revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Alexandre de Oliveira Torres Carrasco

 

A representao e sua crise.1
Anotaes sobre a experincia brasileira (1a parte)

 

 

 

Desde o que se convencionou chamar de “as jornadas de junho (de 2013)”, o fato e o nome, reapareceu com fora um tema recorrente, ndice mgico e difuso de todos os problemas polticos contemporneos, locais e mundiais, e que gira em torno de expresses mais ou menos retricas tais como “a crise da representao”, “a falncia da representao”, “a incapacidade da representao representar”, e, por extenso, seu corolrio mais popular em alguns crculos, a “falncia da democracia representativa”, “a falncia da representao tradicional”, “dos partidos polticos tradicionais”, etc., etc., etc.
O mal-estar estar da tal “representao”, poltica sobretudo, mas no s, pode encontrar datao anterior a essa que tomo arbitrariamente, a depender do humor de seu cronista, vale dizer.
Vale, porm, dar-lhe uma feio menos vaga e menos retrica, mesmo que seja com validade especfica de compreenso dos esboos de anlises que seguem. O que tomamos como a “representao poltica” em seu sentido lato seria tudo que gira em torno da prtica mais ou menos estabelecida da representao, com seus condicionantes formais (e, por bvio, legais) e seus condicionantes propriamente “prticos” - seu funcionamento emprico, seus processos de reconhecimento e universalizao, seus modos de expresso de legitimidade. “Representao” poltica, nessa chave, seria o ndice de processos no necessariamente pacficos ou harmnicos, que compem um prtica especfica da vida social cuja funo distribuir, e sob certos critrios, o poder, em uma sociedade formalmente democrtica, mas no harmnica ou pacificada.
A explicao que se fez um cuidado prvio para o desenvolvimento que se segue, uma vez que, como os leitores vero, tomaremos a tal representao, nome e noo, a torto e a direito.

Feito o esclarecimento, retomamos o fio da meada. Desta feita, j apresento minhas intenes ao dizer que aqui interessa menos descrever o quanto a representao “no representa” do que verificar como ela funciona, representando ou no. A intermediao e as mediaes de legitimidade do poder e seus usos o que nos interessa e esse o objeto que pretendemos circunscrever. Tal profisso de f no de somenos importncia, j que revela subrepticiamente o ngulo por meio do qual visamos ao problema. No se pretende, porm, esconder as segundas ou terceiras intenes do autor. Espero (e esforo-me para isso) que essas intenes, seu objeto e o pretendido vis do texto esclaream-se ao longo da leitura, no somente deste texto, como da srie que ele pretende abrir.
Assim, junho de 2013, data mgica desta cronologia, menos o assunto que nos detemos diretamente e mais a deixa que nos dada para retomar pela ensima vez o tal problema da representao.
De fato, e volto ao incio, o que houve em junho de 2013 no consenso e nem ainda se apresenta - a este que vos escreve, pelo menos - com alguma clareza e distino de consenso. No sendo exatamente o assunto, insisto, no deixa de ter seu interesse como sintoma e efeito do objeto mais geral, no que concordo com a maioria das anlises - aqui posto em alvo - a representao poltica e sua legitimidade. Ocorre que, e da a digresso, junho de 2013, de fato, suscitou, e com certa nfase, o tema clssico e recorrente dos limites da representao poltica e sua natureza, com razo suficiente (pelo menos). Este tema, que se desdobra de uma conjuntura eminentemente nacional e local, convergiu espontaneamente, se se pode assim dizer, em direo ao seu correlato de alcance mundial (pelo menos europeu), resumido nesses termos: o problema universitrio e europeu muito tpico do “esgotamento da poltica” e da “histria”, sintoma, por sua vez, da “imobilidade” “reformista” e centrista a que convergiu a Europa, o ltimo impasse da histria do mundo. “Reformismo” com aspas e centrismo em sentido prprio, vale reforar. Ainda que a Europa tenha seus problemas de tipo grego, parece (por hora, pelo menos) que as expectativas superestimaram a possibilidade de quebrar a imobilidade de Estrasburgo, Luxemburgo e Bruxelas, bem ancorada na internacional financeira de Frankfurt. De todo modo, tudo leva a crer que o projeto europeu foi feito para a paralisia, sendo esse o custo e o remdio da paz europeia, uma vez encerrado o ciclo reformista do ps-guerra.
Assim, e retomando, nesse encontro de desencontros, no faltou quem visse a o acerto dos ponteiros da histria local com a mundial, ns finalmente afinados com o tic-tac do relgio da histria universal, justamente no momento em que ele parou - maduros, encontrando-nos todos com o impasse europeu velho de vinte anos, pelos menos.
A descrio acima serve apenas para ilustrar o quiproqu em que todos fomos mais ou menos enredados desde de junho de 2013 e, a partir de ento, com crise ou sem crise, no houve mais vida fcil para a tal “representao” de que falamos, mais aqui do que l. Poderia me arriscar a dizer, ns, os “bem nascidos”, que no somos muito afeitos a novidades, principalmente se forem democrticas e em alguma medida populares; a crise da representao, na verso recentssima em curso aqui nos trpicos, causa em ns mais estranhezas do que se esperaria. A crise poltica de hoje - hoje, para efeito de esclarecimento, quando o relgio d zero hora e quinze minutos do dia do segundo mandato do Governo Dilma - , de no menos importncia, tambm se aproveita da confuso, ainda que no bojo dessa confuso (da tal crise que no apenas da representao) no seja tarefa nem fcil nem simples separar e destrinchar cada um de seus mveis, e menos ainda ver o quando cabe da representao em crise na crise poltica, caricaturada no jornal dirio.
Diante do que j foi dito, demais para uma simples apresentao de intenes e a propsito do que tentamos sugerir preliminarmente, o livro de Marcos Nobre Imobilismo em movimento pode ser tomado como nosso ponto de partida conceitual e, por assim dizer, emprico, e, naturalmente, tem bastante interesse. 2 Seu maior mrito tentar reconstituir, em uma linha de tempo algo distendida, a experincia da representao poltica desde a abertura democrtica com a eleio indireta de um civil at o governo Dilma, tomando o prprio processo de abertura, na especificidade brasileira, como a modelagem dessa “representao”. Sem assumir exatamente a tese chave da anlise de Nobre, e sem negar-lhe igualmente pertinncia, tentaremos tomar a nosso grado certos instrumentos analticos que decorrem daquela anlise.
Tomemos com ponto de partida o centralismo do MDB ou do MDBismo, tal como vige em nosso sistema poltico. Aqui j vale a ressalva mais bvia: o MDB em questo, aqui, no tanto o partido poltico que lhe empresta o nome e mais o modo como o partido emprico foi o que melhor encarnou o expediente mestre da representao poltica brasileira, ps-ditatura, qual seja, um sofisticado mecanismo de bloqueio e controle do “contedo real” da representao poltica, por assim dizer, que simultaneamente ocupa o lugar de centro mediado e em disputa do espectro poltico, a equilibrar a competitividade e estimular a concorrncia poltica, entendida como esfera por excelncia de intermediao do poder. A excentricidade desse dispositivo e sua longevidade decorre do fato de, em nossa histria poltica recente, ele operar sempre de modo recessivo, apesar de no haver dominncia sem a sua presena. Assim, as foras polticas que escapam desse centro, e que tm a vocao e a funo de se apresentarem com a pretenso de serem hegemnicas, devem obedecer ao rito de capturar o centro, de se submeter ao seu poder de veto, sob pena de se inviabilizar politicamente. Elas no podem prescindir desse centro, ainda que ele no seja formulador em sentido estrito.
O processo que cristalizou essa funo chave ao MDBismo evidentemente no foi nem simples nem se deu de pronto. Nobre reconstitui alguns dos seus momentos formativos, e, em linhas gerais, parece acertar quando: i) insiste na longa crise de transio dos anos 1980, efeito do modo como a ditadura esgotou sua verso vencedora do nacional-desenvolvimentismo e foi incapaz de reformular e repactuar outro modelo de desenvolvimento nacional; ii) menciona a Constituio de 1988 como importante marco institucional de repactuao social, com todos seus percalos e ressalvas; iii) assinala a emergncia do plano real como o pressuposto a partir do qual se reorganizaria o modelo nacional de desenvolvimento.
O MDBismo, pouco a pouco, passa a ser o fiador recessivo do processo, isto , o novo poder moderador da repblica, com a sada de cena dos militares, aparentemente inviabilizados como atores polticos.
Caberia ento perguntar: o que caracterizaria o MDBismo a ponto de ser a pea-chave do sistema de representao ps-ditatura? O MDBismo se constituiu, desde a ditadura que o cria, o que explicaremos na sequncia, o centro pragmtico, aglutinador e organizador de interesses de varejo e negociador de interesses de atacado, aproveitando o aprendizado que os anos da ditadura lhe deu em termos de operao dos anis burocrticos do poder.
Esse processo especfico de negociao tem um nus de peso varivel, conforme a conjuntura poltica, que obedece o seguinte pressuposto: a tutela permanente e o bloqueio arbitrrio do que chamamos acima de “contedo real” da representao, sua matria em sentido prprio, aquilo que a representao representa. Para ser o centro poltico que pretende ser - at por exigncia estrutural -, a forma da representao deve esvaziar e mitigar a matria da representao. Esta passou a ser a funo chave do MDBismo desde a transio democrtica, depois do treinamento de moderao regressiva que teve durante os anos da ditadura.
Dando certa liberdade a nossa anlise, poderamos encontrar o movimento original dessa permanente pactuao pelo centro, a priori do funcionamento do sistema poltico brasileiro, fazendo um primeiro recuo no exato momento da transio democrtica. o momento em que parte relevante da direita de sustentao mais imediata ao regime, a antiga Arena, ento PDS, movimentou-se para o centro, formando assim a Frente Liberal, de modo a viabilizar uma candidatura de “ruptura” (e reforamos por extenso as aspas) com regime militar ainda vigente, a candidatura do antigo ministro do trabalho do ltimo governo Vargas, Trancredo Neves. Tudo isso sob o fundo do fracasso da tentativa de se emplacar as eleies diretas para presidente da Repblica, processo por excelncia de sada da ditadura que teria o condo de reformular de modo democraticamente imprevisvel a estrutura de representao poltica brasileira. Fracassou, porm, e devido, em boa parte, ao empenho do establishment poltico, muito provavelmente em respeito s exigncias e opinies da caserna. Ora, Trancredo Neves era homem de oposio ao regime, mas de oposio moderadssima, vale reforar, o que significava praticamente quase nenhuma oposio, ainda que no tenha votado a favor da vacncia da presidncia da Repblica, em 1964, ato fraudulento que tirou o ento presidente Joo Goulart do poder, tal como o fez Ulisses Guimares, ento bastante obediente aos interesses do governador de Minas Gerais, Magalhes Pinto.
O fato que a histria poderia recuar ainda um pouco e talvez assim ficasse mais claro o papel de origem do ento MDB, efeito direto do bipartidarismo criado pelo Ato Institucional n. II, com a consequente extino do pluripartidarismo.
No nos parece absurdo supor que h, em 1964, uma mudana de natureza no modo como se d o golpe e no modo como se quebra a continuidade institucional, recorrente na histria da Repblica. Tal mudana de natureza implicou uma dimenso no prevista nas consequncias do golpe de 1964 e que perduram at hoje. Diferentemente do tenentismo radical que irrompia na vida institucional local desde o golpe da Repblica, mais ou menos a cada vinte e tantos anos, havia em 1964 uma sofisticao inusitada e no esperada pela esquerda, sofisticao no modo como tomar a fora o poder e garantir a ordem para o progresso. Vale lembrar que desde o golpe da Repblica, os militares arrogaram para si o papel de poder moderador que cabia, ento, ao imperador, na constituio outorgada de 1824, de modo a se autodesignarem rbitros do processo poltico, legitimando a priori toda quebra de continuidade institucional por eles levada a cabo. Em boa parte, essa foi a lgica jurdico-poltica dos atos institucionais, cuja legitimidade legal emanaria do poder moderador que caberia aos militares.
Assim, a sofisticao de que falvamos tinha que ver com a extrapolao dos militares de sua condio de rbitros, ao assumirem a posio de agentes e atores polticas em sentido prprio e abandonarem a condio de moderador do processo. Tal mudana de natureza desdobrou-se em pelo menos dois efeitos notveis: a determinao em extinguir o Partido Comunista, o que ele representava e o que girava em torno dele em termos de esquerda organizada, e o expurgo de qualquer contedo popular da representao poltica, para alm das classes mdias tradicionais, custasse o que custasse, objetivo que foi pouco a pouco se cristalizando medida que o chamado “golpe no golpe” amadureceu e tomou a cena. A repactuao poltica, por cima e de modo enfaticamente autoritrio, de um centrismo andino a comandar e com vocao hegemnica no sistema de representao poltico brasileiro, prova de qualquer contedo popular e real, efeito e causa do tecnocentrismo burocrtico que caracterizava o golpe como forma, programa e projeto, reiterava em seu efeito sua causa prima, seu claro e enftico pressuposto antidemocrtico. Pode parecer trusmo ingnuo a afirmao de que o golpe seria “antidemocrtico”, como de fato foi. A pergunta pelo avesso deixa a situao ainda mais constrangedora: que golpe no seria “antidemocrtico”, “autoritrio”, quando se efetiva em sociedade democrtica? Ainda que o adjetivo democrtico esteja sujeito a crticas de todos os lados, no se pode falar com seriedade que o Brasil s vsperas de 1 de abril de 1964 assim no o fosse, minimamente. Ocorre que o “antidemocrtico” do golpe no veio do que simplesmente foi, como golpe, mas do que ele pretendeu ser, como programa: seu propsito deliberado era expurgar a mobilizao democrtica que se radicalizava no incio dos anos 1960. Ser antidemocrtico foi a negao determinada do golpe de 1964, seu programa e sua natureza. Da a construo de um centro que tivesse permanentemente uma trava antidemocrtica.
O MDB entra no bojo desse movimento deliberado de reengenharia social como ator principal e no coadjuvante, vale dizer, expresso suficientemente antiptica para agradar um Coronel Golbery, por exemplo, permanente conspirador da Repblica. Da que na origem e no efeito, o MDB foi tambm partido da ordem unida e assim permaneceu unanimemente at a emergncia de um pequeno grupo de parlamentares, destoantes, minoritrios e incmodos, os chamados “autnticos do MDB”, sobre o que falta ainda fazer a devida histria. 3 A datao imprecisa, mas podemos considerar a eleio legislativa para a Cmara Federal, de 1970, a que consolida o grupo dos autnticos, de 23 deputados, como o marco zero da cronologia “oposicionista” do MDB. 4 So eles afinal que emprestam contedo oposicionista ao MDB, sob algum protesto e boicote inicial de Ulisses Guimares e o olhar de esfinge de Tancredo Neves. At ento o MDB atuava como par bastante cordato da ento Arena, ora conduzido, ora conduzindo. Como os autnticos relatam, havia o partido do “sim”, a Arena, e o partido do “sim senhor”, o MDB. Olhando em perspectiva, v-se que o movimento dos “autnticos” teve papel estratgico na construo da autoimagem do MDB que o consagrou, que passou sem mais de partido adesista, partido do “sim senhor”, condio de oposio civil ao golpe, nos estertores da ditatura, metamorfose que foi ligeiramente antecipada pela figura do prprio Ulisses Guimares, personagem muito mais nuanada e com sombras do que o triunfalismo da nossa transio democrtica poderia supor. A partir da eleio legislativa de 1974, para cmara e senado federais, a “aura” dos autnticos capturada pelo MDB, sobretudo devido ao inesperado sucesso eleitoral que a “oposio” teve no pleito, inesperado seja para o regime, seja para os caciques do MDB. Assim, um pouco atropelado pelas coisas, Dr. Ulisses tambm adere “oposio” em um partido de “oposio”, e na esteira dessa reviravolta vm os “novos autnticos”. Tal reinveno, que teve o condo mgico de refundar o partido, talvez no foi devidamente analisada pelos nosso politlogos, havendo ainda alguns que se surpreendam com o “fisiologismo” adesista do MDB, com se isso fosse novo e no constitusse a prpria natureza do partido, desde o bero do AI II, em que nasceu.
Notemos, alm do mais, que foi sob o fundo do ento “milagre econmico” brasileiro, ainda que sob os impasses de seu esgotamento (fim do governo Mdici, incio do governo Geisel), que o regime viu-se politicamente ameaado pelo dispositivo de representao que ele mesmo montou, e a seu grado, como se, ainda em situao adversa e controlada, algum contedo real pudesse dar matria anmica representao poltica ento possvel. Evidentemente, h a clebre lio de Geisel, repetida em mais de uma ocasio para seu ajudante de ordens, o capito Heitor Aquino Ferreira, de que a nica maioria que conta a de quem tem o AI 5. O pacote de abril de 1977 foi testemunha ocular da mxima.
Ora, toda esse circunlquio parece fora de propsito se perdemos de vista que, se a natureza do MDB se reatualizou na transio democrtica, como centro amplssimo sem o qual no h coalizo possvel ou segura (tanto o impedimento de Collor quanto o tal “mensalo” o demonstram), de nascimento seu carter andino e de permanente diluio da representao. Como se a maior obra da ditadura tenha sido gestar um sistema poltica cujo limite de representao real e democrtica, em sentido estrito, seja curto e deliberadamente diludo numa mirade de interesses comunitrios que no se universalizam. Como se o contedo popular e democrtico da representao s pudesse operar com a tutela desse centro.
Assim, na contramo de certo consenso da cincia poltica, que considera o MDBismo (seja o partido enquanto tal, seja o centro organizador dos mais diversos interesses que ele representa) como aquilo que nos salva do extremismo peronista de nossos vizinhos, e de seu malfico corolrio, uma sociedade permanentemente polarizada, o MDBismo teria um nus muito superior ao bnus que se supe ser seu efeito mais nobre: ele evita a polarizao da sociedade, mas bloqueia igualmente a eficcia da representao poltica em um contexto, como observa Nobre, orientado pela igualdade como valor universal e pela universalizao democrtica da CF 1988. Diramos, com tom levemente catastrofista, que quanto mais a demanda democrtica se intensifica no Brasil, fruto, em boa parte, do aumento de intensidade da ltima experincia democrtica que se pereniza entre ns, mais o centralismo do MDB tende a bloquear a representao, na medida em que mais dispensveis seriam as mediaes burocrtico-polticas que lhe dariam o papel privilegiado de tutela que ele acredita ter, e que teve, de fato. Ainda mais: quanto mais a experincia democrtica se intensifica, mesmo com suas deformaes e inadequaes, mais o pas aparece como ele realmente : brutal e selvagemente violento. Mais urgente a pauta da representao “que represente” irrompe e impe-se; mais problemtica sua realizao. Nobre reformula o problema dando relevo, em filigrana, ao modo como o MDBismo captura o interesse de varejo da sociedade para mascarar e falsificar o interesse de atacado da mesma sociedade. Esse o mais notvel mecanismo de falsificao da representao: tragar todas as demandas de uma sociedade radicalmente assimtrica e desigual em um centro que lhes d falso ar de equivalncia. Assim, se transforma em interesse de todos a reduo da maioridade penal, aplainando e ocultando no discurso a especificidade da violncia brasileira, o sentido de classe da represso que se pretende impor, e da emergncia dessa soluo como panaceia, e coloca-se, de modo equivalente, em termos de demanda legtima da sociedade e interesse mais ou menos coletivo, a precarizao das relaes de trabalho na forma da terceirizao. Quem contra a reduo da maioridade penal contra o interesse da maioria, quem contra a terceirizao, no respeita a demanda dos setores produtivos. A mediao de um a outro polo, que parece absurda na caricatura feita acima, a preciosa obra que o MDB oferece aos brasileiros como permanente “centro” de nossa vida poltica. No h equivalncia entre um e outro polo, mas eles aparecem como equivalentes. Seria como se, subvertendo a ideia clssica de vontade geral, e mediante a operao de nosso centro poltico, s houvesse vontade geral que fosse a soma imperfeita das vontades particulares e no o contrrio (“a vontade geral no a soma da vontade da maioria”), como insistia Rousseau, ciente dos risco de um expediente de representao poltica que funcionasse como identidade imediata da maioria contra a sociedade.
Se, grosso modo, esse o mecanismo de bloqueio da representao, que, para funcionar excelncia, deve captar o voto mediante algum particularismo comunitrio para, em seguida, negociar, a partir dele, os termos dos grandes negcios de envergadura nacional e o benefcio que convm aos seus operadores, medida que a experincia democrtica se intensifica, os operadores sentem-se obrigados a sequestrar para si a representao, sob pena de o mecanismo entrar em pane, segundo o funcionamento que lhes convm. A experincia democrtica no olha pelo retrovisor, est permanentemente olhando para o para-brisa: o que conta no quanto ela j se faz representada, mas o quanto pode ser. Quando isso ocorre, e o dispositivo entra em pane, a representao s opera para aqueles que prescindem de seu mecanismo mediado: os donos do poder acessam diretamente o corao do sistema por atalhos que dispensam a representao; eles se representam a si mesmos, no interior da representao.
Em situaes de temperatura e presso poltica normais, esse dispositivo funciona de modo a diluir e moderar permanentemente a disputa das teses polticas verticais, que pretendem reorganizar boa parte da sociedade, e as dispe como que a meia distncia do centro, isto , a hegemonia dessas teses fica a depender permanentemente de uma negociao pelo centro, que se assume que tem poder de veto. Uma experincia exemplar de tal mecanismo foi dada pelo chamada “centro”, na Constituinte de 1988, que funcionou exemplarmente como dispositivo permanente de bloqueio de contedo popular e democrtico na CF, a dar a impresso que no saamos de uma ditadura de vinte e quatro anos que operou explicitamente conforme uma poltica da desigualdade (o bolo que precisa crescer para ser dividido), sem falar, evidentemente de tortura e assassinatos e toda forma de perverso no trato e reconhecimento do outro.
Esse o quadro de fundo sob o qual pensamos ser possvel retomar o famigerado problema da representao poltica, com as devidas cores locais.
A supor ser esse o funcionamento do sistema poltica brasileiro, ele apenas se estabilizou, desde a abertura democrtica, quando, primeiro, foi negociado por cima a superao do impasse nacional desenvolvimentista clssico, no final dos anos 1980, e, segundo, a emergncia e o sucesso relativo do plano real, que reorganizou a disputa poltica e estabeleceu dois polos em disputa pelo centro, dando competitividade ao sistema.
A especificidade de nossa transio, em que os atores que a levaram a cabo estavam, em maior ou menor grau, comprometidos com o que a ditadura projetou para o Brasil especificidade e condicionantes permanentes. Em seus vinte e quatro anos de vigncia, a ditadura e seus modos, deu as cartas no momento em que as chamadas “condies objetivas” exigiam o fim do chamada ciclo de modernizao ultra-autoritrio. Vale lembrar a presena constante do que podemos chamar de constrangimento da caserna, capaz, por exemplo, de exigir, sob chantagem, uma lei de anistia que a protegesse de todas as violaes perpetradas aos direitos humanos de sua autoria. Todas essas condicionantes e especificidades fortaleceram o centro poltico como mediador por excelncia, o que igualmente significa, como moderador, e com poder de veto diante dos riscos e fragilidades a que o processo estava sujeito, riscos e fragilidades reais e imaginrios, vale dizer.
A consolidao democrtica implica, como se v, a ultrapassagem desse condicionante, e parece ser o nosso estado atual. O exerccio da democracia tende a exigir mais e mais distribuio de poder, e no o seu contrrio. A estrutura que distribui poder e pondera sua legitimidade resiste a um tipo de avano que colocaria em risco os controles tradicionais desse mecanismo de distribuio.
Dito tudo isso, nosso dispositivo de representao funciona tendencialmente em sentido contrrio, esse o impasse do MDBismo.































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ilustrao: Rafael MORALEZ






1 Este o primeiro texto de uma srie de pequenos ensaios que pretendem tratar, de modo articulado, os seguintes temas: permanncia da ditadura, seus modos e formas, representao poltica e experincia democrtica no Brasil, vida pblica e seus sentidos locais. Todos os textos sero publicados na Revista Fevereiro.

2 NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento, da abertura democrtica ao governo Dilma. So Paulo, Cia. das Letras, 2013. Vale lembrar que o livro se articula explicitamente sob efeito das manifestaes de junho, que tm papel relevante em colocar em perspectiva muitas de suas formulaes.
Igualmente sobre as manifestaes de junho, h dois textos j publicados na Revista Fevereiro, todos feitos sob o efeito do calor dos eventos, que recomendamos:


http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=06&t=13


http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=06&t=14

3 NADER, Beatriz. Os autnticos do MDB, semeadores da democracia. So Paulo, Editora Paz&Terra, 1998. A exceo caberia a esse notvel livro, histria oral feita com os remanescentes do grupo dos autnticos.

4 Os autnticos so os vinte e trs deputados que assinaram o documento da anticandidatura de Ulisses Guimares, na sesso da Cmara que elegeu o general Geisel presidente da Repblica, em 15 de janeiro de 1973.