revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Alexandre de Oliveira Torres CARRASCO

O discurso e a cidade - a propsito de um texto de Bento Prado Jr.

 

     
 

NOTA: A Revista Fevereiro refora os agradecimentos famlia de Bento Prado Jnior, que gentilmente cedeu os direitos de publicao do texto, bem como Biblioteca Mrio de Andrade que autorizou sua republicao

 
     

 

A revista Fevereiro toma a parte que lhe cabe de licena potica e filosfica, universalmente distribuda, e republica antigo texto de Bento Prado Jr. - originalmente publicado em Revista da Biblioteca Mrio de Andrade, n. 50, de 1992.
A republicao faz as vezes de modesta homenagem, da parte da revista, a Bento Prado Jr. e Biblioteca Mario de Andrade em sua reabertura - fechada para reforma e reaberta em 2010 (nada to recente assim). Antes tarde do que nunca.
“A Biblioteca e os bares na dcada de 50” relembra e evoca um lugar comum e sua formao - nada mais distante aqui do lugar comum - um certo ambiente capaz de magnetizar a vida inteligente que passasse pela biblioteca pblica e seu entorno, realizando o pequeno milagre de produzir uma convergncia, para no dizer converso.
Muito do que passou - no s recuperado pela memria de Bento, tambm pelo depositrio espiritual de uma herana escassa, que e foi a Biblioteca Mrio de Andrade - j quase no se reconhece. Da que seja imperativo lembrar, da que preciso cuidado para no se perder: entre a Biblioteca Mrio de Andrade e seu entorno imediato, a praa Dom Jos Gaspar, ponto impreciso hoje de uma cidade que cresceu at perder sua escala, a mesma cidade - outra, porm - dava o seu mais inusitado suspiro, ainda sob o fundo do “noturno acre e aveludado do Macrio”: educao no apenas pela noite mas tambm pela prpria cidade.
E nada pior para localizar esse lugar, objeto e motivo da lembrana, que olh-lo de fora, do mesmo lugar onde hoje se encontra: nem coordenadas geogrficas, nem monumento turstico. Envolto por sua praa, ilha verde a lhe definir as fronteiras fsica e metafsica, a Biblioteca, ela tambm ilha, custaria igualmente a se reconhecer, no fosse o que a memria guarda, para alm dos livros que diligentemente conserva. Passada tanta gua ruim por baixo da ponte, hoje nufragos l se encontram, sem se reconhecerem, cada qual buscando seu recado precioso em uma garrafa posta em prateleira, conforme as mais variadas encadernaes, manchas tipogrficas e gramaturas.

O lugar que v Bento Prado Jr. de seu posto de observao, rememorao e ruminao, o bar do antigo Hotel Eldorado, era, antes de ser lugar, um clima muito particular que envolvia uma cidade ento familiar e a atrao irresistvel que todos os homens e mulheres de boa vontade sofriam diante de uma jovem Universidade que, pouco a pouco, se firmava, logo ali, na Maria Antnia. Um clima muito especfico de liberdade de esprito, curiosidade, e imaginao matizado pelo Biblioteca e suas emanaes mais prximas. Cames vaticinava, posto em p, no jardim de entrada: em mares nunca dantes navegados.
Curioso , para aqueles que j conheceram a Universidade na distncia que a caracteriza hoje, nos cafunds da outra margem do Rio Pinheiros, imagin-la em uma cidade feita segundo a medida idlica da distncia de uma caminhada. Tudo ao alcance dos ps, e o mundo ao alcance do pensamento. A crueza selvagem e ultramoderna que hoje define essa cidade tambm se expressa pelas distncias de deslocamento dirio que se exige de um pobre cidado comum. No s distncia impensvel, distncia que no deixa pensar. E pensar que contornando o impassvel Dante do fundo da praa, seguindo a 7 de abril, Bento Freitas, praa Vila Nova, se chegava ao melhor dos mundos possveis, que ento havia, em termos paulistas, na Maria Antnia, a Universidade de So Paulo. No parece apenas surpreendente para quem no viveu para lembrar. Parece impossvel, para quem vive em um mundo que mal se deixa imaginar. Aquele mundo acabou, e a crise de hoje da Universidade de ontem, que no aquela de sempre, mtica, no nos deixa enganar; pelo contrrio, confirma-se pelo o que a cidade tambm se tornou.
Mas eis que, estrangeiro que sou, no me deixo surpreender pelo olhar distante e sigo desconfiado de um Cames de granito, encalhado diante da Xavier de Toledo: no tem mar em So Paulo. Da o tanto de impondervel e improvvel, hoje, para quem atravessa a praa e alcana a galeria Metrpole, em dia de semana: o outro tempo que se esconde na ptina encardida do presente no aparece com facilidade nem pacfico acreditar que houve enfim uma cidade, exatamente aqui mesmo onde esta outra est, feita sob medida para pensar e repensar, ler e tresler.
No sejamos assim to dramticos, enfim. Quem sobrevive ao susto e ao descaso da cidade, a frieza annima e abstrata da universidade profissional, passado o tempo que tem que passar, reencontra esse outro tempo - presente. No certamente aquele de uma jeunesse dore cultuando a Minerva no saguo de entrada de nossa biblioteca pblica (aviso aos navegantes: Minerva tambm se foi). Mas encontra.

Encontra, encarnando figura mais modesta, de leitor impertinente, aquela frase, que se bem lida, salva uma vida, perdida onde esteja - a vida e a frase: enciclopdia, romance do XIX, bula de remdio, receita de bolo ou suma de lgica. Tempo descobrir, na biblioteca circulante da Mrio, por detrs da cidade, espelho que nada reflete, aquilo que uma biblioteca melhor guarda: renascero as cidades submersas? Os homens submersos voltaro?
No Paribar, em domingo ensolarado, bicicleta estacionada, fao e refao a memria de meus passeios ilha. Lembrar aprender. Com a palavra, Bento Prado Jr.































fevereiro #

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ilustrao: Rafael MORALEZ