revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Arthur Hussne BERNARDO

As desventuras da dialtica

 

A dialtica no deve ser uma prestidigitao de palavras

Edgar MORIN 1

preciso saudar a nova edio do primeiro tomo de Marx: Lgica e Poltica, Investigaes para uma Reconstituio do Sentido da Dialtica2 - que agora se chama, invertendo ttulo e subttulo e abreviando o ltimo, Sentido da Dialtica, Marx: Lgica e Poltica3 - por pelo menos trs razes. Primeiramente, como aponta o prprio autor, o livro - que, no parece exagerado dizer, tornou-se um clssico do pensamento dialtico brasileiro - j estava esgotado h muito tempo (sua segunda e ltima edio data de 1987, pela editora Brasiliense) e tinha se tornado uma raridade fora das bibliotecas universitrias. Segundo por se tratar, apesar de poucos problemas, que iremos comentar mais adiante, de uma boa nova edio. E, por fim, porque ele recoloca na ordem do dia questes e respostas que - embora passados 32 anos da primeira edio - ainda nos so contemporneas.
Qual , em linhas gerais, o ponto de partida da obra? A ideia da crise da dialtica. A dialtica estaria esquecida e, ao mesmo tempo, seria, paradoxalmente, desconhecida. Ela foi alvo de inmeras crticas sem, contudo, que tivesse sido plenamente apreendida. Duramente abalada pelas leituras e utilizaes vulgares - que banalizaram o termo como sinnimo de ao recproca, retroalimentao, superao etc. -, e, mais tarde, pela crise do prprio marxismo, a dialtica teria sido deixada de lado, ao menos em territrio francs, sem que jamais sua compreenso tivesse sido exata.
Cabe a pergunta: afinal, quando a filosofia de Hegel e a dialtica entram em crise na Frana? No ocaso do neo-kantismo e do bergsonismo, o perodo hegeliano da filosofia francesa inicia-se nos anos 30 por causa, sobretudo, de uma renovao do interesse pelo pensamento de Marx e tambm pelos famosos cursos sobre Hegel oferecidos por Alexandre Kojve entre 1933 e 1939 na cole Pratique des Hautes tudes: o pice da dialtica. Se a gerao do ps-guerra tinha a dialtica em alta conta e associava Hegel a tudo de positivo que havia sido gestado na filosofia contempornea, o perodo que se segue marca uma verdadeira reao ao pensamento hegeliano. A filosofia francesa dos anos 60 assume o gesto diametralmente oposto: Hegel passa a ser rejeitado em todas as instncias4 . Para contar esse perodo, pode-se pensar mesmo na histria da palavra dialtica, pois essa histria mostra o mesmo percurso: entre 1930 e 1960, ela teve um significado claramente positivo e foi utilizado como sinal de perspiccia; entretanto, "aps 1960, a dialtica est sempre no centro da discusso, mas ela passou para o banco dos acusados."5 .
Na Alemanha, por outro lado, houve a Escola de Frankfurt, e em especial a figura de Adorno - grande mestre da dialtica. Entretanto, se em 1983 o autor dizia que o futuro de Frankfurt era incerto6 , j naquela poca a dialtica tornava-se um discurso marginalizado dentro do prprio Instituto de Pesquisas Sociais. Veja-se, por exemplo, a relao que Habermas, o nome hegemnico da segunda gerao, estabeleceu com esse tipo de pensamento: a dialtica - ideia anteriormente privilegiada dentro do espectro frankfurtiano - foi, em linhas gerais, abandonada junto com as demais “filosofias da conscincia”. Nesse sentido, mesmo os grandes nomes posteriores a Habermas - pensemos em Honneth, por exemplo - no retomaram as questes da dialtica. No demais dizer que a dialtica passou longe dessas novas geraes, e no foi reabilitada em sentido forte desde a morte de Adorno.
Ancorando-se no melhor da teoria crtica, Fausto se coloca tanto contra aqueles que abandonaram a dialtica por verem uma continuidade quase absoluta entre aquela de Hegel e a de Marx - no sentido de que a ltima teria herdado todos os vcios da primeira - como contra aqueles que queriam mostrar uma descontinuidade absoluta entre as duas para salvar Marx, caso de Althusser. Todos eles se juntam, no fim, em sua alergia a Hegel. Logo, junto da crise da dialtica, o livro se volta contra um longo perodo anti-hegeliano da filosofia francesa - anti-hegelianismo esse que se expressa, por exemplo, em autores to distintos quanto Foucault, Castoriadis, Deleuze e Althusser, para ficar em alguns exemplos.
Para alm o anti-hegelianismo generalizado e da crise da dialtica, houve - e h - crise do marxismo. No se trata de reabilit-lo. Segundo Fausto, ele se mostrou, afinal, frgil ao oferecer uma interpretao parcial e insuficiente de novos objetos: as revolues no terceiro mundo, os limites ecolgicos do capitalismo e, sobretudo, as sociedade burocrtico-autoritrias surgidas de revolues ditas proletrias ou camponesas. No se parte, entretanto, da para um afastamento absoluto da teoria marxiana, antes, o autor coloca a pergunta: qual a relao entre a crise da dialtica e a crise do marxismo? 7 A resposta que a segunda agravou a primeira - foi a crise do marxismo que gerou a ideia que a dialtica estava acabada.
Mas a crtica do marxismo no implica sem mais um abandono da dialtica. Na verdade, a ideia de Fausto a de que somente partindo da dialtica possvel fazer essa crtica. Ou melhor, partindo dela que se faz a melhor, mas no a nica, crtica do marxismo, justamente porque s desse prisma que apreendemos o verdadeiro potencial da obra de Marx. Apenas mediante a retomada da dialtica possvel entender os limites do marxismo - e, assim, realizar uma crtica justa deste ltimo. Aqueles que querem salvar Marx e o marxismo s custas dos fatos se encontram, afinal, com aqueles que rejeitam a totalidade de seu aparato terico: as duas posturas no chegaram a compreender Marx, porque nenhuma delas conheceu a dialtica em profundidade8 .
Perpassando todos os textos do livro, o fio condutor da dialtica; mais especificamente, o da reconstituio da dialtica clssica. Reconstituio essa que se efetua por meio da crtica de boas mas insuficientes leituras da obra de Marx. para retomar o real sentido que a dialtica pode ter, e o potencial e limites do marxismo, que o autor realiza a exposio e a crtica das falsas perspectivas criadas pelo entendimento (Verstand). So apresentadas de forma muito convincente as insuficincias dessas vises unilaterais e apegadas identidade - elas nos levariam aqum, e no alm do marxismo, porque no chegam mesmo a manejar corretamente a lgica que lhe prpria. O objetivo do projeto de Fausto passa por, em outras palavras, mostrar como " necessrio compreender dialeticamente esse grande dialtico (...)"9 .
Se esse primeiro tomo limitado, em geral, elucidao do funcionamento da dialtica nos textos marxianos, no significa que o projeto mais amplo se esgote em realizar uma interpretao nova de Marx. O significado da obra vai alm: poderamos dizer, grosso modo, que da apresentao do funcionamento, dos potenciais e dos limites da dialtica clssica - tanto em seu aspecto lgico quanto em sua “aplicao” ou “investimento” na poltica, na lgica e, em partes, na economia - que Ruy Fausto se ocupa nessa srie. Que esse ambicioso plano passe sobretudo por Hegel e Marx, isso no significa que ele se resuma a um estudo desses dois autores. Logo, parece-nos acertada a troca entre ttulo e subttulo: o projeto o de reconstituir o sentido da dialtica, e a passagem por Marx um momento - fundamental, sem dvida, mas um momento - desse projeto.

***

Na Frana, sada de cena de Hegel e do humanismo, somou-se a vitria do anti-humanismo resoluto das geraes de pensadores dos anos 1960. Nas duas dcadas seguintes, a questo do humanismo se recolocava como uma reflexo sobre as consequncias tericas e prticas do anti-humanismo do perodo anterior. Se a dita querela do humanismo, que teve lugar no incio da dcada de 1960, representava o abandono do existencialismo e do marxismo humanista e a adoo de uma gama variada de filosofias anti-humanistas, a primeira metade da dcada de 1980 ver uma reao de um novo humanismo contra a vaga anterior. Para que se tenha uma dimenso do alcance da discusso, em um livro datado de 1985 e que teve um grande pblico poca, os autores dizem que a problemtica do humanismo " sem dvida a questo central da filosofia contempornea"10 .
nessa, digamos, segunda querela sobre o humanismo que entram as discusses levadas a cabo por Fausto na primeira parte de seu livro. Os textos so da segunda metade dos anos 1970 e tratam, em especial, do anti-humanismo em sua modalidade marxista. Se verdade que as filosofias anti-humanistas apresentavam, em geral, uma inflexo crtica em relao ao marxismo - que era visto como pice do humanismo ingnuo11 -, isso no impediu que houvesse um anti-humanismo baseado em Marx. No marxismo, a passagem do pensamento humanista para o pensamento anti-humanista foi realizada por Althusser e seus discpulos. E justamente contra esse tipo de marxismo que Fausto se insurge. verdade, como pontua Fausto, que o althusserismo j tinha sado de cena; contudo, ele ainda no fora refutado12 . partindo desse diagnstico que Fausto realiza um estudo lgico de algumas das teses mais relevantes de Althusser - ou pelo menos de sua obra dos anos 1960 - e do althusserismo.
Entre as teses contestadas, a que teve mais impacto foi aquela de provar o pretenso anti-humanismo (e tambm o antiantropologismo) da obra do Marx maduro. A resposta oferecida por Fausto se trata de uma crtica ao althusserismo acompanhada de uma reconstituio daquela que seria a soluo dada pelo prprio Marx - ainda que ela no esteja explicitada em seus escritos. Fausto mostra que: primeiro, se o humanismo realmente criticvel, a crtica de Althusser, que se funda no anti-humanismo, no apenas frgil politicamente, mas possui uma relao estreita, do ponto de vista lgico, com o humanismo que ele pretende criticar; segundo, que o antiantropolgismo do althusserismo , paradoxalmente, um antropologismo, ou seja, sofre uma interverso - e, novamente, ele partilha a iluso da fundamentao primeira com o seu contrrio.
Como, ento, sair dessa situao em que nenhuma das duas respostas satisfatria? Junto dessa crtica, o autor apresenta a reconstituio exata da dialtica do humanismo e do anti-humanismo13 , e tambm do antropologismo e do antiantropologismo, dialtica que uma resposta rigorosa de Marx ao problema da fundamentao de sua poltica: o marxismo, em sua melhor forma, optaria por um humanismo negado em sentido dialtico. Ou seja, a supresso (Aufhebung) dialtica do humanismo. A opo dialtica seria ento a de no fundamentar esse discurso na figura do homem, pois assim se incorre na contradio vulgar - o humanismo se torna anti-humanismo -, e tampouco no apresentar fundamentao alguma na figura do homem: temos uma fundamentao negada dialeticamente, incorpora-se a contradio para no ser tragado por ela.
Mesmo com as fragilidades de seu pensamento, curioso observar que, contra aqueles que faziam profisso de f anti-dialtica, Althusser diz que esses no conheciam outra dialtica que no a hegeliana, mesmo se invertida14 . Por sua parte, Fausto talvez dissesse que todos eles - Althusser incluso - no chegaram a conhecer qualquer tipo de dialtica. Ao expurgar todo resqucio hegeliano, apesar dos excertos de Marx que apontam, para dizer o mnimo, ao menos algumas linhas de continuidade entre a sua dialtica e aquela de Hegel, Althusser estabelece uma dialtica unilateral e que parece, curiosamente, muito pouco... dialtica.
Todo esse debate, que pode parecer ultrapassado, ganha novamente importncia com a retomada anti-humanismo por duas destacadas vozes dentro do universo marxista: Slavoj Zizek e Alain Badiou. Mesmo que com uma argumentao distinta daquela utilizada por Althusser, os dois autores no conseguem ir alm de uma viso unilateral do problema do humanismo, do que resulta que naufragam ali mesmo onde Althusser naufragou - o que no impede que seus escritos sejam considerados inovadores por uma parte significativa da esquerda atual, mesmo com todas as implicaes polticas nefastas que eles possam ter15 .
Acreditamos que Fausto oferece uma resposta definitiva para o problema do humanismo em Marx. Toda a tradio que tem o anti-humanismo como um pilar fundamental est fadada ao fracasso terico ao representar um retrocesso em relao prpria concepo dialtica da questo. Por outro lado, se o anti-humanismo de estirpe marxista escolar em termos tericos e nefasto em termos prtico-polticos, no se pode da desautorizar todas as crticas que se reclamam do anti-humanismo. Tomemos o caso de Foucault, por exemplo. Seria preciso levar a srio suas crticas ao humanismo e ao antropologismo - ainda que isso no implique aceitar sua viso anti-humanista. Nosso ponto que, ao fim e ao cabo, dentro dessa constelao anti-humanista, Althusser sem dvida representa o que h de mais primrio. Se se quiser criticar o humanismo e o antropologismo, deve-se incorporar o melhor dessa crtica, que, a nosso ver, est em Foucault16 .
Em segundo lugar, seria preciso inserir descontinuidades entre os conceitos de antropologismo, humanismo, subjetividade e metafsica. Na pena dos autores franceses dos anos 60 - tanto daqueles de perspectiva marxista quanto daqueles de extrao heideggeriana ou nietzscheana -, esses termos aparecem quase como que sendo intercambiveis: tem-se a impresso que haveria uma homogeneidade terica de toda a tradio em torno desses termos; essas ideias, contudo, so distintas umas das outras. Fausto procura diferenciar antropologismo e humanismo em algumas notas de rodap, mas preciso ir alm e realmente pensar o que essas descontinuidades podem significar - o que de grande valia para se construir uma nova antropologia de tipo dialtico. Assim, seria o caso de diferenciar essas crticas do humanismo, do antropologismo, da subjetividade e da metafsica e, guardando o que elas tm de melhor, mostrar como levam a impasses no apenas filosficos como tambm polticos17 .
Alm disso, o esquema da relao entre humanismo, anti-humanismo e determinadas posies polticas parece demasiadamente simples. No h relao direta, unilateral e contnua entre a posio ou no posio do Homem e a questo da violncia. H humanismos que no rejeitam a violncia em sua totalitade - caso do humanismo revolucionrio. possvel provar que "as diversas variedades de "humanismo revolucionrio" no so a rigor "humanismos"18 ? Isso quer dizer que eles seriam anti-humanismos? No nos parece que essa afirmao seja evidente. Assim, seria necessrio apresentar uma descontinuidade entre o problema do humanismo e o da violncia. Mesmo dentro do marxismo, houve diferentes tipos de humanismos revolucionrios, que tiveram posies distintas com relao questo da violncia. No h homogeneidade entre os humanismos revolucionrios, e tampouco possvel assimila-los ao anti-humanismo. Isso no quer dizer que no haja relao alguma entre a posio do homem e a violncia; mas no acreditamos que seja possvel identificar humanismo-no-violncia-reformismo e anti-humanismo-violncia-revoluo sem mais. Acreditamos que o humanismo revolucionrio traz problemas para o esquema - e se por vezes ele toma posies prximas do anti-humanismo, nem por isso pode-se dizer que eles se equivalem19 .
Pensemos, por exemplo, na posio de Merleau-Ponty em Humanisme et Terreur: sua maneira, temos ali um caso de humanismo que no pe o homem seno no final de um processo. "Ns dizemos: poderamos passar por l [uma revoluo violenta seguida de terror], se fosse para criar uma sociedade sem violncia"20 - Merleau-Ponty faz uma crtica tanto da violncia desgovernada quanto dos adeptos da no-violncia, mas procura guardar a violncia - a violncia revoluconria - em nome de um ideal de sociedade sem violncia. H uma aposta na possibilidade de emergncia do novo Homem, mesmo que de um universo em que a, em um primeiro momento, existncia humana banalizada. Coloca-se entre parnteses um perodo de terror at que ele confirme o nascimento do homem redimido. No h propriamente apoio incondicional ao terror, mas h, para dizer o mnimo, conivncia. Trata-se de um anti-humanismo? Ou de um humanismo que se abre, paradoxalmente, para a aceitao de meios no-humanos para atingir um fim humano? Essa diferena pode parecer insignificante, mas se trata de algo necessrio: no possvel usar apenas a referncia ou no ao homem para estabelecer as coordenadas polticas mais adequadas; alm disso, preciso discutir a relao com a violncia e tambm introduzir a discusso sobre meios e fins de forma mais ampla. Seria possvel dizer que esses dois registros j esto postos nos conceitos de humanismo e anti-humanismo - essa resposta, contudo, escamoteia o problema, pois esses conceitos, tomados por si ss, no especificam a relao com a questo da violncia e dos meios e fins. Seno, pensemos no caso da resposta marxiana: o homem aparece como sujeito apenas no socialismo. Isso significa que qualquer ao poltica e tica vlida para que o homem se torne sujeito, ou em outras palavras, para a construo do socialismo? A resposta para essa pergunta passa pela questo do humanismo, mas no se encerra nela.
Finalmente, o quadro fica ainda mais complexo quando se considera no apenas a relao entre os homens, mas a relao entre homem e natureza e entre o homem e a tecnologia. A as ideias de humanismo e anti-humanismo ganham novos contornos. Em resumo: por um lado, h um novo tipo de anti-humanismo derivado de um ecologismo extremista e, por outro, a ideia igualmente extrema de que o homem ir se dissolver (ou j se dissolveu) na tecnologia e dar origem a um ps-humano. tambm indo contra essas posies que poderamos falar de uma refundao do humanismo e da antropologia.
Em outras palavras, a soluo lgica de Fausto rigorosa e parte de uma crtica imanente tradio marxista anti-humanista para reconstituir a posio de Marx. Dito isso, seria preciso complexificar o quadro das relaes entre antropologismo, antiantropologismo, humanismo, anti-humanismo e as prticas poltica com a introduo, sobretudo, de descontinuidades, alm de fazer uma anlise minuciosa daquilo que representou a melhor tradio anti-humanista e do humanismo revolucionrio - e em que sentido elas tambm no so mais opes vlidas. Hoje, seria to ingnuo retomar o humanismo de outrora quanto reivindicar a potncia do inumano - a se notar que as duas posies continuam tendo grande repercusso atualmente.
Feita a discusso sobre a querela do humanismo, a segunda parte do livro toma um outro rumo. Se a primeira dedicada crtica a Althusser - que procura salvar Marx conservando seu lado anti-humanista -, a segunda trata de Castoriadis, autor que j havia se distanciado do marxismo e que assume posio resolutamente crtica em relao a Marx. Os dois, de formas muito distintas e com posies opostas em relao obra de Marx, possuem problemas semelhantes em suas interpretaes.
A crtica que Castoriadis faz das categorias econmicas d'O Capital muito bem trabalhada e no se resume s consideraes tradicionais, pois h nela tanto crtica do pensamento econmico quanto articulao com a filosofia subjacente a esse pensamento. Em se tratando de economia propriamente, diramos que ela no faz mais que organizar, ainda que de uma forma bem conectada, argumentos que j existiam nesse grande crtico analtico de Marx que foi Bhm-Bawerk ou nos crticos das dcadas de 1920 e 1930. Por outro lado, a crtica filosfica vai alm: questiona-se o que o trabalho e ao mesmo tempo o que significa a ideia de substncia tal como usada por Marx - coisa que antes no havia sido feita com tanto rigor. nesse sentido que sua crtica vai longe: ela rene praticamente todo o arsenal de argumentos de ordem econmica e tambm procura mostrar que as inconsistncias do pensamento econmico de Marx esto vinculadas insuficincia de sua concepo filosfica.
Abordando apenas parte dessa longa crtica de Castoriadis, presente no texto "Valeur, galit, justice, politique de Marx Aristote et d’Aristote nous21 ". Fausto novamente prova que as supostas inconsistncias e antinomias imputadas ao pensamento de Marx so, na verdade, procedimentos conscientes e que s so compreendidos por meio do manejo da lgica dialtica. Indo alm, diramos que toda a incompreenso por parte de Castoriadis, e de grande parte dos intrpretes - favorveis ou crticos - de Marx a incapacidade de perceber a objetividade das categorias marxianas. Em outras palavras, o conceito desenvolvido dialeticamente no trata apenas de uma categoria da mente que tenta captar o real, mas de uma objetividade social22 . Esse resultado ilumina a ideia de que O Capital , antes de tudo, uma crtica da economia poltica, e no uma cincia positiva. E no qualquer crtica, mas uma crtica imanente. Sem essa compreenso, impossvel, entender a aparente "irracionalidade" ou a "metafsica" presente em O Capital. A dialtica no um mtodo exterior ao objeto, mas passa "por dentro"23 dele para mostrar sua contraditoriedade - o que uma necessidade para que ela no se torne um mtodo ou uma viso de mundo e seja indiscriminadamente utilizada. A respeito da imanncia da crtica, basta ver como os textos de que se serve Fausto, textos em que Marx explica seus procedimentos, no so os textos de O Capital, mas cartas sobre O Capital, ou As Teorias sobre a Mais-Valia, justamente porque proceder explicao do mtodo na apresentao do objeto seria descaracterizar a prpria operao que se pretende, ou seja, a "aplicao" da dialtica.
Ainda assim, dizer que todas as aparentes inconsistncias e dificuldades encontradas em O Capital sejam fruto de uma incompreenso generalizada parece exagerado. O prprio autor o reconhece: as dificuldades que a crtica da economia poltica de Marx enfrenta so reais e no se resolvem por completo apenas ao se assumir a dialtica. (Nesse sentido, j se anuncia o problema, que tambm est na parte III do livro, de se articular a linguagem filosfica com o tratamento dos problemas de um ponto de vista econmico, o que pressupe um conhecimento mais tcnico e analtico dessa rea). O mrito desse texto de Fausto o de sepultar crticas h muito conhecidas, crticas relanadas por Castoriadis: o conceito de trabalho em Marx naturalista, fisiolgico; h contradio em relao validade da lei do valor no pr-capitalismo e no capitalismo; a categoria de valor apenas metafsica tautolgica; no h rigor na teoria do trabalho socialmente necessrio; no clara a existncia dessas categorias para alm de jogos verbais etc. Mas seria possvel dizer que esses mitos j haviam sido desmascarados e esclarecidos por outros autores24 , o que verdade. Entretanto, por significativas que fossem essas respostas, a elas faltava o aparato da dialtica. No dizemos apenas que lhes faltava a expresso na linguagem dialtica, mas que a expresso nessa linguagem significa um avano no enfrentamento de tais questes - e aqui novamente que o texto de Fausto se destaca.
Entretanto, uma ressalva: mesmo que a interpretao de Marx que Castoriadis prope deslize em alguns momentos cruciais, seria exagerado dizer que Castoriadis se reduz lgica do entendimento. Que um autor que fazia duras crticas ao positivismo e aplicao indiscriminada da lgica conjuntitria (ensidique) no consiga sair de uma interpretao baseada no entendimento, surpreende. No se tratava da deficincia em criticar e compreender os limites do entendimento. O primiero motivo que, para praticamente todos os filsofos franceses da poca - e Castoriadis no diferente quanto a isso -, a dialtica seria apenas uma outra modalidade de lgica do entendimento. Ainda que essa seja uma via possvel de se criticar a dialtica, uma interpretao muito pobre. Junte-se a isso os mais variados vcios de interpretao sobre Marx. Castoriadis faria parte, enfim, daquele grupo de autores que queria ir alm de Marx, queria critic-lo, e nisso fazia bem, mas sem ter alcanado o real significado de sua obra, ou pelo menos de uma parte de sua obra. Ele no se confunde com os nouveaux philosophes, por exemplo, pois sua relao com Marx marcada por muito rigor e seriedade, porm ele, que foi to longe e obteve resultados to significativos na crtica da poltica, da economia e da filosofia de Marx, teria, em alguns momentos, ficado aqum de Marx25 . Assim, ele teria ultrapassado Marx, e realmente ultrapassou em muitos sentidos, mas sem necessariamente t-lo compreendido.
Se Castoriadis - para o qual no faltava o aparato necessrio para conhecer Marx em profundidade - enxerga a filosofia em O Capital, ele a v antes como m filosofia, como metafsica barata. Logo, no h espao para pensar filosoficamente a obra, pois sua interpretao tomada como uma recada na filosofia a despeito do que seria a vontade de Marx de super-la. Na verdade, seria possvel provar que a filosofia est em O Capital, mas pressuposta - negada dialeticamente. A filosofia no se torna sem mais crtica da economia poltica. Mas para entender como ela est l, preciso entender que no se trata de qualquer filosofia: da dialtica que se fala. Para a dupla Cartelier e Benetti, em seu livro Marchands, salariat et capitaliste, por outro lado, no h filosofia em O Capital. Esse problema, que parece ser menor, responsvel por grande parte das dificuldades enfrentadas pelos autores. Os dois economistas interpretam o livro como se ele fosse apenas um tratado sobre economia. Pode at ser que no afirmem isso explicitamente, mas assim que corre sua interpretao. tambm por isso que, assim como Castoriadis, eles afirmam que Marx caiu, ele, no fetichismo dos conceitos, quando, na verdade, Marx apresenta os conceitos fetichizados, pois assim que eles mesmos se apresentam na realidade social capitalista26 .
por causa dessa ausncia do registro filosfico em sua interpretao que, embora se trate de economistas rigorosos, eles teriam falhado justamente no mesmo procedimento em que os outros autores falharam: chegaram at a contradio, mas a recusaram e voltaram ao entendimento. Aqui o problema no apenas de ordem lgica, como com os outros autores (e, nisso, a soluo proposta por Fausto vai na mesma direo: trata-se de pr a contradio - mesmo que a discusso aqui seja muito mais intrincada), mas tambm de ordem, digamos assim, disciplinar. O fato de Marx ter transitado por diversas disciplinas - entre elas a Histria, a Filosofia, a Economia e a Sociologia - dificulta seu entendimento em um contexto de extrema especializao universitria. Pondo em outros termos: possvel compreender a crtica da economia poltica de Marx em termos puramente econmicos? A resposta negativa. Alis, essa deficincia das leituras parciais, focadas ou na economia, ou na filosofia, apontada na introduo primeira edio27 . Esse “tropeo” ainda comum, e demonstra que, mesmo que se ensaie um discurso inter e multi disciplinar na universidade, discurso que raramente posto em prtica, a recepo acadmica de um pensador como Marx , ainda hoje, deficitria desse ponto de vista.
Dessas trs crticas, temos uma exposio indireta da dialtica e de suas operaes. Fazendo assim, Fausto deixa de lado a apresentao linear, sequencial e ordenada do que seria a dialtica; antes, vemos a dialtica “em ao”, vemos como ela pode ser manejada, como ela pode ser aplicada - o que vale mais que infindveis explicaes escolares que poderiam correr o risco de simplificar um objeto que no se presta a esse tipo de apresentao. O mtodo de exposio adequado ao seu objeto - o que, em termos de dialtica, um detalhe que faz toda a diferena. Em breve recolho, temos algumas - aquelas que tratamos nesse texto - dessas operaes da dialtica: recusa da fundamentao primeira e recusa da recusa de fundamentao primeira, a avaliao dos momentos lgicos em termos de pressuposio e posio, o reconhecimento da contradio posta e o alerta para a possibilidade efetiva da interverso no pensamento conceitual.
-------------------------------------------------------------------------------------------------
Resta a pergunta: o que mudou nessa nova edio? Alm da inverso de ttulo e subttulo, houve alteraes de carter estilstico, mas tambm aquelas que vo alm.
Sobre os textos, houve modificao tanto em sua ordem quanto ocorreu a incluso de dois novos - que no so inteiramente novos, mas verses mais longas de escritos que j compunham a edio anterior. Assim, temos: uma nova introduo; a incluso do prefcio edio francesa de 1987; o estabelecimento da parte IV, constituda de um escrito extenso sobre o Jovem Marx (que vem para substituir as “Notas sobre o Jovem Marx” - que formavam o segundo apndice da edio antiga); e, finalmente, na nova edio, os apndices so: em primeiro, um texto sobre as Origens da Dialtica do Trabalho de Giannotti - texto que existia na verso original, mas de forma reduzida e como uma nota de rodap ao texto “Notas sobre o Jovem Marx” - e o trabalho “Sobre o Destino da Antropologia na Obra de Maturidade de Marx”, que estava presente na edio anterior, mas como apndice 1, e, agora, como apndice 2.
Partimos do comentrio da nova introduo. Da rememorao dos impulsos iniciais que resultaram no livro, Fausto aponta as continuidades e descontinuidades entre a obra e os estudos realizados nos dois seminrios uspianos da dcada de 1960 sobre O Capital. A propsito da opinio - crtica - do autor sobre os seminrios e sobre os recentes trabalhos historiogrficos em torno deles, veja-se, entre outros textos28 , a nota 3 da pgina 17, em que ele mostra uma srie de requisitos, ou de precaues metodolgicas para tratar da histria dos seminrios de maneira adequada. A rigor, houve e h muita mistificao em torno do que significaram e do que podem significar os dois seminrios sobre O Capital. H uma mistura de idolatria de uns com a nostalgia de outros que faz com que o objeto tenha uma recepo, ainda hoje, acrtica por parte dos mais jovens e, por isso, tenha um impacto muito negativo no imaginrio das novas geraes. Claro, no se diz que essas experincias no tiveram nada de positivo; entretanto, esse positivo brilha muito intensamente e ofusca os problemas. Qual foi o real impacto na vida nacional, naquele momento e posteriormente, em termos inteletuais e polticos, desses seminrios? As prticas polticas dali derivadas - a se diferenciar o primeiro do segundo - eram as melhores para aquele dado momento? Sem essas perguntas, difcil fazer um julgamento crtico. Tende-se a aumentar muito a repercusso real dos seminrios ao no pens-la em conjunto com o restante da histria brasileira do perodo - e, nesse sentido, vale dizer, talvez para a surpresa de alguns, que a histria da USP apenas uma parte da histria do Brasil. H crticas aqui e ali, mas ainda reina o clima de glorificao desenfreada: acreditamos que a postura de Fausto de apontar as debilidades dessas experincias , de longe, uma das mais, seno a mais lcida sobre o assunto.
Ainda na nova introduo, h a incorporao de alguns resultados em que o autor chegou durante as ltimas dcadas. Entre essas ideias, podemos citar: a radicalizao da crtica poltica a Marx e ao movimento marxista do sculo XX; a afirmao da importncia da lgica dialtica para a crtica do capitalismo; um esboo de crtica da dialtica; o reconhecimento, junto com essa perspectiva crtica, que a dialtica tem um potencial crtico regional, ainda que muito significativo; a insuficincia da categoria de modo de produo para uma teoria das formas sociais29 .
Se pudssemos acrescentar algo a esse novos resultados contidos na introduo, seria uma reflexo mais detida sobre os movimentos ditos de “minorias”30 . Afinal, se uma parte da nova introduo se dedica a mostrar aquilo que seria passivo de crtica na herana marxista, com certeza no se pode desprezar os aportes do movimento feminista, do movimento negro, do movimento LGBT e, em outra chave, dos movimentos indgenas. O autor fala de “crtica no plano [...] terico” e que uma dessas crticas seria sobre o “carter das lutas”31 , mas seria preciso ser mais explcito. Faz-se necessrio tematizar esses discursos, que so bem diferentes entre si. Essas questes - que continuam a ser tratadas como “menores” por marxistas mais ferrenhos32 , questes que seriam resolvidas mediante a abolio das classes - eram, e s vezes continuam a ser, consideradas apenas como “problemas pessoais”, ou como “problemas ticos”. Contudo, trata-se de poltica no sentido forte da palavra. De tica se se quiser, mas tambm de poltica. E, dessa forma, introduzem-se novas clivagens: se no queremos uma esquerda totalitria ou burocrtica, tampouco podemos nos aliar ou sermos coniventes com uma esquerda machista, racista, homofbica, colonialista etc.
A essa reflexo sobre as heranas polticas de Marx, adicionaramos tambm outra ideia. O autor diz que a crtica da economia poltica de Marx no pode ser desprezada em conjunto, que “se esta for entendida como crtica do “momento” socioeconmico da forma capitalista, ela continua significando muita coisa, embora no seja mais tudo o que pretendia ser, para Marx.”33 . Concordamos. Mas, novamente, preciso especificar bem em qual sentido ela pode significar muita coisa. Para isso, devemos indicar em quais sentidos ela no pode significar muita coisa. Em primeiro lugar, inevitvel realizar um minucioso trabalho tcnico que aliasse uma discusso econmica muito profunda com uma viso dialtica refinada, confrontando os resultados de outras correntes tericas com aqueles de Marx, alm de rever com muita cautela as propostas econmicas concretas feitas por Marx e Engels de forma esparsa em seus escritos. Isso, na teoria. No estudo das prticas, seria fundamental uma anlise da histria e da estrutura econmica dos pases que implantaram ideias baseadas no marxismo-leninismo e tambm das experincias social-democratas. Com esses estudos da teoria e das prticas, estaramos aptos a repensar a continuidade entre a teoria crtica da economia poltica e a prtica efetiva da realizao de um modo de produo alternativo. Provavelmente revisaramos as pretenses totalizantes da crtica e desaguaramos em prticas com objetivos menos simplistas e sem solues pr-fabricadas. Resumindo muito, acreditamos que, feito esse balano, chegaramos crtica da iluso de que seria possvel acabar com todas as mediaes - dinheiro e mercado, por exemplo -, mas que seria necessrio restringi-las para evitar a autonomizao dessas formas. Em outros escritos, o autor fala em frear o capital e salvar o momento da circulao simples. O caminho, em linhas gerais, esse, mas a discusso, como procuramos mostrar, mais extensa.
Alm da nova introduo, duas outras mudanas maiores foram a insero da parte IV e dos dois apndices. A parte IV, nova, composta do texto "Sobre o Jovem Marx". Nele, temos um breve comentrio sobre cada uma das obras do que se convencionou chamar de Jovem Marx, comentrio que procura apreender a dialtica presente nessas obras. Das muitas ideias expostas, destacamos trs. Primeiramente, ver como os Manuscritos partem de uma antropologia negativa e como, dessa forma, essa antropologia do homem negado - que traz o entendimento para primeiro plano, mesmo que a dialtica esteja l - serve-nos para ir alm do universo da dialtica clssica (em especial como esse movimento mostra uma possvel forma de reabilitao do entendimento) - a notar que essa interpretao contraria, corretamente, aquela da filosofia do jovem Marx como um humanismo sem mais ou aquela das insuficincias lgicas presentes nos Manuscritos em relao obra madura. Em segundo lugar, se pensarmos na tentativa do ltimo Lukcs, mas tambm de outros autores, de apresentar uma ontologia do ser social fundamentada no trabalho, veremos que, novamente, trata-se de uma leitura unilateral e que dispensa, mesmo se tratando de um grande autor dessa tradio, a dialtica. Sobre a relao entre marxismo e ontologia, mais do que uma fundao primeira, teramos que “o marxismo tem e no tem uma ontologia, tem uma ontologia pressuposta, “negada”. [...] Isto mostraria que o problema da relao entre o marxismo e a ontologia se resolveria de uma forma anloga ao da sua relao com a antropologia.”34 Soluo repetida, diriam alguns, mas, a nosso ver, ainda a melhor soluo interpretativa dentro dos quadros do marxismo clssico. Finalmente, em diversos momentos do livro, e em especial em algumas passagens interpretativas sobre as obras do jovem Marx, Fausto j aponta para um horizonte de crtica da dialtica clssica: ela corre o risco constante de se tornar uma anlise meramente formalista35 .
Dessas concluses sobre o jovem Marx, em especial de sua viso sobre os Manuscritos de 1844, Fausto possui uma avaliao crtica da obra As Origens da Dialtica do Trabalho de Jos Arthur Gianotti, avaliao que constitui um dos novos apndices do livro. Esse texto inicia um dilogo que ter repercusses significativas no destino do marxismo universitrio brasileiro. Se no pecamos pelo anacronismo, podemos dizer que j a se v em quais sentidos tericos - e tambm prticos e polticos - os autores iro divergir. Alis, resta a ser feita uma investigao mais demorada sobre essas divergncias de fundo lgico que culminaram em uma bifurcao: de um lado, a insistncia na dialtica - seja na sua forma clssica ou ps-clssica - como uma lgica rigorosa e, do outro lado, uma crtica da dialtica por meio do confronto entre contradio real e contrariedade - crtica que desemboca no abandono das teses dialticas em favor de um interesse pelas teorias de Wittgenstein.
Acerca da opinio fortemente negativa de Giannotti sobre o livro de Fausto, ver em especial a parte VI do artigo Dialtica Futuristas e outras Demos36 . O debate espinhoso e, para esclarec-lo, deveramos fazer grandes discusses de fundo lgico. Sem querer entrar nessa anlise mais profunda, apontaramos apenas que: primeiro, a contradio no se d em termos da lgica formal, mas se trata, antes, de uma contradio dialtica, o que nos remete a outro universo lgico (universo que Giannotti conhece, evidentemente, mas que ele procura confrontar com a ideia de “contradio real”, o que nos parece improdutivo se se quiser reconhecer a especificidade da dialtica - uma vez reconhecida essa especificidade, no descartamos a necessidade de comparar esses resultados da dialtica com aqueles de outras lgicas); segundo, por vezes a crtica de Giannotti direcionada a Fausto, o que confunde as coisas, isso porque o primeiro movimento de Fausto reconstituir a viso de Marx e, ento, apresentar a sua prpria. Contudo, a viso de Fausto sobre os resultados de Marx, e sobre a dialtica em geral, quase no esto presentes nesse primeiro tomo. Logo, diramos que no possvel ficar apenas no primeiro tomo da obra. H uma diferena entre criticar a interpretao que Fausto faz de Marx e criticar as ideias do prprio Fausto. Parece-nos que Giannotti mistura os dois momentos e nos oferece, como crtica da interpretao que Fausto faz de Marx, uma alternativa que parece passar ao largo da dialtica, o que, ento, remeteria, novamente, em uma recada no entendimento; as solues que ele apresenta escamoteiam as ideias dialticas - seria, ento, o caso de criticar a prpria dialtica? Mas, de novo, estaramos diante de uma crtica que no reconhece o potencial da dialtica? Em resumo: h tentativa de reabilitao do entedimento contra uma lgica que se utiliza de "linguagem especial" - ideia curiosa, j que a dialtica no imune crtica fora de seu terreno e nem apela para um tipo de crena a priori, mas procura mostrar, na apresentao de seu objeto, as contradies que ele encarna; isso dito, a ideia propriamente "escatolgica" de Marx da realizao plena do homem no comunismo uma utilizao possvel da dialtica, mas sua crtica, e Fausto o primeiro a faz-la, no invalida os procedimentos dialticos em si e tampouco a teoria dos juzos que esboada por Fausto.
Finalmente, quanto nova edio (pensando, digamos, na parte tcnica da edio): trata-se de um bom material. Nela, as notas de rodap esto na parte de baixo das pginas, e no no final de cada captulo (como na edio anterior), o que facilita a leitura - ainda mais se tratando de notas to complexas e necessrias para o entendimento geral do texto. H alguns poucos problemas de reviso, mas que no comprometem o andamento do texto e so facilmente corrigveis37 .
-------------------------------------------------------------------------------------------
A reedio de Sentido da Dialtica vem confirmar a fora do livro. Como procuramos mostrar, ele possui seu posto prprio, e muito original, nos estudos sobre Marx e a dialtica. Se o autor mantm um dilogo com a tradio marxista ao procurar reconstituir a lgica marxiana e criticar as falsas leituras, ele se distancia dessa mesma tradio ao no se preocupar apenas com a reconstituio, mas tambm com a crtica dessa lgica - crtica que, nesse primeiro volume, ainda incipiente38 , mas que retomada nos prximos tomos e em outros trabalhos. Em suma, ao colocar as interpretaes vulgares e tambm as interpretaes rigorosas mas insuficientes na mira, Fausto realiza um duplo movimento com maestria: apresentao e crtica da dialtica clssica. O que um verdadeiro tour de force, visto que a dialtica era, e ainda , pouco conhecida (ao menos em sua forma sria), e que ele consegue no apenas recuper-la, mas apontar um caminho que vai alm dela. Mostra-se como a dialtica pode ser algo mais que um mero jogo verbal, uma mgica, uma "prestidigitao de palavras", para usar a expresso de Edgar Morin. Dessa forma, acreditamos, apesar de algumas crticas pontuais, que se se quiser investigar as possibilidades e as limitaes da herana marxista e da dialtica clssica e desvelar as inmeras iluses que se apresentam nesses campos, o caminho apontado por Fausto - ainda que no seja o nico possvel - , entretanto, o mais fecundo.

    
    

 






























fevereiro #

9


ilustrao: Rafael MORALEZ

 



 



1 "La Dialectique et l'Action" (1958), Pour et contre Marx, Champs Actuel, Flammarion, 2012, p. 29


2 Ruy Fausto, Marx: lgica e poltica. So Paulo: Brasiliense, 1983, tomo I. H tambm uma segunda edio que data de 1987 e lanada pela mesma editora.

3 Idem, Sentido da Dialtica, Marx: Lgica e Poltica, tomo I, Vozes, 2015.

4 Vincent Descombes, V. Le Mme et l'Autre. Quarante-cinq ans de philosophie franaise (1933-1978), Paris, ditions de Minuit, 1979, p. 22-24.

5Idem, p. 93.

6 Ruy Fausto, op. cit., p. 34.

7 Essa , na verdade, uma terceira crise do marxismo. Fazendo uma esquematizao: a primeira havia ocorrido ainda no final do sculo XIX, seu personagem principal foi o revisionista social-democrata Eduard Bernstein; a segunda, nos anos 1930, em seguida s dificuldades trazidas pela revoluo russa e por um refluxodo movimento revolucionrio; a terceira, qual o livro se refere, deu-se nos anos 1960-1970 e teve seu pice em 1968; a quarta, e ltima, ocorreu quando da derrocada dos pases comunistas, ou seja, nos anos 1990. Em todas essas crises do marxismo, foi trazida para primeiro plano a discusso, e o questionamento, da dialtica.

8 Ruy Fausto, op. cit., p. 30

9 Edgar Morin, "La Dialectique et l'Action", Pour et contre Marx, Champs Actuel, Flammarion, 2012, p. 29. Para mostrar como, j poca, havia autores mais habilidosos no trato com a obra de Marx, assinalamos que o texto de Morin de 1958.

10 Luc Ferry et Alain Renaut. La pense 68. Essai sur l'anti-humanisme contemporain, col. "Le Monde actuel", Gallimard, Paris, 1985, p. 22.

11 Ver, a esse respeito, a entrevista de Foucault, "L'homme est-il mort?". Ao fazer uma considerao sobre o porqu de haver relaes necessrias entre dialtica e humanismo - porque ela recupera uma filosofia da histria, categorias como alienao etc -, Foucault termina dizendo que: "Os grandes responsveis pelo humanismo contemporneo so, evidentemente, Hegel e Marx." . In : Dits et crits I. 1954-1975. Paris : Quarto Gallimard, 2001, p. 541:

12 Pensemos nas crticas endereadas a Althusser por seu ex-aluno e colaborador Jacques Rancire - em seu livro La Leon d’Althusser, de 1973 - e, depois dos textos de Fausto, por Castoriadis - em Les crises d'Althusser. De la langue de bois la langue de caoutchouc -, de 1978, texto que foi integrado ao livro La Socit Franaise, de 1979. As duas se situam mais no nvel poltico do que num nvel propriamente lgico - ainda que haja questionamentos de ordem terica.

13 E notemos que se trata de uma reconstituio da resposta dada por Marx. O prprio autor tem opinio distinta sobre o assunto; ver, por exemplo, entrevista ao Valor Econmico dada em 2010 (presente em: <www.portaldomeioambiente.org.br/politica-ambiental/3027-por-uma-nova-esquerda-entrevista-com-ruy-fausto> - link acessado em 03.03.2016) e outras entrevistas compiladas no livro Outro Dia. . Logo, v-se que a resposta dos anti-humanistas seria impotente mesmo frente perspectiva marxiana original.

14 Louis Althusser, "Sur la Dialectique Matrialiste", Pour Marx, ditions La Dcouverte, Paris, 2005, p. 174.

15 Alm disso, os dois possuem em comum uma releitura ao menos altamente questionvel - se comparada aos grandes livros de historiografia que surgiram nas ltimas dcadas - da histria das revolues, sobretudo aquelas do sculo XX. No mais, essas complicaes so acompanhadas (muitas vezes, e mais no caso de Zizek do que no de Badiou) de uma linguagem sensacionalista e miditica. Por fim, h tambm a revalidao, ou pelo menos uma perigosa ambiguidade, frente a lderes revolucionrios controversos e autoritrios - para dizer o mnimo -, como Lnin, ou autocratas sanguinrios, caso de Mao (figura importante nas construes de Badiou) e Stlin (que mais trabalhado por Zizek). No se exclui que haja algo de aprecivel na longa bibliografia de Zizek e de Badiou. Contudo, a macro direo para a qual apontam suas reflexes prtico-polticas e ticas condenvel, assim como a leitura da histria das revolues. Logo, por mais que possam oferecer algo de interesse na teoria, seu lado prtico, em linhas gerais, muito criticvel. Alertamos, no entanto, que se trata de uma apreciao geral, seria preciso, como vem sendo feito na prpria Revista Fevereiro, analisar rigorosamente algumas das obras - pelo menos as mais significativas - desses autores e descobrir onde se encontram as formulaes problemticas destacadas aqui.

16 Em outro texto, com o qual estamos de acordo, Fausto diz que preciso "levar em conta o inumano" mas no - o que seria a posio dos anti-humanistas - assumi-lo sem mais. Ver "Na sequncia de meu texto "Esquerda/Direita: em busca dos fundamentos e reflexes crticas, e do seu postscriptum (como uma resposta a Vladimir Safatle)", Revista Fevereiro, nmero 6.

17 Essa ideia est esboada em linhas gerais, mas no muito bem desenvolvida, tanto em termos de forma quanto de contedo, em Ferry et Renaut, op. cit., p. 58-61 e 287-289. Um pequeno adendo: o uso de partes desse livro no significa que aderimos ao conjunto das teses e das crticas dos dois autores - e tampouco ao desenvolvimento posterior de sua filosofia. Ainda que essa obra tenha sido uma importante, e at certo ponto rigorosa, reao aos excessos do anti-humanismo francs, ela est repleta de pontos questionveis - e mesmo as crticas possuem tambm seus excessos. Em especial sobre o movimento de Maio de 68, o qual acreditamos que mal compreendido pelos autores, ver o texto "Les mouvements des annes soixante" de Cornelius Castoriadis (texto que se encontra em Carrefours du Labyrinthe 4: La monte de l'insignifiance). Apesar de questionarmos a falta de uma crtica poltica das microburocracias e das tendncias claramente autoritrias presentes no movimento de 68, entendemos que esse texto constitui uma elucidao das grandes confuses do livro de Ferry e Renaut sobre a articulao entre a histria poltica e a histria das ideias de Maio de 68.

18 Ruy Fausto, op. cit., p. 91.

19 Na nota 84, presente nas pginas 90 e 91, o autor admite, por um lado, as limitaes de identificar o anti-humanismo apenas com as posies polticas da esquerda autoritria e, por outro lado, de assimilar posio reformista uma ideologia humanista. Nesse sentido, Fausto ainda ventila a ideia de que o reformismo parece ter deixado completamente ou quase completamente de existir - ao menos no sentido clssico da palavra -, pois os que antes eram reformistas aderiram por completo aos horizontes postos pelo sistema. Mas ser essa a nica limitao desse conceito? Achamos que no. A noo de reformismo perdeu a validade no apenas por causa dos jogos polticos de certa esquerda, mas tambm porque ele se tornou um programa impossvel, ou pelo menos muito difcil de ser colocado em prtica em sua forma clssica (Sobre a estratgia reformista e sua derrocada, ver o importante livro de Adam Prezworski, Capitalism and Social-Democracy, Maison de Sciences de l'Homme et Cambridge University Press, 1985. Em especial, a parte "Postscript: Social Democracy and Socialism".). Em outras palavras, a derrocada do reformismo tambm fruto de condies objetivas que vo alm dos atores. A renovao necessria da esquerda - e, sobretudo, das prticas econmicas da esquerda - passa muito por um estudo dessas condies.

20 Maurice Merleau-Ponty, Humanisme et terreur, Oeuvres, ditions Gallimard, 2010, p. 200.

21 Cornelius Castoriadis, Les Carrefours Du Labyrinthe I, ditions du Seuil, collection Points, 2006.

22 A respeito desse ponto, lemos o comentrio na pgina 265 em que se diz que "se o discurso dialtico um discurso do conceito, ele o no sentido em que o "conceito" designa um objeto que existe tanto no pensamento como na realidade". Moishe Postone critica Castoriadis se utilizando de ideia muito prxima daquela de Fausto - ainda que fazendo uso de outra linguagem. Na pgina 171, nota de rodap 110 de seu livro Time, Labor and Social Domination: A Reinterpretation of Marx's Critical Theory, New York and Cambridge: Cambridge University Press, 1993, Postone diz que Castoriadis se engana em sua crtica, pois h, em Marx, crtica imanente do capitalismo, ou, nas palavras de Fausto, uma adequao entre a contradio ou a metafsica do discurso e aquela do real. Seria possvel questionar se realmente h contradio ou metafsica do real, se essa a melhor anlise etc. mas, antes, seria preciso entender a resposta de Marx. Finalmente, sobre as interpretaes que procuram imputar antinomias ao pensamento de Marx (no se exclue que elas existam, mas em geral, no se trata de antinomia subjetiva, mas, antes, de contradio objetiva), seria possvel dizer, com Postone, que "o incoveniente (drawback) desse tipo de apresentao [a apresentao de O Capital] que a abordagem reflexiva, imanente de Marx facilmente sujeita a interpretaes erradas. Se O Capital lido como qualquer outra coisa que no uma crtica imanente, o resultado uma leitura que interpreta Marx como afirmando aquilo que ele tenta criticar", trecho presente na pgina 142 do mesmo livro.

23 Ruy Fausto, op. cit., p. 193: "O mtodo ele prprio interior ao objeto, ele um momento deste. Por isso mesmo, no se tratar aqui de epistemologia, como se costuma dizer, entendendo a expresso, como se deve entender, como uma expresso que designa uma teoria subjetiva da cincia. Tratar-se-, na realidade, de lgica, entendendo-a como uma teoria da cincia que ao mesmo tempo teoria do objeto." Essa compreenso, que, a nosso ver, faz parte da ideia de crtica imanente, rebate as imputaes de fetichismo ao pensamento de Marx - feitas tanto por Castoriadis quanto por Benetti e Cartelier.

24 Pensamos em especial no livro de Isaak Rubin, A Teoria do Valor em Marx. Livro absolutamente notvel. H grandes convergncias entre as respostas dadas por Rubin e os resultados alcanados por Fausto. A despeito de suas diferenas de linguagem, Rubin mais prximo da economia (apesar de utilizar por vezes a ideia de pressuposio, entre outras) e Fausto mais prximo da tradio filosfica, as respostas dadas a muitos problemas so praticamente as mesmas. Crtica da concepo fisiolgica do trabalho; apresentao correta da validade lgica e histrica da categoria de trabalho abstrato; distino entre economia mercantil simples e economia capitalista; assuno da categoria de valor como "substncia social" etc. Fausto tambm comenta, mesmo que rapidamente, o que a tese central do livro de Rubin: a importncia da compreenso do carter fetichista da mercadoria para que se entenda o significado e a validade das categorias de valor e de trabalho abstrato. Enfim, se no h convergncia absoluta, diramos que h grande semelhana - ver, por exemplo, que os textos citados por Rubin e Fausto so muitas vezes os mesmos. H a um modelo do que pode ser uma articulao profcua entre uma anlise filosfica e uma anlise econmica. Diramos o mesmo, apesar das diferenas polticas, da anlise feita por Fausto e daquela de Postone. H divergncias, por certo; acreditamos, contudo, que se deve observar as inmeras convergncias entre os dois trabalhos - o que tentamos, em parte, fazer.

25 Seria preciso ler com cuidado o dizer, presente na pgina 187, que Castoriadis seguiu “em sentido inverso - volta clssica que se conhece bem desde Histria e Conscincia de Classe - o caminho que conduz de Kant a Hegel.”. Se isso verdade para sua leitura de Marx, no possvel extrapolar essa frase para alm dessa leitura especfica. Nesse sentido, tambm questionamos a ideia de que Castoriadis seja “tributrio” da “tradio filosfica” de razes kantianas (p. 157). A rigor, algo ainda pouqussimo estudado, Castoriadis, a sua maneira, procura instaurar uma nova lgica (chamada por ele de Lgica dos Magmas). Para isso, ele parte de uma crtica do positivismo, ou, mais, da lgica conjuntista-identitria (ensembliste-identitaire), da dialtica (ao menos em sua forma hegeliana e marxista) e tambm da tradio fenomenolgica - ainda que ele deva mais ltima do que segunda. O movimento de volta a Kant foi personificado de forma exemplar por Lucio Colletti, que trilha o caminho exatamente oposto ao de Fausto.

Nota sobre a retomada da “questo” lgica: o esforo por parte de vrios autores para repensar os limites do marxismo aps os acontecimentos do Maio de 1968 e o conhecimento e estudo das sociedades autoritrias e totalitrias formadas a partir de revolues ditas socialistas ou comunistas resultou em uma reflexo sobre a lgica - lembremos, para ficar em dois grandes, do prprio Castoriadis, como dissemos, e de Edgar Morin. Esse retorno lgica vem de reflexes do final nos anos 1960 e d frutos nos anos 1970 e 1980. No por acaso, tanto os textos de Fausto (desse primeiro volume, ver nota 9) quanto os de Castoriadis e Morin datam dessa poca. A diferena seria que, ao contrrio dos dois ltimos, Fausto prope uma retomada crtica da dialtica, e no uma recusa dela - caso de Castoriadis - ou seu acolhimento em um esquema terico mais amplo - como em Morin. Fica a se desenvolver essa relao de como a crise do marxismo ensejou uma “volta lgica” por parte de alguns autores da esquerda e de como essa volta ocorre de formas distintas.

26 Essa tese, que vem do livro de Postone, pode ser confimada tambm por algumas passagens do livro de Fausto. Alm daquelas citadas nas notas 20 e 21, ele diz, algo um pouco diferente, mas que converge com a concluso de Postone, que o estatuto da linguagem em Marx objetivo, na pgina 214 Assim, tem-se a articulao entre os dois elementos: a anlise imanente do capitalismo, que o apresenta como ele , necessita da utilizao de uma linguagem com estatuto objetivo.

27 Ruy Fausto, op. cit., p. 34.

28 Como as entrevistas "Filosofia Francesa, Esquerdas no Brasil e na Europa, Universidade brasileira" e "Seminrios sobre O Capital, Poltica brasileira, esquerda e universidade", pginas 186-199 e pginas 200-216, respectivamente, do livro Outro Dia, Perspectiva, 2009. Alm deles, tambm a resenha crtica "Adorno ou Lukcs?"(em especial as pginas 194-197), em A Esquerda Difcil, Perspectiva, 2007. Nos textos citados anteriormente, temos valiosos, ainda que breves, apontamentos crticos para esmiuar a histria dos dois seminrios. Alm disso, apontamos para o fato de que as recentes contribuies de trabalhos historiogrficos e sociolgicos sobre os seminrios, se j no incorrem na mitificao e na mistificao - que a grande parte dos participantes j denunciou em algum momento - de seus objetos, tampouco adotam uma postura crtica em relao a eles. A tarefa mais urgente a anlise crtica dessas experincias: o que foi vlido e o que no foi? O que se sustenta - e o que no se sustenta - naquelas obras? De outra forma, apenas se refora o mito de intelectuais brilhantes que leram Marx em um pas da periferia do capitalismo, mito que apenas ajuda a bloquear a reflexo.

29 Ruy Fausto, Sentido da Dialtica, Marx: Lgica e Poltica, Vozes, 2015, tomo I, p. 18-19.

30 Usamos essa expresso clssica como referencial, mas sabendo que ela questionvel. No se trata de minorias em sentido numrico, bem entendido, mas de grupos que so minoritariamente representados, sub-representados no espao poltico.

31 Ruy Fausto, op. cit., p. 18.

32 Esse claramente no o caso de Fausto. Veja-se, por exemplo, a nota 31 do tomo III de Marx: Lgica e Poltica. L, ele fala que “os progressos no plano da emancipao da mulher (e da liberdade sexual) so talvez, apesar dos limites das conquistas obtidas, os avanos mais importantes do sculo XX.”. No livro A Esquerda Difcil, na pgina 239, Fausto diz que “o feminismo, embora tambm no tenha escapado dos fundamentalismos, talvez o movimento que teve maior xito, e aquele cujos resultados representam da maneira mais ntida (...) o que pode haver de progresso autntico na histria do sculo XX e do XXI nascente.”. Por isso, diramos que no esquema do autor, o problema menos da ordem de rechaar essas lutas do que de tematiz-las de maneira forte. Por outro lado, muitas vezes aqueles que teorizam e tocam essas lutas - coletivos, movimentos sociais etc. - no tm uma viso clara dos perigos e riscos burocrticos e autoritrios que qualquer movimento corre e tambm, por vezes, abandonaram, ou pelos menos relegaram a um plano menor, a crtica do capitalismo e do produtivismo. H a necessidade real de estabelecer pontes entre esses discursos.

33 Ruy, Fausto, Sentido da Dialtica, Marx: Lgica e Poltica, Vozes, 2015, tomo I, p. 19.

34 Ruy Fausto, op. cit., p. 346. Grifo do autor.

35 Ruy Fausto, op. cit., p. 261 e 337-344.
Acreditamos que, na continuao desse esboo de crtica da dialtica clssica, seria preciso fazer uma reconsiderao das crticas dialtica - sem, necessariamente, assumir a posio de seus crticos. Essa crtica deve partir, alm de questes lgicas, do destino histrico da dialtica: ela foi, afinal, a lgica assumida como justificativa ideolgica de regimes autoritrios e totalitrios. Como foi possvel que uma lgica que, em sua acepo materialista, pretendia-se crtica tenha tido tal destino? Seria possvel falar pura e simplesmente em desvio, erro de interpretao - mas assim estaramos mais fugindo do problema do que tentando oferecer uma resposta rigorosa para ele. Que h uma afinidade oculta entre a racionalidade positivista e algumas formas autoritrias, j sabemos com preciso pelo menos desde a Dialtica do Esclarecimento. Mas quais seriam afinal as afinidades secretas da dialtica com determinadas formas de autoritarismo? Pergunta crucial e que deve estar no centro de qualquer projeto que pretenda fazer um balano adequado da dialtica clssica. No podemos separar a dialtica, que procura pensar o processo histrico, da prpria histria da dialtica, o que inclui tambm o uso da dialtica como retrica ideolgica. Assim, pensar o elo perdido entre a crtica do totalitarismo e a crtica da prpria dialtica, ou seja, entre a crtica poltica e a crtica filosfica, tarefa urgente. Evidente que isso vai de par com uma crtica no apenas do hegelianismo, mas igualmente do marxismo - que seria como que o portador da dialtica crtica clssica. Em uma das passagens de seu ensaio "Contedo da Experincia", presente no livro Trs Estudos sobre Hegel, Adorno diz, a propsito do uso dos elementos reacionrios da dialtica hegeliana para a construo da represso no regime totalitrio sovitico, que "A verdade dialtica se expe a tal abuso: sua essncia frgil." E, afinal, por que frgil a essncia da verdade dialtica?
Alm disso, h outra perguntas relevantes: quais os limites da dialtica? Como possvel saber a quais objetos ela se aplica? Quais objetos resistem a ela? O enfretamento dessas perguntas absolutamente fundamental para a reconstituio da dialtica.

36 Artigo de julho de 2000 presente em Novos Estudos CEBRAP, n 57, p.59-79 (que pode ser encontrado em: http://www.cebrap.org.br/v2/files/upload/biblioteca_virtual/GIANNOTTI_Dialetica%20futurista%20e%20outras%20demaos.pdf. Acessado em 04.02.2016). A propsito dessa crtica de Gianotti, ver tambm a breve resposta dada por Fausto no livro Conversas com Filsofos Brasileiros de Marcos Nobre e Jos Marcio Rego, p. 172-174. No poderamos deixar de citar o j clssico livro de Paulo Arantes, Um Departamento Francs de Ultramar. Estudos sobre a formao da cultura filosfica uspiana (Uma experincia nos anos 60), em especial o captulo V "Falsa conscincia como fora produtiva", no qual faz uma breve discusso, histrica, gentica e filosfica, das teses de Gianotti e Fausto. Finalmente, para um balano que acreditamos ser bem equilibrado - e que no se furta a fazer as discusses lgicas necessrias - das discordncias entre Fausto e Gianotti, ver Leda Paulani, "Ruy Fausto e o Pacto com a Dialtica". In: Ricardo Musse; Maria Isabel Loureiro. (Org.). Captulos do Marxismo Ocidental. So Paulo: Edunesp, 1998, p. 209-228.

37 Por exemplo, a nota 26, na pgina 35, tem o termo “altusseriano” que remete, entretanto, a Althusser; na pgina 53, abre-se um parntese na penltima linha, mas ele no fechado depois; na nota 61, pgina 72, notamos a ausncia de aspas para fechar a frase “o homem o capitalista”; na pgina 77, l-se “Com feito”, onde provavelmente a grafia correta seria “Com efeito”; na pgina 90, na quinta linha, v-se “” quando, na verdade, trata-se de “o”, sem acento; nota 85, pgina 92, as chaves esto no incio da frase, quando deveriam se iniciar em “De fato...”; a nota 158, pgina 134, traz a palavra eminentemente grafada como “enimentemente”; na pgina 145, h uma indicao de fechamento de aspas no final da frase “E como justificar...”, mas elas no tinham sido abertas anteriormente. Na pgina 159, trata-se do argumento ontolgico, e no de argumento "antolgico". Por fim, faltam as aspas iniciais antes de uma citao de Marx no final da pgina 168.

38 Ruy Fausto, op. cit., p. 23.