revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Entrevistadores:
Ruy Fausto
Alexandre Carrasco
Maria Caramez Carlotto
Ricardo Crissiuma
Ilustrao: Roberto Winter (em colaborao com Dominich Cardone)

 

Entrevista com o prefeito da cidade de So Paulo, Fernando Haddad

 

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma) - Prefeito, para no comear direto com perguntas sobre a crise, gostaramos de resgatar um pouco da sua experincia que voc teve ainda antes de se tornar ministro e antes de se tornar prefeito e que, de certa maneira, aproxima a sua trajetria proposta da Revista Fevereiro e indica uma preocupao comum1. Eu falo isso em funo da experincia que voc teve entre o final da dcada de 1990 e o comeo dos anos 2000, quando voc foi parte do Conselho Editorial da revista Teoria e debate do Partido dos Trabalhadores. Eu acho que isso indica uma preocupao com a posio do intelectual na esfera pblica, o papel que ele assume no debate pblico hoje. Partindo disso, como voc avalia a esfera pblica e o papel do intelectual atualmente?

Fernando Haddad - Infelizmente as coisas vm mudando para pior desde ento. Hoje voc tem menos engajamento; acho que as humanidades esto vivendo inclusive um momento delicado. Voc v pouco protagonismo por parte da intelectualidade como um todo na esfera pblica e na formao de juzo crtico sobre as coisas, que um dos seus papeis fundamentais. De certa maneira, os intelectuais fazem com que o nvel da discusso fique cada vez mais alto. E isso no tem acontecido em parte apenas por culpa dos intelectuais, mas sobretudo porque a esfera pblica est se fechando um pouco para o pensamento crtico. Ento estamos diante de um duplo movimento. Talvez um desinteresse mtuo, dos intelectuais pela esfera pblica e da esfera pblica pelos intelectuais. O que, na minha opinio, vai de encontro ao que a sociedade est precisando; tambm vai de encontro s aspiraes daqueles que buscam caminhos alternativos e engenhosos para repensar formas de organizar a produo, o suporte cultura, produo cultural, produo cientfica. E isso no s um fenmeno brasileiro. Quer dizer, se voc pensar o que foi o mundo dos anos 1960, 1970 e 1980 e pensar o que est acontecendo hoje, voc vai ver que a presena dos intelectuais na vida pblica tem diminudo, pelo menos do meu ponto de vista. Embora ns estejamos formando muita gente boa. O Brasil est formando mais gente, gente inclusive que no tinha acesso universidade e passa a ter com setores que esto chegando universidade pela primeira vez. Assim, pobres e negros esto presentes hoje no mundo universitrio, inclusive nas boas universidades, por uma srie de mecanismos, que vai desde a melhoria do acesso educao bsica, at reserva de vagas, ou seja, mecanismos que fazem a universidade ternar-se mais diversa. E ainda como reflexo da perda de importncia dos intelectuais, vemos que mesmo publicaes que tinham um impacto na vida pblica perderam essa fora. Assim, eu vejo com preocupao (esse duplo movimento de afastamento). Porque eu no s participei disso, mas vejo isso como um ingrediente fundamental de requalificao da democracia da requalificao do debate pblico.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - interessante, porque no ltimo nmero da Revista Fevereiro, j no primeiro pargrafo de nossa apresentao, propomos exatamente esse diagnstico, ou seja, de um afastamento entre esfera pblica e intelectualidade. A Revista foi pensada muito nesse bojo: de tentar formular uma reflexo nesse espao que tem sido deixado vazio, entre o rigor do texto acadmico e a fluidez do debate da mdia. Portanto, partindo desse diagnstico, escolhemos para este nmero 9 o tema “o futuro da esquerda”. Teremos vrios textos sobre esse tema e a sua entrevista entra tambm nesse movimento, de um nome importante que est pensando e atuando no mbito da esquerda.
Indo mais para o ncleo duro da entrevista, gostaramos de comear perguntando a seguinte questo sobre a crise: a cidade de So Paulo ecoa de modo muito particular a crise poltica atual. Ela foi palco das primeiras megamanifestaes de junho de 2013; durante a ltima eleio ela foi uma das cidades em que o PT teve maior dificuldade durante a ltima eleio; e no domingo, dia 13 de maro, ns vimos de novo grandes manifestaes que no diramos que so apenas contra o impeachment, pois talvez representam um pouco mais do que isso.
Enquanto prefeito da cidade de So Paulo, como voc avalia a situao pela qual o pas est passando?

Fernando Haddad - Evidentemente o momento mais delicado que eu tenha vivido pelo menos. Ele muito delicado do ponto de vista institucional, porque so crises sobrepostas. E isso de certa maneira explica um pouco dessa dimenso aguda que ela assume hoje. Porque ela comea como uma crise menos estrutural do que conjuntural, econmica em funo de medidas econmicas que foram tomadas a partir de 2013 e que efetivamente partiram de um pressuposto, na minha opinio, equivocado. Ou seja, partiram do pressuposto de que a crise pela qual passa o sistema capitalista de uma maneira geral, desde 2008, recrudescendo a partir de 2012 ainda que com uma outra feio, era passageira e que, portanto, duraria um ou dois anos. Ento, as medidas tomadas foram:, tais como manuteno do cmbio sobrevalorizado, por meio de swaps cambiais, desonerao fiscal corroendo um pouco da base fiscal do Estado, represamento de preos administrados, em suma, essa combinao de medidas que visava garantir emprego e manter a inflao controlada, essas polticas que podem estar certas ou erradas dependendo dos pressupostos se mostraram erradas. Elas podiam estar certas, mas o fato que a histria demonstrou que elas estavam equivocadas em funo do fato de que a economia no voltou normalidade e, portanto, voc gerou um passivo difcil de administrar. Para alm disso, nem o discurso da campanha de 2014 reconheceu que esse diagnstico precisava ser revisto. E seria muito razovel dizer para a populao que depois de 12 anos de quase pleno emprego, o Brasil precisaria passar por um ano mais difcil, de ajustes para a retomada do crescimento. Mas no foi o que foi dito. Ao contrrio. Foi dito que a oposio faria os ajustes que, depois, a prpria presidente Dilma props e com um grau de radicalidade que talvez nem a oposio faria no lugar dela. Ento isso gerou uma perda de credibilidade que levou a uma crise poltica que se sobreps crise econmica e a agravou, transformando alguns dos seus ingredientes conjunturais em fatores quase estruturais, j com o risco de vivermos uma recesso que talvez seja a maior da histria. E para coroar esse processo de tempestade perfeita, tem a dimenso jurdica a partir de um protagonismo bastante ativo do poder judicirio com as aes centradas em Curitiba. Claro que estamos vivendo um momento importante no sentido de se passar o Brasil a limpo e avanar no combate corrupo. Mas a Lava Jato no pode ser um casusmo. Se est havendo uma mudana de jurisprudncia com relao a institutos importantes como o caso de priso preventiva, habeas corpus, conduo coercitiva, sentena transitado em julgado, que no seja um casusmo e no coloque a perder uma tradio garantista importante no direito penal. Essas so preocupaes que incomodam uma parte da comunidade jurdica em relao s garantias individuais. H uma preocupao sobre uma possvel seletividade das aes, passando a impresso de que as instituies no funcionam de forma equnime para os dois lados. E quando eu falo instituies, no estou s falando do Ministrio Pblico, do Poder judicirio, mas tambm da prpria imprensa. Tem um grau de seletividade, de cuidado ou falta de cuidado com as informaes que recebe que indica um vis preocupante, colocando em xeque o prprio ideal republicano de que as instituies tm que valer para todo mundo. Assim, quando me perguntam se eu me incomodo com a maneira com a qual a imprensa trata o meu governo eu digo: “Olha, antes assim. Pior seria a omisso da imprensa, que acontece com governos, digamos, alinhados”. Eu prefiro que ela seja injusta, porque pelo menos eu tenho condio de disputar. Quanto ela omissa ela no ajuda nem o cidado, nem o governo. Ento, voc tem esses problemas acontecendo, todos simultaneamente.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Prefeito, o nosso roteiro segue explorando esse quadro que voc j reconstruiu de modo bastante complexo. Mas tem um outro elemento, alm das questes todas que voc levantou referente ao governo, crise econmica, Lava Jato, imprensa etc. que praticamente desde o final da eleio, voc tem uma tentativa de parte da oposio de questionar o resultado das eleies ou de impedir o governo Dilma no sentido amplo do termo. Ento, desde o pedido de recontagem dos votos, solicitada pelo PSDB ao TSE, depois o pedido de Cassao da Chapa Dilma-Temer, tambm feito pelo PSBD ainda tramitando no TSE, e, mais recentemente, o prprio pedido de impeachment que pairava no ar e agora voltou com mais fora. Como voc explicaria tanto empenho, por parte da dessas foras polticas, em interromper o governo Dilma?

Fernando Haddad - Na verdade, eu acho que a Casa Grande, no Brasil, parte do pressuposto que muito difcil angariar, pelo voto, um apoio expressivo da sociedade. Pelo seu iderio. Porque o seu iderio conflita com o pior problema brasileiro que a desigualdade social. Esse iderio no dialoga com o pior problema do Brasil e quando no dialoga com o pior problema do Brasil ele tem dificuldade para se viabilizar eleitoralmente. Portanto, sem um ingrediente externo arena poltica muito dificilmente o pndulo pende para o lado conservador. Como a soluo militar no est disponvel no momento, ela precisa mobilizar outras foras reativas e a que, na minha opinio, entra o poder judicirio. Ele entra como uma espcie de substituto de um poder que no est mais disponvel hoje, ou seja, o poder militar. E obviamente est longe de mim dizer que a situao atual s responsabilidade da direita, porque eu comecei falando dos erros estratgicos que o prprio governo cometeu, criando para si uma situao complicada a partir do final de 2012, comeo de 2013. Assim, preciso registrar isso porque seno fica uma coisa de demonizar o adversrio que no faz parte da minha trajetria poltica.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Fernando, posso provocar um pouquinho?

Fernando Haddad - Claro.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - As explicaes que voc deu at agora so muito boas, mas eu gostaria de saber qual a responsabilidade do PT nisso tudo. Voc falou de erros no plano da avaliao econmica, e, de fato, houve uma srie de erros, muito bem. Agora, tem o problema do prprio partido. Longe de mim negar os abusos da justia, est claro que a Lava Jato se degenerou. Mas processos como o Mensalo da Lava Jato so movimentos muito positivos e que vo contra prticas de promiscuidade entre partidos e poderes econmicos que so um desastre para a esquerda do pas. Minha opinio pessoal, que no sei se opinio de toda a Revista que preciso lutar imediatamente contra o impeachment de todo jeito. Mas, depois, teria que fazer uma avaliao, excluir tudo isso e passar para um outro tipo de prtica. Por exemplo, a corrupo na Petrobrs.. . claro que eles ainda tm que provar etc., mas, na minha opinio, tem muita coisa problemtica l e no poderia ser assim. A meu ver, preciso fortalecer uma esquerda que no seja nem totalitria, nem adesista, nem populista, nesse sentido da promiscuidade com o poder econmico. Como voc v isso? Voc no acha que seria necessria uma grande inflexo, sem negar tudo de bom que o PT fez, como o Bolsa Famlia, a poltica de crdito, e assim por diante. Mas no seria a hora de fazer um grande trabalho - a palavra velha - de autocrtica, e comear um novo ciclo de esquerda, em que voc poderia, inclusive, ter um papel importante? Enfim, na sua opinio no hora de realizar uma espcie de ruptura na prtica, sem deixar de fazer uma frente, a mais ampla possvel contra o impeachment?

Fernando Haddad - Eu acredito que ns no podemos perder essa oportunidade. O fato de que esto vindo tona, realmente, os mecanismos de financiamento da poltica e o grau de promiscuidade entre o setor privado e o setor pblico em torno da questo do financiamento de campanha que tem origem em recurso de empresa, abre uma oportunidade. Nesse sentido, eu acho que o Supremo Tribunal Federal fez a melhor coisa que poderia ter feito ao julgar inconstitucional o financiamento empresarial de campanha. Olhando tambm para alguns aspectos positivos da conduo do combate corrupo pelos governos, no s os do PT, o fato que houve uma srie de eventos como, por exemplo, a criao da CGU [Controladoria Geral da Unio]; a autonomia da Poltica Federal; o respeito ao Ministrio Pblico que teve, nos governos petistas, muita autonomia; tanto que o Procurador Geral passou a ser escolhido pela prpria corporao, e os governo petistas promoveram isso pela primeira vez na histria; o prprio critrio de seleo dos ministros do Supremo Tribunal Federal que no operou segundo o roteiro previsto pela oposio, de escolher pessoas que queriam fechar os olhos para problemas que fossem julgados pela Suprema Corte. Eu acho que tudo isso representou um grande avano. Mas, olhando essa trajetria, eu acho que houve um pecado que precisa ser reconhecido: esses mecanismos no foram estendidos s empresas estatais. Eles ficaram no mbito da administrao direta, incluindo a autarquias, e em uma parte da administrao indireta tambm. Ento hoje voc v que a Esplanada nos Ministrios muito mais blindada em relao a esse tipo de deturpao e rebaixamento do que no passado recente. Foram muitos escndalos envolvendo ministrios que voc no v mais porque efetivamente esses rgos conseguiram dar uma proteo para os gestores ou inibir os maus gestores a fazer o que era comum acontecer. As estatais ficaram, na minha opinio, de fora desse sistema de controle. Em parte, isso ocorreu por razes justificveis. Essas so empresas que esto no mercado e que sofrem, portanto, processos de auditoria, ou pelo menos deveriam sofrer. Ou seja, essas grandes empresas passam por um tipo de “crivo” [do mercado], que uma repartio pblica no passa. Mas o fato que nada disso funcionou. Mesmo tendo nomeado funcionrios de carreira para o alto escalo da Petrobrs, o fato que eles j vinham viciados de outros carnavais e no tiveram freio, ou seja, algum acabou deixando isso passar. No posso julgar - no seria justo com as pessoas que hoje esto respondendo a processo - se elas simplesmente fecharam os olhos, e deixaram as coisas acontecerem porque aquilo acabava interessando do ponto de vista de viabilizar financiamento dos partidos da base aliada, ou se efetivamente acabaram envolvidas. Eu no saberia dizer, mas o fato que na gesto das estatais no houve os mesmos cuidados que os prprios governos do PT tomaram em relao a outros rgos e setores do governo. Eu falo por mim, eu fui ministro em um dos ministrios mais importantes da esplanada: o Ministrio da Educao. O oramento s do MEC o dobro da cidade de So Paulo e eu nunca tive problema com isso. Nunca fui procurado por algum do partido, nada. Ento passei sete anos frente de um dos maiores ministrios sem nenhum tipo de constrangimento desse tipo, muito pelo contrrio. Tanto que deixamos um legado importante ali do ponto de vista do acesso s universidades, acesso educao infantil, melhoria da qualidade da educao bsica, todas as metas cumpridas, ajudados pela prosperidade que o pas viveu, claro, fato que ns tambm trabalhamos. Ento eu estou falando do ponto de vista de um ministro que ocupou talvez o segundo ou terceiro maior oramento da Repblica e nunca teve esse tipo de problema que estamos vendo na Petrobrs. Ento imagino que isso deva ter acontecido em outros ministrios tambm, o que significava que estvamos blindados, e podamos trabalhar tranquilos, desse ponto de vista tico. Mas bvio, imperativo reconhecer que houve uma franja importante do Estado que no passou por esse controle. Sobretudo as empresas estatais no ficaram submetidas aos mesmos rigores da administrao direta. Isso notvel: as estatais no estiveram submetidas aos mesmos rigores. Ento hora de assumir esse erro,, dizer quem errou, quem no deu conta de controlar isso. Porque independentemente do envolvimento de algum do PT, o fato que a Petrobrs estava sob nossa responsabilidade. No posso dizer que eu no tenho responsabilidade por exemplo pela Cidade de So Paulo. Eu tenho que cuidar, aqui, da gesto. Eu tenho um oramento que metade do oramento do MEC, mas ainda assim, um oramento grande; so R$ 50 bilhes. E, s vezes, voc tem a sua imagem maculada por R$1 milho desses R$ 50 bilhes. Se voc no cuidar de R$ 1 milho desses R$ 50 bilhes, que em termos percentuais nada, sua reputao pode ser manchada para sempre. Qualquer empresa privada tem prejuzos com corrupo muito superiores do que isso... Qualquer empresa privada! Se voc perguntar para um grande empresrio se ele tem prejuzo com a corrupo, ele, que est cuidando do prprio negcio e que, portanto, o maior interessado que no haja corrupo, ele vai responder que sofre com a corrupo. Ento, no tem como escapar disso. O pblico precisa entender isso. A cidade de So Paulo equivalente a uma megacorporao nesse sentido especfico, de volume do oramento. Ou seja, na empresa privada, mesmo que o dono esteja l o dia inteiro, cuidando do prprio negcio, ele no consegue deter a ao corrosiva de ncleos de interesse e de poderes internos que depem, s vezes, contra a reputao de uma grande empresa a tal ponto que pe a perder a sua imagem.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Mas na Petrobrs no foi dessa ordem.

Fernando Haddad - Na Petrobrs no foi dessa ordem, mas o que eu estou dizendo que se voc, na Prefeitura de So Paulo, no cuidar de R$1 milho dos R$ 50 bilhes que compem o oramento, pode manchar a sua reputao para sempre, imagina na Petrobrs, quando a ordem de grandeza do dinheiro muito maior. Agora, uma coisa que eu gostaria de frisar - e isso mais uma intuio do que propriamente uma afirmao categrica, porque eu no tenho conhecimento de causa para afirmar categoricamente isso -, que no Brasil as empresas corruptoras ficam com o grosso desse dinheiro, os operadores dessas empresas no setor pblico dessas empresas ficam com uma segunda parcela, muito menos importante do que as empresas, mas, ainda assim, do ponto de vista pessoal, bastante vultuosa. E a classe poltica, que se deixa levar por esses esquemas, resulta ser pobre de esprito, primeiro, por concordar em participar disso e, segundo, porque fica com as migalhas desse processo. Ento, alm de tudo, alm de serem uns desgraados do ponto de vista moral, vendem-se por tostes quando comparado ao que o esquema levou de recurso pblico. Trata-se de um absurdo sobre todos os aspectos o que acontece nesse mbito.

Revista Fevereiro (Alexandre Carrasco) - Prefeito, vamos dar um passo atrs e voltar para uma questo que o senhor j tinha mencionado no incio da entrevista, a respeito da esfera pblica, a essa sensao - que certamente mais do que uma sensao - de que a esfera pblica brasileira se fechou nos ltimos anos. Ento, indo para uma dimenso - que menos uma constatao de fato do que uma tentativa de diagnstico - que se refere a como a direita tomou conta da pauta pblica brasileira. A sensao que ns, da Revista Fevereiro temos - e, reforo, que um pouco mais do que uma sensao - que a direita tomou conta da pauta pblica e, portanto, alm dela estar muito mais organizada do que ns gostaramos, acaba bloqueando um debate que ns tambm gostaramos de fazer. O que o senhor acharia dessa observao como diagnstico da situao?

Fernando Haddad - Bom, j falei um pouco do PT, na linha do que o Ruy Fausto props, ento no tem como no considerar a responsabilidade do PSDB no atual contexto. Porque o PSDB, diante do sucesso econmico e social do Governo Lula, passou a disputar, ou a tentar disputar, a agenda poltica colocando em questo ingredientes dessa agenda que estavam avanando positivamente. Considerando, por exemplo, o debate que o Serra props na eleio presidencial de 2010, em torno de questes comportamentais, uma das quais o aborto, ou mesmo o debate que o prprio Serra props comigo, na eleio para a prefeitura, em 2012, em torno de questes LGBT, vemos claramente que j vem dessa poca essa postura que, vale notar, se soma ao preconceito reestimulado no debate sobre cotas, ao preconceito inerente ao debate sobre o Bolsa Famlia, descrito como “bolsa esmola”. Ou seja, como um programa assistencial no sentido pejorativo da palavra, porque o sentido original da palavra “assistencial”, como sabemos, positivo. [Alis, considerando a posio que o PSDB assumiu no debate sobre o Bolsa Famlia, vemos claramente a opo poltica mais recente do partido, por exemplo] ao transformar a dimenso assistencial em uma dimenso menor da poltica, o que reflete at mesmo uma falta de solidariedade no debate sobre a pobreza. E tudo isso veio prosperando com o tempo. Quer dizer, voc est no ano de 2016, o Bolsa Famlia j tem 12 anos, um programa, na minha opinio, mais liberal do que propriamente de esquerda, ou seja, dialoga mais com o iderio liberal clssico, tanto que um programa saudado pelo liberalismo internacional, que no s aceita o programa, como o promove, e nem isso o PSDB foi capaz de reconhecer. Ou seja, o PSDB no foi capaz de reconhecer que o Lula fez uma agenda em grande medida tambm liberal, isto , que dialogava com o liberalismo. Porque imposto de renda negativo, que o sentido do Bolsa Famlia, uma bandeira do Milton Friedman, isto , dele a ideia de que, ao invs de pagar, voc deve receber Imposto de Renda porque voc est abaixo de dada linha de renda. Ento, veja, o PSBD conseguiu subverter coisas que podiam estar consolidas e muito mais avanadas. Nesse bojo, o PSDB promoveu uma aproximao do partido com setores muito atrasados da prpria Igreja Catlica. Porque existem setores da Igreja interessantssimos, sobretudo no Brasil, que sempre teve uma igreja muito avanada, que dialogava com o problema da misria, da desigualdade social etc. Mas ao invs de buscar isso, o PSDB se associou ao que tinha de mais conservador na Igreja Catlica. Ou seja, diante da sua insuficincia na disputa da agenda econmica, social e mesmo cultural, o PSDB passou a fazer um debate comportamental que no estava na ordem do dia. A prpria questo do negro, que era um debate caro ao PSDB das origens, passou a ser tratada como uma questo menor. Ou pela negao, afirmando que o Brasil miscigenado e o preconceito uma inveno, o que um absurdo porque existem intelectuais no PSDB que conhecem a histria. Ento, todos esses temas foram maltratados pelo PSDB e por razes eleitoreiras. S que isso tem consequncia. Um debate como esse no acaba em uma eleio. Uma parte da populao vai criando um antagonismo em relao a essas agendas. Ento, 14 anos depois da criao do Bolsa Famlia, voc tinha gente na Avenida Paulista [nesses ltimos protestos] dizendo que o programa est estimulando a vagabundagem, e isso muito estimulado pelo PSDB, que nunca foi capaz de dizer “Olha, ns estamos de acordo com esse programa” que nem de esquerda . Ento eles oscilavam entre dizer que foram eles que comearam o programa e reneg-lo completamente. Ou seja, prestaram um desservio ao debate pblico e romperam com uma tradio interessante do PSDB de origem, que podia ter fortalecido o pensamento social democrata no Brasil. Ento, nos ltimos anos, o Brasil podia ter consolidado um partido mais trabalhista como o PT, que tem o trabalhismo como sua marca. Porque veja, o PT no um partido socialista, no um partido social democrata, um partido trabalhista essencialmente. Na cabea do Lula esto basicamente os ideais trabalhistas: a ideia de conciliao, de que ns podemos repartir melhor o crescimento econmico, de que todo mundo pode ganhar (risos), uma ideia bastante prpria do trabalhismo. Podamos ter consolidado, tambm, um partido social democrata, um partido liberal, enfim, podamos ter organizado a agenda brasileira. E acho que, em grande medida graas atitude poltica do PSDB, ns perdemos essa oportunidade.

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma) - Para pegar o gancho, podamos dizer que o PSDB, atualmente, parece ter sido ultrapassado pelas ruas em termos de pautas de direita.

Fernando Haddad - Foi, e interessante isso.

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma)- Parece que o que a gente v, hoje, uma direita que se articula por outros meios. Tanto, que existe algumas pesquisas que mostram que existe uma rede latino-americana de Think Tanks que espalham o iderio neoliberal e voc v claramente diversos vnculos, de fato, entre eles. Voc tem, mais recentemente, a criao do Partido Novo que tem uma pauta muito mais direita do que o prprio PSDB. E vrios desses coletivos que chamam essas manifestaes contra o governo acabam indo bem para alm do que o PSDB estava disposto a abraar dessa poltica liberal.

Fernando Haddad - Mas isso tem tudo a ver com o que eu acabei de dizer. Como se tratava de uma postura eleitoreira e, portanto, oportunista, de ocasio, o que esse pessoal que acredita efetivamente nesses ideais de direita - porque o prprio PSDB no acredita - agora acha que o PSDB vacilante. E eles no querem mais que haja vacilao. Eles querem a coisa para valer agora. Ento, como se o PSDB fosse convocado, sem poder, a se posicionar em relao s bandeiras que usou para angariar apoio eleitoral. Mas o PSDB no tem condio nenhum de fazer isso, porque isso seria romper com toda uma tradio humanista que esteve tambm na origem do partido. Ento como ele sai dessa? Ele criou um monstro que ele no consegue mais manipular.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Tem toda uma nostalgia dos melhores quadros do PSDB, que querem voltar ao que o Partido era, mas agora no conseguem mais....

Fernando Haddad - A verdade que o PT e o PSDB, os dois partidos, esto nostlgicos (risos).

Revista Fevereiro (Alexandre Carrasco) - Mas prefeito, queramos ir mais alm e tentar entender aonde vai dar esse caldo complicado, dessa direita que quer ser cada vez mais direita e que apareceu com fora, recentemente, nas ruas. Uma preocupao particularmente nossa, da Revista Fevereiro, que isso vai acabar batendo na Constituio. Ns j temos o precedente, na esteira da Lava Jato, da violao do artigo 5 da Constituio, dos direitos individuais, do processo legal, da preservao da intimidade, da pena s se transitado em julgado. E, agora, se fala muito que a Constituio “no cabe no oramento” e que o captulo dos direitos sociais, que foi uma espcie de engenharia da esquerda na constituinte, encontra-se, agora, sob risco. Isso se reflete nesse programa um pouco oportunista do PMDB, Ponte para o futuro, com traos ultraliberais. Quer dizer: ser que o impeachment o comeo de uma nova reforma constitucional regressiva que a gente tem que enfrentar com todas as energias? O que o senhor pensa disso.

Fernando Haddad - Eu penso que a defesa da Constituio passa pela percepo, em primeiro lugar, de que no existe base jurdica para o impeachment. Voc pode ir para a rua pedir a renncia de um presidente, por exemplo. Ou o Supremo Tribunal Eleitoral poderia, diante de evidncias cabais, cassar uma chapa. At poderia. Mas para ter Impeachment, pela nossa Constituio, precisa ter crime de responsabilidade. No tem como contornar isso. E no h, efetivamente at agora, nada que responsabilize a presidente Dilma. Ento vai ser uma engenharia jurdica que eles vo ter que montar para levar adiante esse processo. Que tem uma dimenso poltica, claro, mas precisa ter base jurdica. Mas o fato que no s a defesa da Constituio em relao ao mandato presidencial. A percepo que se tem que isso o comeo de uma grande releitura da Constituio de 1988. Eu acho que ningum tem dvida de que disso que se trata, como voc colocou na sua pergunta. Ou seja, estamos diante de um movimento de reviso da Constituio. Como se o ciclo que estivesse se fechando no fosse o ciclo do PT no poder, mas um ciclo que comeou em 1988. Eu acho que est mais do para isso do que para outra coisa. Porque se voc parar para pensar, o PT que no foi signatrio da Constituio, ele foi quem a cumpriu. Ento, a ironia que o Partido no signatrio cumpriu a Constituio. Assim, quando se fala no fim do ciclo do PT, cabe perguntar: est se falando de qual ciclo exatamente? Do ciclo do PT no poder ou da Constituio que em 12 anos conseguiu parcialmente se realizar? Eu penso que talvez a percepo de muitos desse segundo ciclo que est se falando. E a voc entende melhor que o medo dos sindicatos, dos movimentos sociais exatamente esse. O problema no a Dilma ou no Dilma. O problema que eles esto vendo claramente que, junto com o impeachment, vem uma onda pesada de regresso.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Bom, j que falamos at agora de diagnstico, queramos perguntar um pouco sobre prognstico. Diante de todo esse cenrio, qual a perspectiva para a esquerda de modo geral, e para o PT em particular?

Fernando Haddad - Olha, o Ruy me conhece muito bem, eu sou daqueles que acha que considera que esquerda precisa se renovar h muito tempo. Eu escrevi um livrinho, que o Ruy conhece, em 1989, quando eu estava fazendo o meu mestrado, j criticando duramente o que eu chamava ento de “sistema sovitico”, que ia na linha do que o Herbert Marcuse escreveu sobre o marxismo sovitico, que um belssimo diagnstico do que o aconteceu com o marxismo nas bandas eslavas, vamos dizer assim. O que eu entendia, dessa poca, era que a esquerda precisava fazer um profundo balano do sistema sovitico. Porque a direita falava, na poca: o socialismo foi derrotado! E a esquerda tinha que no mnimo dizer o que de fato aconteceu nesse perodo histrico. Que curto, no ? Historicamente voc est falando do qu? Setenta anos. No nada: setenta anos na histria representa muito pouco. Ento eu estou cada vez mais convencido de que eu estava certo. O que dizia, nesse livro, era o seguinte: assim como estados danubianos tiveram um tipo de transio do feudalismo para o capitalismo, assim como a Amrica se valeu da escravido africana para promover uma transio para o capitalismo, fazendo da escravido moderna uma alavanca da acumulao primitiva, era de se supor que os Estado do oriente, ou seja, conceitualmente falando, o despotismo oriental, encontrasse um caminho para a “modernizao”, para a industrializao, valendo-se das suas prprias instituies. Ento, o despotismo moderno da Unio Sovitica e da China simplesmente uma alavanca de acumulao primitiva de capital e isso vai redundar em capitalismo, e no em socialismo. No final do sculo XIX, havia uma percepo bastante aguda de que o socialismo e o despotismo podiam se aproximar, e o prprio Marx nos Grundrisse fala que o socialismo uma espcie de despotismo de ponta cabea. Ele usa essa expresso explicando, depois, que um despotismo de ponta cabea porque, no socialismo, o dspota vira um contador. Isso porque voc tem uma economia planejada, mas planejada pela sociedade e no pelo dspota. A ideia do Marx era que voc iria organizar a produo da base para o topo e que caberia ao Estado, portanto, a administrao das coisas e no mais do que isso. Ou seja, ele j tinha percebido que, morfologicamente, vamos dizer assim, havia uma similaridade entre o socialismo e o despotismo e, curiosamente o Nietzsche tem uma passagem em que afirma que o que se chama de socialismo a nova fase do decrpito despotismo.

 

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Nesse ponto especfico, eu acho que o Marx no foi to claro. Quem viu primeiro essa relao entre socialismo e despotismo, na esquerda, foi o Bakhunin com todos os seus defeitos.

Fernando Haddad - E na direita, o Max Weber. Ele enxergou tambm essa relao ao dizer que o que os marxistas russos estavam propondo era a fuso de duas burocracias: a burocracia privada com a burocracia estatal e isso iria redundar em despotismo. Ento o Weber, antes da Revoluo Russa, anunciava que, por mais que fosse libertrio o discurso, ele ia redundar em um Estado totalitrio. Mas a esquerda como um todo no fez esse balano. Indivduos fizeram, intelectuais fizeram. Mas a esquerda como um todo no fez. E esse balano fundamental para voc repensar o futuro de quem quer transformar a realidade capitalista em uma outra coisa que seja mais humana. Todo mundo nota que um desespero para muita gente viver sob o capitalismo. Mas para voc construir uma alternativa sem fazer o balano do que aconteceu no sculo XX muito difcil. Ento, quando eu descobri o marxismo, a minha maior angstia foi: bom, mas se eu acho esse sujeito aqui extraordinrio do ponto de vista intelectual, do que ns estamos falando? O que essa Unio Sovitica? Essa contradio entre o que eu lia e o que eu via acontecer na prtica precisava ser resolvida. Eu me dediquei a isso, Mas a esquerda de modo geral no enfrentou esse problema. Eu no estou dizendo que o meu livro est certo. Mas a esquerda toda precisava escrever sobre esse tema para chegar uma concluso ou mais de uma sobre o que de fato aconteceu [no chamado “socialismo real”].

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - A minha impresso que voc tem toda a razo, esse trabalho de balano crtico se fez caoticamente, mas no se fez sistematicamente. Ento a esquerda fica entre esse modelo sovitico, que de vez em quando reaparece e o adesismo total ao capitalismo, como o Franois Hollande, que vai l e aplica um programa que patronal, um desastre absoluto. Ento a esquerda precisa recusar tanto o pseudosocialismo totalitrio, quanto recusar o que no nem reformismo mais, simples adesismo mesmo. E eu diria que tem que recusar um terceiro perigo que, eu diria, o “populismo”, que se reflete nas formas que se desenvolveram na Amrica Latina e que no bom tambm. Eu no estou dizendo que tudo foi ruim, mas a gente precisaria tomar distncia disso tambm. A meu ver, existem trs perigos e, no caso brasileiro, o terceiro perigo que aparece. A gente precisaria construir um modelo de socialismo que no fosse nem autoritrio, nem adesista, nem populista, ou seja, que fosse realmente anticapitalista, democrtico e antipopulista nesse sentido especfico, de ser totalmente intransigente em matria de corrupo, de honestidade administrativa.

Fernando Haddad - Ento, voc diz populista quanto aos meios utilizados?

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Populista quanto aos meios. E por que evitar isso? Por duas razes: primeiro porque a gente perde uma parte da pequena burguesia quando ela identifica esquerda com corrupo. E a pequena burguesia no toda fascista, isso uma bobagem.

Fernando Haddad - Lgico.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - E se a gente defender a honestidade administrativa, a gente ganha essa parte no fascista da pequena burguesia. O que no quer dizer que a direita no vai conspirar de qualquer jeito. O Salvador Allende nunca teve nada de corrupo no governo dele e caiu do mesmo eito, mas a a direita teve que fazer sabotagem econmica para acabar com o pas.

Fernando Haddad - E ela faz.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto)- E ela faz, ela vai fazer. Esse povo vai adiante. Mas a gente no pode dar armas para a direita. Ento a esquerda precisa ser totalmente limpa em matria de democracia, em matria de intransigncia com o capitalismo, e em matria de honestidade administrativa. Como dizia o Allende: “Nesse governo se pode pr os ps, mas as mos ningum pe”.

Fernando Haddad - Sim, de fato.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Fernando, ns queramos colocar s mais uma questo para a gente encerrar esse grande bloco, que dialoga com tudo isso. Porque em uma das primeiras entrevistas que voc deu depois de eleito voc dizia que se considerava um socialista.

Fernando Haddad - Na verdade, foi um pouco antes de ter sido eleito. O Estado queria me provocar achando que eu ia fazer o que o Fernando Henrique fez: “Esqueam o que eu escrevi” (risos). E eu falei no, de jeito nenhum. Podem botar a que eu sou socialista, no tem problema nenhum (risos).

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Ento, justamente. Pensando nesses desafios todos, como voc avalia a sua gesto?

Revista Fevereiro (Ruy) - Isso, eu tinha que fazer a pergunta (risos), mas j est feita pela Maria.

Fernando Haddad - Eu acho que uma gesto de esquerda, sob todos os pontos de vista. Eu vou citar alguns exemplos muito eloquentes. O nosso Plano Diretor o mais avanado do pas. Voc pode dizer “Ah, mas ele insuficiente!”. Bom, tudo sempre insuficiente, mas ele o mais avanado do pas e, segundo o Delegado do Habitat, da ONU, aqui no Brasil, um dos mais avanados do mundo. Porque ele, em primeiro lugar captura a mais valia fundiria. Voc reduziu o coeficiente bsico de aproveitamento da terra a uma vez a rea do terreno, e todo o solo criado tem que remunerar a municipalidade para que tenha recursos para compensar as externalidades negativas dos empreendimentos imobilirios. Esse o sonho dos urbanistas desde sempre, desde criana eu ouo falar disso: que a municipalidade tem que se apropriar da mais valia fundiria. Ns fizemos isso no plano diretor. Criamos, a partir da mais valia, um fundo de urbanizao e vinculamos 30% desse fundo para moradia popular e 30% desse fundo para mobilidade urbana, transporte de massa. Ento 60% est carimbado para os mais pobres da cidade, os outros 40% permanecem livres para voc fazer outras coisas, porque precisa fazer hospital, precisa fazer escola. Ou seja, 60% do fundo so para moradia popular e transporte, 40% so livre. Quer dizer, livres em termos porque passa pela deciso de um conselho paritrio, tem participao social e controle social. Outro exemplo: o nosso plano de mobilidade o mais radical do pas. Aqui, ns tomamos vrias providncias: nibus no fica no engarrafamento porque tem sua faixa exclusiva, ciclista tem direito, com as ciclovias, pedestre tem direito, com a reduo de velocidade das vias. Ou seja, voc est humanizando a cidade e dando uma chance aos que tm menos oportunidade. A nossa reforma tributria toda no sentido de poupar os pobres, onerar os que podem mais, promovendo uma redistribuio de recursos do centro para a periferia. Os programas sociais da cidade de So Paulo, no s os Federais que ns trouxemos, mas os que ns criamos no municpio so todos voltados para os desvalidos da cidade. A Operao Braos Abertos, com dependentes qumicos, o Transcidadania, dando educao formal para as travestis que so levadas a vender o corpo para se manter, enfim, os programas mais avanados do ponto de vista social so tambm da Prefeitura de So Paulo. Para no falar dos programas de carter universal, mas que comearam pela periferia. Estamos, por exemplo, trocando toda a iluminao pblica por LED porque economiza 50% de energia eltrica, portanto um carter ambiental forte. Mas ns comeamos nos bairros mais vulnerveis para oferecer segurana primria sobretudo para as mulheres trabalhadoras que chegam tarde em casa e saem antes do amanhecer. Ento, tudo pensado a partir desse pressuposto de que a cidade desigual e que eu tenho que atender primeiro os mais vulnerveis. Ento no tem um programa, no tem uma secretaria do meu governo que no tenha trabalhado dessa perspectiva. Assim, os investimentos que esto sendo feitos no SUS, na cidade de So Paulo, so sem precedentes. Ns estamos construindo 3 hospitais gerais, 30 hospitais dia, 15 UPAS e 16 UBS na cidade simultaneamente. Estamos construindo 15 CEUs, entregamos uma creche a cada 3 dias. Foram mais de 300 equipamentos entregues para a populao. A velocidade do nibus aumentou 46%. Voc dobrou o nmero de ciclistas na cidade e o nmero absoluto de mortes caiu. A coleta seletiva de lixo vai ser universalizada este ano. A cidade a 15 mais conectadas do mundo, porque pobre no tem dinheiro para pagar internet, ento ns temos 120 praas WI-FI na cidade com internet gratuita para que a populao possa, sem pagar por crditos, ter a sua conexo garantida. E 120 praas d mais do que 1 praa por distrito da cidade. Ento tem sempre uma praa perto da casa da pessoa.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Pergunta ingnua e provocadora de quem mora fora do Brasil. Voc acha que voc fez uma boa gesto?

Fernando Haddad - No tenho a menor dvida. Defendo de todas as formas.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Porque o ataque constante...

Fernando Haddad - Ah bom (risos).

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Constante e absoluto.

Fernando Haddad - Absoluto. So todas as emissoras de rdio e TV durante trs anos. um milagre ns estarmos aqui de p.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - O Estado inclusive insiste que voc no tem essa histria de desigualdade, que voc deveria administrar a cidade...

Fernando Haddad - Bom, o Estado faz tempo que perdeu o senso mnimo. Mas enfim, voltando questo, eu no tenho dvida de que fiz um bom governo. E na minha opinio, apesar de eu no ser capaz de prever o resultado eleitoral, posso garantir que vai ser um bom debate. E acho que a cidade vai ter a oportunidade de se apropriar de vrias coisas pela primeira vez. A reapropriao do espao pblico, por exemplo, a ideia da cidade para todos, o direito cidade. Poderia falar aqui horas de cada ao, de cada secretaria no sentido de promoo da igualdade racial, das cotas no sistema pblico... Porque no tinha um procurador negro na cidade de So Paulo, hoje 20% dos procuradores admitidos so negros. No tinha um auditor negro, hoje eles esto a. E apesar de todos esses programas, a nossa dvida pblica caiu 62%, em um perodo de recesso, em que est todo mundo endividado. Enfim, muita coisa que fizemos. um verdadeiro banho (risos). No tem comparao. Mas quem sou eu para dizer, no ?

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma) - Prefeito, nesse sentido, uma das formas de apropriao da populao dessas conquistas sociais se d em grande medida pela participao. O PT tem uma tradio muito grande de criar formas participativas. Eu acho que a mais notria o oramento participativo, que depois de um momento de entusiasmo, tanto na academia quanto na sociedade, acabou consolidando-se, em relao a ele, um diagnstico um pouco mais ambguo. O senhor parece ter optado antes por formas representativas de participao da populao, sobretudo atravs de conselhos temticos e locais, do que propriamente pela participao direta. E agora, mais recentemente, isso se refora com o projeto de eleio direta das subprefeituras. Como voc avaliaria essa opo, ou seja, o porqu dessa deciso de investir em participao representativa? E queramos saber, tambm, como esto sendo essas experincias na prtica, como est caminhando o projeto de eleio direta para as subprefeituras, por exemplo.

Fernando Haddad - Existe uma resistncia enorme ao projeto de eleio direta dos subprefeitos, mas se eu ganhar a eleio eu vou fazer. Porque ningum pode me impedir de consultar a populao para nomear um cargo que de livre provimento. Eu acho que seria um ganho enorme para a cidade. Como foi em Paris. Voc tem os subprefeitos, entre aspas, que so eleitos. Alis, quem no eleita o prefeito porque, pela lei, ele eleito indiretamente. Ento eu acho que a eleio direta de subprefeitos, em So Paulo, seria um ganho extraordinrio. Alm disso, ns revitalizamos todos os conselhos da cidade: transporte e trnsito, habitao, conselho da sade, conselho municipal de educao, enfim, todos foram requalificados. Agora, o oramento participativo em uma cidade como So Paulo eu acho que ainda [no possvel. Eu preferi adotar o planejamento participativo. Isso ns fizemos. Ento, se voc consultar a Leda Paulani, que era nossa Secretria de Planejamento, voc vai ver que ela apostou muito no planejamento participativo. Nosso programa de Metas, por exemplo, foi todo baseado em audincias pblicas com participao popular. Todo o plano de obras da cidade de So Paulo, algumas das quais esto licitadas, outras entregues, outras em curso, foram validadas pela participao popular. Assim, eu acho que o planejamento participativo mais promissor do que o Oramento Participativo em uma cidade to complexa como So Paulo.

Revista Fevereiro (Alexandre Carrasco) - Prefeito, agora que estamos encaminhando para o final, tem uma ltima questo que est um pouco...

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Alexandre, antes eu posso fazer uma pergunta ainda sobre a gesto na prefeitura? Porque no ltimo Datafolha para eleies municipais, eu fiquei muito surpresa com os resultados relativos inteno de voto para prefeito em So Paulo. Porque a sondagem traz um dado novo muito relevante. Durante muito muito tempo, o corte do voto na cidade de So Paulo foi geogrfico, ou seja, centro e periferia. O que aparece na ltima pesquisa, do ponto de vista estrutural, a meu ver, um novo corte.

Fernando Haddad - Um corte geracional.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Exatamente, geracional. Eu queria saber, ento, como voc avalia isso e se na sua opinio isso aponta um caminho para o futuro.

Fernando Haddad - Se eu tenho alguma chance essa.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Os jovens?

Fernando Haddad - Ah so os jovens. Porque eles entendem o que est em jogo e no tm o preconceito que os mais velhos tm com a legenda do PT, essas coisas. Eles esto ali vendo um administrador que est fazendo coisas que dialogam com o futuro, com a cidade que eles querem para eles, para os filhos, para os netos. Me empresta esse computador, eu quero mostrar uma coisa para vocs. Eu tenho uma foto aqui, que eu coloquei como capa do meu Facebook [...]. Essa aqui.



Isso aqui uma aula que eu dei na FAU no comeo de maro. Esse aqui sou eu, isso aqui o saguo da FAU-USP. Tinha mil alunos aqui. Todo mundo em silncio, discutindo a cidade de So Paulo. o primeiro prefeito que pisa na FAU para prestar contas do seu mandado. No ltimo ano do seu mandado, qualquer um sairia da debaixo de pau (risos). Por que eu estou mostrando isso? Porque essa foto corresponde ao seu sentimento. Tem um recorte que a juventude at 25 e 30 anos que comea a entender o nosso plano geral de voo, ou seja, para onde ns estamos indo. O que esse cara quer para a cidade? Ento, no fundo, essa a chance que a gente tem, se esse jovem militar pela cidade. Porque claro, se esses jovens votarem passivamente, dificilmente eu vou ser bem-sucedido. Mas se eles entenderem que o que est em jogo o futuro da cidade que eles querem, voc tem uma chance de discutir com a cidade. Porque um setor da populao persuasivo, formador de opinio e que tem ascendncia sobre os mais velhos em funo dos argumentos que coleciona em torno desse projeto.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Quando voc fala desses jovens se mobilizarem voc est pensando nos coletivos de cultura, como os que participaram muito da sua campanha j em 2012.

Fernando Haddad - Os coletivos, e tm muitos coletivos. Mas eu tambm tenho ido s universidades, o que tambm muito incomum para um prefeito, mesmo assim eu tenho ido. Eu fui no Mackenzie, fui na FAAP, fui na FEA-USP, fui na FAU-USP, fui na UFABC, e assim, a receptividade da juventude extraordinria. No teve um incidente, porque sempre tem algum disposto a tumultuar, no ? Mas no teve um incidente, a conversa de altssimo nvel, pessoal apropriado para fazer o debate, sabia o que estava acontecendo na cidade. A voc pode dizer, so nichos! verdade, mas voc constri plataforma a partir desses nichos.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - O problema quebrar o bloqueio miditico.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Mas a comunicao dessa camada jovem passa por outros canais menos tradicionais tambm.

Fernando Haddad - O problema do bloco miditico que a derrota do Serra em 2012 em So Paulo, na capital, foi um trauma muito grande para a direita. Eles no entenderam e no assimilaram isso at hoje.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - A minha impresso que voc muito visado, como um quadro novo, um perigo, como se dissessem “tem que esmagar esse a”.

Fernando Haddad - Isso visvel. Agora eu acho assim, natural que as pessoas, sem ouvir o outro lado, repitam o que ouvem no rdio. Voc simplesmente repete o argumento. Por exemplo, “esse cara no vai na periferia”. Pronto! Voc repete, vira verdade. Ou ento, “esse cara s anda de helicptero” (risos), eu ouvi essa outro dia. Quando voc fala sozinho, portanto, qualquer coisa cola. Agora, se tiver debate, se as pessoas tiverem interessadas, esse tipo de afirmao no sobrevive cinco minutos. E muito frgil a plataforma da oposio.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - E como voc est vendo essa eleio, nesse contexto, com esses adversrios....

Fernando Haddad - Exticos? (risos)

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Exticos (risos), e sem financiamento empresarial...

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma) - E com o PSDB provavelmente rachado.

Fernando Haddad - Eu acho curioso uma cidade como So Paulo deixar de lado esse processo de modernizao que est realizado por ns e optar pelas alternativas que esto colocadas. uma loucura. Mas uma loucura que pode acontecer. De todo modo, eu no poderia estar mais tranquilo e isso interessante nesse cenrio.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Tem muitas coisas interessantes nesse cenrio. Ns estvamos discutindo, para colocar no seu roteiro. Voc pega a Alemanha, por exemplo. H muitos anos, Berlim, que principal cidade do pas, tem uma prefeitura de esquerda mas a esquerda no consegue se afirmar em mbito nacional. Isso acontece em outros lugares.

Fernando Haddad - Na Colmbia.

Revista Fevereiro (Ricardo Crissiuma) - Na Frana, Paris.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Como voc enxerga isso? A esquerda conseguiu reformular o seu projeto para a cidade, isso est claro e mostra uma fora, os dados do voto jovem em So Paulo so um indcio disso...

Fernando Haddad - Eu acho que a nossa vitria poltica vir. A eleitoral eu no sei, mas a poltica vir. No tem como no vir. No tem como a gente perder politicamente, podemos perder eleitoralmente, mas politicamente, eu repito, no tem como.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - Mas seria bom tambm no perder eleitoralmente (risos). Nesse sentido, eu sou bastante pragmtico apesar de gostar de filosofia alem.

Fernando Haddad - E o est acontecendo aqui em So Paulo pode servir de plataforma para projetos nacionais.

Revista Fevereiro (Alexandre Carrasco) - Exatamente, ento pegando esse gancho para caminhar o encerramento da entrevista, queramos formular primeiro uma questo sobre as perspectivas eleitorais para 2016, que voc em parte j respondeu, e para 2018. Claro que est tudo muito complicado, muito mexido, mas queramos ouvir a sua opinio. E como ltima questo, ns trs aqui estvamos na quadra dos bancrios na noite do dia em que o Presidente Lula foi conduzido coercitivamente at o aeroporto de Congonhas e escutamos a sua fala. Eu, pessoalmente, noto um entrosamento muito grande entre voc com o presidente Lula e sei que o senhor um quadro chave do PT talvez para 2018, mas certamente para a sobrevivncia do PT em um novo ciclo. O que o senhor acha do papel do Lula na crise, agora?

Fernando Haddad - Olha, eu acho que os prximos dias so decisivos. Porque a presidente Dilma est com muita dificuldade para recuperar protagonismo e credibilidade para conduzir o pas e, talvez, esse convite que ela tenha feito para o Presidente Lula assumir um ministrio seja a cartada que ela tem disponvel. Porque ele muito talentoso, talvez seja o maior poltico dos ltimos 50 anos, e lder, lidera processos. Porque a classe poltica tem muita confiana na palavra do Lula, porque o Lula cumpre acordo, o Lula... Agora, eu no sei o grau de deteriorao do quadro, ento no sei qual ser a capacidade que ele ter de resgatar esse projeto. Talento no falta, mas um homem, no ? E obviamente que se ele aceitar o convite e conseguir resgatar o protagonismo do governo, naturalmente ele se qualifica para se candidatar, se quiser.

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - E se no?

Fernando Haddad - A difcil. Tem muito cho pela frente. O PT est muito...

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - E para a eleio deste ano faltam sete meses...

Fernando Haddad - E ela vai acontecer em um perodo mais conturbado impossvel. No tem como os espritos estarem em paz. No d tempo, at outubro, de as pessoas estarem calmas. Ento no sei se argumento vai contar muito. Se contar, ns estamos no jogo. Porque no tem projeto alternativo. Eu no acompanho muito, por desinteresse mesmo, os projetos dos meus adversrios, mas quando chega ao meu conhecimento uma coisa lastimvel. Agora, obviamente, o meu maior inimigo no so os meus adversrios, esse bloco miditico que implacvel. uma pena, porque eles esto jogando no obscurantismo, na desinformao.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - Qual seria o caminho, para a esquerda, em termos de poltica de comunicao?

Fernando Haddad - Eu acho que dependendo do uso que voc faz. Eu abri esse Facebook outro dia e j est com 94 mil curtidas. Quer dizer, 94 mil pessoas de alguma maneira acompanham. Ento voc tem formas de comunicao direta hoje que so interessantes, mas no substitui uma Rede Globo, uma CBN, uma Jovem Pan.

Revista Fevereiro (Maria Carlotto) - A prefeitura no pensou em criar uma rdio?

Fernando Haddad - A gente vai ter uma TV, com a digitalizao. Mas difcil ter audincia sem dinheiro para produo. complicada essa coisa da comunicao. E no Brasil, a regulao econmica da mdia no aconteceu, ento a concentrao aqui impressionante. Nossa comunicao est na mo de quatro famlias e elas pensam igual (risos).

Revista Fevereiro (Ruy Fausto) - O problema no s que pensam igual, que so reacionrios, mas tambm que o nosso jornalismo muito ruim.

Fernando Haddad - Mas o pior a radiodifuso. E eles tm muito alcance. um nvel impressionante. Lavagem cerebral. Triste mesmo de ver. E a difcil, porque eles esto l, 24 horas por dia, sete dias por semana. Voc fala uma vez por semana, o cara te ouve, mas logo em seguida da sua fala j tem algum te contestando, sem a chance do contraditrio, ento a ltima palavra sempre deles. A gente regrediu do ponto de vista do debate pblico e com isso a gente volta para a pergunta inicial. No se tem mais espao, hoje, para a inteligncia.

    
    

 





























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