revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Daniel Golovaty CURSINO

A esquerda democrtica e o conflito israelense-palestino

 

A capacidade de distinguir o matiz o que diferencia a civilizao da barbrie
Oscar Wilde

 

O conflito israelense-palestino tem ocupado um lugar central nas disputas ideolgicas do Ocidente nas ltimas dcadas. Ao contrrio do que muitos imaginavam, o fim da Guerra Fria no foi seguido por uma poca de paz nas relaes internacionais. Os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 e a invaso do Iraque pelos EUA em 2003 ajudaram a reconstruir uma grande narrativa blica em nvel internacional, que tem sido reforada pelo “inverno islamista” que se seguiu chamada primavera rabe, iniciada em 2011. Para a direita neoconservadora, o discurso da “guerra de civilizaes” ganhou estatuto de evidncia. A civilizao ocidental, na qual teriam triunfado o capitalismo e as democracias liberais, ver-se-ia assediada pelo fundamentalismo islmico, um novo discurso totalitrio capaz de arregimentar o ressentimento de Estados e sociedades fracassadas contra o afluente Ocidente democrtico.
interessante notar que este discurso de guerra de civilizaes tambm reivindicado pelos movimentos extremistas islmicos, que apenas invertem-lhe os sinais. Para estes, toda a grande crise que atravessa as sociedades islmicas seria explicada pelo fato de que estas e, sobretudo, as suas elites, teriam se deixado contaminar pela ideologia materialista e hedonista do capitalismo ocidental. Os mais caros valores que a histria e a tradio teriam tecido nessas sociedades estariam corrompidos pela lgica das relaes mercantis. A guerra, ento, seria em primeiro lugar uma guerra cultural a ser travada contra o poder sedutor e corruptor do Ocidente capitalista. S assim as sociedades muulmanas poderiam recuperar suas glrias de um passado idealizado. A jihad seria seu mtodo. E o Isl a soluo.
Alm da “guerra de civilizaes”, h uma segunda narrativa que alimenta e, de certa forma, hipostasia o conflito israelense-palestino como o conflito central de nossa poca. Trata-se da tradicional narrativa antiimperialista de setores da esquerda marxista. preciso deixar claro que no me refiro aqui ao conceito de imperialismo e sua suposta vigncia no sculo XXI. Embora esse debate tenha sua importncia, a narrativa antiimperialista a que me refiro se caracteriza justamente por transfigurar os poderes limitados e os interesses geopolticos circunscritveis das grandes potncias capitalistas em verdadeiro princpio metafsico e globalizante que organiza o mundo e lhe confere coerncia e inteligibilidade. Refiro-me aqui, portanto, a uma espcie de “viso de mundo” que subsume a crtica marxista da economia poltica e sua descrio da dominao impessoal do capital. como se o capital deixasse de ser apreendido como “sujeito cego e automtico” e passasse a encarnar no “Imprio” e em seu “gendarme” israelense, operao pela qual a complexidade da crtica marxista deslocada por um binarismo primrio e maniquesta, no raro resvalando para o antiamericanismo e o antissemitismo.
No Brasil, assim como na maioria dos pases da periferia capitalista, o “antiimperialismo”, enquanto esquerdismo empobrecido, talvez seja ainda o maior responsvel por um grande nmero de distores histricas, equvocos conceituais e preconceitos ideolgicos dominantes nos meios de esquerda quando o tema Israel e a questo palestina. Para uma crtica consequente de tais distores, faz-se necessria, todavia, uma breve caracterizao estrutural do conflito israelense-palestino.
Em primeiro lugar, preciso desfazer o que talvez seja a me de todas as distores produzidas pelo antissionismo, tanto de esquerda quanto de direita, oriundo da mencionada “weltanschauung” antiimperialista, a saber: a assimilao, tanto conceitual quanto histrica, entre sionismo e colonialismo. Neste sentido, so sempre citadas pelos idelogos antissionistas as famosas declaraes de Theodor Herzl, pai fundador do sionismo poltico, sobre “uma terra sem povo para um povo sem terra” e sobre o Estado judeu como um baluarte da civilizao na “barbrie Oriental”. claro que Herzl era um homem de seu tempo, um burgus judeu-europeu que via no apoio das potncias colonialistas europeias a nica possibilidade de criao de um Estado judeu na Palestina, de modo que todas as suas gestes polticas junto s autoridades das potncias coloniais da Europa organizaram-se nos termos e nas categorias do colonialismo da poca.
Entretanto, um estudo, mesmo que sumrio, da biografia de Herzl e de seus propsitos e motivaes revela claramente que o que movia o lder sionista no eram interesses de ganhos materiais com qualquer empresa colonialista, mas sim a busca da soluo para a ento chamada “questo judaica”. Com efeito, Herzl abraou o sionismo somente aps desenganar-se com as expectativas de sucesso de assimilao dos judeus pelas naes europeias. Depois de cobrir como jornalista de um dirio vienense o famoso “affaire Dreyfus” na Frana, ele chegou concluso, pessoalmente dolorosa, de que o projeto dos judeus assimilacionistas, como ele prprio fora at ento, estava condenado ao fracasso e que os judeus europeus, tanto pela fragilidade de suas posies na sociedade e economia europeias, quanto pelo lugar especial que ocupavam no imaginrio ocidental, constituam a parte mais vulnervel na grande guerra civil em que sucumbiriam as naes da Europa. O sionismo surgiu para Herzl como uma soluo moderna, nacional, para o moderno antissemitismo, que no era mais nominalmente religioso, mas racial: um produto das contradies sociais e polticas que internamente dilaceravam os Estado-naes europeus e que os inclinariam em direo guerra. Em essncia, portanto, era um movimento de libertao nacional de um povo singularmente disperso. O apoio da Inglaterra poderia desempenhar, contingencialmente, apenas o papel de um vetor.
Alm disso, mesmo que Herzl fosse um colonialista empedernido, esse fato, em si, nada provaria a respeito de uma suposta “essncia colonialista” do sionismo. A adeso de uma parte importante dos judeus europeus, inicialmente minoritria, mas que historicamente foi ganhando importncia e vigor, demonstrou que o projeto sionista nada tinha de artificial. Ele foi uma resposta que pareceu plausvel a uma questo autntica e pungente dos judeus da poca; questo cuja dramaticidade a histria se encarregaria de demonstrar ser impossvel superestimar. Enquanto movimento nacional, progressivamente hegemonizado por uma esquerda militante e socialista, o sionismo foi capaz de reviver uma lngua antiga e criar um povo novo: os judeus israelenses, com toda sua diversidade, cultura e instituies. claro que - deveria ser desnecessrio dizer - tanto o sionismo quanto o Estado de Israel no s podem como devem ser criticados. Mas ao reduzir todo o movimento de libertao e reinveno de um povo a uma mera ideologia de dominao, o que certa esquerda faz com a palavra “sionismo” consiste numa deturpao e numa violncia to grandes quanto as que foram historicamente perpetradas pelo antissemitismo com a palavra “judeu”. Para os antissionistas, Israel passa a encarnar no o Estado soberano no qual um povo se v e se sente representado, e atravs do qual exerce o seu direito de autodeterminao, mas uma “entidade artificial”, a plasmao mais prfida do dinheiro e poder ocidentais. Nada menos do que o produto de uma conspirao imperialista para dominar os povos rabes. neste contexto que a destruio de Israel e o assassinato em massa de sua populao civil passam a ser, se no aprovados, ao menos aceitos como uma “opinio” legtima nos meios dessa esquerda dita “antiimperialista”, a qual, nessa questo, objetivamente, faz frente comum com a extrema-direita islamista.1 O bvio resultado poltico da mistificao antissionista o fortalecimento da direita israelense, que joga com a confuso entre a luta palestina por liberdade e autodeterminao e a destruio de Israel. Uma confuso que essa direita pode ser acusada de promover, mas que no inventou.
Contra isto, preciso afirmar, em primeiro lugar, que o conflito entre israelenses e palestinos o produto histrico do embate de dois movimentos nacionais pelo mesmo territrio. Trata-se, portanto, independentemente das sucessivas variaes na correlao de foras entre os contendores, de um conflito estruturalmente simtrico entre duas poderosas narrativas igualmente legtimas. Estabelecer essa legitimidade histrica do sionismo e do Estado de Israel no tem nada a ver com a pretenso de justificar crimes e grandes injustias que foram e continuam sendo perpetrados contra o povo palestino por este Estado. O que se trata aqui de tornar claro que tanto a Nakba quanto a ocupao no foram o resultado inevitvel de uma suposta “essncia” colonialista, expansionista ou mesmo racista do sionismo, mas produtos circunstanciais de guerras e de disputas polticas internas a ambos os movimentos nacionais.
Aps a Guerra dos Seis Dias (1967) o conflito rabe-israelense aumentaria em complexidade. sua estrutura simtrica, acima referida, viria somar-se uma camada claramente assimtrica: a ocupao israelense da Cisjordnia e Gaza colocaria territrios densamente povoados por rabes-palestinos sob ocupao militar de Israel. Precisamente nessa camada assimtrica que iria se alicerar o giro discursivo empreendido a partir da por todo o bloco alinhado a URSS na Guerra Fria. O sionismo definitivamente deixava de ser entendido como um movimento de libertao nacional e o direito de autodeterminao israelense passava a ser deslocado, quando no simplesmente anulado, pelo discurso da “entidade sionista”, que no passaria de um “enclave artificial” imperialista no Oriente Mdio. Todos os significantes clssicos do antissemtismo moderno: “superpoder”, “dominao mundial”, “conspirao”, “parasitismo”, “artificialidade”, “desenraizamento” “belicismo”, “racismo”, “controle da mdia”, etc., seriam deslocados para o significante “sionismo”, o qual passaria ento a condensar em si uma nova verso, palatvel a certa esquerda, da demonologia antissemita. Novamente, os judeus (ou uma parcela deles) eram desumanizados por um discurso que os reduzia a uma abstrao,2 com o que se abria espao, talvez pela primeira vez, para os movimentos comunistas do mundo inteiro reivindicarem a destruio de um pas.
O fim da Guerra Fria no abalaria fundamentalmente a ideologia antissionista. No Oriente Mdio, como sabemos, o fundamentalismo islmico vem progressivamente ocupando o vcuo de poder deixado pela falncia das ditaduras nacionalistas rabes e renovando a antiga retrica antiimperialista, agora, como j vimos, traduzida nos termos de uma guerra de civilizaes. No Ocidente, embora a esquerda antiimperialista tenha perdido o referencial positivo, mesmo que ilusrio, de um movimento revolucionrio internacional, a viso de mundo antiimperialista - calcada, como sempre foi, no dio ao inimigo absoluto - no foi abandonada, mas se rearticulou no interior dos movimentos antiglobalizao e no apoio acrtico a setores do extremismo islmico, que passaram a figurar como uma vanguarda do “campo antiimperialista” - o nacionalismo rabe sendo substitudo pelo “eixo da resistncia”: Ir, Hezbollah e Hams.
Atravs deste ltimo deslocamento, a causa palestina continuou a figurar como a questo maior, emblemtica, dos movimentos “antissistmcios” do mundo todo. Como o leitor j dever ter percebido, meu argumento aqui que esta aparente universalidade da questo palestina - a qual, no h o que discutir, uma questo legtima, grave e urgente - no se deve tanto abominvel ocupao imposta aos palestinos por Israel, mas ao fato de que essa ocupao em particular tornou possvel a rearticulao, agora no mais apenas no Ocidente, de uma nova e abrangente narrativa maniquesta e pseudoemancipatria. O antissionismo, enquanto condensa em si um mtico discurso antiestablishment, reviveu a antiga “questo judaica”, este fantasma persistente produzido pela “dialtica do esclarecimento”.
Mas o fantasma da modernizao capitalista bifronte. Como bem demostrado por Hanna Arendt, o moderno antissemitismo o irmo gmeo, o duplo internalizado, do racismo contra os povos de origem colonial. Esse preconceito contra o brbaro “irracional e violento”, incapaz de compreender o apreo que somente os brancos ocidentais teriam pela dignidade e liberdade humanas, abandonou, em parte, o antigo apelo biologia e se reconfigurou como luta cultural, vislumbrando no Isl militante o seu grande inimigo e no Estado de Israel (ironicamente “branqueado”) o seu maior campeo. A isto ainda vem se somar, sobretudo nos Estados Unidos, o apelo messinico-escatolgico do chamado “sionismo cristo”, um tipo de fundamentalismo difuso assente em mitolgicos paralelismos entre a excepcionalidade americana (“destino manifesto”) e a judaica (“farol para os povos”) e que rel a hegemonia ocidental enquanto superioridade de um judeu-cristianismo idealizado.
Por todo o acima dito, penso que a soluo do conflito israelense-palestino passa, inicialmente, pela desativao dos mecanismos ideolgicos responsveis pela inflao desse conflito - mecanismos estes que lhe conferem, em parte, uma dimenso de conflito vicrio. Tal tarefa impe a israelenses e palestinos, a judeus e rabes, que se dispam de suas fantasias ideolgicas emprestadas, para que possam apreender, com sobriedade, aquilo que verdadeiramente os ope entre si. S assim podero tambm vislumbrar aquilo que, eventualmente, poderia uni-los.
Em outras palavras, preciso desativar a dimenso vicria do conflito e, ao mesmo tempo, procurar resolv-lo em sua dimenso real, que dupla. E por que dupla? Porque, como procurei ressaltar, alm da dimenso simtrica de embate entre dois movimentos nacionais igualmente legtimos, este conflito tambm, e simultaneamente, um conflito assimtrico que ope um povo ocupado e que luta por sua liberdade a um Estado ocupante e opressor. O ponto a se atentar que ambas essas dimenses (simtrica e assimtrica) no esto claramente separadas, mas, ao contrrio, se confundem tanto subjetiva quanto objetivamente. Uma confuso que nada tem de neutra, atuando decisivamente no sentido da polarizao ideolgica e da perpetuao da guerra.
Quando o Hams lana foguetes sobre as principais cidades israelenses e organiza atentados terroristas dentro de Israel, ele visto por grande nmero de palestinos como o nico grupo que responde legitimamente violncia da ocupao israelense. Ele tambm apoiado por palestinos que querem vingana e o triunfo da bandeira do Isl atravs da destruio de Israel e do “inimigo sionista”. Ambas as atitudes coexistem e nem sempre possvel separ-las claramente.
Quando Israel retalia, bombardeando alvos do Hams em meio populao civil palestina, matando e ferindo grande nmero de civis, uma parte dos judeus israelenses apoia as aes do exrcito porque quer o resgate da “Terra de Israel completa” ou porque no consegue enxergar nos palestinos nada alm do velho e terrvel inimigo antissemita. Outra parte dos judeus israelenses, que em princpio estaria disposta a reconhecer os direitos nacionais palestinos com a criao de um Estado palestino ao lado de Israel e que gostaria de conviver com os vizinhos em paz, tambm apoia a tsahal3 por estar convencida de que no h outro modo de combater o terrorismo islmico que objetiva a destruio de Israel. Pensando primeiramente em sua segurana, esta parcela da populao desvia o olhar ante os crimes de guerra israelenses ou, em negao, procura se convencer de que Israel seria forado a agir da forma brutal que age e que a culpa pelas mortes de civis caberia exclusivamente ao Hams. Novamente, ambas as atitudes coexistem de um modo que nem sempre possvel discerni-las claramente4 . Quanto mais indiscriminada a violncia de lado a lado mais ela refora os extremistas que, em ambos os lados, retiram a sua fora e legitimidade justamente do enfraquecimento da capacidade de discriminar, apostando na homogeneizao e na desumanizao do povo inimigo. O resultado um circuito fechado de medo, dio e vingana que se retroalimentam; circuito que favorece o surgimento de fascismos e fundamentalismos e que, inversamente, isola e enfraquece as foras democrticas que em ambos os povos poderiam aliar-se na luta por uma paz justa.
Uma crtica frequente de setores de esquerda caracterizao acima que no seria lcito estabelecer uma simetria entre a violncia do Hamas e a de Israel. Israel um Estado opressor enquanto o Hamas seria um movimento de libertao nacional de um povo oprimido. E no se poderia censurar um povo oprimido por seus mtodos de luta, quaisquer que sejam estes mtodos. Creio haver aqui um conjunto fatal de confuses. Em primeiro lugar, impe-se a pergunta: seria o Hams realmente um movimento de libertao nacional palestino? No h dvida de que ele est baseado na Palestina nem de que composto por palestinos. Mas isto no suficiente para que ele seja caracterizado como um movimento nacional, na medida em que s nacional um movimento que traz em si um projeto determinado de nao. Ora, o Hams surge e ganha fora justamente no processo de crise do nacionalismo rabe e palestino, quando este comea a se decompor e a perder a primazia para o fundamentalismo islmico, o qual tem por referncia maior no mais qualquer nao rabe particular, mas a Umm, o conjunto dos fiis, a “nao” islmica. esta essncia islamista do Hams que imprime sua luta contra Israel um carter no mais nacional, mas claramente de dever religioso de resgate da terra islmica (wafiq); dever este que s seria realizado com a destruio de Israel (“entidade sionista”) e a criao de um Estado Islmico em toda a Palestina histrica.
Ainda menos sentido faz classificar o Hams como movimento de libertao, pois no basta ter como inimigo um Estado que promove uma ocupao para adquirir um estatuo libertrio. Aqui necessrio enfatizar o bvio: movimento de libertao aquele que luta pela liberdade. E no h qualquer liberdade no horizonte do Hams, apenas uma ditadura obscurantista cujo estabelecimento pressupe o genocdio de outro povo. Portanto, com relao ao Hams, nem sequer se coloca o problema clssico das lutas de libertao, aquele da ocasional contradio entre meios violentos e fins: “paz”, “justia” e “liberdade”, pois no h contradio alguma entre os meios e os fins desse movimento fundamentalista - seus fins apontam claramente para a destruio de Israel e dos judeus israelenses (o Hams abertamente antissemita), sem qualquer distino entre combatentes e civis. evidente que o terrorismo o meio adequado a esses fins.
verdade que a fora do Hamas vem, em grande parte, da perenizao da ocupao imposta por Israel. compreensvel - e aqui no vai nenhuma justificao do terrorismo - que crianas e jovens que dos israelenses s conhecem os soldados armados de tanques e de fuzis e as bombas que periodicamente caem do c - e que vivem um cotidiano de cerco, desesperana e humilhao -, sejam atrados pela propaganda de fora e de vingana do Hams, bem como pelo “Deus grande” (“Alah Akbar”) que levar finalmente a destruio aos seus opressores e aos inimigos do Isl. No h dvida de que o martrio e seu culto da morte podem aparecer como uma sada reta e sedutora do labirinto de medo e impotncia em que a ocupao israelense transformou a vida do povo palestino. Mas dizer que o fundamentalismo islmico se alimenta da injustia e da opresso no o mesmo que dizer - como j aludi acima - que ele luta no sentido da justia e da liberdade. Em guerras, a lucidez frequentemente se transforma em artigo escasso e precioso. E, muitas vezes, mais precioso ali onde, por razes compreensveis, ele mais escasso: entre os oprimidos. O niilismo terrorista no apenas ilude os palestinos com suas falsas promessas de redeno, mas tambm lhes rouba o que talvez seja a sua arma mais poderosa: a superioridade moral da luta de um povo por liberdade - luta que se determina na medida em que elege seus fins e discrimina seus meios - o que outra forma de dizer que a violncia indiscriminada jamais ser um meio para a luta por liberdade e por uma paz justa. O direito internacional, que reconhece a legitimidade da luta de resistncia opresso e que condena a ocupao israelense o mesmo que reconhece o direito de Israel existir e que veta o uso da violncia terrorista contra civis. Em sua luta por independncia, os palestinos tero que escolher entre um e outra, pois no h conciliao possvel entre o direito e o terror.
Portanto, preciso que no haja qualquer conivncia da esquerda democrtica e verdadeiramente internacionalista com a palavra de ordem criminosa que clama pela destruio de Israel. Pois h que se ultrapassar todos os limites do fanatismo ideolgico ou, inversamente, do cinismo (ambas as coisas no se excluem necessariamente) para sustentar que, aps a destruio da “entidade sionista”, com o auxlio dos movimentos islamistas e das ditaduras da regio, se formaria um Estado nico e democrtico com os judeus que, porventura, sobrevivessem tal “soluo”. Eis a o delrio ideolgico do “Estado nico e democrtico ps-Armagedon”, perto do qual a antiga consigna stalinista da destruio dos kulaks “enquanto classe” ganha ares de honestidade e sensatez.
Uma vez excluda a noo farsesca do “Estado nico e democrtico”, preciso que atentemos para aqueles que fazem uma defesa honesta dessa posio, pois h bons argumentos para isso. Judeus-israelenses e rabes-palestinos no se encontram rigidamente separados: cerca de 20% da populao de Israel (dentro da linha verde) formada de rabes com cidadania israelense, muitos dos quais (talvez a grande maioria) se identificam muito mais com a nao rabe-palestina do que com o Estado de Israel; tambm nos territrios palestinos ocupados h cerca de 500 mil colonos judeus, e seria muito difcil (irrealista, para muitos) a evacuao desses assentamentos e a transferncia de toda sua populao para dentro a linha verde;5 o territrio em disputa muito pequeno e h uma srie de problemas concretos (por exemplo, gesto da gua e da cidade de Jerusalm, questes de segurana, etc.) que necessariamente envolveriam algum tipo de colaborao condominial. Por fim, e no menos importante, h a questo dos refugiados palestinos da guerra de 1948, cujo direito de retorno, se implementado na ntegra, obviamente inviabilizaria qualquer soluo de dois Estados. Entretanto, se as razes em prol da soluo de “um Estado” so boas, foroso reconhecer que elas esbarram na rocha das identidades nacionais. Naes no nascem de solues racionais para dilemas polticos e geogrficos, mas do sentimento de pertena a comunidades de origem e/ou de destino. Comunidades imaginadas enquanto coletividades humanas que compartilham memria e cultura, bem como o desejo de construir um futuro comum. A histria nos mostra o quo delicados e perigosos so os arranjos polticos plurinacionais. Mesmo numa regio prspera e pacificada como a Europa, temos visto nas ltimas dcadas a emergncia de movimentos nacionais separatistas. Particularmente no Oriente Mdio, desde o fim do domnio colonialista anglo-francs, a histria das relaes polticas entre diferentes naes e grupos etno-religiosos tem sido, em grande parte, uma histria de opresso, guerras e massacres, que no tem feito seno se agravar at os dias que correm. Nesse contexto, pretender unificar sob um mesmo Estado dois povos que h um sculo esto em guerra - e numa guerra (nunca ser demais sublinhar) que tem assumido para ambos uma dimenso existencial - no parece ser algo minimamente factvel. J que estamos tratando de uma proposta de unio que seria democrtica, ento incontornvel a existncia de duas precondies: confiana recproca e vontade poltica de coabitar em um mesmo Estado. Duas coisas muito fceis de entender, mas muito difceis de serem construdas.
Para todos os que defendem uma soluo do conflito baseada em princpios democrticos e nos direitos humanos, a soluo de dois Estados se impe, portanto - ao menos no curto prazo - como algo incontornvel, pois a nica soluo que atende aos legtimos anseios de autodeterminao e segurana de ambos os povos. E quando falamos em direito de autodeterminao - um direito democrtico que foi historicamente compartilhado por direita e esquerda oriundas do iluminismo - preciso ficar claro que no tratamos aqui de um direito menor, pois envolve, positivamente, uma dimenso essencial da condio humana, que a dimenso de autoafirmao poltica dos agrupamentos culturais, isto , a dimenso humana da pluralidade. E, “negativamente”, o direito em tela tambm envolve algo primordial, que o direito dos povos a viverem livres da ameaa da morte violenta. Neste ponto emerge outra assimetria, pois quando falamos em segurana, falamos de um problema de todos, mas que, quando se trata da questo nacional, afeta desigualmente os agrupamentos humanos na medida mesma em que estes se diferenciam numericamente em maioria e minoria. Aqui h que deixar claro a maior vulnerabilidade demogrfica dos judeus israelenses, os quais constituem na regio uma minscula minoria em face do vasto mundo rabe e islmico; uma minoria que, uma vez privada do direito de ter um exrcito prprio, remanesceria inerme, sem quaisquer meios de autodefesa. Para a grande maioria dos judeus israelenses (e no s israelenses), esse ponto de tal modo decisivo que torna para eles, ao menos no presente momento, a soluo de Estado nico simplesmente inconcebvel.
Uma vez que chegamos concluso de que no h alternativa para a soluo de dois Estados, surge a inevitvel pergunta de como resolver a pungente e delicada questo dos refugiados palestinos. Por um lado, o direito internacional lhes faculta o direito de retorno. Por outro lado, o mesmo direito internacional tambm reconhece o direito dos judeus-israelenses autodeterminao e a viver em segurana. Diante de qualquer avaliao realista, ambos os direitos apresentam-se como francamente incompatveis. Nesses casos, de choque de direitos, a histria, como sabemos, costuma dar a ltima palavra ao lado mais forte. Mas no fatal que seja assim, pois existe a possibilidade - tambm prevista no direito internacional - de soluo negociada, pela qual o retorno literal pode ser substitudo por indenizaes adequadas e reassentamento dos refugiados nos territrios destinados ao futuro Estado da Palestina, ou, alternativamente, em outros territrios que estariam abertos a sua escolha.6 Em qualquer soluo minimamente justa, Israel ter que reconhecer sua parte de responsabilidade pela Nakba e cumprir com suas obrigaes materiais e simblicas de reparao. Por outro lado, os palestinos tambm tero de reconhecer que o sonho de retorno s terras originrias da Palestina histrica um sonho impossvel, pois traduz o desejo irrealizvel de anular o tempo e de apagar do mapa a histria do sionismo e de Israel.
Diante do impasse instalado, de um lado, pelo domnio avassalador da direita israelense, a qual rejeita a criao de um Estado palestino vivel nas fronteiras anteriores Guerra dos Seis Dias e, de outro, pela hegemonia cada vez maior do Hamas nos movimentos de resistncia palestina, boa parte da esquerda ocidental, progressivamente, tem visto no movimento BDS (Boycott, Disvestiment, Sanctions) uma grande oportunidade de apoiar a causa palestina. Traando um claro paralelo entre Israel e o antigo regime de apartheid da frica do Sul, o BDS sustenta que o remdio que foi eficaz contra o beres pode perfeitamente funcionar tambm contra os sionistas. Defendendo um boicote total e indiscriminado a Israel (sem diferenciar entre o que seria territrio legtimo israelense e o que seriam territrios palestinos ocupados) o BDS pretende atingir trs objetivos: a) fim da ocupao de Gaza e Cisjordnia; b) fim de um conjunto de leis vigentes em Israel que privilegiam cidados judeus em detrimento de sua populao rabe; c) retorno dos refugiados palestinos ao que considerado hoje pela maioria da comunidade internacional territrio israelense. Formado por palestinos e alegadamente no violento - em seus sites o movimento enfatiza que sua atividade voltada exclusivamente contra as instituies israelenses e no contra os israelenses enquanto pessoas -; o BDS solicita o apoio de pessoas, movimentos e instituies de todos os pases do mundo para obter xito em seus objetivos polticos. Aps anos de prepotncia israelense e de fracasso de todas as tentativas de negociao grande o impulso que move no apenas a esquerda, mas todos os movimentos democrticos do mundo no sentido do apoio enftico ao BDS. E, de fato, este movimento j coleciona algumas importantes vitrias.
A argumentao oficial israelense (hasbar7 ) contra o BDS, em geral, no convincente. Primeiramente, existe a tentativa canhestra de tach-lo sumariamente de antissemita, comparando-o a outros movimentos do passado, quando o antissemitismo ensejava boicotes infames contra judeus. No h dvidas de que grupos antissemitas podem aderir ao BDS, mas o movimento em si, como j foi assinalado, no visa os judeus enquanto judeus, mas um Estado que viola direitos. Seu objetivo declarado no a discriminao negativa de judeus, mas, ao contrrio, a obteno da igualdade entre rabes-palestinos e judeus-israelenses, atravs de presses legtimas pelo cumprimento de disposies do direito internacional e de resolues da ONU. Mais persuasiva a alegao dos opositores do boicote de que muitos de seus apoiadores e promotores estariam discriminando o Estado judeu atravs do exerccio de um duplo padro moral. , sem dvida, irnico e um tanto perturbador observarmos intelectuais e artistas europeus e estadunidenses exigindo, contra seus colegas israelenses, a adoo de sanes que jamais sequer cogitaram aplicar contra si mesmos. No mesmo sentido, nos so citadas as inmeras minorias que, em todo o mundo, so oprimidas sem que igualmente se proponha qualquer medida anloga contra os Estados que as oprimem. Poderamos aqui lembrar da Rssia em relao aos chechenos; da Turquia em relao aos curdos; da China em relao aos tibetanos e uigures; de muitos pases rabes e islmicos em relao s suas diversas minorias no rabes e/ou no islmicas, e (por que no?) do Brasil em relao aos seus ndios, mas tambm aos seus cidados negros, habitantes de favelas e das periferias de grandes centros urbanos. Segundo muitos de seus opositores, o crescente apoio ao BDS se deveria, em grande parte, ao impulso inconfessvel de deslegitimar Israel, transformando-o em um Estado-pria, “o judeu entre as naes”. O problema, neste caso, com o argumento do double standard que ele reduz a lgica da ao poltica do julgamento moral. evidente que existe um aspecto moral na raiz do BDS, mas o que o torna efetivo no , necessariamente, a alegao de que Israel seria pior do que outros Estados opressores, mas o fato de que os palestinos (e no outros grupos oprimidos) esto conseguindo se organizar e dar aos boicotes viabilidade prtica. O mesmo fizeram os negros sul-africanos no passado e nada impede que, futuramente, outros grupos oprimidos sigam esse caminho.
Entretanto, o leitor que acompanhou at aqui o argumento central deste texto certamente notar que existe, tambm no BDS, uma armadilha que, a bem de ambos os povos envolvidos neste conflito, imperioso evitar. Em princpio, no h nada de errado com a ideia de boicote como forma de presso poltica. Muito ao contrrio, usada de maneira inteligente, ela sem dvida encontraria entre seus apoiadores muitos judeus, no apenas da dispora, mas tambm de Israel. O problema aqui que os boicotes propostos pelo BDS, ao invs de isolar o campo rejeicionista israelense e fortalecer a oposio judaica democrtica, acabam tendo o efeito inverso, pois reforam aquele carter de indeterminao do conflito que, como j foi dito, tem contribudo para sua exacerbao e perenizao. E isso ocorre porque o BDS pugna por boicotes que so indiscriminados em seus meios e ambguos em seus fins. Com efeito, ao invs de propor um boicote contra a ocupao8 -, a tudo o que produzido nos territrios ocupados e a tudo que com ela se relaciona econmica e militarmente -, o BDS prope boicotes contra todas as instituies israelenses, incluindo as universidades e instituies culturais. Pretendendo transformar, de modo generalizado e indiscriminado, virtualmente todos os israelenses em prias, incluindo os intelectuais e artistas, o que o BDS faz, mesmo que no intencionalmente, reavivar e fortalecer o discurso antissionista e, no fundo, antissemita, da “entidade sionista” e da destruio de Israel. Isso ainda reforado pela ambiguidade subjacente ao objetivo final do BDS, que estabelece como meta o retorno integral dos refugiados palestinos para onde hoje considerado territrio israelense, o que transformaria totalmente a composio demogrfica da regio, pois criaria uma ampla maioria rabe mesmo dentro de onde hoje Israel, inviabilizando, portanto, a soluo de dois Estados para dois povos. Como acredito j ter argumentado acima, qualquer soluo de Estado nico que seja imposta por uma das partes inaceitvel e deve ser combatida por todas as foras democrticas. Sobretudo num contexto em que a parte que pretende forar tal unio a mesma que ficaria em ampla maioria, impondo, portanto, parte adversria uma condio crnica de nfima minoria indefesa. Some-se a isto o fato de que o Oriente Mdio a regio do mundo onde, nas ltimas dcadas, tem grassado um antissemitismo radical e de abrangncia de massas, o qual importou todos os temas e “solues” sobre a questo judaica do antissemitismo europeu e mesmo do nazismo. Portanto, o resultado final do programa do BDS deixaria os judeus israelenses numa condio talvez to vulnervel quanto a dos judeus europeus antes da catstrofe que os dizimou.9
A memria tem um peso imenso no conflito israelense-palestino. A sua sistemtica manipulao por cnicos e demagogos no deveria nos fazer negar esse fato. A vulnerabilidade demogrfica e geogrfica dos judeus israelenses no contexto regional deveria ser reconhecida por todos os que lutam contra a ocupao. O mesmo em relao ao antissemitismo, que h muito vem parasitando a luta palestina por liberdade e autodeterminao. Tal reconhecimento, sem dvida, teria um efeito poderoso em favor da luta contra a manipulao da memria da Sho por nacionalistas judeus inescrupulosos. Por outro lado, os judeus israelenses e da dispora devem reconhecer a evidente conexo entre a violncia estrutural da ocupao e o fortalecimento do extremismo islmico. O compreensvel temor por sua segurana no pode continuar servindo de libi para dar apoio s foras reacionrias, racistas e antidemocrticas dentro de Israel. At porque, no longo prazo, a continuidade da ocupao o que constitui a maior ameaa segurana e mesmo existncia de Israel. Tambm preciso dialogar com o BDS. Discordncias, mesmo que importantes, em relao a parte de seus mtodos e de seu programa no podem servir de pretexto para negar legitimidade a este autntico movimento palestino. O nico movimento - diga-se - que tem obtido algum xito aps todas as tentativas de dilogo fracassar.
Tanto em Israel quanto nos territrios palestinos h movimentos e pessoas identificados com a democracia, o laicismo e a obteno de uma paz justa. O mesmo ocorre com as respectivas disporas. necessrio que esses grupos atuem no sentido de combater a confuso objetiva e subjetiva que, como tentei salientar, no tem feito seno favorecer a polarizao e os extremismos nacionalistas e fundamentalistas. Para tanto, preciso, sobretudo, que sejam estabelecidos objetivos comuns muito claros,10 bem como os mtodos de luta adequados e legtimos para alcan-los; mtodos que devem fazer justia dupla dimenso desse conflito, atravs da seguinte frmula: “no falar de paz sem falar de luta contra a ocupao. E no falar de luta contra a ocupao sem falar de uma paz justa e do respeito autodeterminao de ambos os povos”. No h dvidas de que com tais precises (de princpios, objetivos e mtodos) haver defeces em ambos os lados, pois ambos perdero muitos de seus falsos amigos. Mas esse ser o preo a pagar para que os democratas e pacifistas palestinos e israelenses, judeus e rabes, possam se apoiar reciprocamente, estabelecendo na prtica a unidade sem a qual dificilmente podero conquistar a paz, a liberdade e a segurana que buscam para seus povos.

 

    
    

 






























fevereiro #

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ilustrao: Rafael MORALEZ

 



 


1 E aqui no vai qualquer exagero. Veja-se a seguinte nota do PSTU por ocasio da ltima guerra entre Israel e Hizbollah: “As organizaes da esquerda mundial devem responder claramente s seguintes perguntas: estamos a favor de que a atual guerra se desenvolva at derrotar completamente o exrcito sionista e o Estado de Israel? Estamos a favor de que as aes contra a populao do enclave colonial (grifo meu) israelense por parte do Hizbollah, do Hamas e da Jihad Islmica aumentem e sejam cada vez mais efetivas? Estamos a favor, ou no, de exigir dos governos rabes, quaisquer que forem suas caractersticas, que intervenham nesta guerra para facilitar a derrota do Estado de Israel? Aqueles que responderem negativamente a estas questes deixaram de ser revolucionrios para, nas palavras de Lnin, transformarem-se em meros pacifistas pequeno-burgueses”. <www.pstu.org.br/node/6315>. Tais posies verdadeiramente genocidas so repetidas ad nauseam em outros documentos desse partido, bem como em outras organizaes extremistas de esquerda, sem que se observe, infelizmente, muitas condenaes enfticas por parte de organizaes e partidos da esquerda democrtica.

2 Ver de Moishe Postone o sugestivo “Anti-semitismo e nacional-socialismo” em http://o-beco-pt.blogspot.com.br/2012/03/moishe-postone_02.html. Do mesmo autor, agora sobre antissemitismo na esquerda, imperdvel a entrevista: http://o-beco-pt.blogspot.com.br/2012/03/moishe-postone_2733.html.

3 Nome do exrcito em Israel.

4 H, entretanto, minorias em ambos os lados que rejeitam a lgica da vingana e da punio coletiva. H palestinos que condenam os mtodos do Hams e procuram articular outras formas de luta. H israelenses que no aceitam a propaganda militar do “exrcito mais moral do mundo” e defendem investigaes e punies aos crimes de guerra de Israel. nestas minorias que reside a esperana de paz e reconciliao entre ambos os povos.

5 Entretanto, levantamento do movimento israelense Shalom Achshav (Paz Agora) calcula que, num contexto de acordo de paz em que os assentamentos judaicos fronteirios fossem anexados a Israel, em troca de pores equivalentes de territrio israelense (land swaps), apenas 25 mil judeus teriam que ser evacuados da Cisjordnia. Ver: <www.pazagora.org/2015/11/os-numeros-falam-por-si-paz-de-2-estados-e-necessaria-e-possivel/>.

6 Esta a soluo prevista, por exemplo, nos acordos da Iniciativa de Genebra: <www.pazagora.org/2015/11/acordo-de-genebra/>.

7 Esta palavra hebraica significa “explicao”. Trata-se de “explicar” a justeza das posies oficiais israelenses, isto , propaganda.

8 Um boicote deste tipo proposto pelo partido da esquerda sionista “Mertz”, dentre outros grupos.

9 Com relao ao direito de retorno dos refugiados palestinos, importante termos em conta que menos de 10% dos refugiados palestinos manifestam o desejo de retornar para suas antigas terras dentro do que hoje Israel. Portanto, no faz muito sentido inviabilizar um acordo de paz com a reivindicao de um retorno integral. Trata-se, sem dvida, de uma questo delicada, pois envolve a necessidade de lidar com o grande trauma da nakba. No mbito de verdadeiras negociaes de paz, Israel deveria pedir perdo para os refugiados, indeniz-los adequadamente e garantir-lhes assentamento no futuro Estado da Palestina, ou em outras localidades que sejam do seu interesse. Esta questo foi abordada em detalhes por lideranas representativas de ambos os povos nos acordos da Iniciativa de Genebra. Ver as pesquisas sobre o tema feitas pelo Dr. Khalil Shikaki, diretor do respeitado Palestinian Center for Policy and Survey Research - <www.pcpsr.org>, instituto independente de pesquisas palestino, sediado em Ramala, Cisjordnia.

10 Este , sem dvida, o grande mrito da Iniciativa de Genebra, a qual se notabilizou por reunir importantes lideranas de ambos os povos para produzir o projeto de acordo de paz mais detalhado at o momento.