revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

 

Apresentao

 

Caras leitoras,
Caros leitores,
Chega ao ciberespao a nova edio da Revista Fevereiro, precedida por uma apresentao e por um indito "editorial" que o momento exige e todos bem sabem o porqu.
Antes de mais nada, vale notar que a Revista Fevereiro completou, no conturbado maro ltimo, seis anos de existncia. Um olhar, mesmo que apressado, pelo conjunto de edies da Revista capaz de observar dois padres distintos de publicao que, ousaramos dizer, refletem, ainda que de forma mediada, o momento histrico-poltico do pas. Assim, nos seus trs primeiros anos de publicao, de maro de 2010 a outubro de 2012, a Revista Fevereiro manteve uma periodicidade semestral, com edies mais curtas e menor volume de textos. A partir de 2013, no entanto, acompanhando a complexificao da situao econmica, poltica e social brasileira, a Revista passou, involuntria, mas certamente no casualmente, a ser publicada anualmente com edies mais longas e um nmero maior de colaboradores. A mudana, como dissemos, no foi intencional e nem se pretende perene, mas difcil no reconhecer uma certa necessidade histrica nessa inflexo.
Coerente com esse perfil mais recente da Revista, o presente nmero 9, fechado em abril e lanado oficialmente em meados de junho de 2016, encerra um jejum de quase um ano desde o ltimo nmero da revista, encerrado em junho ltimo. Segundo esse mesmo padro, trata-se de uma edio longa, densa e com um volume significativo de colaboraes. Em funo disso, e da novidade j mencionada do editorial, optamos por uma apresentao mais descritiva dos textos que, por isso, conduza o leitor mais rapidamente ao contedo do nmero.
Os que acompanham sistematicamente a Revista Fevereiro no estranharo que este nmero aberto por um “dossi Brasil”, formado por oito importantes reflexes que pretendem contribuir para o diagnstico do momento atual e, consequentemente, para a organizao futura da esquerda brasileira.
Na primeira delas, intitulada “O pecado que pagamos”, Tarso Genro prope uma reflexo sobre quais foram os erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores que possibilitaram direita e ao monoplio miditico coloc-lo como responsvel exclusivo por toda a corrupo nacional e, ao mesmo tempo, que impediram com que o partido propusesse, no momento em que a correlao de foras era favorvel esquerda brasileira, uma “agenda reformista forte” ao pas, ancorada nas ainda urgentes reformas poltica e tributria.
Dando sequncia ao esforo de diagnstico crtico, que marca de um modo ou de outro todos os textos do dossi, Celso Barros procura avanar na interpretao do primeiro governo de Dilma Rousseff, atravs de um debate crtico ideia de “ensaio desenvolvimentista”, proposta por Andr Singer. Para tanto, o autor confere uma nfase maior no impacto da crise internacional de 2008 sobre o compromisso social lulista que, segundo o autor, est na raiz das inflexes propostas por Dilma no seu primeiro mandado, devendo orientar qualquer interpretao deste ltimo.
Na mesma linha, Fernando Rugitsky em “Milagre, milagre, antimilagre: a economia poltica dos governos Lula e as razes da crise atual” procura contribuir para o diagnstico dos 13 anos de Partido dos Trabalhadores no poder com foco especfico sobre o problema da desigualdade social que, segundo ele, deve ser a prioridade de qualquer governo de esquerda no pas. Na viso do autor, em sntese, justamente nos limites da reduo de desigualdades promovida pelos governos Lula que se deve buscar compreender as limitaes do crescimento econmico que impactaram de forma decisiva os governos subsequentes de Dilma.
Jos Henrique Bortoluci tambm pretende contribuir para a interpretao da inflexo poltica atual, mas mobilizando para tanto um quadro histrico ainda mais amplo, que remete crise das garantias fundamentais asseguradas pela Constituio de 1988. A hiptese geral do autor de que o pndulo que, graas fora dos movimentos sociais progressistas da dcada de 1980, favoreceu o pacto social firmado na “constituio cidad”, teria agora se invertido, como resultado imediato do fortalecimento de movimentos sociais conservadores. Ainda segundo o autor, essa inflexo - cuja anlise sociolgica das razes ele esboa na segunda parte do texto - que cabe s foras progressistas nacionais enfrentar.
Tambm no esforo de pensar a situao poltica atual dentro de um quadro mais amplo, Mnica Stival interroga criticamente a pertinncia da expresso “Estado democrtico de direito” que ofusca o fato essencial de que a poltica pode, muitas vezes, extrapolar a esfera exclusivamente jurdica. Como diz o ttulo “No h ‘Estado democrtico de direito’ mas ‘democracia’”. Essa afirmao permite autora negar duas teses correntes no debate brasileiro contemporneo. Uma que procura mobilizar o direito para deslegitimar a poltica, ignorando “que a constituio de provas uma das particularidades da deciso jurdica, distinta especialmente por isso da deciso poltica, que delibera conforme anlise estrita de argumentos e valores”. E outra que pretende, no sentido oposto, reduzir a importncia do direito, inclusive no contexto brasileiro contemporneo, para a prpria democracia, como se fosse possvel mobilizar a categoria de “Estado de exceo” para pensar a situao atual.
Se Mnica Stival procura ressaltar as diferenas entre os anos da ditadura e o momento atual no que concerne ao exerccio do direito, Alexandre Carrasco, sem discordar da autora, vai enfatizar, no entanto, as semelhanas de fundo entre os dois perodos. Isso porque, segundo ele, os dois momentos fariam parte de um mesmo gnero, o gnero “golpe”. Tomando como mote a frmula de Tomz Gutirrez Alea de que o “subdesenvolvimento a incapacidade de acumular memria”, Carrasco analisa a volta ao passado, sem mais, que parece estar ocorrendo no Brasil de hoje. O texto, que busca indagar o sentido dessas “Memrias do subdesenvolvimento” seguido por um certeiro recado do cineasta Rogerio Sganzerla, ainda nos anos 1970.
Na reflexo que se segue, Ruy Fausto tambm procura ir alm da conjuntura imediata para pensar criticamente qual deveria ser a posio da esquerda brasileira diante do atual contexto de crise, resgatando, para tanto, temas, problemas, questes e contradies normalmente omitidos no debate interno a esse campo. O autor parte de uma reflexo sobre “quais deveriam ser os objetivos ltimos de uma poltica de esquerda (no Brasil e fora dele)” para analisar algumas questes mais imediatas ao debate brasileiro, tal como “corrupo” e o lugar das “classes mdias”, para encerrar o texto com “perspectivas”, tanto no campo dos projetos como da organizao.
Fechando o “dossi Brasil”, Jos Swako prope um ensaio quase etnogrfico sobre o fascismo brasileira, que emerge no Brasil contemporneo. Tomando como objeto fotos, vdeos, cartazes, faixas, discursos entre outros elementos, o autor descreve e analisa traos da viso de mundo e elementos de personalidade dos setores mais conservadores que foram s ruas nos ltomos meses, pedir o impedimento da presidente da Repblica. “O fascismo contemporneo brasileiro ou o mundo segundo o conservadorismo” tem uma explcita inspirao adorniana e traz uma contribuio importante ao urgente e necessrio desafio de se pensar a pertinncia de mobilizar o conceito de fascismo no Brasil de hoje.
Em dilogo explcito com o “dossi Brasil”, a seo de entrevistas traz dois importantes nomes da esquerda brasileira contempornea, o prefeito da cidade de So Paulo, Fernando Haddad, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), e o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chico Alencar, filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Em duas entrevistas longas, os leitores tero a oportunidade de se deparar com a leitura que ambos fazem do momento atual e do processo que nos conduziu at ele. Tambm encontraro avaliaes sobre seus respectivos partidos, sobre a ascenso da direita conservadora e, principalmente, sobre as perspectivas de futuro da esquerda brasileira.
A seo de artigos, como no poderia deixar de ser, ecoa direta ou indiretamente o momento atual. Ouvidos atentos escutaro notas polticas em todos os textos, embora no tenha sido essa a nossa inteno imediata.
Assim, em um belo texto, que oscila entre uma biografia do Brasil e uma autobiografia tout court, Caetano Veloso reflete sobre a trajetria poltica do pas desde a dcada de 1960, analisando as motivaes de um gesto aparentemente despretensioso, porm pleno de consequncia e significado: “um voto”. Dissecando as razes da prpria escolha eleitoral ao longo dos anos, Caetano explicita a relao sempre tensa entre o indivduo e seu tempo, sem com isso desqualificar, como poderiam supor os ingnuos, esse que configura o maior smbolo de toda democracia representativa: o ato de votar. Desnecessrio dizer a importncia de tal anlise no presente momento, em que o voto de 54 milhes de pessoas, e com eles o prprio fundamento da democracia brasileira, esto em suspenso.
No artigo “As ocupaes de escolas em So Paulo (2015): autoritarismo burocrtico, participao democrtica e novas formas de luta social”, Adriano Janurio, Antnia Malta Campos, Jonas Medeiros e Mrcio Moretto Ribeiro promovem uma rica anlise das novas formas de luta social que emergem com os novos personagens que, desde o ano passado, invadem a cena brasileira: os estudantes secundaristas. O texto tem como objeto as ocupaes de 2015 em So Paulo, mas a sua publicao ocorre no momento em que tal prtica se dissemina, em velocidade impressionante, por 2016 e para diferentes estados brasileiros, o que s aumenta a importncia e o interesse da anlise proposta.
Em “Um pas beira de um ataque de nervos”, o autor se surpreender ao encontrar Jefferson Goulart analisando no o Brasil sob o signo do impeachment, mas a Espanha sob o signo das tenses polticas que dilaceram o pas. Bero de uma profunda crise econmica e de novas foras polticas, esquerda e direita, a Espanha revela-se, sob o olhar de Goulart, cindida pelo dio. Os dados trazidos do autor assustam: em 2015, os crimes de dio na Espanha cresceram 13%, quase um quarto deles motivados por razes ideolgicas. To perto, to longe, a reflexo um convite para pensar o Brasil de hoje, bem como o exerccio da democracia em diferentes lugares do mundo sob o signo do neoliberalismo.
Tambm olhando para as tenses polticas no plano internacional, Daniel Golovaty Cursino prope uma interessante reflexo sobre qual deveria ser a posio da esquerda democrtica diante do conflito Israel - Palestina, no contexto em que os diferentes polos em disputa mobilizam a retrica da “guerra de civilizaes” e tendo em vista a necessidade de ir alm da vulgata que associa sionismo e o imprio capitalista.
N’As aventuras da dialtica, o leitor encontrar a resenha de Arthur Hussne Bernardo da segunda edio do primeiro tomo de Marx: lgica e poltica, investigaes para uma reconstituio do sentido da dialtica,de Ruy Fausto, agora publicado sob o ttulo Sentido da dialtica, Marx: lgica e poltica. Apesar de sugerir, a princpio, um debate puramente lgico sobre mtodo dialtico, tanto a resenha quanto o livro vo alm. Como o prprio ttulo - agora subttulo - da obra de Fausto explicita, a defesa da dialtica, como lgica, o ponto de partida para qualquer diagnstico verdadeiramente crtico - dialtico - que seja fundamento e resultado de uma ao poltica verdadeiramente crtica. No caso especfico do livro de Fausto - que revela toda a sua atualidade - o objetivo central partir de uma interpretao dialtica da obra de Marx para, atravs da superao e no pura negao, reconstruir um pensamento de esquerda contemporneo que seja, necessariamente, democrtico e no autoritrio, anticapitalista e no adesista, crtico e no dogmtico.
Aproveitando a chave dialtica, o texto que encerra a seo de artigos poderia tanto estar no fim quanto no princpio das reflexes de conjunto da revista. Trata-se do balano crtico que Pierre Dardot e Christian Laval realizam do neoliberalismo e da sua relao tensa com a democracia. Segundo os autores, o neoliberalismo, como sistema e na sua fase atual, seria responsvel por inaugurar uma “era ps-democrtica” do capitalismo. Depois de revisar criticamente trs diagnsticos sobre o perodo - o que enfatiza a imposio miditica do neoliberalismo como pensamento nico; o que aponta os efeitos polticos devastadores sobre as classes populares e trabalhadoras da crise econmica gerada pela austeridade neoliberal; e os que identificam um simples recrudescimento da lgica capitalista sob o signo da financeirizao - Dardot e Laval concluem que todos eles continuam unilaterais uma vez que “no chegam a apreender a originalidade histrica do neoliberalismo porque reduzem a uma nica dimenso, seja ideolgica, sociolgica ou econmica, um processo que exige ser compreendido, antes de tudo, em sua sistematicidade”. Segundo os autores, “o neoliberalismo, pela extenso de seus efeitos e manifestaes, um verdadeiro sistema poltico-econmico cuja originalidade preciso apreender”. essa a tarefa que eles se propem no texto.
A Revista Fevereiro segue, na sua seo de literatura, com trs poetas brasileiros contemporneos - Alberto Martins, Antonio Ccero e Ruy Fausto - e um ensaio literrio de Alexandre Carrasco sobre “o vampiro de Curitiba”.
Na seo de cinema, o leitor encontrar uma crtica do aclamado filme de Anna Muylaert “Que horas ela volta?”, escrita por Fbio Zanoni, seguida de uma entrevista com a diretora realizada pelo mesmo autor. A mesma seo traz uma rica anlise de Ferno Pessoa Ramos sobre um dos principais documentaristas brasileiros da atualidade, o mineiro Cao Guimares.
Na seo de artes visuais, Henrique Xavier analisa a interveno artstica de Deyson Gilbert intitulada Faixa - PROUN, no bojo do projeto Opacidade Transitiva para Ocupao, durante a reedio de cinquenta anos da “Marcha pela famlia com Deus pela Liberdade” em 2014.
Fechando o presente nmero, a Seo em Lngua Estrangeira traz, em primeiro lugar, a verso em francs do j mencionado artigo de Pierre Dardot e Christian Laval, aqui publicado sob o ttulo “Le nolibralisme, un systme hors-dmocratie”. Na sequncia, Cristina Fres Borja Reis, Maria Caramez Carlotto e Tatiana Berringer escrevem uma breve anlise, em ingls, das reformas regressivas que tramitam no Congresso Nacional, paralelamente ao processo de impeachment da presidenta eleita, Dilma Rousseff.
Boa leitura e Fora Temer!

 






























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