalista, e aos poderes dominantes. E de fato, quaisquer que sejam os mritos da tradio socialista – assinalei logo acima alguns temas e teses essenciais que se originam dessa tradio –, e mesmo se houve quem resistisse bem, ela foi constantemente ameaada na sua legitimidade, pelas iluses com os poderes e pela tentao de capitular diante deles (mas a definir o que significa “capitular“) quando – menos capituladora do que impotente – ela (ou parte dela) no se mostrou simplesmente incapaz de encontrar opes polticas viveis. Se quisermos dar exemplos histricos (sem dvida, heterogneos), teramos: o que parece ter sido a impotncia dos socialistas e radicais franceses em 1848;111num outro plano, a capitulao – ou quase-capitulao – de Proudhon diante de Napoleno III, como a de Lassalle diante de Bismarck. O revisionismo de Bernstein, se no deixou de levantar importantes problemas tericos ou prticos (denncia da “langue de bois”, anlises da formao das novas classes mdias etc), introduziu uma viso excessivamente aufklrer e otimista do que seria o futuro do capitalismo, alm de se perder no projeto ilusrio de uma poltica colonial “justa”.112Depois vem a triste histria dos partidos social-democrticos, o alemo em especial, diante da guerra de 14, comeando pelo voto favorvel aos crditos de guerra. Mas aqui, para o caso alemo pelo menos, seria importante destacar que a “degenerescncia” parece vir menos da ideologia, do que do peso da burocracia interna do partido. Esta acaba levando at poltica sanguinria de Noske.113– Como j expliquei tambm, se a deriva robespierrista ou totalitria do comunismo obriga a introduzir uma nova dualidade (para alm do par direita/esquerda: precisamente totalitrio/no-totalitrio), a socialista no constitui propriamente uma nova figura, apesar da complexidade histrica do fenmeno e da sua gravidade.

(conclui em Fevereiro, nmero 5)

Compartilhado





























fevereiro #

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1 Incio do texto em Fevereiro, nmero 3.

2 Por engano, foi omitido o 1 na numerao da primeira seo de III (III, 1), que tratava de algumas questes prvias e em seguida expunha o “quadrado poltico”. – Outro engano (tambm em Fevereiro, nmero 3): h um I a mais, no ttulo geral do artigo. Em lugar dele, colocar “primeira unidade”. Os nmeros romanos I, II, III etc, correspondem numerao das diferentes partes do texto.

3 Na realidade, s cheguei a esclarecer suficientemente esse ponto depois de uma discusso com meu velho amigo Michael Lwy – com o qual, deixo claro, tenho divergncias bem importantes, ainda que no interior de um universo comum de esquerda – cujo talento polmico sempre muito estimulante ao trabalho, sempre necessrio, de pensar e repensar as prprias posies.

4 De fato, admitindo esse espao, imagina-se – ou pode-se imaginar – que, supondo a “esquerda” situada, digamos, sobre pontos de um paralelo da esfera que configura esse espao, se nos deslocarmos partindo de um ponto nessa regio, digamos, para o “oeste”, a partir de um certo limite entramos na regio dos totalitarismos, regio habitada tambm pela direita, que a encontra pelo caminho inverso. O esquema tem certa validade, porque um projeto de igualdade absoluta descamba, pelo menos segundo o que a experincia sugere, em formas totalitrias. Mas, alm do fato que assinalei de que, se o projeto de igualdade absoluta tende ao totalitarismo, o totalitarismo em si mesmo, no s no igualitrio, mas no procede, a rigor, de um excesso na implementao da igualdade, h a dificuldade de que, se o projeto de igualdade absoluta tende ao totalitarismo, no verdade que medida que radicalizamos a exigncia de igualdade nos aproximamos necessariamente do totalitarismo. Por outras palavras, s no limite que essa passagem parece ocorrer, no anteriormente a ele, mesmo que se tenha ido longe no sentido de um projeto de igualdade radical. Assim, h anarquismos libertrios, e at marxismos mais ou menos libertrios (Luxemburgo, principalmente), deixando em aberto, por ora, repito, o problema da sua consistncia lgica ou possibilidade histrica.

5 Isso no implica, entretanto, que seja vlido s organizaes socialistas-democrticas fazer, com ele, alianas que impliquem o risco de conduzi-lo ao poder. Mas o problema complicado: como saber com certeza se h ou no h risco? A questo das alianas se pe, precisamente por que ele “cola” no movimento de massas. Simplificando muito, alianas podem se justificar pela situao, um pouco como se justificam as que se fazem com a direita democrtica, quando h ameaa imediata, ou opresso efetiva, do totalitarismo-igualitarista. A analogia no perfeita, entretanto: o risco maior quando se lida com formas totalitrias.

6 Trotski, Oeuvres, sob a direo de Pierre Brou, Frana (sem meno da cidade), “Publications de l'Institut Lon Trotsky”, 1984, vol. 18, junho 1938 a setembro 1938, respectivamente, p. 324 e p. 326.

7 As duas coisas no so estritamente correlativas: um pas perifrico pode ser dominado pelo centro nas suas relaes para com este, mas funcionar por sua vez como um centro dominador nas suas relaes regionais.

8 Comecei a escrever esse texto antes ou no incio das “revolues rabes”, em todo caso, antes do movimento contra Kadhafi. O que veio depois – incluindo a gesticulao de uma extrema-esquerda que oscilava entre a neutralidade e um quase-apoio ao “anti-imperialista” Kadhafi – confirma, creio, o que escrevi.

9 Esta parte IV retoma, nesta segunda unidade, o ttulo e o tema da parte II (na primeira unidade, ver Fevereiro, nmero 3) mas considerando outras figuras. Da a indicao (β). O ttulo da parte II era “Igualdade, liberdade, violncia (α) [alfa]”. Ao indicar esse ttulo no nmero 3, faltou o (α) [alfa]. Acrescentar.

10 Prefiro utilizar as expresses “partidrio da violncia” e “adversrio da violncia” (ou mesmo “violento” e “no-violento”), para designar a oposio em matria de meios, em lugar das expresses “revolucionrio” e “no-revolucionrio”. H ambiguidade em tal uso da noo de “revolucionrio”. E quando passamos s distines relativas aos fins – no nosso caso, a mais importante a que separa “comunistas” e “socialistas” – a ambiguidade ainda se agrava. (Principalmente evite-se reservar o qualificativo de “revolucionrios” aos comunistas, e o de “no-revolucionrios” aos socialistas). Porm, a ambiguidade est ligada ao contexto, isto , s distines de que se fez uso. Falarei de “revoluo“ e de “revolucionrio“ mais adiante, em contexto diferentes, no interior dos quais o emprego dessas noes parece se justificar.

11 Para facilitar a leitura, indico desde j os principais autores e atores a que recorri. No que se refere aos partidrios da violncia (aproximadamente, os comunistas): o revolucionrio babuvista Buonarotti; o filsofo comunista Moses Hess; Blanqui; e, em menor medida, o arteso comunista alemo, Wilhelm Weitling. Quanto aos adversrios da violncia (aproximadamente “socialistas”), principalmente Proudhon e Leroux, mas tambm William Godwin (embora este seja mais um anarquista aufklrer inimigo da violncia) e Robert Owen (antes um comunista “no horizonte”, embora tambm adversrio irredutvel da violncia). Soma-se a isso, umas poucas referncias a Saint-Simon e ao Saint-Simonismo. Omito outras aluses menores. Como indico mais adiante, por razes que ficaro mais claras quando a parte final desse artigo for publicada, por ora deixo de lado Fourier (ao qual me referi brevemente na parte II [ver o nmero anterior de Fevereiro]), para me ocupar dele, em alguma medida, nas partes finais desse texto, a publicar. – Na linha do que disse, esta apresentao balizada pela oposio entre partidrios e adversrios da violncia (que chamo, s vezes, respectivamente, de comunistas e socialistas), oposio, em parte presente “objetivamente“ nos seus textos, em parte refletindo polmicas que os personagens efetivamente tiveram. s que se fazem em torno do eixo principal, somam-se algumas polmicas internas, essencialmente no interior do ramo “socialista”.

12 Pierre Leroux, “Egalit” (1838), artigo da Encyclopdie Nouvelle (1834-1840), in Anthologie de Pierre Leroux, inventeur du socialisme, editada por Bruno Viard, Paris, ditions Le Bord de L'Eau, 2007, p. 217. O editor se refere ao texto, na p. 13. L est, tambm a aluso passagem que cito em seguida, da Doctrine de Saint-Simon, Exposition. Ele indica, ainda, que tambm Linguet, nos seus Annales poliiques, civiles et littraires fala da “triste ironia”.

13 Doctrine de Saint-Simon. Exposition (por B.-P. Enfantin e outros) (1830), documento eletrnico, Bibliotque Nationale de France, NUMM 85469, p. 106.

14 Auguste Blanqui, carta a Maillard (1852), in Maintenant, il faut des armes, textos escolhidos e apresentados por Dominique Le Nuz, Paris, La Fabrique ditions, 2006, p. 179; Philipe Buonarotti, Conspiration pour l’galit dite de Babeuf, Paris, Baudouin Frres, 1830, tomo I, p. 224. Pierre Leroux “Le Carosse de M. Aguado”, (Revue Sociale, 1847), in Anthologie de Pierre Leroux..., op. cit. p. 323 etc etc. Naturalmente, h um leque de posies na determinao do que seja precisamente a liberdade ou a igualdade “no-reais” ou “no-verdadeiras”, desde a idia de que se tratava de “falsidade”, at a concepo segundo a qual l havia uma liberdade (ou uma igualdade) “insuficiente”. A posio de Marx no seu famoso artigo “A Questo Judaica” para os Anais Franco-Alemes exemplifica bem a primeira posio.

15 Auguste Blanqui, “Allocution la Socit des Amis du Peuple” (1832), citado por Dominique Le Nuz, in Maintenant, il faut des armes, op. cit., introduo, p. 32.

16 William Godwin, Enquiry concerning political justice and its influence on morals and happiness, (1795) editado por F.E.L. Priestley, Toronto, University of Toronto Press, 1946, vol. I, p. 271-274.

17 Robert Owen, Selected works of Robert Owen, editado por Gregory Claeys, William Pickering, Londres, 1993, vol. I, 196-197 (texto de 1817). Mais tarde, l-se no mesmo Owen: “(...) evitar (...) que a revoluo do erro verdade, ou da misria felicidade, seja feita pelo povo, em vez de ser pelas medidas judiciosamente previstas e concebidas pelos governos”. (Robert Owen, Selected works of Robert Owen, op. cit., vol. III, Book of the New Moral Word, stima parte, 1844), p. 380.

18 P.-J. Proudhon, Thorie de la Proprit, (1886, pstumo), Paris, l’Harmattan, 1997, p. 218, 219,

19 P.-J. Proudhon, Correspondance de P.-J. Proudhon, editada por J.-A. Langlois, 1875, Genebra, Slatkine Reprints, 1971, vol. II, p. 199. Carta de Proudhon a Marx, de 17 de maio de 1846.

20 Philipe Buonarotti, Conspiration pour l‘Egalit dite de Babeuf, op. cit., primeiro tomo, p. 296. No esqueamos de que, se Buonarotti partidrio da violncia e Owen adversrio dela, este, como j disse, a rigor um comunista, mesmo se o seu comunismo, alm de vir por vias pacficas, s se efetivar como objetivo ltimo. Contrapondo comunistas e socialistas nas primeiras tentativas de crtica da economia poltica, Marx situa Owen entre os primeiros, e Saint-Simon e Fourier entre os ltimos (ver Marx-Engels, Theorien ber den Mehrwert, in Werke, Berlim, Dietz, vol. 26.3, 1968, p. 234).

21 Auguste Blanqui, “O Comunismo, futuro da sociedade” (1869-1870), captulo de “La Critique Social“ (pstumo, 1885) in Maintenant, il faut des armes, op. cit., p. 224.

22 Pierre Leroux, “Rponse Proudhon” (“Qu‘est-ce que le gouvernement, qu’est-ce que Dieu”) [no fica claro se ttulo e subttulo esto tambm no original], artigo publicado no jornal La Rpublique, de 10 de novembro de 1849. Documento informtico. Procurar no Google, “Pierre Leroux, tous les messages sur Pierre Leroux, Claire Obscurit”. Claire Obscurit de 15 de novembro de 2010.

23 “Aux Politiques”, publicado na Revue Indpendante, artigo publicado de dezembro de 1841 a julho de 1842, in Anthologie de Pierre Leroux..., op. cit., p. 265 (e, parcialmente, p. 30) (grifos do autor; salvo indicao em contrrio, os grifos so dos autores).

24 Philiphe Buonarotti, La Conspiration pour l‘galit..., op. cit., tomo I, p. 6-7. “(...) para muita gente a liberdade no outra coisa seno a faculdade ilimitada de adquirir” (Idem, p. 7).

25 Ver Moses Hess, “ber das Geldwesen” (escrito em 1843/44, publicado em 1845) in Philosophische und Sozialistische Schriften 1837-1850, antologia, edio e introduo de Auguste Cornu e Wolfgang Mnke: “O dinheiro o sangue social, mas o sangue extraneado (entusserte), o sangue vertido” (p. 345). E o arteso comunista alemo Wilhelm Weitling: “ Com a introduo do dinheiro, a misria alcanou esse pice incalculvel...” (Weitling, Garantien der Harmonie und Freiheit (1842), com uma introduo e anotaes de Bernhard Kaufhold, Berlim, Akademie-Verlag, 1955, p. 51).

26 Para simplificar, passei a escrever “socialistas” e “comunistas” sem as aspas. O leitor levar em conta, minhas observaes anteriores. Na realidade, o problema s se coloca no caso de Owen e de Godwin. No para os outros – das duas vertentes – a saber: Proudhon (mesmo se h a questo do “anarquismo” proudhoniano), Leroux, Buonarotti, Hess, Blanqui etc.

27 Pierre-Joseph Proudhon, Systme des Contradictions conomiques ou Philosophie de la Misre (1846), in Oeuvres Compltes, nova edio, sob a direo de C. Bougl e H. Moysset, Genebra-Paris, Slatkine, volume I, 1, p. 66.

28 P. J. Proudhon, Systme des Contradiction conomiques..., in Oeuvres Compltes, op. cit., vol. I, 1, p. 68.

29 Pierre Leroux, “[Aux Politiques] De la Philosophie et du christianisme“ (1832), (“Trois Discours sur la situation actuelle de la socit et de l’esprit humain”) in Aux Philosophes, aux artistes, aux politiques. Trois discours et autres textes>, editado e prefaciado por Jean-Pierre Lacassagne, posfcio de Miguel Abensour, Paris, Payot, 1994, p. 182-183.

30 Correspondance de Proudhon, op. cit., vol. III, tomo V, p. 106, citado por Pierre Haubtmann em La Philosophie Sociale de P._J. Proudhon, Presses Universitaires de Grenoble, 1980, p. 260. No tentarei definir aqui, de forma mais precisa essa espcie de crtica moral e sociolgica (ver o conceito de “fora coletiva”) da economia que nos oferece Proudhon.

31 A maioria desses autores ficou conhecida pelo captulo a respeito nas Theorien ber den Mehrwert de Marx (Marx-Engels, Werke, Berlim, Dietz, vol. 26.3, 1968, cap. 21, p. 234 e s.). Ver, a propsito, meu texto “Sobre o jovem Marx” in Discurso, n 13, 1980. H duas idias essenciais nesses autores. Uma a posio nominalista diante das categorias econmicas: o capital no teria realidade, seno fantasmagrica. A outra, que nos interessa aqui especialmente, a de que s h equivalncia naquilo que Marx chamaria de circulao simples, no havendo equivalncia – o que, diga-se de passagem (apesar do que se escreve frequentemente), Marx a rigor no dir – na troca entre (fora de) trabalho e capital.

32 Ver o livro VIII, “Of Property” da Political Justice... (op. cit, vol. 2) e a introduo de F.E.L. Priestley (Political Justice..., vol. 3, particularmente IV, “Economic Thought”, p. 62 e s.)

33 Robert Owen, Book of the new moral world, sexta parte (1844) In Selected Writings, op. cit., vol. 3, p. 328. A passagem citao de um texto anterior, de Owen. Que esse “intil” (useless) no propriamente restritivo, fica claro atravs da leitura de outros textos, ver Selected Writings, op. cit., vol. 2, p. 373-4, Development of Socialism, (parte publicada em 1841); vol. 3, p. 327-8 (Book of the New Moral World, sexta parte, 1844); e as observaes do editor, v. 1, p. l.

34 Proudhon, Systme des Contradictions conomiques..., op. cit., vol. I, 2, p. 297. O “ponto de vista” a considerao da “tendncia [da propriedade] distribuio comutativa do bem, e no-solidariedade (insolidarit) do mal”. Volto logo mais ao confronto entre propriedade e comunidade em Proudhon. Sobre a propriedade no Systme des Contraditions conomiques..., ver o captulo XI, “Huitime poque – La Proprit”, Idem, p. 158 e s.

35 P.-J. Proudhon, Thorie de la Proprit, op. cit., p. 37. O texto , na realidade, uma citao das Confessions d'un Rvolutionaire (1849), Oeuvres Compltes, vol. VII, p. 179.

36 Ibidem.

37 Proudhon, Thorie de la Proprit, op. cit., p. 136-137.

38Idem, p. 173.

39 Lorenz von Stein, Der Socialismus und Communismus des heutigen Frankreichs. Ein Betrag zur Zeitgechichte, Leipzig, Wigand, 1842.

40 Ver Moses Hess, Philosophische und Sozialistische Schriften, 1837-1850, op. cit., p. 204, (“Socialismus und Comunismus” (1843)). Entretanto, Hess no confunde, a, socialistas e comunistas, apenas v, ento, a literatura socialista, como um momento que conduzir doutrina comunista.

41 Ver p. 48, Edmund Silberner, Moses Hess, an annotated bibliography, N. York, Burt Franklin, 1951, p. 48.

42 Moses Hess, Philosophische und Sozialistiche Schriften..., op. cit., p. 400.

43 Moses Hess, Philosophische und Sozialistische Schriften..., op. cit., p. 397.

44 Essa preciso importa, porque, quando Marx publica seus artigos nos Anais franco-alemes, ele conhecia o artigo de Hess.

45 “ber das Geldwesen”, art. cit. in, Philosophische und Sozialistische Schriften..., op. cit., p. 333-334.

46 Proudhon, Systme des Contradictions conomiques..., Oeuvres compltes, op, cit, I, 2, p. 264.

47 Blanqui critica e ridiculariza essa exigncia de explicitao de todos os meandros da sociedade comunista. Ver Blanqui, “Le comunisme, avenir de la socit”, in Maintenant, il nous faut des armes, op. cit., p. 209 e s.

48 Proudhon, Systme des Contradictions conomiques..., in Oeuvres Compltes, op. cit., vol. I, 2, p. 258.

49 A propriedade, entendida de forma acrtica.

50 Idem, p. 266.

51 Proudhon, Qu'est-ce que la proprit? ou Recherches sur le principe du droit et du gouvernement (premire mmoire, 1840), Oeuvres Compltes, op. cit., vol. IV (introduo e notas de Michel Aug-Larib), p. 342.

52 Pierre Leroux, “De l'individualisme et du socialisme” (1833), in Aux Philosophes, aux Artistes, aux Politiques, trois discours et autres textes, op. cit., p. 246.

53 Idem, p. 248-249.

54 Pierre Leroux, discurso parlamentar de 30 de agosto de 1848, in Anthologie de Pierre Leroux, op. cit., p. 347.

55 Godwin, Political Justice..., op. cit., vol. 2, p. 212. Como veremos, esse juzo no impede que Godwin venha a escolher a forma menos ruim.

56 Idem, p. 212.

57 Entre os dois est Saint-Simon. Saint-Simon era partidrio de uma “associao, em que a dominao e a autoridade seriam reduzidas a um mnimo” (Juliette Grange in Comte de Saint-Simon, crits politiques et conomiques, anthologie crtique, Paris, Pocket, 2005, p. 229). De fato, o ideal de Saint-Simon, que tambm um “no-violento”, o de uma autoridade reduzida a um mnimo – um Estado que simplesmente garante a ordem, mas no se trata do Estado-gendarme dos liberais –, a verdadeira “direo” vindo dos sbios e no sendo de natureza estatal: “(...) poca feliz para a espcie humana, na qual as funes governamentais sero reduzidas a no ser mais do que da natureza dos ‘vigilantes’ dos colgios, que so encarregados da tarefa (soin) de manter a ordem; aos professores que se confia a direo do trabalhos dos alunos. Deve ser o mesmo no Estado: os sbios, os artistas e os artesos devem dirigir os trabalhos da nao; os governantes s devem se ocupar da tarefa de impedir que os trabalhos sejam perturbados” (Claude-Henri de Santi-Simon, L‘Organisateur, deuxime lettre (1819) in Oeuvres de Claude-Henri de Saint-Simon (1869), Genebra, Slatkine Reprints, 1977, p. 42-43).

58 Ver Pierre Ansart, Proudhon, textes et dbats, Paris, Librairie Gnrale Franaise, 1984, p. 124. E, do mesmo autor, Socialisme et Anarchisme, Saint-Simon, Proudhon, Marx, Paris, PUF, 1969, segunda parte, cap. 4, p. 233 e s.

59 Confessions d'un rvolutionnaire pour servir l'histoire de la rvolution de fvrier, in Proudhon, Oeuvres Compltes, op. cit., vol. VII (introd. e notas de Daniel Halvy).

60 Proudhon, Oeuvres Compltes, op. cit., vol. II (introd. e notas de Aim Berthoud).

61 Confessions d'un rvolutionnaire..., in Oeuvres Compltes, op. cit., vol. II, p. 233.

62 Ide gnrale de la Rvolution au XIXe sicle, in Oeuvres Compltes, op. cit., vol. II, p. 343.

63 Oeuvres Compltes, op. cit., vol. II, p. 376. Proudhon critica Louis Blanc. O texto de um artigo publicado na Voix du Peuple, em 3 de dezembro de 1849, parte de uma srie, em que Proudhon polemiza contra Louis Blanc e Pierre Leroux.

64 Pierre Leroux, “Rponse Proudhon”...,, art. cit. Junto com o Estado (ou o governo), Leroux defende tambm Deus e a religio.

65 Blanqui, “Le communisme, avenir de la socit” in Maintenant, il nous faut des armes, op. cit., p. 199.

66 Idem, p. 206.

67 Idem, p. 209.

68 Blanqui, “Dispositions immdiates“ (em “La Critique Sociale“) in Maintenant, il faut des armes, op. cit., p. 220-221.

69 Idem p. 221.

70 Ib. Grifo de RF.<

71 “Le communisme, avenir de la socit“ (1869-1870), in Maintenant, il nous faut des armes, op. cit., p. 199.

72 Idem, p. 207.

73 Idem, p. 214. Jaurs aprecia muito esse elogio surpreendente do “ritmo lento” no pensamento de um radical. Ver suas referncias elogiosas a Blanqui, que ele cita amplamente, em Jean Jaurs, Prface aux Discours parlementaires (1904), apresentados por Madeleine Ribrioux, Paris-Genebra, Ressources, 1980, p. 78 e s.

74 Este no , evidentemente, o programa de Bakunin, que vai representar uma ltima posio no conjunto de possibilidades (processo pacfico/ processo violento, Estado/ no-Estado, longo prazo/ curto prazo). Bakunin prope o fim do Estado num prazo no extremo, mas no maneira de um “anarquista” no-violento como Proudhon; como para Blanqui, o ponto de partida a insurreio. “A Grande Revoluo, que ilustrou o final do sculo XVIII, ps de novo a Frana, na frente. Ela criou um novo ideal, comum humanidade inteira, ideal de liberdade completa do indivduo, mas de ordem; esse ideal trazia consigo uma contradio insolvel, e por isso, irrealizvel estritamente poltica, pois a liberdade poltica sem igualdade econmica, isto a liberdade no Estado um logro“ (Michel Bakounine, tatisme et Anarchie (1873), traduzido do russo por Marcel Body, introd. e notas de Arthur Lehning, in Oeuvres Compltes de Bakounine, publicado para o Instituto de Histria Social de Amsterdam por Arthur Lehning, vol. IV, Paris, ditions Champ Libre, 1976 (1967), E.J. Brill, Leiden, Holanda, p.239, o segundo grifo de RF). “Quem diz Estado diz necessariamente dominao e, em consequncia, escravido; um Estado sem escravido, confessada ou ocultada inconcebvel, eis porque somos inimigos do Estado” (Idem, p. 346). Assim, a idia de ditadura revolucionria seria contraditria (o que Proudhon diz da violncia). A contraposio desses textos, mostra o lugar complexo que tem o “anarquismo” na poltica do sculo XIX, e se pode dizer, em geral. Ele, de certa forma, vem romper o nosso quadro, porque h anarquistas e anarquistas, compare-se Godwin com Bakunin, passando por Proudhon. A diferena entre Bakunin e Kroptkine ser igualmente notvel.

75 Godwin, Political Justice..., op. cit., vol. II, p. 114-120.

76 Pierre Leroux, “Aux Politiques. Des principes, ou du lgislateur”, in Pierre Leroux, Oeuvres (1825-1850), (primeiro tomo, Paris, 1850,) reimpresso, Genebra, Slaktine Reprints, 1978, p. 170-172. (A verso de “Aux Politiques... “nas Oeuvres no coincide inteiramente com a do volume editado por Lacassagne e Abensour).

77 Idem p. 171, grifo de RF.

78 “[Aux Politiques] De la Philosophie et du Christianisme”, in Aux philosophes, aux artistes, aux politiques..., op. cit., p. 177.

79 “De la ncessit d'une rpresentation pour les proltaires” (1832), in Aux philosophes, aux artistes, aux politiques..., op. cit., p. 226.

80 Idem, p. 215.

81 Idem, p. 213.

82 Idem, p. 213-214 nota a. Para os problemas mais gerais concernentes democracia e representao em Leroux, ver Armelle Le Bras-Chopard, De l‘galit dans la diffrence, le socialisme de Pierre Leroux, Paris, Presses de la Fondation National des Sciences Politiques, 1986, principalmente I, 5, p. 206 e s.

83 Ver a introduo do editor, F.E.L. Priestley, no terceiro volume da Political Justice, op. cit., vol. 3, principalmente p. 14-27. O autor insiste na necessidade de “decriptar” a linguagem, quase utilitarista de muitos textos de Godwin.

84 Godwin, Political Justice, op. cit., vol. 1, p. 125.

85 Hess, “Socialismus und Communismus” in Philosophische und Sozialistische Schriften..., op. cit., p. 207. Cf. idem, p. 229. verdade que esses textos foram escritos relativamente cedo (1843); mais tarde, pelo menos, se tomarmos os artigos mais conhecidos, no se encontra a mesma linguagem. Entretanto, Hess j se declara comunista nesse momento (ver, no mesmo volume, a introduo de Auguste Cornu e Wolfgang Mnke, p. XXXII, e a n. 73, p. 467).

86 Blanqui, editorial de Candide (3 de maio de 1865), in Maintenant, il nous faut des armes, op. cit., p. 248-9. verdade que ele escreve o seguinte, visando a histria aqum da comunidade: “Pois a inteligncia, que faz do homem um deus mortal s tem poder real se ele for moral, isto til s massas (...)” E tambm: “Nossa bandeira, a igualdade” (Librateur, n 1, 2/2/1834), in Maintenant, il nous faut des armes, op. cit., p. 107.

87 Leroux, “De l'individualisme et du socialisme”, art. cit., Aux philosophes, aux artistes, aux politiques, trois discours et autres textes, op. cit., p. 242.

88 Leroux, “Aux philosophes“, art. cit., in Aux Philosophes, aux artistes..., op. cit. p. 212.

89 Idem, p. 86.

90 Leroux, “De l‘Ingalit”, citado por Miguel Abensour, psfcio a Aux Philosophes, aux artistes,op. cit., p. 304, (No texto de Abensour, a passagem citada datada de 1845).

91 Em alguns textos a igualdade quase identificada justia, mas a justia enquanto tal, o que a justia na “ordem mais elevada” vem antes. Proudhon escreve tambm que a justia “no se subordina a nada, no reconhece nenhuma autoridade fora dela, nem mesmo a liberdade” (Proudhon, De la Justice dans la Rvolution et dans l‘Eglise in Oeuvres Compltes, op cit., vol. VIII, 1, introd. de G. Guy-Grand, estudo de Gabriel Sailles, notas de C. Bougl e J.-L. Puech, p. 224, grifo de RF).

92 Idem p. 223. Proudhon remete a Kant em mais de uma passagem, e se declara seu discpulo. Ver Thorie de la Proprit, op. cit., p. 202. Na realidade, ele comea com um flirt com o hegelianismo (um hegelianismo, em parte ilusrio) e depois passa a Kant. No vou tentar analisar aqui, mais de perto, o significado dessa passagem.

93 Proudhon, De la Justice dans la Rvolution et dans l‘Eglise in Oeuvres Compltes, op cit., vol. VIII, p. 423.

94 Proudhon, Thorie de la Proprit, op. cit., p. 217, grifo de RF.

95 Proudhon, De la capacit politique des classes ouvrires in Oeuvres Compltes, op. cit., vol. 3 (introd. e notas de Maxime Leroy), p. 402. A noo de mutualidade em Proudhon aponta tanto para a reciprocidade e equao nas trocas, como para a idia de cooperao e os projetos que ela inspira. Mas o primeiro aspecto parece ser logicamente anterior ao ltimo: “(...) a mutualidade, segundo a sua etimologia, [consiste] antes na troca de bons ofciais e de produtos do que no agrupamento das foras e na comunidade de trabalhos” (Idem, p. 142).

96 Idem, p. 146.

97 Ver Idem, p. 149-150.

98 Idem, p. 154.

99 Em Lassalle, muito influenciado por Fichte, j se tem alguma coisa que vai no sentido de uma fundao do socialismo, porm tratar-se-ia antes de uma fundao jurdica, no de uma fundao tica. Ver a respeito, o livro de Bernstein sobre Lassalle, que s obtive, em linha, numa traduo francesa,: Eduard Bernstein, Ferdinand Lassalle, rformateur social, trad. de Victor Dave, Paris, Marcel Rivire, 1913, documento eletrnico, Bibliothque Nationale de France, catlogo, ref. NUMM 66006.

100 Bernstein, “Das realistische und das ideologische Moment im Socialismus” (1898), in Zur Geschichte und Theorie des Socialismus, Berlim/Berna, Akademischer Verlag fr sociale Wissenschaften Dr John Edelheim, 1901, p. 277.

101 Bernstein tem Proudhon em boa conta. Ver, por exemplo, “Dialektik und Entwickelung” (resposta a um artigo de Kautski), (Die Neue Zeit, 1898-1899), in Zur Geschichte und Theorie des Socialismus, op. cit., p. 359. Bernstein escrevera anteriormente sobre Proudhon na Neue Zeit.

102 Eduard Bernstein, Die Voraussetzung des Sozialismus und die Aufgaben der Sozialdemokatie (1899), introd. e posfcio de manfred Tetzel, Berlim, Dietz Verlag, 1991, p. 211. “Kant e no cant”, era a palavra de ordem de Bernstein. Voltarei, mais adiante, ao problema do anti-hegelianismo de Bernstein.

103 Bernstein, “Das realistische und das ideologische Moment im Socialismus” (1898), in Zur Geschichte und Theorie des Socialismus, op.cit., p. 263 (nota introdutria primeira publicao do artigo).

104 Idem, p. 277.

105 Bernstein, “Drei Antworten auf ein Inquisitorium” in Zur Geschichte und Theorie des Socialismus, op. cit. p. 294-295.

106 A ser publicada em Fevereiro, nmero 5.

107 Para a crtica de Leroux ao Contrato..., ver “Discours sur la Docrine de l'Humanit” (Revue Sociale, 1847) in Anthologie de Pierre Leroux. op. cit., p. 318. Para a crtica de Proudhon ao Contrato..., ver Proudhon, Ide Gnrale de la Rvolution aux XIXe sicle, in Oeuvres Compltes, op. cit., p. 189-195, cf. Pierre Ansart, Socialisme et Anarchisme..., op. cit., p. 244. Para a crtica da idia de contrato social em Godwin, ver os captulos II e III do Livro III, do Political Justice... (op. cit., vol. 1, p. 183 e s.); para a opinio de Godwin sobre Rousseau, e particularmente sobre o Contrat Social, ver id, libro V, cap. XV, (vol. 2, p. 128-130).

108 Leroux, crtico literrio, era grande amigo de George Sand, e admirador de Byron.

109 Num recente colquio de Cerizy, Les Socialismes, doctrines fondatrices et lectures contemporaines, (junho/ julho de 2011, dirigido por Juliette Grange e Pierre Musso), um jovem pesquisador, Jean Numa Ducange, comentando a recepo dificil na Frana do projeto dos Anais Franco-Alemes de Marx e Arnold Ruge, observava o quanto o ateismo dos comunistas alemes foi um fator que contribuiu para o fracasso do projeto, na sua dimenso internacional.

110 Isso no quer dizer que os socialistas no tenham as suas taras e graves: basta falar na misoginia fantica de Proudhon. Mas eles no vo, em geral, na direo de um pr-totalitarismo.

111 Sobre 48, ver Franois Furet, La Rvolution, de Turgot Jules Ferry 1770-1880, Paris, Hachette, 1988, cap. 8, “La deuxime Rpublique”, p. 381 e s.

112 Bernstein votou os crditos de guerra, mas logo se arrependeu, e sempre considerou sua posio em agosto de 14 como um grave erro. Ele viria a fazer parte do Partido Social-Democrata Independente, onde estariam tambm Kautski e at Luxemburgo.

113 Ver, a respeito da burocratizao, o livro clssico de Robert Michels Zur Soziologie des Parteiwesens in der modernen Demokratie, Untersuchungen ber die oligarschischen Tendenzen des Gruppenlebens (1911), Stuttgart, Alfred Krner Verlag, 1989. No incio de um captulo que escreveu especialmente para a primeira edio em ingls (1915) incorporando os dados da crise de agosto de 1914, Michels resume com muita fora e clareza as suas teses (ver R. Michels, Political Parties, A sociological Study of the Hierarchical Tendencies of Modern Democracy, trad de Eden e Cedar Palo, introd. de S.M. Lipset, N.York-Londres, The Free Press, VI, 3, “Party-Life in War-Time, p. 357 e s.). Robert Michels descambaria politicamente, mais tarde, aderindo ao fascismo mussoliniano.