revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

Ruy FAUSTO

a ofensiva terica do anti-humanismo

 

em torno das teses de Alain Badiou e Slavoj Zizek

 

Aproximadamente, a partir da ltima dcada do sculo passado, assiste-se emergncia de um discurso terico, cujas proposies giram em torno da crtica dos direitos do homem. Trata-se de uma filosofia e de uma poltica, cujo centro a recusa da democracia parlamentar e, num plano mais especificamente filosfico, a defesa do que se se costuma chamar de anti-humanismo. Crtica da democracia, crtica dos direitos do homem, anti-humanismo, o trptico dessa tendncia que pretende renovar, a seu modo, a tradio filosfica e poltica da esquerda. Seria possivel construir uma genealogia desse pensamento. Em termos das grandes filosofias, as referncias principais so Heidegger e Nietzsche. Mas, frquentemente, ele remete tambm filosofia poltica de Carl Schmitt; a um texto soreliano de Walter Benjamim (Para a Crtica da Violncia); um pouco paradoxalmente, a Hannah Arendt (mas s l onde ela parece fazer uma crtica dos direitos do homem), e a Marx (em particular a A Questo Judaica). A acrescentar, not least, o anti-humanismo althusseriano, o primeiro Foucault (o tema da morte do homem), mais Lacan. Nem toda essa genealogia, entretanto, corresponde precisamente aos autores de que eu vou me ocupar (ela envolve uma galaxia mais ampla).


Ocupo-me aqui s de dois autores dessa galaxia, Alain Badiou e Slavoj Zizek. Por que Badiou e Zizek? Meu interesse por esses dois autores no vem do reconhecimento de uma suposta importncia dos seus trabalhos, mas quase do contrrio. Ambos vo ocupando uma posio de destaque no s nos meios de uma certa extrema-esquerda, mas tambm no interior do establishment universtrio da Europa e dos Estados Unidos, sem falar do espao crescente que ocupam na mdia. A acrescentar a circunstncia de que, progressivamente, vo sendo promovidos, no Brasil, como grandes representantes do pensamento terico-poltico atual da esquerda. Ora, o que perturbador nessa nova onda, que, sob vrios aspectos, com roupa mudada, um retorno ao anti-humanismo dos anos 60 e 70, por um lado o teor das teses polticas que ela carreia (as quais abrem a porta violncia e ao terror, quando no os promovem pura e simplesmente), e por outro, suas insuficincias propriamente tericas (insuficincias que, de resto, so relativamente distintas, conforme se considere um ou outrodos dois autores). A acrescentar que, no s para a Frana e a Europa, mas tambm para o Brasil, esse discurso regressivo: vrios trabalhos universitrios, aos quais no se poderia negar pelo menos a seriedade, empenharam-se, aqui, dos anos 70 a 90, em desmontar o anti-humanismo althusseriano (essa atividade critica observo desde j se fez no em nome do humanismo, mas, de um modo que s aparentemente paradoxal, no interior de um movimento terico que recusava tanto o anti-humanismo como o humanismo).

Badiou e Zizek reivindicam, assim, o anti-humanismo, ou uma forma de anti-humanismo. Zizek, principalmente, volta a cada momento ao inumano como a uma pedra de toque. Que significa isto? Vou considerar as respostas de apenas um livro de cada um dos dois autores. A tica de Badiou (thique, essai sur la conscience du mal, Paris, Nous, 2003 [1993] (E), e o livro de Zizek, Em Defesa de causas perdidas (In Defense of lost Causes, Londres, N. York, Verso, 2008). O que apresentarei aqui apenas o primeiro de uma srie de trabalhos em elaborao[i].

A tese central formulada com clareza por Badiou. No faremos aqui nenhuma concesso opinio segundo a qual haveria uma espcie de direito natural (...). Posto em relao com a sua simples natureza, o animal humano deve ser situado sob a mesma etiqueta (enseigne) que os seus companheiros biolgicos. Esse massacrador sistemtico busca, nos formigueiros gigantes que ele edificou, interesses de sobrevivncia e de satisfao nem mais nem menos estimaveis do que os das toupeiras ou das cicindelas [besouros de mau cheiro que se alimentam de insetos, RF]. Ele se revelou o mais astuto (retors) dos animais, o mais paciente, o mais obstinadamente submetido aos desejos cruis da sua prpria potncia. (...) (...) Assim pensado (e o que sabemos dele), claro que o animal humano no remete em si a nenhum juzo de valor (E, pp. 87 e 88, grifos de RF). Quanto a Zizek sou obrigado a resumir muito um romance serve de ilustrao para a sua antropologia. O romance The Shining, de Stephen King, que conta a histria de um escritor mal sucedido que se transforma gradativamente em assassino, e mata toda a famlia. Para Zizek, o anti-humanismo a nica filosofia capaz de dar conta desses fenmenos traumticos, e escapar do que ele chama de gesto de denegao fetichista, em que incorreriam as ticas no anti-humanistas. (In Defense..., p. 15-16).

Que pensar desses argumentos? A meu ver, uma resposta humanista ao anti-humanismo que por exemplo negasse a presena desses elementos destrutivos no homem, ou pregasse o amor universal, ou recusasse de uma forma absoluta todo tipo de violncia (inclusive a contra-violncia) em qualquer situao no se sustenta. No por acaso, a argumentao de Zizek (que no posso desenvolver aqui) em parte construida em torno da refutao do humanismo, como se, da refutao deste, pudssemos, sem mais, concluir a legitimidade do anti-humanismo. Minha perspectiva j sugeri a da crtica tanto do anti-humanismo como do humanismo, embora deva reconhecer que, tudo somado, este ltimo tem consequncias bem menos funestas do que o primeiro. A meu ver, a dificuldade da tese de Badiou e Zizek no est em ter constatado a presena de um inhumano no homem. Isto incontestvel. O problema definir a modalidade desta presena. Ningum duvida de que o homem, individual ou coletivamente, capaz dos piores horrores, nem de que, no interior de cada um de ns haja (ou possa haver) algum impulso desta ordem. Mas esses impulsos constituem o ncleo do ser humano, como pretende Zizek? O que me autorizaria a fazer essa afirmao? Eu diria duas coisas a esse respeito. Em primeiro lugar, a possibilidade de se transformar em serial killer que, admitamos, existe em qualquer ser humano , no exclui, parece, outras possibilidades: a de condutas pacficas, mesmo generosas, de piedade, o que for. Em segundo lugar, trata-se precisamente de possibilidades. Todo indivduo pode se transformar no personagem do livro em questo, mas muitos, a enorme maioria, no se transformam, e h boas razes para supor que essa possibilidade em muitos casos, na maioria sem dvida, muito pequena. Ora, entre o possivel e o efetivo, a diferena enorme. Uma caracterstica do que poderamos chamar de pensamento anti-dialtico a noo de dialtica foi desvalorizada, mas ela perfeitamente rigorosa, e essa desvalorizao explica, de resto, que se possa escrever impunemente essas coisas , entre outras, precisamente a subestimao da diferena entre potncia e ato, ou a confuso entre os dois. absurdo definir o homem simplesmente pelo humano, como absurdo, tambm, defini-lo apenas, pelo anti-humano. Resumidamente, se deve dizer que os dois elementos existem como potencialidades. Dessas duas potencialidades, h razes para preferir o lado humano ao lado anti-humano. O lado anti-humano o do assassinato, da violncia, de uma cultura de morte (uma cultura da jungle); o outro lado permite a coexistncia dos indivduos, a cooperao, a sobrevivncia, a vida em suma. Dir-se- que a violncia em certos casos necessria, o que verdade. Esta , de resto, uma das razes pelas quais o humanismo no defensvel. Mas, de uma forma geral, a violncia s pode ser justificada como contra-violncia, e o mais dificil deve-se discutir a, de que forma, em que medida, e em que circunstncias esta legtima, pois essencial o exame de cada caso. Se, ao pensar assim, saimos a rigor do humanismo, no caimos por isso, de forma alguma, numa tica anti-humanista[ii].

Vejamos agora como se desenvolve a argumentao de Badiou. Como vimos, para ele, no haveria por que supor a legitimidade de quaisquer direitos do homem. O homem s entra na esfera dos valores em circunstncias especiais, quando ocorre um Acontecimento (vnement, a distinguir de um simples evento), ocasio em que emerge um Sujeito (um processo subjetivo) de que ele, homem, um suporte. Quais seriam esses Acontecimentos? (...) a Revoluo francesa de 1792, o encontro de Heloisa e Abelardo, a criao da fsica por Galileu, a inveno por Haydn do estilo musical clssico (...) Mas ainda: a Revoluo cultural na China (1965-1967), uma paixo amorosa pessoal, a criao da teoria dos Topos pelo matemtico Grothendieck... (E, p. 68). Em todos esses casos, mudar-se-ia de registro, haveria uma subjetivizao (nasceria um Sujeito), e o animal humano se investiria de uma espcie de transcendentalidade ou infinidade.

Vejamos em que implicam essas teses, quais as suas dificuldades, e que caminho alternativo seria possivel propor. Em primeiro lugar, preciso observar que Badiou pe no mesmo plano grandes rupturas artsticas ou cientficas, e alguma coisa to contestvel como a chamada Revoluo Cultural Chinesa (mesmo se ele a considera s no primeiro perodo), que foi na realidade uma grande mobilizao opressiva e um massacre (ver a respeito, alm da biografia de Mao por Philip Short[iii], que no a biografia mais critica que existe sobre Mao, o importante livro de Roderick MacFarquhar, e Michael Schoenhals Mao's Last Revolution)[iv]. Observe-se, quanto Revoluo Francesa, que Badiou exclui o perodo 89 a 91, o que deixa fora, entre outras coisas, a primeira declarao dos direitos do homem. Mas faamo-nos de advogados do diabo e, por ora, ponhamos entre parnteses os seus piores exemplos. Perguntmo-nos: teses como esta no permtiriam legitimar qualquer forma de violncia? Ora, interessante observar que Badiou se manifesta da maneira mais enrgica, quando trata da questo da Shoah: (...) a exterminao nazista, (...) exemplifica o Mal radical, indicando aquilo cuja imitao ou repetio deve ser impedida a qualquer preo (...) (E., p. 92). Mas, como justificar essa atitude luz das passagens anteriores? Pginas antes, num texto que termina com uma referncia a Chalamov, Badiou se refere s figuras do algoz e da vtima, situao nos campos, e tambm tortura. Ele escreve o seguinte a respeito: Enquanto algoz, o homem uma abjeo animal, mas preciso ter a coragem de dizer que enquanto vtima, em geral ele no vale mais. Todas os relatos de torturados e de sobreviventes indicam com fora: se os algozes e burocratas das masmorras e dos campos podem tratar suas vtimas como animais destinados ao abatedouro, e com os quais, eles, os criminosos bem nutridos, no tm nada em comum, porque as vtimas se tornaram mesmo (bel et bien) animais como esses (de tels animaux). Fez-se o que tinha de ser feito (ce quil fallait) para isso. (E, p. 31-32, grifo de RF). Bem, os judeus liquidados nos campos hitlerianos no entrariam nesse quadro conceitual? Se eles foram tratados como animais porque eles tinham se tornado animais: os judeus mortos nos campos de concentrao no valeriam, assim, mais (mieux)do que os seus algozes[v]. De qualquer modo, neles mesmos, eles no teriam nenhum direito vida ( menos talvez que eles tivessem sido elevados infinidade, pela revolta ou por alguma forma qualquer de resistncia). Em termos dos fundamentos da sua tica, a resposta de Badiou s poderia ser esta. Entretanto, j disse, Badiou condena a Shoah. Como? O seu argumento de uma rara e estranha artificialidade o de que o nazismo um simulacro da revoluo, um processo que imita a subjetivao[vi]. E na medida em que o nazismo simulacro de um Acontecimento, ele participa, mesmo se negativamente, do registro infinito dos valores. Isto : s se pode condenar o nazismo como Mal, porque se trata do inverso do Bem. Se no se tratasse disse (digamos, se se tratasse no dos massacres nazistas, mas do massacre de alguns milhes de camponeses, como ocorreu, na Rssia e na Ukrania, nos anos trinta), no haveria como protestar: o evento remeteria ao simples animal humano, e quando se trata disso, a legitimidade do protesto no seria maior, parece, do que o que se fizesse em favor de um outro representante qualquer do reino animal[vii]. O que obriga Badiou a seguir de perto ele o admite a tese dos historiadores revisionistas alemes: a revoluo nazista essencialmente a contrapartida histrica, e no caso tambm lgica , da revoluo comunista[viii]. Em resumo, deveriamos dizer, segundo Badiou: a Shoah passivel de julgamento tico porque um simulacro da revoluo; se no fosse, estariamos simplesmente diante de seis milhes de animais humanos cuja sobrevivncia ou liquidao seria, a rigor, em si mesma, indiferente.

Masvoltemos aos fundamentos.Retomoos argumentoscrticosque utilizei a propsito de Zizek, mas numa vertente um pouco diferente, para explicit-los melhore tentar esboar uma resposta alternativa.Se verdade queo homem se reveloupredador e cruel, indiscutivel que ele desenvolveu,ao mesmo tempo,uma caracterstica que no deve ser estranha a todo o mundo animal, mas que no caso do homemtoma um lugar muito particular o de ser capaz de respeitar, ou pelo menos de poupar, o outro homem, e a vida em geral. De fato, se a tendncia predao existe, em maior ou menor grau,nos representantes da espcie, intil negar que para muitos homens pelo menos milhes deles certamente a idia de destruir um outrohomemparece repugnante (embora eles possam legitim-la em circunstncias especiais), como parece repugnante tambm a prpria idia de destruir a vida (ou uma vida suficientemente articulada e desenvolvida, e no nociva,ouentoem situao de ataque). Pensemos, numplano fenomenolgico, na atitudeque temos diante de uma grande rvore. H os que, diante dela, se dispem a destrui-la, afim deutiliz-la para tais ou tais finsou simplesmente pelo prazer de destruir. Mas h aqueles tambm muitos a quem repugna a idiada destruio, e que condenariam aes desta ordem. Dir-se-que a rvore um mau exemploporque ela no ataca ningum. Ponhamos no lugar da rvore, digamos, um animal domstico, que j um vivente menos pacfico. A atitude do homem diante deste ltimo , de novo, dupla, e mais ou menos a mesma: ouatacar e matar o animal;ou entoproteg-lo e acarici-lo,ou pelo menos condenar toda violncia contra ele (essa dualidade separa alguns homens de outros, masdentro de certos limites, ainda quecom polosde intensidade varivel,eladeve existirem cada indivduo).No vou discutir de onde vem essa dupla reao, e em particular a reao postiva. Identificamoso objeto vivo com ns mesmos? Ou outra a razo? No importa. O que importa , em primeiro lugar, que ela existe. Ora, seesse impulso provavelmente no est ausentedo mundo animal no-humano l, quando noh agressividade, h em geralindiferena, mas existe tambm, aparentemente,certo tipo de afeto, e no s dentro da mesma espcie , o fenmeno toma, no homem,embora coexista com o seu contrrio,uma importnciae uma intensidade particulares. Nessas condies, poder-se-ia dizer que essa sociabilidade positiva um trao que distingue o homem daanimalidadetout court.Mas preciso dizer tambm quecertas formas de violncia gratuitasdistinguem o homem do animal no-humano.O animal humano , digamos, ao mesmo tempo muito pior e muito melhor do que o animal no-humano (o humanismo esquece o primeiro termo, o anti-humanismo, o segundo).

Historicamente, se o lado negativo no deixou de se desenvolver ele atinge, at aqui,um climax no sculo XX , o lado positivotambmfoi seafirmandoecomouma espcie de transcendental. De um modo que s aparentemente paradoxal,dir-se-ia que houve um processo, ele mesmo histrico, de passagem do histrico ao transcendental (ou preferindo, a algo que remete de certo modo ao transcendental).Os direitos do homem s se fundamna natureza do homemneste sentido edentro desseslimites, isto ,eles nascem de uma determinao humana(que , na realidade,umapotencialidadeou virtualidade) a de recusar a violncia contra o outro. Esta potencialidade foise cristalizando como idia[ix]no curso da histria, coexistindo com um prtica que a contradiz em geral, mas nem sempre, no plano coletivo, e que pode contradiz-la ou no, no plano individual. Passos importantes nesse sentidopositivoforam acontecimentoshistricos como a Revoluo Francesa, em especial as declaraes dos direitos do homem, e antes delas a Revoluo Americana, como tambm a moral kantiana e, em parte pelo menos, a filosofia clssica.Assim, se no se pode mostrarque existe num planopuramentetranscendental um direito do homem, possivel mostrarque houve algo como uma constituio histrica de um transcendental (por estranha que parea a formulao) ou a emergnciade um quase [como se ] transcendental. Isto nos d os fundamentos, digamos, no do grau zero, mas do grau mnimo de respeito que merece o outro homem e, em medida diversa, tambmo vivente em geral[x].

Porm, preciso ir mais longe. E aqui entra o problema da elevao do homem seno at o infinito,pelo menos para alm da finitude do cotidiano. Como vimos,Badiou introduz a esse propsitoo exemplo das grandes rupturas(ou do que ele considera como grandes rupturas)na arte, na cincia,na poltica, e tambm no amor. Mas no faltaria nada nesse quadro?No seria necessrioincluira mais umcaso (caso, que no un outro, simplesmente, mas introduz uma mudana essencial)?Refiro-me precisamente e isto representa um passo a mais em relao argumentao crtica anterior elevaoefetiva posturatica, capacidade que tmcertoshomens no a simples capacidade de proceder de forma tica, porque, em princpio, de supor que todos a tm mas a capacidadedeefetuaressa capacidade (dizendodeummodo rebarbativo),a capacidade de efetivao.De fato, se a potencialidade do respeito parece seruniversal, a efetivao dessa potencialidade no .H os que chegam a isso, h os que no.Por trs dessa banalidade,halgo que, a meu ver, muito srioe profundo.Os indivduos so ticamente desiguais. Se no h vontade santa,h individuos melhores e indivduospiores.Pois bem.A capacidade efetiva do respeitodeve ser incluida entreas passagens do finito ao infinito que esto abertas ao homem.Deve-se dizer (no se trata de um problema de reciprocidade, nem o argumento circular):a efetuao da capacidade de respeitar merece respeito.Isso no elimina o respeito no primeiro nvel, mas se acrescenta a ele.Se todo homem pode (e deve) ser respeitado enquanto homem (com as precises eressalvas necessrias), o homem que respeitadeve ser respeitado num nivelsuperior. Esse, a meu ver, o caminho (um esboo de caminho) para fundar uma tica, ao mesmo tempo transcendental e histrica, ou histrico-transcendental.

Assim, voltando aosnossos autores, Badiou e Zizekerram duplamente. Primeiro, deve-se dizer que aqum do nivel mnimo por eles fixado para a possibilidade de uma tica,j existe um registro de valorese de universalidade. E, segundo, no nivel mesmoem que, neles, a tica desponta(em Badiou, pelo menos), hum vazio que, em si mesmo, reflete aprimeira insuficincia. De fato, o preenchimento desse vazio remete efetivao daquilo que eles no viram como potncia, epotncia j carregada de valornumprimeiro nivel. Termino antes de uma pergunta final com algumas consideraes sobre certas diferenas que se manifestam entre os dois autores.Nas pginas finais da suatica,ede um modo um poucosurpreendente, Badiou introduzum elemento de moderaono seu discurso se podemos dizer assim ao falar da exigncia do que ele chama de reserva (E, p. 126). Trata-se, na sua linguagem, de criticar a lngua quea partir de seus prprios axiomaspretendenomear a totalidade do real(id., p. 118),e assimtransformar o mundo. Ele d o exemplo de guardas vemelhos que fizeram imensas destruies (id, p. 120), isto , praticaram certos excessos,e sem dvida pensa tambm no stalinismo[xi]. Enfim, ele introduz aqui uma espcie decorreo ao seu argumento. (Tambm nesse caso,ou se toma aprecisocomo uma observaoen passant, ou,levada a srio, ela obrigaria, aparentemente,a recomear tudo).De qualquer forma, elafoi suficiente para provocar uma crtica de Zizek. Este no tolera reservas. Assim, elerecusa essa passagem de Badiou, advertindo que a verdade sempreuma imposio (enforcement) excessiva, ela sempre imposta. Quando no funciona, no porque foi excessiva, mas porque em si mesma no era uma Verdade (In Defense...,p. 306-307). Essas observaesde Zizekinteressam por mais de uma razo. Por um lado, mostram queZizekse d conta de que a passagem ameaa o conjunto da mquina. E, observemos,noque se refere ao exemplo dado porBadiou, verdade queoproblema no est noexcesso, mas na prpria idiaou, preferindo, que o excesso aqui excesso daprpriaidia, excesso inerente idiaem questo. Mas ao mesmo tempo, a reserva diante da reserva, por parte de Zizek,mostracomo a sua filosofia est comprometida com os excessos (ele no critica Badiou,porque este recusa os excessos de uma idia que, nela mesma, j excessiva isto , ele noselimita a mostrar que h a uma incompreenso, digamos, num plano formal, a propsito do como funciona o excesso ele o critica,tambm e sobretudo,por tomar alguma distncia em relao ao prprio excesso:para Zizek,umaidia, em si mesma excessiva,por isso mesmo,eminentemente positiva).Zizekno suportareservas;sua fiosofia sempre fiel ao excesso(ressalvada a sobrevivncia da espcie)[xii].As consequncias prticas desse radicalismo aparecem num exemplo,um casobem sintomtico,referido por umde seuscrticos. Trata-se da posio que Zizek assumiuno que concerne a certos fatos ocorridos na guerra do Vietn. Tendo ocupado uma cidade,os americanos, provavelmente porrazes de propaganda, tomaram a iniciativa de vacinar(no brao)um certo nmero decrianas. A cidade veio a serreconquistada pelos vietcongs. Para eliminar definitivamente a possibilidade de iniciativas como aquelas, que poderiam melhorar a imagem dos americanos perante as populaes, os vietcongssimplesmentecortavam o brao das crianasvacinadas.Zizek comenta essa medida: (...) ainda que seja dificilsustentar como modelo literal a seguir,esta plena rejeio do Inimigo precisamente no seu aspecto de ajuda humanitria (in its helping humanitarian aspect) qualquer que seja o seu custo, deve ser apoiada na sua inteno bsica[xiii]. Apesar daconcessiva mole no seu incio,como se dizia antigamenteno se sabe o que mais admirar nesse texto: se a ignomnia moral do apoio a um ato cruel e brutal contra uma criana, ou se a cegueira terica e prtica, de quem supe mas supe mesmo, ou aprecia a violncia pelo amor da violncia? que meios como este podem ajudar numa luta que, em principio, seria um combate por uma sociedade emancipada.A anfibolia , de novo, de tipo anti-dialtico: no se entende que, a partir de certo limite, determinados meios entram em contradio com seus fins e os intervertem.

Diante de tudo isto, cabe a pergunta final: que grau de confuso, no interior da esquerda o que no significa, deixo claro, que as luzes da direita sejammais brilhantes explica esse fenmeno estranho da aceitao de um discurso comoessepor parte de muita gente(e nem sempre medocre),enquantomodelo terico interessante ou rigoroso de uma poltica para aesquerda?

abril 2009, maro de 2010

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fevereiro #

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[i]Renunciei a preparar um livro crtico mais ou menos volumoso e relativamente sistemtico sobre os dois, como projetara inicialmente. Entre outras razes, porque seria prestar-lhes uma espcie de homenagem terica, mesmo se sob forma crtica, o que quero evitar, por razes que, espero, ficaro claras ao leitor.

[ii]Como, h mais de trs dcadas, escrevi um texto de crtica do humanismo e do anti-humanismo (Dialtica marxista, humanismo, anti-humanismo, texto do final dos anos 70, incluido no meu Marx: Lgica e Poltica, investigaes para uma reconstituio da dialtica, vol. I, So Paulo, Brasiliense, 1983) advirto o leitor de que a posio que defendo aqui diferente da do artigo em questo, embora ela possa ser considerada como um desenvolvimento, mas muito crtico, das idias daquele texto. Para a diferena entre minha posio atual e a expressa naquele artigo, remeto entrevista que dei ao jornal Valor Econmico (So Paulo, 20/1/10). A entrevista foi prejudicada por um introito, que contm imprecises, e pelo qual no tenho nenhuma responsabilidade; mas o texto propriamente dito no que se refere parte terica, pelo menos , perfeitamente fiel.

[iii]Mao: a life,N. York, H. Holt, 2000, Mao Ts-Toung, traduo francsa de Colette Lahary-Gauti, Paris, Fayard, 2005.

[iv]Cambridge, Massachussets, e Londres, The Belknap Press of Harvard University Press, 2006. Quem quer que tenha lido com ateno esse livro rigoroso no poder deixar de constatar com espanto o fato de que Badiou no s considera como positivo o que se passou ento na China, mas o compara com as grandes realizaes humanas em matria de arte e de cultura, e o toma como modelo de experincia poltica. verdade que alguns dos participantes da revoluo cultural evoluiram para uma posio democrtica, e talvez seja verdade que ela tenha reforado, a longo prazo, uma tendncia ao protesto. Mas isso no define a sua essncia. Diferentemente de outros eventos histricos s aparentemente anlogos, como a Revoluo Francesa, a revoluo cultural chinesa, mobilizao que nasce de um impulso de cima por parte de Mao, visando neutralizar os seus adversrios, e se prolonga numa violncia no menos arbitrria de baixo, foi essencialmente uma sequncia de episdios sangrentos e quase s com significao negativa em termos das lutas pelo progresso social marcados por matanas, torturas, humilhaes de inocentes, rituais de submisso ao lider, e devastao do pas (parece bem estabelecido que houve at canibalismo). Tudo isso em meio a um discurso dogmtico-delirante em nome do proletariado e da luta de classes, e cujo fundamento era a palavra do grande lider. Que isso tudo aparea como modelo de poltica (e aparentemente tambm de uma certa tica) mostra bem que Badiou est do outro lado, que ele patrocina a causa de uma certa barbrie. O que no parecem ter entendido nem certos universitrios, que esto prontos a abraar o badiouismo como a ltima flor do pensamento de esquerda, nem certas revistas (estas talvez tenham entendido muito bem) que se apressam em faturar pesado com a promoo dessas pretensas grandes figuras. No esqueamos que Stlin, um dos maiores assassinos que a histria conheceu, foi, de certo modo, um homem de esquerda. Dir-se-: ento, a idia de esquerda se perdeu, no haveria mais diferena entre esquerda e direita? H diferena sim, mas o problema que, pelo menos a partir do sculo XX, no basta ser de esquerda. preciso ser ao mesmo tempo de esquerda e anti-totalitrio.

[v]Uma das dificuldades desse texto, seja dito de imediato, o fato de que se ter tornado animal (ou, antes, de ter sido reduzido animalidade) mesmo se Badiou explica que se havia feito o necessrio para [que] isso [ocorresse] vale afinal como equivalente de ser um animal. Ele reduz o ter sido transformado ao ser. De fato, se no fosse assim, como justificar a tese de que as vtimas valem to pouco como os algozes? Por outras palavras, no momento de tirar as consequncias, Badiou oblitera o movimento que, entretanto, ele mesmo assinala, de reduo da vtima animalidade pelo trabalho do algoz. E j que ele fala em Chalamov (com o qual, diga-se de passagem o que fica claro para qualquer leitor atento do escritor russo Badiou no tem nada em comum), valeria a pena lembrar que Chalamov observa muitas vezes a diferena entre o que so os homens quando chegam ao campo, e aquilo que eles sero, aps algum tempo (de fato, curto) de vida no campo. Seja dito em passant, se a experincia dos campos essencial para pensar o homem (e Badiou entendeu pouco do que diz Chalamov sobre os campos e sobre o homem), a situao dos campos, que uma situao limite, no define por si s o homem. De fato, reduzido condio animal (ou a pior do que isto: na situao de fome crnica em que ele se encontra, a sobrevivncia passa a ser o objetivo quase exclusivo da existncia) s com muito esforo (ou s quando se trata de figuras superiores da individualidade) o indivduo humano pode reagir segundo as possibilidades mais altas da espcie.

[vi]No prefcio edio inglesa de 2000 da sua tica, Badiou diz que, com o nazismo, emerge um sujeito obscuro, o que representa uma mudana em relao verso original. Mas isso um detalhe tcnico da construo pseudo-especulativa de Badiou, e no muda nada de essencial, para efeito da nossa discusso.

[vii] Observe-se que, se esse massacre escapa do caso especial de Badiou, ele tambm fica fora do limite definido por Zizek. Em Zizek, o limite a ameaa sobrevivncia da espcie. Por isso alis, ao contrrio do seu comparsa, Zizek desconfia do maoismo que andou brandindo a ameaa da arma atmica com excessiva desenvoltura (ver In Defense..., pp. 187 e 219). Digamos, juntando os dois comparsas, que, para eles, se no se tratar nem de nazismo nem de ameaa espcie, tudo permitido.

[viii]Diga-se de passagem, no isto que grave. Mesmo se a tese dos revisionistas falsa (segundo eles, o nazismo teria sido essencialmente uma reao ao comunismo), h, aparentemente, no interior desse argumento, um elemento de verdade: a repercusso negativa, junto s classes mdias principalmente, dos horrores do regime leninista e depois stalinista deve ter de algum modo sobredeterminado os avanos do nazismo nos anos 20 e 30.

[ix]Idia no tem aqui o sentido tcnico kantiano de simplesmente regulador. Remete pelo contrrio a um dever-ser que enquanto dever-ser se torna constitutivo, mesmo se ele coexiste com seu oposto.

[x]Evidentemente no estou afirmando que provei, de algum modo, que se deve ter respeito pelo outro. Em forma muito geral e abstrata (mas somente nessa forma), o velho argumento que afirma a impossibilidade de passar de um juzo de realidade a um juzo de valor verdadeiro. O que se pode mostrar (at aqui) : 1) que, se o homem tem disposies negativas, ele tem tambm disposies positivas, as quais se manifestam inclusive na histria; 2) Que h boas razes (a vida, a coexistncia entre os indivduos etc) para preferir essas ltimas s primeiras.

[xi]H tambm uma passagem em que Badiou distingue a atitude que se poderia ter em relao, digamos, aos simples inimigos do sujeito, e a atitude a tomar em relao a esses inimigos especiais que so os agentes do simulacro (o nazismo). Ele observa que no primeiro caso podemos (...) combater os juizos e opinies que ele troca com outros para corromper toda fidelidade, mas no sua pessoa, que na circunstncia indiferente, e qual em ltima anlise toda verdade se dirige tambm (id, p. 110, grifado no original), pois por inimigo que seja de uma verdade, um qualquer um sempre representado na tica das verdades, como capaz de se tornar o Imortal que ele (id.). de se perguntar, se um texto como este no introduz uma espcie de respeito pelo outro (ou menos, exigncia do no emprego da violncia para com ele, e portanto uma sorte de direito a no sofrer a violncia por parte do outro), pela via da presena virtual do Infinito, em cada animal-humano. Parece-me que, ou se toma uma passagem como esta como reflexo no substantiva, ou ela ameaa arruinar toda a construo. Aparentemente, a coerncia poderia ser salva insistindo no fato de que se diz que a pessoa do inimigo indiferente, o que pareceria remeter a uma considerao mnima, de teor pr-tico. Mas: 1) diz-se que no podemos (podemos (...) mas no) combatr o inimigo como pessoa; e 2) a razo dessa recusa no de ordem puramente pragmtica, mas envolve a idia da capacidade( ele capaz de...) que tem o outro, inimigo embora, de se tornar o Imortal que ele (grifo de RF).

[xii]Entretanto, no se deve opor, a partir da, um Badiou moderado a um Zizek radical. Ainda desenvolverei o problema da relao entre os dois. Digamos por ora o seguinte. Eles tem muita coisa em comum: ambos so anti-democratas (o inimigo seria bem mais a democracia do que o capitalismo!), os dois so leninistas (um com tonalidade no-maoista, o outro um quase-stalinista), os dois so anti-humanistas. Badiou o fundador de toda essa construo funesta, e, dos seus fundamentos, se tira imediatamente a legitimao de massacres; o outro pratica um estilo mais extremista principalmente nas consequncias.

[xiii]"Zizek live", entrevista, em Rex Butler, Slavoj Zizek: Live Theory, N. York, London, Continuum, 2005, p. 147, citado parcialmente por Ian Parker, The truth of over-identification, in The Truth of Zizek, ed. por Paul Bowman e Richard Stamp, Londres, N. York, Continuum, 2007, pp. 157158, grifos de RF). No mesmo contexto, pode-se econtrar uma outra prola. O apoio dado ao sinistro Sendeiro Luminoso peruano, no assassinato de consultores agrcolas representando os Estados Unidos ou a ONU.