revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Fbio METZGER1

 

Resenha do Livro A Fnix islamista - O Estado islmico e a reconfigurao do Oriente Mdio, de Loretta Napoleoni. Traduo de Milton Chaves de Almeida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015, 154 p.

 

O Estado Islmico: um dilema que no cabe em simplificaes 

 

Em um texto em estilo jornalstico arrojado, e com algumas teses corajosas e outras exageradas, a autora Loretta Napoleoni, especialista em terrorismo e lavagem internacional de dinheiro, busca compreender o significado da gnese, crescimento e consolidao do ISIS (Estado Islmico do Iraque e da Sria) em seu livro A Fnix Islamista (2015). Um dos aspectos para o qual ela mais chama a ateno ao longo do texto a forma pouco cuidadosa com que as principais potncias ocidentais, especialmente os EUA, tiveram com o crescimento do salafismo,2 e em especial, do jihadismo3 dentro do tecido social do Mundo rabe sunita, principalmente no Iraque e na Sria, pases que a partir da queda de Saddam Hussein em 2003 passaram a ser comandados por governantes xiitas (caso iraquiano), ou do ramo do xiismo alauta (caso srio). Na sequncia lgica, o Ir passou a exercer crescente influncia na regio. Enquanto a maioria sunita na Sria e a minoria no Iraque estavam sendo crescentemente alienadas dos crculos de poderes centrais. Ao mesmo tempo em que buscava uma ligao (no existente) entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda, o governo dos EUA combatia o principal lder da Al-Qaeda na regio, o jordaniano de origem beduna Abu Musab Al-Zarqawi, que assumia lealdade rede terrorista internacional comandada por Osama Bin Laden. Durante esse combate, o que no conseguiam compreender eram as ideias de Al-Zarqawi, no em relao ao Iraque, mas sim por conta do islamismo radical sunita, e da forma como ele deveria assumir as suas posies (p. 32-38). Para os EUA, as prioridades eram outras. De um lado, havia a preocupao em combater as milcias xiitas de Muqtada Al-Sadr. Por outro, mediar um governo de maioria nacional, onde os xiitas seriam naturalmente majoritrios. E onde o Ir, pas com relaes extremamente hostis com Washington, aproveitava para aumentar a sua influncia. Em outra frente, organizar a minoria nacional curda, que almejava autonomia, sem que ultrapassasse os interesses do governo da Turquia, contrrio formao de um Curdisto independente. E esvaziar todo o poder do antigo partido Baath, de Saddam Hussein. Nesse sentido, Al-Zarqawi aproveitou para estabelecer a sua frente e buscar legitimidade perante os sunitas iraquianos, deslocados e marginalizados sem Saddam Hussein. E substituir o antigo discurso nacionalista rabe pelo do islamismo radical, e a unidade do jihad contra o Ocidente, com o seu grupo Al Tawhid al-Jihad (“Monotesmo e Jihad”). Seu objetivo era colocar a ideia do pequeno jihad (a guerra santa)4 contra os inimigos do Isl, na prtica real. Suas ideias de recolocar a prtica de um isl idealizado em sua fundao no sculo VII ainda no estavam bem delimitadas (idem). Mesmo dentro dos principais membros da Al-Qaeda, no havia uma ideia exata do que seria um Estado Islmico, apesar de vagamente falarem do retorno ao antigo Califado, liderana poltico-religiosa unificada do Isl que perdurou por sculos, abolida, em 1924, pelo presidente da Repblica da Turquia Mustaf Kemal Ataturk.
Morto nos confrontos contra as foras ocidentais, Al-Zarqawi deixou, no entanto, a fora de suas ideias perante uma comunidade que representa cerca de 20% do total da populao iraquiana. Havia um vcuo de lideranas e um novo lder apareceu, dessa vez, de maneira mais discreta: Abu Bakr Al-Baghdadi. Pouco se atentou na atuao e no perfil dele durante a ocupao ocidental no Iraque. Suas atitudes no davam a entender que se tratava de um perigoso terrorista, muito mais sofisticado que os demais combatidos. Por outro lado, suas formulaes pareciam ser mais decididas (p. 38-43). E a ideia de Califado estava mais clara para ele. Assim, a ideia de fazer ultrapassar o princpio de Al Tawhid al-Jihad para o Califado em si mesmo foi simples e objetiva. Foi buscando as contradies que os confrontos entre xiitas e sunitas levavam, e conquistando simpatizantes, dento da Arbia Saudita, Catar e outros pases; foi obtendo financiamento para fazer crescer o grupo, conquistar posies estratgicas, cercar Bagd, e estabelecer autonomia de fato, a ponto de romper com as lideranas da Al-Qaeda e criar a sua prpria concepo de poltica no Isl. No mais a de redes extraestatais, que buscam simpatizantes, mas sim a da construo de um Estado de fato. E com ele, os modos de atrao para sunitas de todo o mundo que no se sentissem integrados em seus pases comandados por tiranos “hereges”, oprimidos por governos estrangeiros ou por outras correntes muulmanas.
A Primavera rabe, a partir do final de 2010, que parecia configurar uma grande oportunidade de libertao de regimes autoritrios, entre eles, o dos srios em relao ao regime da famlia Assad, na verdade, em sua maioria, configurou-se como um grande avano de foras de retrocesso. De um lado, as ditaduras. De outro, uma mirade de foras, algumas democrticas, outras fundamentalistas. No caso srio, uma base social que garantia o poder de Bashar Al-Assad: as minorias alautas (seita qual ele pertence), crists e druzas. De outro, as maiorias fundamentalistas. Foi nesse momento que Al-Baghdadi capitalizou a sua fora e, liderando os islamistas mais radicais dos dois lados, se autoproclamou Califa, rompendo com a Frente Al-Nusra, grupo da Al-Qaeda ligado Sria. O interesse dos pases ocidentais em derrubar Assad, um poltico bastante incmodo, prximo ao Ir e ao Hezbollah no Lbano fez com que os pases rabes produtores de petrleo e a Turquia apoiassem os rebeldes. E, dentre estes, destacavam-se mais os jihadistas. nesse sentido que a liderana de Al-Baghdadi conseguiu concentrar em torno de si uma grande mquina de arrecadao de fundos, ao ponto de, em determinado momento, no mais precisar de seus apoiadores originais, expandindo as fronteiras de seu potentado, antes restrito ao Iraque, agora, ultrapassando a Sria. Aquilo que autora denomina de “Estado-fantasma” (p. 45-46), que ela justifica como sendo um pas que pode no existir no papel, mas que, de fato, opera como arrecadador de fundos, autossuficiente e mantenedor de uma mquina prpria. Aqui ela comea a fazer algumas comparaes um tanto arriscadas. E faz um paralelismo com a OLP, nos tempos da I Intifada (1987-1993), quando Israel, mesmo ocupando os territrios da Cisjordnia e de Gaza e endurecendo, no conseguia derrotar um inimigo to bem estruturado e capilarizado, com doaes de pases amigos e organizaes pr-URSS, em plena Guerra Fria. Ela mesma contextualiza essa comparao dizendo que o momento atual do ISIS tem mais a ver com um confronto de sunitas e xiitas. No entanto, aqui existe outro aspecto: o confronto triangular. Vai alm do embate sectrio: envolve xiitas, sunitas, e tem um fiel da balana profundamente hesitante, o Ocidente e seus aliados, pouco hbeis em reconhecer as nuances desses embates, onde h grupos e subgrupos que mudam constantemente de lado. No caso Israel versus OLP havia um objeto bastante definido: o ocupante e seus aliados, e o ocupado e seus apoiadores. Sendo que o ocupado sempre contou com o reconhecimento internacional para a formao de seu Estado. Para que se possa, no futuro, haver o reconhecimento internacional do Estado Islmico, hiptese levantada por Napoleoni, seria necessrio que o Califa tivesse em seu territrio o mesmo poder que a Rainha da Inglaterra possui em seus domnios formais. Suponhamos que, se o problema a restaurao da posio poltico-religiosa mxima do Isl, seria mais fcil a instaurao de um Califado na provncia saudita do Hejaz, dando a esta o status de um Estado Islmico legalizado e reconhecido, ostentando o ttulo de Califa a um importante membro da famlia hashemita, essa descendente direta do profeta Maom - ascendncia essa que Al-Baghdadi tambm reivindica. De qualquer maneira, no deixa de ser importante a preocupao de Napoleoni com relao capacidade do ISIS estabelecer-se. Talvez a crena de que coloc-lo “na lei internacional”, para cont-lo seja um desejo pessoal dela para que a ordem regional seja estabelecida. Seria preciso, no entanto, combinar com eles...
O rompimento da fronteira entre Iraque e Sria, mais do que um ato formal, foi uma mensagem clara: o fim, na prtica, do cumprimento dos acordos Sykes-Picot, do final da I Guerra Mundial, em que se estabeleceram, por parte das potncias vencedoras (Gr Bretanha e Frana), a criao de naes artificiais com o que restou dos esplios do antigo Imprio Otomano. Dali surgiram a Sria, o Lbano, o Iraque, a Jordnia, e o Mandato da Palestina, de onde surgiu tambm o Estado de Israel, mais tarde. A mensagem de Al-Baghdadi clara, segundo Napoleoni: formar um centro para todos os sunitas que no se sintam representados em outras terras. Mais uma vez, como ela mesma reconhece, faz uma comparao de duas dimenses diferentes para casos bem distintos. Ela compara o recrutamento e xodo dos sunitas ao Estado Islmico ao processo de migrao dos primeiros sionistas que colonizaram a Palestina no incio do sculo XX e que articularam a gnese do atual Estado de Israel, com a mensagem de que todo judeu que no se sentisse integrado e representado em sua terra original poderia vir para a Sion histrica, reencontrar-se com o seu Lar Nacional. Obviamente, h que se fazer ressalvas, que ela mesma faz apesar de no aprofund-las (p. 19; 59). Enquanto os membros do Estado Islmico defendem um Estado teocrtico em todos seus aspectos, na linha do salafismo para os muulmanos sunitas, os sionistas estavam divididos em diversas correntes, sendo a principal da poca apoiada no sonho da construo de uma nao socialista e democrtica para os judeus (o sionismo socialista).5 A respeito disso, muitos podem questionar sobre a criao de Israel desde 1948, e as consequncias que esse fato teve para o povo rabe palestino. E podem falar sobre as tenses que ocorreram no processo de colonizao e a deciso da partilha de 1947, pela ONU, at aquela presente data. No entanto, mesmo naquele fato histrico, as principais lideranas buscavam legitimidade externa em primeiro lugar, e no agiram at a criao do Estado de forma a desafiar o Direito Internacional, tendo ao seu favor o histrico de massacres que o povo judeu sofrera at pouqussimos anos antes.6 J no caso do Estado Islmico, como a prpria autora admitiu, a preocupao no com a legitimidade externa, mas, sim, em primeiro lugar, com a interna.
Nesse sentido, ela coloca uma questo muito pertinente: apresenta Al-Baghdadi e seus parceiros como sendo muito mais pragmticos e sofisticados do que a Al-Qaeda ou o Taleban no Afeganisto. Enquanto os rebeldes srios preocupavam-se em derrubar Assad, Al-Baghdadi limitou-se a demarcar territrio com as pores territoriais de xiitas a oeste na Sria e a leste no Iraque.7 Sua preocupao central era, ao contrrio do Taleban, que negava as benesses da Modernidade, utiliz-las a servio do Califado. Especialmente as redes sociais e a forma como elas poderiam ser manuseadas a fim de gerar a legitimidade dentro das leis religiosas islmicas - incluindo, claro, a discusso sobre a legitimidade do Califado. E, nesse ponto, a autora chama a ateno de como os pases ocidentais esto subestimando a inteligncia das lideranas do ISIS. Elas se mobilizam no assistencialismo social de dois pases devastados por guerras civis. Atraem jovens muulmanos (muitos recm-convertidos) por redes sociais, recrutando-os aos milhares (p. 60-63). E fazem uso dessas redes para divulgar, com requintes de crueldade, execues de combatentes capturados, a fim de gerar terror e temor a quem os v de fora. Ao invs de um ataque como do 11/09/2001, onde morreram cerca de 3 mil pessoas, por que no repercutir a morte de apenas um cidado de determinado pas, direcionando, atravs de hashtags, tweets e posts, a mensagem que desejam passar?
A outra analogia histrica que Napoleoni faz, com a imagem de uma Fnix que ressurge ciclicamente, com o fim de uma entidade poltica anterior, tambm carece de cuidados. Quando ela fala do ressurgimento do Califado entre a Sria e o Iraque, tal como a continuao espiritual dos Antigos Califados, a autora nos remete fundao de Roma, como sendo o prosseguimento da velha Tria, destruda, mas preservada em outro local por seus descendentes (p. 65-68).8 Ora, como associar a histria Greco-romana, baseada em sociedades politestas to diversas entre si (e a Tria do Mundo Helnico guardava poucas semelhanas com o Mundo Latino ao qual Roma pertencia) ao contexto islmico monotesta, onde a lngua e a cultura rabe so uma constante (apesar das diversas variaes regionais, e do comando, nos ltimos sculos, do Califado pelos turcos)? Seria necessrio um flego argumentativo no demonstrado por Napoleoni ao longo do livro. Ela apenas fez a transposio no tempo e no espao de duas Fnix distintas, que operam de maneira diferente, com objetivos diversos. Remo e Rmulo (fundadores de Roma) e seus descendentes, desejavam, sim, gerar temor aos que lhes eram estranhos, e fascnio aos que a eles queriam aderir. E isso poderia servir como um mtodo eficaz para a rpida conquista dos romanos. Mas essa s uma ligeira semelhana que teriam com Al-Baghdadi. Os tempos e meios de comunicao eram outros e a descentralizao do poder romano era tal que a formao de uma classe adicional foi possvel com a criao do Senado. Afinal, onde est o Senado, na criao do novo Estado Islmico?
Nesse ponto, cabe uma indagao: entre a legitimao de um Califado altamente contestvel (e que pode ser legitimado por outras vias em outros centros mais importantes do Isl), e a formao de um Estado para a populao sunita local, no seria mais vivel, ao invs do reconhecimento do ISIS, o seu isolamento, a oferta para as populaes sunitas da regio de uma nova repblica entre a Sria e o Iraque, hoje fragmentados? Esse um problema que os prprios habitantes da regio necessitam responder, e talvez Loretta Napoleoni no tenha para si a soluo, apesar de bem informada e bastante articulada. Talvez Sria, Arbia Saudita, Turquia e Jordnia, entre outros, venham a se interessar a ter um Estado tampo na regio (mais um, diga-se), a fim de confortar os sunitas locais. E quanto ao Califado: se os prprios clrigos muulmanos ligados ao poder oficial sentirem necessidade de criar uma jurisprudncia na sharia que o leve sua restaurao, nada, ainda mais agora, impedir que isso seja feito. E, provavelmente, no em Al-Raqqa, a atual capital do ISIS.































fevereiro #

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ilustrao: Rafael MORALEZ



1 Doutor em Cincia Poltica e Mestre em Histria Social pela FFLCH/USP. E-Mail fabiometzger@terra.com.br

2 Movimento islmico conservador de matriz sunita, pacfico na ao, mas radical no discurso, que deu origem a uma srie de correntes de ao poltica: a Irmandade Muulmana no Egito e outros pases rabes, a Jamaat-e-Islami no Paquisto, e outras organizaes espalhadas ao longo do Mundo Muulmano.

3 O jihadismo a radicalizao do movimento salafista, no apenas no discurso, como tambm na ao poltica.

4 Seu objetivo era colocar em prtica a ideia do pequeno jihad ( guerra santa ) contra os inimigos do Isl.

5 H que se destacar que a grande maioria dos movimentos salafistas entram em choque com os ideais da democracia, enquanto tal fato no um trao caracterstico do movimento sionista. Isso, apesar das polticas dos atuais governantes que comandam o Estado de Israel representar uma grande contradio na defesa dos valores democrticos e pluralistas das linhas mais progressistas, hoje afastadas e minoritrias.

6 O Holocausto ocorrido na Europa (1942-1945), que dizimou cerca de 6.000.000 de judeus de um total de uma populao estimada em 16.000.000 a 18.000.000 de habitantes. possvel questionar se os palestinos deveriam pagar pelos alemes. No entanto, o direito de os judeus optarem pela autodeterminao por meio de um Estado soberano e independente parece incontestvel, apesar das controvrsias que so geradas at os dias de hoje. E certamente, a essa altura, no seria nem um pouco realista ou responsvel o ato de anular juridicamente o Estado de Israel, que bem ou mal, exerce a funo da materializao desse direito, a despeito das injustias cometidas ao povo rabe-palestino (que tambm possui o mesmo direito de se autodeterminar pela via de um Estado soberano).

7 E quem sabe essa seja realmente a nica semelhana com o sionismo. Mesmo assim, com as vertentes dos sionismos poltico (defensor de dois Estados na regio) e revisionista (defensor de um Estado judeu a oeste do rio Jordo, enquanto a leste, na Jordnia, seria construda uma ptria para os palestinos). H que se perguntar se os palestinos j concordaram que a Jordnia seria sua “verdadeira ptria”, j que, em sua maioria, mesmo no gostando, tiveram que se contentar com o estabelecimento das condies para a delimitao dos dois Estados, Israel e Palestina, lado a lado, a oeste do Jordo. O sionismo socialista e o espiritual, apesar de defenderem o direito ao Estado, no o priorizavam como meio de imposio. Acabaram sugados dentro da radicalizao do processo histrico, onde o embate entre israelenses e palestinos radicalizou-se cada vez mais.

8 De onde teriam escapado o rei Enas e seu filho Ascnio, a fim de, em Roma, reeditar-se em novas glrias, a fim de suplantar a derrota histrica e definitiva dentro do Mundo Helnico...