revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Ruy FAUSTO

Je suis Charlie: balanos e reflexes1

 

     
 

NOTA: Dadas as suas dimenses, esse texto no era para ser publicado integralmente, mas sim em dois nmeros sucessivos da Revista, o que no estamos fazendo, pela preocupao com um eventual envelhecimento do tema. Nessas condies, aconselharamos o leitor a ler em duas vezes o texto (integral) que publicamos nesse nmero: por exemplo, primeiro as cinco primeiras sees; e num momento posterior, as duas sees finais, seis e sete

 
     

 

1. Introduo
2. O massacre e as circunstncias
3. Charlie Hebdo e os atentados
4. Blasfmia
5. O contexto
   I. A trajetria do Isl e a hegemonia dos fundamentalismos.
   II. A juventude, a banlieue e os paradoxos da integrao.
6. Isl, jihadismo. religio, religies do Livro.
7. Depois do massacre.

1. Introduo

A srie de ataques terroristas que ensanguentou a Frana, de 7 a 9 de janeiro de 2015, no teria sido uma surpresa no fosse o nmero de vtimas e o fato de que, com elas, liquidou-se quase toda a equipe de redao de uma revista, incluindo cinco dos maiores caricaturistas do pas. De fato, a ameaa do terrorismo jihadista estava presente. Para alm da Frana, sua presena se fazia mesmo num crescendo, mas ningum esperava uma operao dessa ordem, s comparvel, mutatis mutandis, ao 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, quando avies sequestrados por terroristas islmicos foram lanados contra o World Trade Center, em Nova York, e contra o Pentgono, em Washington.
A sequncia de atentados, praticados por trs jovens de nacionalidade francesa, dois irmos, de pais argelinos, e um de pais nascidos no Mali, visou trs alvos diferentes: primeiro, os caricaturistas e outros membros da redao da revista satrica Charlie Hebdo, que publicara caricaturas de Maom, - junto com outras pessoas presentes, incluindo um policial encarregado da proteo do diretor, e um outro, de origem cabila, que fora ferido, e que os dois irmos liquidaram, na rua, antes de tomar o caminho da fuga. Depois, na manh do dia seguinte, uma policial negra, de famlia catlica da Martinica, assassinada pelo terceiro terrorista, e, finalmente, vrias pessoas de ascendncia judaica, assassinadas na tarde do dia seguinte, quando faziam compras num supermercado kascher em Vincennes, e que haviam sido tomadas como refns quando o estabelecimento foi investido pelo mesmo personagem. Os atentados se revestiram de um triplo carter: religioso (punir a blasfmia ou o sacrilgio); racista e antissemita (liquidar judeus, supostamente inimigos dos rabes e dos muulmanos); e poltico (liquidar policiais e, de preferncia - o caso da policial do Caribe, pelo menos -, os que, pertencendo “diversidade”, so, por esse motivo, assimilados a traidores, a servio do inimigo). Mas os trs aspectos, finalmente, se confundem.
Os atentados tiveram uma imensa repercusso, qual voltarei mais adiante. Basta dizer que o Conselho de Segurana da ONU aprovou uma moo de repdio a eles, e observou um minuto de silncio em homenagem s vtimas. Por ora, observaria - parafraseando uma expresso famosa - o quanto os assassinatos de janeiro como que se revestiram do carter de “eventos sociais globais”, no sentido de que eles se relacionam, de algum modo, com realidades bastante distantes no espao e no tempo. De fato, quem tenta analisar as aes terroristas do primeiro ms de 2015, logo se descobre - que no final das contas isto se revele justificado ou no - ou comentando a situao poltica no Oriente Mdio, ou tentando entender as origens do fundamentalismo islamista, que remontam, no mnimo, ao sculo XIV... Essa transgresso de limites que os acontecimentos induzem revela-se tambm nos temas e nos problemas. Em geral, comea-se, ou, ento, conclui-se, por uma discusso sobre “responsabilidade” e “determinismo”, um topos filosfico clssico. Por outro lado, que se defenda esta ou aquela tese, mais ou menos inevitvel tentar dizer alguma coisa sobre o Isl e a sua situao entre os outros monotesmos. E, a partir da situao do Isl, h um convite a refletir sobre o fenmeno religioso em geral. Os massacres de janeiro, e tambm a sequncia de atos de terror islamista tm, em geral, traos muito originais em relao aos eventos que estvamos acostumados a assistir, e, no fundo, vo contramo de teorias ou filosofias da histria, ainda dominantes. Diante de acontecimentos novos, que, ao primeiro olhar, apresentam-se como mais ou menos enigmticos, aparece a necessidade de ir at a raiz das coisas, ou mesmo de pensar tudo de novo: poder, religio, progresso, atrasos histricos, periferias...

2. O massacre e as circunstncias

Com exceo dos “complotistas”, dos partidrios do jihad, e de alguns terceiromundistas delirantes (os quais acham que tudo o que golpeia “o centro” positivo, ou que “a Frana [sic] pediu” etc,), todo mundo condenou os atentados. Os complotistas, infelizmente numerosos, ao que parece, entre os jovens da imigrao, pem em dvida o que eles chamam de “verso oficial” dos acontecimentos. Com base neste ou naquele detalhe menos convincente das investigaes, tratam de contestar o conjunto dos fatos da forma mais exorbitante, interpretando o que ocorreu ou como um no-acontecimento inteiramente fictcio, ou como um compl montado, ora pelos americanos, ora pelos judeus, ora pelo servio secreto francs. Tudo isso seria risvel se no houvesse penetrado mais ou menos fundo em certos meios, e se no tivesse o carter pr-fascista de todo conspiracionismo. O mesmo tipo de coisa se ouviu a propsito do 11 de setembro. Os islamistas - a distinguir de “islmico” - comemoraram a morte das dezessete pessoas como uma vitria contra os imperialistas ocidentais e transformaram os trs assassinos em heris. Multides saram s ruas em pases de maioria muulmana para saudar os atos heroicos dos trs terroristas. O que no significa que todos os muulmanos, ou mesmo a maior parte deles, se identificasse com essas posies. Mas, no plano mundial, o apoio ao crime no foi propriamente uma exceo. Isso deve ser levado em conta para que se tenha presente a gravidade da situao.
Porm, pondo entre parnteses os pr-jihadistas, os complotistas (s vezes os mesmos) e mais uma franja ultra-exacerbada de terceiromundistas presente muito mais no Brasil do que na Frana, a condenao foi geral. Sem dvida, os crimes tiveram caractersticas particularmente atrozes: houve o episdio da liquidao queima-roupa, pelos dois irmos, de um policial que jazia ferido na calada defronte (talvez por ser cabila). O assassino dos judeus no supermercado kascher, depois de abater algumas pessoas - ele acabou matando quatro no supermercado -, perguntou aos presentes, seus refns, se queriam que ele desse o tiro de misericrdia em um ferido. E assim por diante. Por outro lado, observe-se que, embora no revelando uma experincia fcil, a histria de vida dos assassinos no oferece maiores motivos para atenuar a gravidade dos crimes. Os irmos que operaram na sede de Charlie eram, sem dvida, rfos de pai e me a partir da adolescncia, mas eles foram recolhidos em um estabelecimento especializado e aparentemente de bom nvel, no interior da Frana, viajaram de frias para o exterior, e puderam ter uma formao tcnica, ainda que modesta. As irms do assassino da policial, em 8 de janeiro, e do grupo de judeus no supermercado kascher - ele era o nico homem em dez irmos - tiveram, aparentemente, uma histria de vida “normal” (esto empregadas, no tm problemas maiores de integrao. etc). 2S insisto em que as condies gerais do desenvolvimento dos trs personagens no foram, de qualquer forma, terrveis. Finalmente, o choque provocado pelo crime foi potencializado por algumas circunstncias: trata-se de um crime contra os judeus enquanto judeus e, portanto, um crime antissemita; e, no primeiro evento, foram liquidados, entre outras pessoas, cinco grandes caricaturistas franceses. Imaginemos cinco grandes poetas de um pas assassinados de uma s vez, cinco grandes romancistas, ou cinco grandes pintores. Para alm do crime sem circunstncias atenuantes, o estrago em termos culturais e nacionais foi enorme.
Porm, uma vez condenados os crimes, passou-se a considerar o que se chama s vezes de “circunstncias” ou “quadro” em que eles se inserem. Em princpio, nada mais normal e indispensvel. Entretanto, como observa um filsofo miditico que particularmente detesto,3 em um texto que contm entretanto, no seu incio, uma passagem interessante, a considerao das “circunstncias” frequentemente vem implicar a introduo de certo tipo de atenuantes, que limitariam, de alguma forma, a gravidade dos crimes. Entre essas circunstncias, pretensamente atenuantes, estaria o contexto nacional, europeu ou internacional, mas tambm o estilo de Charlie Hebdo. Aquele triplo contexto deve necessariamente ser levado em conta, mas h de fato o risco de que a meno dele venha a se constituir em razo atenuante. No deveria ser assim. preciso guardar as duas pontas: a da continuidade e a da descontinuidade. Os crimes so o que so, e os responsveis so os responsveis. Eles poderiam no ter feito o que fizeram. Ao mesmo tempo - mas sem perder de vista o outro lado -, necessrio estudar as circunstncias. Elas no so causas nem mesmo “cocausas” dos atos, mas, digamos, so “caldos de cultura” que, por um lado, favoreceram a ecloso da mentalidade terrorista e, por outro, facilitaram a efetivao dos projetos a que ela deu origem. Quanto ao estilo de Charlie, a tentativa de utilizar as suas particularidades para atenuar, de algum modo, a gravidade dos crimes no representa, a meu ver, uma amfibolia “filosfica”, mas um quiproqu de ordem tica e poltica. Porm, antes de me ocupar do contexto nacional e internacional, e do estilo de Charlie Hebdo, seria preciso dizer alguma coisa sobre os antecedentes histricos dos atentados enquanto atentados, o que, alis, sua maneira, tambm faz parte do contexto, e exige por sua vez, em alguma medida, que se invada, desde j, a histria de Charlie. - Se o leitor quiser antecipar os meus resultados e teses, aqui vai, um resumo deles: 1) H boas razes para se solidarizar, sem reticncias, com Charlie Hebdo, e homenagear os seus mortos, assim como as outras vtimas dos atentados; 2) preciso responsabilizar sem atenuante os responsveis pelo massacre; 3) Sem prejuzo disto, necessrio estudar os contextos; 4) A anlise do contexto internacional mostra a enorme responsabilidade de ocidentais e russos, pela apodrecimento da situao no Oriente Mdio; porm esta circunstncia no elimina, em absoluto, as responsabilidades locais, de laicos e religiosos; 5) A situao dos jovens pobres de origem extraeuropeia na Frana dramtica e intolervel; ela explica e justifica as suas mobilizaes, mesmo violentas (excluindo certos atos irresponsveis que implicaram em ferimentos graves de terceiros); 6) o terrorismo islamista regressivo; ele canaliza o descontentamento dos jovens da imigrao, e os utiliza em beneficio prprio e contra os interesses de quem ele pretende representar; 7) A ironizao de cones religiosos no representa uma agresso s populaes imigrantes; ela no visa essas populaes, mas visa afirmar um princpio de laicidade do Estado e de liberdade na sociedade civil, que, a longo prazo, pode, pelo contrrio, servir a essas populaes.
O princpio geral desse texto , assim, o da crtica em duas frentes, ou da anlise em dois registros, determinismo e responsabilidade, imperialismo e opresses autctones, luta de minorias e desmascaramento dos pseudodefensores das minorias, respeito pela liberdade de religio e liberdade de crtica da religio, etc. O artigo visa desconstruir os quiproqus funestos que se constituram a partir do esquecimento de um membro qualquer de qualquer um desses pares de registros, ou, se se quiser, a partir da tentativa mistificante de defender um extremo de violncia ou de iluso, com base na crtica do seu oposto.


3. Charlie Hebdo e os atentados

Como os atentados de janeiro tiveram pelo menos o duplo carter de represso a “atos blasfematrios” e de aes antissemitas, eles se inserem em duas sequncias de episdios, que tiveram lugar na Frana e na Europa, em geral. Porm, mesmo se a gravidade de uma das sries no menor do que a da outra, para simplificar, vou deixar de lado a narrativa sobre atentados antissemitas (a comear com aquele contra a sinagoga da rua Coprnico em Paris, em 1980), pondo entre parntesis tambm os grandes atentados “annimos”, como os de Madrid e Londres, para me concentrar, ainda que brevemente, sobre a outra srie, entendida como a que visa punir especifica e individualmente atos considerados blasfematrios. Ela a que oferece mais problemas de interpretao e de julgamento.
Digamos que essa histria comea com a ofensiva contra Salman Rushdie, escritor indiano de lngua inglesa, condenado morte pelas autoridades xiitas, mais precisamente, por uma fatwa do Aiatol Khomeyni, de fevereiro de 1989, visando o seu livro Versos satnicos.4Neste,aparece um profeta, com um nome prximo ao de Maom, que utiliza material “diablico” em suas pregaes. O escritor foi acusado de blasfmia e de apostasia, e apelou aos muulmanos para que o assassinassem, assim como o seu editor. Rushdie passa a viver oculto, e a ser objeto de proteo. Vrios atentados e crimes so cometidos nesse contexto: o tradutor japons de Rushdie morto a punhaladas (seu editor italiano fora apunhalado poucos dias antes); livrarias em Berkeley so incendiadas; um hotel na Turquia incendiado - o alvo era o tradutor turco de Rushdie -, matando dezenas de pessoas etc.
O segundo caso o do assassinato, em 2004, do realizador Theo Van Gogh, sobrinho bisneto do pintor. (Antes disso, em 2002, o socilogo universitrio e poltico de direita sui generis, Pym Fortuyn, que fazia campanha contra a imigrao muulmana, fora assassinado. Mas o criminoso, um desequilibrado, que declarou querer proteger os muulmanos contra as campanhas de Fortuyn, era um ecologista radical de nacionalidade holandesa, e no muulmano). Theo Van Gogh fez humor com o Cristo, e, mais tarde, principalmente, com o Isl, mas tambm com a Shoah. Junto com uma ativista de origem somaliana, produzira um filme bastante violento sobre a situao da mulher, sob o Isl. Theo Van Gogh foi assassinado por um holands, muulmano, de origem marroquina, que o baleou e o decapitou, ao mesmo tempo em que proferia ameaas de novas mortes.
Em 2005, d-se o caso das caricaturas. Um escritor, Kare Bluitigen, homem de esquerda, escrevera um livro infantil sobre Maom, e teve dificuldade para encontrar quem o ilustrasse, depois do crime na Holanda. O fato d origem a um debate. O editor cultural do jornal, de centro direita, Jyllands-Posten (Correio da Dinamarca) convida 40 caricaturistas a enviar desenhos sobre o profeta para serem publicados no jornal. Doze deles aceitam. Seguem-se ameaas contra o Jyllands-Posten e manifestaes em vrios pases com grande populao muulmana. Embaixadores dos pases rabes tentam, em vo, encontrar o primeiro ministro da Dinamarca. As caricaturas so republicadas, em totalidade ou em parte, em vrios jornais de diversos pases, Sucia, Blgica, Holanda, Alemanha, Itlia, e at no Egito - uma das duas primeiras republicaes mundiais -, alm da Bsnia. O France Soir publica as caricaturas no incio de fevereiro. Le Monde edita duas caricaturas, no dia 2, e um “caligrama” de Plantu, “je ne sais pas dessiner Mahomet”, que forma a cara do profeta. No dia 8, Charlie Hebdo publica as caricaturas, com mais outras, da prpria revista, e traz na capa a figura de Maom, com a manchete “Como penoso ser amado por idiotas” (C‘est dur d‘tre aim par des cons).5 A Unio das Organizaes Islmicas de Frana, a Grande Mesquita de Paris e a Liga Islmica Mundial processam Charlie Hebdo por “injrias pblicas contra um grupo de pessoas devido s suas crenas religiosas”.A revista absolvida. Em novembro de 2011, Charlie publica um nmero com um segundo ttulo, Charia Hebdo, trazendo na capa um desenho de Maom que diz “100 chicotadas para quem no morrer de rir” (na ltima pgina, l-se: “Sim, o Isl compatvel com o humor”). Um coquetel Molotov lanado na redao da revista, no 20 Arrondissement de Paris. Charlie se instala na redao de Libration. H, em seguida, novos processos, sem condenao. A revista replica, pondo na capa um jihadista beijando na boca um cartunista; a manchete diz: “O amor mais forte do que o dio”. Quatro anos depois, deu-se o massacre de janeiro.

4. Blasfmia

Entre as pretensas circunstncias atenuantes do crime estariam no s supostas posies polticas “incorretas” de Charlie, mas principalmente o fato de que os jornalistas teriam “provocado”. Li coisas incrveis nesses registros, na imprensa brasileira. 6 E parece que houve muito mais. Deveramos reconhecer algo assim como uma exigncia de respeito em relao a objetos, instituies e figuras histricas sacralizadas por tal ou qual religio? No vou discutir se as pessoas que transgridem essa suposta exigncia devem ser condenadas morte, porque isso j seria ultrapassar os limites da justia mais elementar. Discutamos se elas mereceriam algum outro tipo de punio ou censura, ou, menos do que isso, se haveria algo suficientemente reprovvel em sua conduta, a partir do que poder-se-ia atenuar a condenao eventual dos atos de violncia de que foram vtimas. Por outras palavras, existiria uma exigncia - moral ou outra - de respeito pelo “sagrado”, isto , por aquilo que sacralizado por esta ou aquela religio? A resposta mais rigorosa que encontrei est num artigo do filsofo Henri Pea-Ruiz, publicado pelo jornal parisiense Libration, artigo que Fevereiro inclui nesse dossi. 7 Nele, o articulista insiste na diferena entre o respeito pelos indivduos ou grupos de indivduos enquanto seres humanos, e a reverncia em relao ao sagrado, trate-se de objetos, de instituies ou mesmo de indivduos (enquanto sagrados, isto , em sua condio de entes sacralizados por tal ou tal tradio). Feita essa distino, que essencial, valer o princpio de que s legtima a exigncia de respeito pelos seres humanos enquanto pessoas humanas (ou aos grupos humanos enquanto grupos de pessoas humanas). S a, trata-se propriamente de respeito. O direito existncia, e tambm ao exerccio dos direitos humanos fundamentais, um absoluto, contra o qual no se pode atentar, nem sob a forma da ironia. Assim, a ironia em relao a massacres e genocdios evidentemente ilegtima. J aquilo que esta ou aquela tradio sacralizou objeto sagrado para esta tradio e para ningum mais. No existe nenhuma obrigao de respeito pelo que as tradies sacralizaram, por parte daqueles que so estranhos a essas tradies; existe sim exigncia de respeito pelos indivduos e grupo de indivduos que as suportam, isto , pelos que pem em prtica os rituais e assumem as crenas de que essas tradies se alimentam. Respeito por esses indivduos e grupos de indivduos significa, aqui, pleno reconhecimento do seu direito de crer e mesmo de promover a sua crena, assim como o de praticar livremente os rituais da tradio a que pertencem ou da religio que escolheram. - Assim, no existe crime, mesmo “moral” de blasfmia. A blasfmia s blasfmia para quem sacraliza o objeto supostamente profanado (ele s “profanado”, para quem o adora). A exigncia legtima a do respeito pelo humano enquanto pessoa humana, no do humano (ou, a fortiori, do objeto) sacralizado. A distino fundamental, e nos d uma regra segura para distinguir o que merece e o que no merece ser condenado. 8 a ignorncia ou o obscurecimento dela que leva confuso, frequente, no que se l sobre os assassinatos de janeiro, inclusive em textos assinados por gente de esquerda ou de extrema-esquerda. Assim, absurdo afirmar, como se afirmou e se afirma em meios de confisso islmica (principalmente da juventude), que seriam usados dois pesos e duas medidas, quando a justia condena um humorista que ridiculariza os mortos nos campos de concentrao nazista e, ao mesmo tempo, no reconhece como crime o fato de se representar, at ironicamente, uma figura sagrada de uma religio. Os dois casos so diferentes. Caricaturas ridicularizando a matana de palestinos por foras de ocupao, por exemplo, tm de ser condenadas, e tambm juridicamente. Mas caricaturas de Moiss, de Jeov, do Cristo ou da me de Cristo, que se as considere de bom ou de menos bom gosto, no so nem podem ser suscetveis de pena (mesmo de pena “moral”; “bom gosto” ou “mau gosto” so de um outro registro, aproximadamente esttico, ainda que com um verniz “tico-politico”).
Entretanto, poder-se-ia perguntar: o conjunto das caricaturas publicadas por Charlie Hebdo resiste bem queles critrios de julgamento? Eu responderia: se passarmos em revista todas as caricaturas, a resposta , a rigor, “no”; mesmo se a imensa maioria resiste. H caricaturas que mexem com mortes ou violncias, individuais ou coletivas, por exemplo, uma sobre as vtimas dos terroristas do Boro Haram, outra sobre a matana dos Irmos Muulmanos no Egito, outra sobre os imigrantes que naufragam no Mediterrneo, uma at sobre a Shoah... Elas representam, sem dvida, “derrapagens”. Entretanto, por razes que tentarei explicar, elas no so suficientes, a meu ver, para introduzir uma circunstncia negativamente atenuante, no apoio dado a Charlie (isto , a presena delas no suficiente para introduzir clusulas do tipo, “, eles abusaram...” ou “tambm, as caricaturas deles...”). E isto pelas razes seguintes. 1) Primeiro: apesar de tudo, h, em todas essas caricaturas, alguma ambiguidade. Por exemplo, a caricatura sobre a Shoah - a qual mostra, alis, que os caricaturistas de Charlie no visam preferentemente os muulmanos, e, aqui, at pelo contrrio - bem examinada, revela que o seu objeto menos a Shoah do que o uso demaggico da Shoah que faz o governo israelense, no quadro de sua poltica de ocupao colonialista do territrio palestino. Outras caricaturas so menos defensveis. Mas, sem forar a nota, nelas est quase sempre presente, embora talvez no s, uma dimenso de “humor negro”. De fato, o que se observa que eles fazem humor tanto com os amigos, como com os inimigos (pelos textos que a revista publica, que no so ambguos, sabemos quem so os amigos e os inimigos da revista; e, tambm, pela considerao simultnea do conjunto das caricaturas). A universalidade da ironia neutraliza boa parte do sentido negativo que uma parte delas poderia ter. 2) Segundo, e principalmente: mesmo admitindo que haja caricaturas de Charlie, que, a rigor, no passam na prova dos princpios enunciados acima, h que considerar a circunstncia essencial de que os jornalistas de Charlie no foram condenados por causa daquelas caricaturas; eles foram condenados ( morte !) por terem retratado o Profeta Maom (o que considerado um escndalo, no para os muulmanos em geral, mas para a faixa fundamentalista do Isl). Ora, toda condenao por motivos dessa ordem (e mesmo que no se tratasse de condenao morte...) absolutamente intolervel, pois vai contra um princpio fundamental e inviolvel, o da liberdade de crtica, mesmo “blasfematria”. Nesse sentido, Charlie merece um apoio sem reticncias, ainda que, em matria de caricaturas, possamos preferir - o meu caso - charges mais moderadas, digamos, como as de algum como Plantu, o caricaturista de Le Monde. - Que a maioria dos imigrantes extraeuropeus e seus descendentes no apreciem que se faa humor com o profeta , de fato, uma coisa triste. Mas, no fundo, o affaire das caricaturas no tem nada a ver com a imigrao. Tem a ver sim com o problema do fundamentalismo muulmano (os imigrantes so muulmanos, mas, em sua maioria esmagadora, no so fundamentalistas). E eu acrescentaria: se, de fato, em termos imediatos, o cartunismo em torno do profeta desagrada populao imigrante, eu ousaria dizer que, a mdio e longo prazo, ele joga a favor dela. Pela razo seguinte: s quando os cones do Isl tiverem o mesmo regime de fato dos cones cristos e judeus, isto , s quando se banalizar a “blasfmia” a propsito deles, como se banalizou a propsito do Cristo ou de Moiss (ou da Torah), que a populao muulmana poder se sentir inteiramente integrada (falo de condio necessria, no, suficiente, pois, claro, h, para alm disso, muitos outros problemas; e de situao de fato mais do que de direito: com ou sem a banalizao da blasfmia, o preconceito evidentemente intolervel). E quanto ao argumento, sutil, sem dvida, de que, se se tem o direito de blasfemar, no se tem o dever de blasfemar, o que verdade, h que responder, lembrando que a querela no comeou com Charlie. O ponto de partida foi a ameaa a Rushdie, cuja vida foi quase destroada, pelo autocrata Khomeyni - este tinha, alis, razes de oportunismo poltico quando tomou aquela iniciativa - seguindo-se uma sucesso, intercalada, de ameaas e de desafios a essas ameaas. Houve um crescendo, que explica, de resto, em parte, a virulncia de certas charges. Os jornalistas de Charlie como que entraram na briga. E, se no tinham o dever de entrar, tinham, a meu ver, boas razes para faz-lo. Com isso, mais do que os caricaturistas “moderados”, eles acabaram defendendo e representando - infelizmente, por um preo muito alto - uma causa que de todos ns.

5. O contexto

Como observei acima, o exame do que se poderia chamar de “contexto dos atos terroristas de janeiro” nos leva muito longe no espao, mas tambm no tempo. Ele nos remete ao que ocorre em duas regies. Nos dois casos, os problemas regionais tm razes e efeitos mundiais; e um mergulho no tempo, embora maior num dos casos, inevitvel. Em uma das regies, est o lado ativo, o dos atores, individuais ou coletivos, que recrutam adeptos e combatentes; na outra, esto os atores passivos, os que se dispe a aderir, ideolgica ou militarmente. difcil, tambm, deixar de introduzir, nesse exame, algumas consideraes de ordem antropolgica ou histrico-antropolgica.
I. Comeo pelo que ocorreu e ocorre no “mundo muulmano”. O elemento essencial o peso que foram tomando, a partir das ltimas dcadas do sculo passado, os movimentos polticos de fundo religioso, em prejuzo dos movimentos laicos. Em outros termos, o fenmeno do fim, relativamente a uma poca, da hegemonia dos movimentos nacionalistas laicos no Oriente Mdio. 9 Na realidade, a histria das lutas polticas e religiosas no Oriente Mdio e na frica do Norte, de uma considervel complexidade, e revela um jogo de foras muito diferente do que costumamos encontrar no Ocidente. Com as lutas entre movimentos de esprito mais ou menos laico e os de fundo religioso, cruza-se a luta secular entre xiitas e sunitas, que remonta s origens do Isl (sculo VII), mais a oposio entre “progressistas” e conservadores, e as tenses de ordem regional ou nacional (ou entre nacionalismo... “nacional”, e nacionalismo pan-rabe). Tudo isso, tendo como fundo histrico remoto o desenvolvimento de duas grandes civilizaes ou imprios, de hegemonia sucessiva, ambos de religio muulmana, a civilizao rabe (que representou, sem dvida, uma “grande” civilizao), e o imprio turco. 10 Ao contrrio da civilizao chinesa e indiana, eles representaram uma ameaa para o ocidente cristianizado. Os rabes, depois de conquistar o norte da frica, ocuparam durante sculos a pennsula Ibrica, alm de setores do Mediterrneo. Os turcos avanam pelos Balcs, e chegam at Viena, que, como se sabe, resiste a cercos clebres no sculo XVI e na segunda metade do XVII. A partir da, os turcos entraram progressivamente em decadncia. O imprio Otomano, sob cujo domnio passaram a viver os rabes, sendo ambos muulmanos, vai decaindo, at se tornar, no sculo XIX, o “doente da Europa”, conforme a palavra clebre de um dos Tzares daquele sculo. O movimento nacionalista rabe se desenvolve em luta contra os turcos e contra os ocidentais, embora ele tenha se aliado a esses ltimos, em determinadas circunstncias. Os turcos tm a sua crise “final”, ao se aliar s potncias centrais, derrotadas na Primeira Guerra Mundial. Depois dela, ou j antes, surge um movimento nacionalista, que vai florescer, depois da guerra, com Atatrk, talvez a principal figura laica da histria do reerguimento poltico do mundo muulmano (de resto, figura de autocrata civilizador, apreciada diversamente, pelos historiadores 11). No mundo rabe, para me limitar ao sculo XX, surgiro, bem depois de Atatrk, as figuras de Nasser, no Egito, e de Burguiba, na Tunsia, sem falar das foras nacionalistas no religiosas que se desenvolvem no Ir, pas tambm muulmano, mas, como a Turquia, no rabe. Porm, paralelamente aos movimentos laicos 12 vo se organizando partidos e grupos de carter marcadamente poltico-religioso, um dos quais o movimento dos Irmos Muulmanos, que nasce no Egito, nos anos 1920. O quadro se complica com o desenvolvimento do movimento sionista, que culmina com a fundao do Estado de Israel, em 1948. Do ponto de vista econmico, toda essa histria ser marcada, desde a primeira metade do sculo XX, pela luta pelo petrleo de que a regio a grande produtora mundial.
Tem-se, assim, um universo poltico e econmico complexo, em que se pode destacar, para os objetivos da presente anlise, a oposio entre os movimentos de fundo laico e os movimentos religiosos, com a hegemonia dos primeiros, durante muitos anos, seguida por uma crise profunda. Essa crise se deve a qu? Um elemento importante foi a atitude desastrosa dos “ocidentais”, russos inclusive. A histria das relaes dos pases liberais-capitalistas com o mundo muulmano propriamente catastrfica. Nos anos 1950, um governante iraniano, progressista e de tendncia geral democrtica, derrubado por um compl fomentado pelos ingleses e pela CIA. Mossadegh nacionalizara os bens da Anglo Iranian, grande companhia petrolfera, o que desagradou as potncias ocidentais. Nesse caso, ao contrrio da grande maioria deles, no se tinha apenas um nacionalismo laico, mas um nacionalismo laico no autocrtico. Com a interveno, desfez-se um caminho possvel para a democracia, ou para uma certa democracia, no Oriente Mdio. Os erros se sucederam. Em 1956, a Frana, a Inglaterra e Israel preparam uma ao contra Nasser, visando neutralizar a nacionalizao do Canal de Suez que este decretara. Nesta ocasio, os norte-americanos se opuseram, e a operao acabou sendo suspensa. Os russos no ficaram atrs em matria de iniciativas desastrosas. A interveno russa no Afeganisto, para apoiar a faco pr-Moscou do comunismo afego, deu origem a um ampla resistncia que acabou obrigando os russos a se retirarem do pas. Foi a sua grande derrota, em matria de intervenes internacionais. Os norte-americanos, por sua vez, cometeram o erro de se lanar a fundo no apoio a essa resistncia, da qual participavam tendncias fundamentalistas. A CIA ajudou assim a criar as condies para o desenvolvimento de Al Qaeda. Porm, o seu maior erro em matria de poltica externa, j no quadro de uma nova poltica externa, de marca “neoconservadora”, foi a interveno que destituiu Saddam Hussein. Este, um ditador impiedoso, no tinha nada a ver, entretanto, com o atentado de 11 de setembro (foi, em parte, enquanto reao a esse atentado que a invaso foi justificada; o outro motivo, tambm falso, era o de que Saddam estava acumulando armas de destruio de massa). Atacar Saddam, para vingar o 11 de setembro foi uma tolice sem limite, mesmo de ponto de vista dos interesses das foras polticas mais reacionrias, na frente das quais estavam os neoconservadores, campees da campanha pr-interveno. O resultado da invaso do Iraque - fruto de uma espcie de estratgia leninista delirante s avessas: tratava-se, segundo os neoconservadores, de introduzir “de fora” a democracia! - foi uma sucesso de desastres: que Saddam fosse ou no um monstro (ele era!), o pas foi humilhado, deixou-se que os seus museus fossem saqueados por multides, pior ainda decidiu-se a disperso do exrcito de Saddam... Pois esses soldados sem emprego vieram a constituir o ncleo do futuro Estado Islmico (ou Califado), que disputa hoje a liderana do terrorismo com Al Qaeda. No mesmo sentido, os norte-americanos puseram no poder um governo xiita corrupto e dogmtico, que, marginalizando os sunitas, lanou as tribos sunitas do norte, e outras foras sunitas mais, nos braos do mesmo Califado... A instaurao do Estado de Israel em 1948, com o apoio dos ocidentais e dos russos, no foi em si mesma um erro. A situao dos judeus no aps guerra (e aps a Shoah) era muito incerta, 13 e, alm disso, havia uma populao judaica considervel na Palestina (mas ela era mnima, quando nasce o sionismo). Naquela conjuntura, a partilha era, em princpio, uma soluo correta. S que, alm do fato de o traado da partio ser discutvel (por exemplo, Haifa, cidade de maioria rabes ficou na zona israelense 14), ela s poderia se fazer em boas condies, se houvesse um contingente da ONU, ou legitimado por esta, que assegurasse o cumprimento correto das decises. Na falta disso, o que se teve foi a expulso de parte da populao palestina que ocupava os territrios cedidos a Israel, expulso que no se fez sem massacres. Do lado judeu, havia tambm o risco de que os pases rabes, que, ao contrrio do seu adversrio, no aceitaram a partilha e invadiram a Palestina, viessem a massacrar as populaes judias. Os rabes poderiam ter ganho a guerra, embora os judeus dispusessem de um armamento superior. Mas, de qualquer modo, houve sim muitas violncias contra os judeus, a violncia foi das duas partes. A poltica ocidental subsequente em relao ao problema palestino, principalmente por parte dos EUA, foi prejudicial aos interesses rabes. Mas estes erraram ao no reconhecer em algum momento a partilha - Arafat o admitiu, mas s depois de muito tempo -, sem falar no radicalismo anti-semita do Hamas que continua visando expulsar os judeus de todo o territrio. 15 O governo israelense, vitorioso em vrias guerras, recusou-se, durante anos, a reconhecer um poder palestino, e se lanou progressivamente num movimento de colonizao, no duplo sentido da palavra, que, pouco a pouco, vai roendo o territrio do futuro Estado. - Assim, a poltica dos “ocidentais” (russos inclusive) no serviu aos interesses de um nacionalismo rabe laico no Oriente Mdio. E, menos ainda, aos interesses de um nacionalismo democrtico. Este, de fato, apenas despontou. verdade que os russos em geral apoiaram os movimentos laicos, mas a sua poltica foi sempre estreita, porque comandada pelos interesses imediatos da URSS durante a guerra fria, sem falar na desastrosa interveno no Afeganisto. O fim da URSS foi, de qualquer forma, um fator que acelerou a crise dos movimentos laicos, 16 no s porque eles perderam com isso a possibilidade de fazer certas alianas, como tambm porque o chamado “fim do comunismo” enfraqueceu em geral, no Oriente Mdio e, para alm dele, as ideologias laicas. Mesmo se em forma confusa ou muito ambgua - em no poucos casos, eles se fascinaram com os nazifascistas, mas, nesse terreno, os grupos religiosos, como veremos, foram ainda mais longe - os partidos laicos reivindicaram algum tipo de “socialismo”. Os movimentos laicos se revelaram incapazes de levar avante seus projetos de unificao nacional - houve, entre outras, uma efmera unificao do Egito com a Sria nos 1950/1960 - e foram minados pela corrupo e pelo autocratismo.
Os movimentos religiosos, existentes h muito tempo, puderam aproveitar a decomposio ou a desmoralizao do laicismo rabe no Oriente Mdio e no norte da frica. Mesmo se eles no so vitoriosos por toda parte, globalmente, como se a sua vez tivesse chegado. Os momentos principais dessa virada so o j mencionado conflito do Afeganisto, quando se gestou a expanso do fundamentalismo religioso sunita e, por outro lado, a revoluo iraniana, que comea pouco tempo antes da interveno sovitica no Afeganisto, com a queda do X Pahlevi, no incio de 1979. Este contava com o apoio dos norte-americanos, e perdeu o poder para uma revoluo da qual resultou a entronizao de um governo religioso xiita. O fundamentalismo religioso se construiu doutrinariamente, do lado sunita, sobre o fundo do “salafismo” - movimento cujas razes so do sculo XIV, e que reivindica a volta aos ensinamentos ancestrais, e “pureza” do Isl - e, mais precisamente, sobre a doutrina de al-Wahhab, predicador fantico do sculo XVIII, que defende um Isl expansionista e de um extremo rigorismo. 17 O wahhabismo impe-se muito cedo na Arbia Saudita - ele combatido pelas foras, que vm do Egito, do futuro dissidente Mhmet-Ali -, e chega ao sculo XX, como tendncia dominante na pennsula arbica. O paradoxo que a dinastia saudita que sustenta o Wahhabismo aliada dos norte-americanos. Estes preservam cuidadosamente a aliana com os sauditas por causa dos interesses petrolferos. Assim, o wahhabismo, doutrina do fundamentalismo mais agressivamente antiocidental e antimoderno, desenvolve-se no bojo de um pas dominado por um poder ultrarretrgado - ver a situao da mulher e dos trabalhadores imigrantes - mas pr-americano. Sem dvida, uma ruptura acaba ocorrendo. Ela comea depois da primeira guerra do Golfo, quando os fundamentalistas consideraram intolervel que tropas norte-americanas - e em particular, mulheres-soldados... - pisassem a terra santa, o que provocou frices com o poder saudita. a que nasce Bin Laden e o movimento Al Qaeda. Os fundamentalistas foram at a prtica do terror em terras sauditas. Hoje, a ruptura parece consumada, mas subsiste a obscuridade sobre a origem dos fundos dessa organizao. O poder saudita no esgota o conjunto dos simpatizantes do wahhabismo na pennsula.
Assim, estamos diante de um cenrio com muitas linhas de fora, em que a guerra entre laicos e religiosos atravessa as rupturas internas do Isl, alm de outros jogos de interesse econmico ou regional. 18 A hegemonia dos grupos religiosos fundamentalistas levou a um recrudescimento da propaganda religiosa, e principalmente depois do surgimento do Estado Islmico, a uma arregimentao crescente de jovens de origem rabe, ou de confisso muulmana, em proveito das foras sunitas-fundamentalistas no Oriente Mdio. Bem entendido, h a acrescentar a esse cenrio histrico, o grande evento recente que foram as revolues rabes do incio dessa segunda dcada do sculo XXI. Elas despertaram uma enorme esperana. Mas esta, em grande parte, se desvaneceu. Naquelas revolues, despontara, aparentemente, uma laicidade diferente da do ciclo laico clssico. Segundo alguns, lutava-se ali pela democracia, segundo outros, pela “dignidade“ 19. De qualquer forma, tratava-se de uma realidade nova, muito impulsionada pela juventude. Os grupos islamistas que, em geral, no tiveram papel no desencadear das revolues, subiram rapidamente no estribo, e modificaram, mais ou menos profundamente, o carter do movimento revolucionrio. Mas alguma coisa sobrou dessa grande onda, na origem, reconhecidamente libertria.
V-se por a como a histria do Oriente Mdio e do norte da frica dramtica e parece conduzir a impasses. Nela, a democracia um fenmeno raro e efmero, que desponta aqui ou ali, para ser esmagada pelas botas laico-autoritrias ou fundamentalistas. Se no for pela dos imperialismos estrangeiros. A responsabilidade, de ocidentais e dos russos, pelo recrudescimento do fundamentalismo islmico ou pelo florescimento de um autoritarismo, nacionalista ou no, , como vimos, muito grande. Sem falar em todo o passado colonial de explorao econmica e opresso poltica, que no foi pouca coisa. As grandes potncias liquidaram os germes possveis de um desenvolvimento democrtico (Mossadegh), apoiaram ativamente os combates de islamistas, ou “pr-islamistas” (os americanos no Afeganisto), promoveram intervenes desastrosas (russos e americanos), apoiaram de maneira acrtica ditaduras nacionalistas ou foram, e so, aliadas de autocracias ultrarreacionrias (idem). Mas a responsabilidade pesada de ocidentais e russos no Oriente Mdio no absolve os governos laicos autoritrios e s vezes genocidas (Saddam, Assad), pelo recrudescimento dos movimentos islamistas. Porm, nada disso justifica atentados terroristas, sejam eles antissacrlegos, antissemitas ou racistas em geral. E, a fortiori, quando o seu alvo so as populaes civis. No esqueamos de que o 11 de setembro foi um grande massacre desse tipo.

II.O outro lado o da situao na Europa. Ela tambm tem a ver com o contexto mundial, mas, nesse caso, principalmente com o contexto econmico. Se, a partir da histria dos grupos fundamentalistas entendemos como eles chegaram a uma certa hegemonia, e entendemos tambm, a partir da sua ideologia, por que eles tentam arregimentar os jovens de todo mundo, resta saber, por que estes ltimos so to receptivos - ou, pelo menos, relativamente receptivos - s sereias islamistas.
Talvez se devesse comear com dados antropolgicos gerais, por superficiais que eles possam parecer. Aristteles escrevia sobre a juventude, no livro II da Retrica: “Os jovens so, pelo seu carter, submetidos ao desejo, e so do gnero [das pessoas] que realizam o que desejam (...) no suportam serem tido como insignificantes, mas se indignam quando creem serem vtimas de injustia (...) deixam-se facilmente enganar pela razo indicada: tm a esperana fcil. So tambm mais corajosos, pois so ardentes e cheios de esperana, a primeira qualidade os impedindo de ter medo, e a segunda lhes dando a audcia (...) so tambm sensveis vergonha (...) E em todas as coisas, vo longe demais, e com fora demais, transgredindo assim o preceito de Quilon [“Nada em excesso”, RF], pois fazem tudo com excesso, amando com excesso, e detestando com excesso, e assim em todos os domnios. Eles acreditam saber tudo, e se afirmam com fora, e esta a causa do seu comportamento excessivo em tudo (...) As injustias que eles cometem vo no sentido da desmesura e no da maldade (...)”. 20 Se esse diagnstico corresponde bastante bem, e de forma at surpreendente, ao que sabemos, em geral, dos jovens do ocidente, ele corresponde mal, bem examinadas as coisas, ao jovem fundamentalista. A descrio se ajusta mal ao fundamentalismo e aos seus jovens seguidores, porque ela aponta para um indivduo que visa, em geral, para ele, ou para mais do que ele, algum tipo de vida (nesse sentido, apesar do lado individualista que tambm transparece, a atitude a retratada poderia ser chamada de “utopista”). Ora, uma caracterstica sem dvida fundamental do jovem fundamentalista islmico contemporneo , pelo contrrio, a atrao pela morte: “Foi Al que decretou nossa morte antes mesmo do nosso nascimento”. 21 “O inimigo de Al no teme nada mais do que o nosso amor pela morte”. 22 Valem, para efeito de comparao, outras caractersticas indicadas no texto, como a tendncia ao excesso. Mas, com isso, avanamos pouco.
Como existem, e em quantidade no desprezvel, jovens que no vm da imigrao (e que, frequentemente, vivem, alm disso, em condies, econmicas favorveis), os quais, apesar disso, aderem ao fundamentalismo e ao jihad, preciso comear buscando razes muito universais do fenmeno, para alm do racismo e, em muitos casos, tambm da crise econmica. O depoimento de pessoas empenhadas em neutralizar o recrutamento jihadista nos remete a situaes em que, aparentemente, no estamos longe do fenmeno da adeso dos jovens a seitas (algumas muito opressivas e exploradoras), a que se assistiu e se assiste no mundo ocidental. Se assim, h, em primeiro lugar fatores que em parte no remetem poltica ou ao poltico, embora, de algum modo, a presena desses ltimos acabe tambm se revelando. Patologias sociais da famlia, crise da escola, fenmenos de dessocializao dos grupos jovens etc, mas tambm, algo como um enfraquecimento da coeso social e nacional. H o fenmeno da desmotivao em relao ao trabalho, de resto paradoxal, porque ocorrendo numa situao em que o trabalho um bem raro. 23 Se, j passando ao plano propriamente poltico, for considerado que no s o ethos social do “ocidente” se enfraqueceu, mas, tambm, e ainda mais, o das ideologias radicais de esquerda, que tiveram grande peso durante grande parte do sculo passado, tem-se o contexto de uma atmosfera vazia de referncias, onde habita um jovem dessocializado em relao sociedade global e famlia, 24 e alrgico tanto aos ideais de vocao dominantes, como aos projetos laicos de revoluo social. Esses “tomos livres” buscam apoio em modos fanticos de agir e de pensar. O fundamentalismo islmico um deles, e, hoje, , de certo modo, o hegemnico. Os mesmos fatores existem, mas agravados, e sobredeterminados, em se tratando do caso especfico dos jovens da imigrao extra-europeia.
Mas entre a situao dos jovens europeus em geral, e a dos de origem extra-europeia, situa-se o caso intermedirio, o dos jovens de condio modesta - qualquer que seja a sua origem, incluindo, mas no s, os da "imigrao" - que vivem em situao difcil nas periferias. Comeo discutindo mais esse caso geral, para depois me ocupar em detalhe, do especfico. No ser possivel, porm, evitar alguns entorses a esse modo de exposio.
O mal-estar das banlieues na Frana um fenmeno antigo, que data, pelo menos, dos anos 1970. 25 Pouco a pouco, os governantes viram-se obrigados a intervir diante de uma realidade que a da pobreza e da precariedade de uma populao, principalmente jovem, e em face do desassossego dela, exprimido em choques com a polcia e violncias diversas. O fenmeno culmina com o quase-levante de outubro/novembro de 2005, que comea na regio parisiense (aglomerao de Clichy-sur-bois e Montferneil) e se estende pelo conjunto do territrio francs, durante trs semanas. 26 O ponto de partida dessa revolta foi a morte de dois jovens que, em companhia de um terceiro (este sobreviveu), ao fugir da polcia - embora fossem (os trs) perfeitamente inocentes - entraram numa central eltrica, e morreram eletrocutados. Comeam ento as manifestaes e a violncia, e esta se agrava - j preciso introduzir um dado especfico - quando, dois dias depois, a polcia lana uma bomba lacrimognea na porta de uma sala de oraes, atingindo pessoas de vrias idades que participavam de uma reza muulmana do Ramadan. Depois de 2005, no houve motim desse porte.
As razes das insurgncias dos jovens da periferia no so misteriosas, embora haja uma longa discusso entre os socilogos, principalmente sobre a importncia relativa de um ou de outro fator. No economismo dizer que a crise econmica, que comea em meados dos 1970, com suas consequncias, desemprego, pauperizao, degradao do habitat e dos equipamentos urbanos, junto com a concentrao e ghetoizao das populaes pauperizadas, est na base do desassossego. Assim, antes de discutir outros pontos, se se quiser evitar o risco de psicologizao ou de diluio das razes do problema, preciso insistir em seus fundamentos mais gerais, sobretudo econmicos. De fato, ele aparece no final dos “trinta anos gloriosos” com o surgimento de uma massa de jovens mais ou menos fadados marginalizao, e que, por causa da pauperizao das famlias, vivem em condies cada vez mais precrias. Digamos que esses tm duas sadas possveis: de um lado, a revolta, crnica ou aguda (alm da politizao); de outro, a droga e a delinquncia. Muito cedo, os governos de direita e de esquerda tentam pr em prtica diferentes formas de interveno, inicialmente assistenciais e institucionais. Entretanto, o aumento do desemprego coincide com o fim do welfare state, e, a partir de certo momento, as mesmas causas que provocam a pauperizao e a degradao do habitat determinam tambm o recuo progressivo da interveno do Estado, mesmo se esta no desaparece e at relanada dentro de certos limites, depois da grande revolta de 2005. (A acrescentar: as duas coisas coincidem tambm com a eroso dos partidos, ideologias e sindicatos que, legitimamente ou no, apresentavam-se como representantes das massas exploradas. Para o melhor ou para o pior - no curto prazo, em geral, para o melhor - os pobres tinham um enquadramento, que depois perderam). 27 impossvel dizer que os governos, mesmo os de esquerda, tenham sido suficientemente sensveis ao que sentiam os jovens da periferia. Os governos de direita, porm, e em particular um ministro do interior, Sarkozy, chegou ao limite de uma declarao de guerra aos jovens “revoltados”. 28 Quanto as intervenes da polcia, elas no s foram ineficazes, mas frequentemente agravaram a situao. 29 Pode-se dizer sem exagero que a interveno da polcia, por causa da sua forma, foi um elemento de importncia considervel na origem dos distrbios. Com o que no se pretende subestimar o fenmeno do trfico de droga e da delinquncia em geral.
Passando agora a uma anlise mais centrada no caso particular dos jovens da imigrao, h, a, dois fatores decisivos. Um sobredeterminado. O outro lhe particular. O primeiro a crise econmica e o desemprego, aos quais j me referi. O segundo, especfico, so os fenmenos de marginalizao “tnica” (racismo, estigmatizao dos imigrantes extraeuropeus). Sem uma taxa de desemprego atingindo mais de 10 % da populao ativa, e bem mais do que isso, no caso particular dos jovens, seguro que haveria um campo muito menos propcio ao desenvolvimento do fundamentalismo e do terrorismo poltico. Quanto ao preconceito e estigmatizao, existem tambm evidncias empricas bem fundadas, mas o significado pleno desse segundo elemento, e tambm a sua conexo com a crise e o desemprego, est longe de ser simples. 30 Houve e h, evidentemente, na Frana, e em outros pases europeus, uma estigmatizao dos descendentes de imigrantes no europeus, como houve, em outra poca tambm, dos originrios da imigrao europeia. As pesquisas mostram como esse estigma vem de longe e comea com a gerao anterior, a que fez a viagem, o que refora, dentro da famlia, o sentimento de excluso. 31 Um elemento muito vezes lembrado, e que me parece, efetivamente, essencial, so as condies em que se deu a descolonizao, em particular a guerra da Arglia. Em princpio, ele concerniria s imigrao argelina. Mas deve ter havido um fenmeno de propagao, que, dos argelinos, passa aos magrebinos em geral, e vai alm destes. O desfecho da guerra provocou a transferncia para a Frana de um contingente populacional considervel de “pieds-noirs”, em geral com sentimentos marcadamente “antirabes” ou “antimuulmanos”. Observemos que a guerra da Arglia implicou na conscrio, com tudo o que ela significou, e o seu desfecho provocou uma crise nacional, de que resultou nada menos do que uma mudana de regime. Tudo isso deve ter deixado marcas profundas. As consequncias se manifestaram dos dois lados: os pesquisadores observam o quanto os antigos combatentes da revoluo argelina, mas em parte tambm os seus descendentes, resistiam ideia de adotar a nacionalidade da antiga potncia colonial que eles haviam combatido. Na origem, havia dois elementos: hostilidade aos franceses e orgulho “revolucionrio” ligado ao culto dos dirigentes e da causa nacional argelina. De l para c, esse segundo elemento caiu. Se continua a haver hostilidade para com os “franceses”, junto com ela h, agora, tambm hostilidade para com os atuais dirigentes do pas e eroso dos grandes sentimentos de orgulho pela nao de onde vieram os pais. 32 como se ficasse o lado negativo, mas no o positivo, que, precisamente, veio a ser substitudo por outro: a verdadeira nao dos “beurs”, pode-se ler em vrios depoimentos, , na realidade, o Isl.
Mas voltando relao ex-colonizador/colonizado, o preconceito dos “franceses” se alimentou e alimenta, claro, das diferenas culturais, reais ou supostas, entre “franceses de souche” (“pieds-noirs” ou no) e a populao de razes extra-europeias, e a, evidentemente, a diferena de religio, que no existia, no caso da imigrao europeia, teve e tem o seu papel. Mas sem a taxa atual de desemprego difcil que o preconceito vingasse, pelo menos nos nveis em que existe hoje. Porm, h outros dados que mostram a complexidade da situao. Se as pesquisas sobre racismo e sentimentos contra os imigrantes revelam que a situao se agrava mais ou menos a partir de 2010, aps um movimento crescente (embora irregular) de tolerncia nos vinte anos anteriores 33 - constata-se, ao mesmo tempo, pelo menos sob certos aspectos, um processo indiscutvel de integrao das populaes de origem extra-europeia. Entre outros exemplos (este do campo da poltica) tem-se, pela primeira vez, o fenmeno - impressionante, para quem vive h muito tempo na Frana - de ministrios “rgios” ocupados por gente da imigrao, e isso tanto em governos de direita como de esquerda. Dir-se- que se trata de uma incorporao por cima e que beneficia um nmero limitado de pessoas. Seja como for, uma pequena revoluo. Mas comea a haver uma mutao tambm por baixo (aqui estamos diante de um fenmeno que permite medir as atitudes de um lado e de outro): pela primeira vez na Frana tem-se uma pletora de candidatos ao legislativo nacional, de origem extra-europeia, sem falar na presena de eleitos no plano municipal, departamental e regional. verdade que o nmero de eleitos limitado. 34 Porm, mesmo esse resultado a minima expressivo. evidente que, nesse plano, o pas comea a mudar. Como organizar esses dados? H aparentemente uma recrudescncia do racismo com base: 1) na ideia de que, nas condies atuais, os imigrantes agravam a situao de emprego dos nacionais; e 2) na suposio de que “a imigrao“ a responsvel pela delinquncia e pelo terrorismo. Mas ao mesmo tempo, e principalmente medida que vai se desenvolvendo uma classe mdia originria da imigrao, essa classe, pelo menos, vai sendo integrada, e no s no plano poltico. Parece difcil supor que esse fenmeno no tenha algum efeito sobre o conjunto da populao de origem extra-europeia.
Entretanto, poder-se-ia perguntar: mesmo supondo que o balano desses prs e contras do chamado processo de “integrao” (que no o mesmo que “assimilao”) fosse antes negativo, mesmo levando em conta a situao econmica e os preconceitos, como explicar esse fenmeno especfico que o fato de que a religiosidade que impregna a imigrao , pelo menos em certas reas, cada vez mais de ordem rigorista seno fundamentalista e, mais do que isso, que uma franja jovem, dos dois sexos, dessa populao, descambe para um projeto jihadista e terrorista? 35 Em parte, isto sempre foi assim: o rigorismo fundamentalista (de seitas, de religies e de partidos) que tem grande fora de atrao nessas situaes. Mas em parte, no h, para essa pergunta, uma resposta endgena, isto , que remeta ao registro local. As populaes fragilizadas pelas razes indicadas sofrem o impacto de um proselitismo, que vem de fora, e que est ligado s peripcias da histria do Isl no Oriente Mdio e no norte da frica, descritas anteriormente. O proselitismo, diz a especialista em neutralizar os recrutamentos, se exerce - como no caso das seitas - por meio de um assdio muitas vezes brutal, e atravs de manobras de seduo de toda ordem. Mas, para alm do impacto da realidade atual do Oriente Mdio 36 - e, penso aqui, mais do que no fundamentalismo, em geral, na atrao pelo terrorismo -, entram tambm outros fatores, em parte exgenos, em parte endgenos. Um deles, j referido, porque geral, o aumento da delinquncia e do banditismo, frequentemente em conexo com o comrcio das drogas. 37 Mas preciso retom-lo no contexto dos problemas da imigrao. As “drogas” se relacionam, pelo lado do consumidor, com o vazio e a dessocializao, e, pelo lado do “vendedor”, com a crise e o desemprego (sem que, com isso, tudo esteja dito). As drogas “pesadas” so, antes das religies, seno o pio do povo, pelo menos o pio dos jovens... “(fontes de) iluso em um mundo sem iluses”. E, por sua vez, o comrcio da droga encontra evidentemente uma base favorvel de recrutamento em uma situao econmica que condena os jovens a vagar sem rumo pelas “cits”. As redes de venda so s vezes extensas e muito absorvedoras de “mo-de-obra”. O banditismo uma sada possvel. E a religiosidade, nisso tudo? A religiosidade , em princpio, um obstculo s drogas e ao banditismo. (Como tambm s insurgncias: as autoridades religiosas fizeram apelos aos jovens muulmanos, para que no participassem das mobilizaes.) Mas quando a religiosidade se torna no s fundamentalista, mas jihadista e, portanto, terrorista, a situao se modifica. Parte dos jovens que aderem ao jihad - o caso do assassino do hipermercado kasher de Vincennes - foram bandidos, antes de serem militantes fundamentalistas. E, pelo que informam as fontes acima mencionadas, os recrutadores e recrutadoras de soldados para o jihad, na Frana, tambm so ou foram ligados ao banditismo. Se os jovens pauperizados tm, agora, entre as sadas possveis para a sua situao (alm das mobilizaes), o banditismo e a religiosidade, o jihadismo terrorista tem a caracterstica de juntar os dois elementos. O jovem descobre um tipo de religiosidade que carrega com ela o “banditismo”, isto , a violncia (mesmo se no as drogas). Entende-se assim alguma coisa da atrao que ele pode exercer sobre a juventude imigrante marginalizada. Alm do fator banditismo, o rumo atual dos contedos da mdia tambm abre o caminho para as prticas violentas. evidente que se compararmos o que ela oferecia h, digamos, vinte ou trinta anos, com o que prope hoje, em termos de filmes, jogos etc, constatamos uma proliferao de contedos no s violentos, mas de uma extrema violncia (ver a utilizao de materiais precisos da mdia pelos recrutadores tal como nos informa o livro, acima citado, de Dounia Bouzar). Assim, o desenvolvimento extremo da mdia, refletindo provavelmente o ethos global do capitalismo mais moderno, converge com as prticas do fundamentalismo, o que, aparentemente, haveria de mais arcaico. Mas mdia e terrorismo convergem tambm em um outro plano. Num perodo anterior, os jovens se radicalizavam indo s mesquitas ou salas de oraes. Mais recentemente, os DVD especializados tornaram desnecessrio esse deslocamento. Hoje - os pesquisadores insistem sobre esse ponto - as mensagens mais fanticas e violentas circulam livremente na internet. No s deixou de ser necessria a visita aos locais de prece, mas no se necessita, mesmo, de nenhum tipo de material ou instrumento, salvo o que permite o acesso a ela. A propaganda jihadista ocupa amplamente o espao da mdia eletrnica, e acessvel, sem esforo, a quem tiver interesse em chegar a ela (o que no deve fazer perder de vista o papel do contato in vivo, principalmente nas prises). Quanto ao fenmeno aparente e paradoxal da coincidncia do recrudescimento do terrorismo com os progressos da integrao, sem querer jogar com paradoxos, pergunto-me se no h alguma coisa comum na base dos dois fatos: com efeito, muitos terroristas (os de janeiro, por exemplo) esto de algum modo “integrados”. Inimigos ou no dos “franceses”, eles penetram sem dificuldade na cultura local, e nela se movem com xito, sua maneira. Basta dizer que o terrorista do hipermercado kasher participou da coproduo de um documentrio clandestino na priso, que alis deu origem a um livro, e que ele fez parte de um grupo de estagirios, recebidos pelo presidente da Repblica.... Com o que, no estou querendo dizer que a integrao, em sentido prprio, da populao de origem extra-europeia no esteja em processo. Entretanto, se no se corrigir a poltica econmica, essa integrao significaria, de fato, em muitos casos, desintegrao... O jovem “imigrante” seria integrado populao “francesa”, ela mesma sob risco de marginalizao...



6) Isl, jihadismo. religio, religies do livro


Isso posto, preciso mergulhar mais nas razes do fundamentalismo islmico. J que para analisar os acontecimentos sangrentos de janeiro, na Frana, nos dispusemos a tratar dos integrismos islamistas, necessrio tentar uma elucidao mais profunda do seu significado. Entretanto, impossvel falar dos fundamentalismos islmico, sem, antes, dizer alguma coisa sobre o prprio Isl. Na realidade, o que designamos at aqui por esse termo foi no s - ou no, exatamente - a religio muulmana, mas a realidade, presente ou passada, de certos pases e regies em que ela predomina. 38 Supondo que esse objeto tenha alguma unidade - a unidade religiosa, e, em alguma medida, histrica, mas s parcialmente lingustica, Turquia e Ir, j observei, no so terras em que se fala rabe - que representa esse “territrio”? Digamos que ele representa uma “periferia” do sistema global de Estados, sistema que tem um centro, ou centros. Digo “periferia”, porque se trata de pases, ou de menor desenvolvimento econmico, ou de economia, digamos, sui generis (duas determinaes que indicam situaes, bem diversas, e quase opostas, j que por sui-generis estou visando principalmente as economias de alguns dos grandes produtores de petrleo, como as monarquias do Golfo, e l o PIB per capita comparvel, seno superior, ao das principais naes da Europa... 39). Mas, apesar disso, h uma unidade nesse conjunto. 40 E esses pases, mesmo os mais ricos, o que alis confirma a sua situao de “periferia”, pelas prprias peculiaridades das suas economias - vrias deles tm a particularidade de explorar a “renda” territorial - no tm o peso da Europa ou dos EUA, e, mais recentemente, da China, na poltica global do planeta, ainda que eles possam influenci-la atravs do impacto do petrleo sobre a economia mundial. 41 Comparemos essa “periferia muulmana” com outras reas e pases que foram colnias ou semicolnias. Tentemos, por outro lado, pr em paralelo a situao do “mundo muulmano” com a dos pases mais desenvolvidos. E h pelo menos mais uma outra chave comparativa, muito interessante, que, a rigor, no entra em nenhuma dessas duas categorias.
Comparada com as outras periferias ou ex-periferias - China, ndia, frica Negra, Amrica Latina... - o “mundo muulmano” parece ter em comum com a China e com a ndia o fato de ter sido uma “grande” civilizao. Grande em termos de poder, de extenso territorial, mas tambm em termos culturais. Isso, como veremos, tem uma importncia considervel, para pensar a histria e o destino do Isl. Se confrontarmos esse “mundo muulmano” com as naes mais avanadas da Europa e os Estados Unidos, o trao que se destaca a relao diferente que existe, em um e outro caso, entre o Estado e a sociedade civil, de um lado, e a religio, de outro. Ou entre o poder laico, de um lado, e o religioso, de outro. No Ocidente, operou-se uma ntida separao entre as duas esferas (embora relativa, pense-se, entre outras coisas, no reconhecimento pelo Estado das festas religiosas crists). Aps a luta entre o papa e os imperadores, e a constituio dos Estados nacionais, o papa conservou um poder cosmopolita, mas apenas “espiritual”. No mundo muulmano, pelo contrrio, apesar da fora dos movimentos “laicos”, o impacto das autoridades religiosas e da religio continuou sendo decisivo. 42 O brao religioso existe pelo menos enquanto poderosa fora de oposio, se no no governo, impondo normas estritas de comportamento populao civil. Poder-se-ia encarar esse fenmeno como uma decorrncia da “essncia” do Isl e das naes cuja populao majoritariamente muulmana. O que significaria que o Isl mais ou menos incompatvel com um governo moderno e, a fortiori, comum governo democrtico. Mas tambm se poderia supor, pelo contrrio, que a tendncia nesses pases , em ltima anlise, a de seguir os passos dos pases avanados, e operar, a mdio prazo, seno a separao, pelo menos uma separao, entre religio e Estado; o que significa que o Isl, como religio, seria compatvel com uma sociedade republicana e democrtica. Apesar de todas as crticas que hoje se faz, e justificadamente, noo de progresso, esta segunda leitura, que, alis, no implica nenhuma ideia simplista de progresso, , a meu ver, a melhor. Se ela introduz a ideia de progresso, no o faz, veremos, num esquema linear. Bom, digamos que o que chamo de “fundamentalismo” ou de “integrismo”, ou de “islamismo”, tem a ver com esse impacto do religioso sobre o poder poltico e a sociedade, que, sob essa forma e com essa intensidade, no est mais presente no Ocidente. Eu diria que fundamentalistas so as tendncias que, dentro do Isl, impem ou alimentam esse domnio. O que significa subsumir sob o termo, certamente o governo da Arbia Saudita e das demais monarquias do Golfo e do Ir; movimentos, como o salafismo (ainda que a variante quietista no pretenda intervir na poltica, mas comeam a surgir dvidas sobre o apoliticismo e mesmo a no-violncia dos quietistas), os irmos muulmanos ( verdade que o seu radicalismo varia, de situao a situao) e, sem dvida, o jihadismo (que em parte salafista), sob a espcie do movimento Al Qaida, ou na figura do Califado (ou Estado Islmico, Daech), tambm vrios partidos etc. O jihadismo vai representar, precisamente, a forma extrema, radical (em termos de violncia) do fundamentalismo islmico. 43 V-se por a que h dois erros a evitar. Um, o de supor que o fundamentalismo e o jihadismo no tm nada a ver com o Isl (o que se ouve s vezes, da boca de gente bem intencionada). Fundamentalismo e jihadismo tem a ver com o Isl, evidentemente, porque nascem nele, e, de certo modo, dele. O outro o erro contrrio: o de supor que o fundamentalismo e o jihadismo so o Isl (o que se ouve, da boca de gente mal intencionada ou mal informada). Erro, tambm. Fundamentalismo e jihadismo representam, de fato - atravs do tempo, e do espao - um Isl e, na realidade, como afirmam os muulmanos crticos, um Isl doente ou uma doena do Isl.
Mas a que remete o contedo mais preciso desse fundamentalismo 44 e qual a sua significao na histria, em particular, na histria mundial contempornea?
Os fundamentalismos, e o jihadismo, em especial, representam movimentos essencialmente anti-luzes. Dito de forma geral, isso certamente uma banalidade. Mas deixa de ser, talvez, se tentarmos explorar essa caracterizao e comparar essa vocao antiluzes dos fundamentalismos islmicos com outras formas e projetos polticos da modernidade contempornea.
Os fundamentalismos rabes so os movimentos antiluzes, por excelncia (embora eles tenham tambm, e ao mesmo tempo, um lado moderno importante, de que me ocuparei mais abaixo). s vezes fala-se do nazismo como o grande inimigo do Aufklrung (iluminismo). Na realidade, o nazismo inimigo de um trao do iluminismo, ou de uma vertente dele, que se imps, no plano jurdico, a igualdade. Mas ele no caracteristicamente anti-luzes, porque ateu (o Aufklrung no foi sempre ateu, nem em geral ateu, mas o atesmo era, de certa forma, a sua “vocao”). Quanto ao capitalismo liberal-democrtico, ele herdeiro das luzes. Porm, representa, de forma bastante ntida, uma “dialtica das luzes”. A saber, nele as luzes se realizam, mas ao mesmo tempo se pervertem e se negam. H no capitalismo liberal-democrtico uma dialtica da igualdade e da desigualdade sobre o fundo da liberdade (uma liberdade que por causa daquela dialtica tambm est afetada pela no liberdade). Quanto ao “comunismo” - refiro-me ao chamado “socialismo real”, da as aspas -, ele tem tambm as suas razes nas luzes. E sob outra forma, tambm ilustra e tragicamente - talvez seja o que ilustra melhor - a “dialtica das luzes”. Aqui a liberdade que se transforma no seu contrrio - mas nesse caso a negao no uma Aufhebung (negao-conservao hegeliana), mas uma negao vulgar - sob a aparncia de uma efetivao da igualdade (esta igualdade est afetada de no igualdade, por causa da negao da liberdade). O lado caricaturalmente aufklrer do “comunismo” fica patente no seu cientificismo primrio e no seu prometesmo destruidor.
Quanto relao entre o fundamentalismo islmico e esses outros modelos ou projetos, poder-se-ia dizer o seguinte. No que se refere ao “comunismo”, j vimos, foi a tendncia laica, e no a religiosa que, por razes compreensveis, esteve muitas vezes ligado a ele, em forma instvel e tortuosa. Qualquer que seja a opinio que possamos ter sobre este evento, a queda do “comunismo” certamente levou gua para o moinho antilaico. Os fundamentalismos islmicos rejeitam o capitalismo liberal-democrata, nas suas duas vertentes, o prprio capitalismo (mas a rejeio do capitalismo enquanto tal ideolgica, na prtica, eles como que se “enroscam” no capitalismo), e a liberal-democracia, ou a democracia em geral (aqui a rejeio efetiva 45). O ataque democracia, doutrina dos “descrentes” que defende a ideia nefasta de que o poder vem, ou pode vir, do povo, quando, evidentemente, ele vem de Deus, um leitmotiv dos grupos islmicos. Quanto sua relao com o capitalismo, qual ainda voltarei, o paradoxo sintomtico, j assinalado, o de que o campeo tradicional do fundamentalismo, o poder saudita, templo histrico do salafismo, de que o jihadismo uma das emanaes, um velho aliado da grande potncia capitalista, os Estados Unidos. (Os comentadores destacam a performance de equilibrista dos norte-americanos no Oriente Mdio: sustentculos de Israel, eles so, ao mesmo tempo, grandes amigos da Arbia Saudita...). No que se refere ao nazifascismo, o Isl poltico-radical, mas tambm as tendncias laicas, manifestaram muita vezes uma atrao por ele, pelo menos por alguns dos seus aspectos. Por fora do combate contra ingleses e franceses, alguns dos campees do nacionalismo rabe, como ocorreu tambm alhures, no terceiro mundo, tiveram namoros com as ideias ou as prticas do fascismo. Mas foram os religiosos que caminharam mais longe nessa direo: o gro-mufti de Jerusalm, Al Amin al-Husseini, foi recebido por Hitler, em novembro de 1941. A partir da, veio a se constituir uma diviso SS (a 13a diviso, chamada Handschar, cimitarra) formada majoritariamente de soldados muulmanos da Bsnia (o episdio termina com um levante da tropa, que fazia o seu treinamento na Frana). Provavelmente, o esprito anti-igualitrio, e, mais ainda, o dio aos judeus, que j tinham assentamentos importantes na Palestina, asseguraram a convergncia entre os dois movimentos. O jihadismo pode, alis, ser considerado como uma doutrina e um movimento totalitrio. Assim, os jihadistas tm uma afinidade maior com o “comunismo” e com o nazismo, do que com o capitalismo liberal-democrtico, ou, pelo menos, com a democracia.
Com isso, j entramos em alguma coisa do contedo, e do “estilo” dos ideais islamistas. Poder-se-ia observar, no plano da atitude geral, ou do estilo, que o discurso islamista, como muitos observadores tm indicado, revela um fundo de forte ressentimento. Isto se deve, sem dvida, ao fato de que ele tem, por trs de si, a sombra da grande civilizao, que perdeu o seu papel de vanguarda. A propsito do ressentimento, deve-se ressaltar, como j dissemos, o trabalho nefasto dos americanos, ou, mais particularmente, de Bush filho e dos neoconservadores, que, por ocasio da desastrosa guerra contra Saddam - mesmo se este era, de fato, um monstro -, fizeram questo de humilh-lo e, o que pior, de humilhar tambm o pas. Foi o pior dos clculos: condenvel do ponto de vista tico e politicamente desastroso. No contexto dessas consideraes sobre o ressentimento, poderamos introduzir tambm a questo de Israel. O problema palestino evidentemente central no discurso islamista. E muito por a, embora no s, que o ressentimento est presente. H um certo paralelismo entre as histrias dos muulmanos e a histria dos judeus, pelo menos at um certo momento. Ao projeto de fazer ressurgir a grande civilizao, e o grande imprio muulmano, corresponde, mutatis mutandis - as diferenas so grandes, apesar de tudo - o projeto sionista de construir um Estado para os judeus. Estes tinham uma civilizao, sua maneira, brilhante, embora territorialmente limitada. Perderam o seu Estado, no curso das invases em torno do incio da nossa era, e, muito depois, foram vtimas de um genocdio monstruoso. Os radicais islmicos insistem que os judeus obtiveram o que queriam - e obtm sempre o que querem, dizem eles - enquanto aos rabes no se d nada. curioso, alis, observar o quanto, no discurso da extrema-direita, o rabe substituiu o judeu, como objeto de preconceito, o que, evidentemente, no justifica o neoantissemitismo dos radicais islmicos. O ressentimento - que existia e, em parte, existe ainda, pelas mesmas razes, tambm na China - tem, uma dupla base, amplamente explorada pelo proselitismo islamista: ao macrorressentimento histrico provocado pela perda de hegemonia por parte do Isl se soma o microrressentimento das populaes de confisso muulmana, marginalizadas, empobrecidas e discriminadas pelo racismo. Um ressentimento sobredetermina o outro.
No contedo do islamismo radical, e mesmo, mas com intensidade menor, nos fundamentalismos mais moderados, aparece, como se sabe, um violento impulso antifeminista, que visa o enquadramento e a subordinao da mulher. No caso limite do chamado Califado (Daech, ou Estado Islmico), as mulheres muulmanas so impedidas de sair de casa sem um tutor masculino que as comande, e, quanto s mulheres estrangeiras, elas so frequentemente violentadas e at vendidas como escravas. A dominao das mulheres, a discriminao e as medidas coercitivas que lhes so impostas, alm de eventuais causas histricas mais especficas que desconheo, devem se relacionar, via o carter antiluzes do islamismo, com o teor arcaico do “religioso”, em geral, ou de certo “religioso”, pelo menos. A afirmao pode parecer uma tautologia, mas, desenvolvido o argumento, talvez no seja tanto assim. O que poderamos chamar de “revoluo feminista” a mais recente de todas as revolues (considerando s as verdadeiras). Os islamistas, adversrios dos princpios da Revoluo Francesa, revoluo que ficou aqum da luta pela libertao da mulher, devem ser a fortiori adversrios dessa segunda campanha de emancipao, que sucede ao que se passou em 1789. Mas o argumento insuficiente. Se tomarmos como referncia as religies do Livro - que me perdoem os especialistas se invado territrios desconhecidos ou sou imprudente nas formulaes - a religio parece ter dois vetores. Por um lado, a imortalidade da alma, ou, quando no se insiste muito nessa ideia (que , entretanto, assumida), pelo menos uma preocupao constante com a finitude e a morte. 46 O segundo vetor a busca de pureza e o horror da impureza, no interior de cujo universo se destacam as matrias fecais e as dejeces, em geral. 47 As duas coisas devem ir no mesmo sentido, o da busca de transcendncia. Mas a obsesso da pureza parece implicar num visada particular da mulher, o que se constata, alis, j no texto citado. Mas aqui aparecem duas possibilidades. Ou h de fato uma extenso do tema da pureza ao caso da mulher, porque nela ele encontraria um campo privilegiado de investimento, e isso por diferentes razes: digamos, porque, sendo o corpo da mulher o receptculo da concepo (a concepo, em si mesma, no , entretanto, considerada como impura), ela encarnaria o corpo melhor do que o homem, e o corpo seria um lugar privilegiado da impureza; ou por causa do sangue menstrual 48 ou, ainda, por causa do parto 49 etc. Ou ento, segunda possibilidade, a fixao na mulher (inclusive como lugar privilegiado do puro e do impuro) talvez se explique, independentemente disso, pelo fato de ela remeter sexualidade, potncia a ser controlada e regulada socialmente. 50 Nessa hiptese, pureza e impureza fsicas (claro que “fsico-sociais”), seriam, para o caso especfico da mulher, um fator derivado ou sobrederminante. Porm, o tema da pureza e da impureza fsicas subsistiria, de qualquer modo, creio eu, como tema independente e fundamental. Teramos, ento, nessa hiptese, no dois, mas trs vetores da religio (nos limites das religies do Livro). 51 Porm, qualquer que seja a tese terica, na variante fantica que examinamos, tem-se a patologia disso tudo: o amor da morte, 52 a obsesso da pureza 53 e o controle (a dominao e, nos casos extremos, a escravizao, pura e simples) da mulher. Motivos maiores do fundamentalismo.
Poder-se-ia perguntar (retomando em forma um pouco diferente uma questo discutida acima) em que medida a inseparabilidade do religioso e do poltico, a recusa da cidade laica, que vir a ser a cidade democrtica, no produto de uma religio particular, o Isl. Por outras palavras - pergunta clssica e recorrente, que ouso formular, sem insistir nos limites evidentes das minhas consideraes - o atraso daquela periferia vem de particularidades do Isl, ou se deve a outras razes? Acho que aqui - o que nem sempre se faz - seria preciso distinguir duas perguntas: a que indaga se o carter particular do Isl teve algum papel sobre o aparente bloqueio e, em certo sentido, regresso que se revela em sua histria; e a pergunta sobre a necessidade disso, ou seja, se inevitvel que o bloqueio e a regresso aconteam. Minha impresso, a partir do que pude ler nos especialistas, a de que a resposta primeira questo “sim”, e segunda “no”. O carter bastante “poltico” da religio muulmana deve ter dificultado a separao. Ao mesmo tempo, improvvel que isso deva ser sempre assim. Por qu? Por que h muitas tradies laicas dentro da histria cultural dos pases muulmanos: literatura, filosofia, tambm foras polticas laicas (melhores ou piores), e tudo isso existe, tambm, hoje. H at foras democrticas, que se manifestaram h pouco tempo, embora no momento presente, estejam, em geral, na defensiva. Por outro lado, o lado fantico da religio se encontra tambm alhures, pelo menos nas outras religies do Livro. evidente que h fanatismo e intolerncia na Bblia. Certamente, no chamado “Velho Testamento”. Mas no seria difcil dar exemplos disso tambm nos Evangelhos (e, entre esses exemplos, aduzir alguns que contradizem literalmente a outra vertente, a da tolerncia, tambm presente). 54 Na realidade, creio que poderamos lembrar aqui da teoria do filsofo Ludwig Feuerbach sobre a religio (ele escreve principalmente sobre o cristianismo, mas no s). O discurso de Feuerbach sobre a religio, que, talvez, contra as aparncias, seja mais fecundo do que o de Marx, insiste precisamente sobre os dois lados contraditrios das religies. Primeiro, o do amor e da concrdia. o que deveria facilitar - o comentrio deve ser meu - o estabelecimento de um Estado de direito e, eventualmente, a democracia. O outro, o da f, a vertente do fanatismo. Os dois aspectos coexistem mas so contraditrio. 55 Essa circunstncia deve explicar por que razo obtm-se frequentemente respostas contraditrias, quando se pergunta sobre a “essncia” de uma religio, em particular a do Isl. De fato, a indagao recorrente em nossos dias, por motivos bvios, a de se o Coro prega a paz e a tolerncia, ou se , pelo contrrio, uma religio de violncia, merece respostas muitas vezes contraditrias, que ora vo na direo de um, ora na direo de outro dos ramos da alternativa. Parece que h pelo menos algumas palavras de paz bastante incisivas no Coro (em primeiro lugar as que banem a coero em matria de religio 56). Mas h tambm fanatismo, e no pouco. Que peso tem uma ou outra vertente, no posso dizer, mas, pelas citaes dos especialistas, esto presentes os dois extremos. Isso vai na direo da teoria de Feuerbach e se aplica tambm ao cristianismo, que , de resto, o objeto principal de Feuerbach.
Antes de passar ao ltimo tpico desse pargrafo, queria fazer duas observaes, uma ainda sobre o seu contedo e outra sobre o fenmeno da “volta” do religioso. No que se refere ao contedo, importa precisar que o fundamentalismo islmico no , evidentemente, puro arcasmo, simples retomada do passado. Ele tem um lado moderno. arcasmo que incorpora um “extrato” moderno. E o que moderno no fundamentalismo islmico? Dois elementos. Seus compromissos com o capitalismo mundial e sua implicao com a tcnica. Invertendo o caminho clssico, as petromonarquias do globo investem capitais nos pases capitalistas avanados. Hoje elas dispe de uma porcentagem no desprezvel nas aes das grandes firmas internacionais. 57 Quanto imbricao com a tcnica moderna, ela aparece principalmente sob duas formas, a do armamento moderno, e a da comunicao moderna, a mdia. Enquanto investidores capitalistas, e como utilizadores privilegiados do armamento moderno e dos recursos tcnicos da mdia, os fundamentalistas islmicos so modernos. Mas nem um nem outro fator eliminam o seu fundo arcaico. O fundamentalismo arcaico-moderno. Porm se pode dizer, a despeito de tudo - esta pelo menos a minha tese -, que a primeira determinao a dominante e a que define a sua essncia.
A outra observao diz respeito s condies de emergncia contempornea do religioso. curioso como este foi subestimado. Israel jogou com os movimentos fundamentalistas rabes, contra Arafat; e o prprio Arafat parece t-los subestimado (como tambm os laicos judeus em relao aos seus fundamentalistas, como observou Daniel Golovaty Cursino 58). Os norte-americanos se lanaram a fundo no armamento da guerrilha jihadista no Afaganisto, visando tirar proveito disso para a Guerra Fria, sem pensar em suas consequncias. Provavelmente, em todos esses casos, dominava a ideia de que um bando de fanticos religiosos no poderia ter um papel de relevo (para o pior) no mundo moderno. No que todos se enganaram; e por trs do engano deve estar uma ideia linear do progresso. Eles no viram esse salto para trs, espcie de “revoluo permanente” s avessas, que o jihadismo. Alis, o fenmeno tambm dificilmente pensvel a partir de Marx. Claro que ele conhecia o poder religioso, e as civilizaes pr-modernas, assim com os seus remanescentes na modernidade. Mas o peso atual desse arcasmo se acomoda mal com a teoria ou o esquema marxiano da histria.
Essas consideraes sobre a religio reforam, sem dvida, a dupla exigncia das luzes: a da liberdade religiosa, por um lado, e a da no obrigatoriedade em reconhecer o sagrado como sagrado, por outro, isto , a no obrigatoriedade em respeit-lo como sagrado no plano simblico (a saber, no plano da representao). Na histria do pensamento e da ao das esquerdas e, em particular do marxismo, essa dupla exigncia no foi obedecida, longe da. Vou contrapor dois exemplos que representam bem, a meu ver, respectivamente, uma atitude errada - ela no a nica atitude errada, pois no considero aqui o seu oposto imediato, tambm falso - e uma atitude, em linhas gerais, correta, que se pode ter em relao religio. Os dois exemplos so de tipo muito diferente, porque vou pr em paralelo uma certa poltica, de um lado, e um texto, de outro. Eu poderia representar aquela poltica por um texto, o que alis farei logo mais adiante. Mas, de qualquer forma, subsiste uma diferena, porque a primeira posio foi posta em prtica amplamente - tanto para o melhor quanto para o pior, digamos sem rodeios: para o pior - o que no foi o caso da outra, a no ser indiretamente. A atitude errada est na poltica bolchevique dos anos 1920. Poltica antirreligiosa brutal, pregada e efetivada por Lnin, no estilo do pior fanatismo pseudoiluminista. Consulte-se, a respeito, as histrias do poder bolchevista nos seus primeiros anos, ou algumas delas. 59 Esse tipo de poltica, que implicou em violncias de toda ordem no s contra os objetos religiosos, mas tambm contra pessoas, teve, para alm dos crimes, o resultado mais desastroso e mais oposto queles com que contavam os seus promotores. A religio no s no morreu, mas acabou se fortalecendo e, em geral, em conexo com foras polticas conservadores e reacionrias. A essa atitude, poderamos opor a atitude de Engels, ou antes, mais modestamente, o que diz Engels em um texto, numa passagem da Crtica do programa de Erfurt. Depois de reafirmar a necessidade da “plena separao da Igreja para com o Estado” e a exigncia de que as comunidades religiosas percam toda subveno pblica e toda “influncia sobre as escolas pblicas”, Engels precisa: “Entretanto (ou, “de fato”, doch) no se lhes pode proibir fundar suas escolas com seus fundos [prprios] e l ensinar as suas besteiras (Bldsinn)”... 60. Embora breve, a referncia me parece digna de registro. Engels faz questo de deixar claro que, se rejeita toda inverso de dinheiro pblico em escolas confessionais e se quer subtrair a escola pblica a toda “influncia” das comunidades religiosas, ele se inscreve explicitamente contra toda represso antirreligiosa - as comunidades podem fundar, s suas custas, suas escolas -, sem deixar de observar, en passant, e ironicamente, o que pensa sobre o contedo do ensino religioso: “besteira” (Bldsinn)... Engels afirma assim, em forma simples, ou simplista, e ingenuamente irnica talvez, mas eficaz, o duplo princpio do Aufklrung, de que somos herdeiros: liberdade para todas as religies e recusa em reconhecer o sagrado como sagrado (recusa que inclui o direito de critica irnica do discurso e das representaes religiosas). Ah, se Lnin tivesse a metade do bom-senso crtico e poltico do velho Engels! Ter-se-ia poupado do mundo e da tradio socialista, de algumas catstrofes e de alguns horrores. Apesar de ter uns 125 anos, o texto de Engels, em sua simplicidade, serve bem, hoje, pelo menos para definir uma posio, nem fantica nem falsamente respeitosa em relao s religies.

7. Depois do massacre

O morticnio na sede do Charlie Hebdo, mais os assassinatos que tiveram lugar nos dias seguintes - no nos esqueamos da morte da policial do Caribe e do grande show sangrento antissemita que deu o terceiro terrorista, no hipermercado kasher de Vincennes -, tiveram, como disse no incio, uma imensa repercusso. Uma grande manifestao foi marcada para o domingo seguinte, reunindo, em Paris, um milho e meio de pessoas (no conjunto das manifestaes em toda a Frana, nos dias 10 e 11, foram para a rua em torno de trs milhes e meio de pessoas). A ela estiveram presentes vrios chefes de Estado ou de governo, inclusive governantes que no primam pelo respeito pelas minorias ou pela salvaguarda dos direitos fundamentais (o hngaro Viktor Orban, dirigente de um partido de extrema-direita, que j liquidou boa parte da democracia em seu pas; o soberano da Arbia Saudita, onde os trabalhadores imigrantes so tratados como escravos e as mulheres no podem guiar automveis; e muitas outras figuras “controversas”). Natanayou, campeo das colonizaes de terras palestinas por Israel, fez questo de fazer a viagem, o que levou Franois Hollande a convidar tambm o chefe do governo palestino, Mahmoud Abbas, para tentar restabelecer o equilbrio. Recuperao do movimento? Sem dvida, mas ela era mais ou menos inevitvel, e, de qualquer modo, no neutralizou, de modo substancial, a fora da manifestao. Poder-se-ia mesmo dizer, com algum otimismo, sem dvida, que, de algum modo, ns, os manifestantes, manipulamos de nossa parte aqueles personagens, ou que as circunstncias os obrigaram a essa espcie de concesso (de fato, quem poderia imaginar que Benyamin Natanyahou, Viktor Orban, Serge Lavrov [Russia], o representante dos Emiratos, Ali Bongo [Gabon], o primeiro ministro turco Ahmet Davutogiu etc, se manifestariam [tambm] em favor de Charlie Hebdo?). Uma certa extrema-esquerda no gostou da jornada. Um filsofo desse entorno, figuro famoso, mas consideravelmente vazio, sentiu-se incomodado com as bandeiras francesas que muitos manifestantes empunhavam na grande marcha. O articulista queria a bandeira vermelha e no a bandeira tricolor. Um outro, da mesma famlia, a quem alis me referi no incio, concluiu, da manifestao - ou talvez do conjunto do episdio, no me lembro bem -, que ela indicava o fracasso do liberalismo. Se esse termo fosse especificado em “neoliberalismo” a afirmativa poderia, talvez, ser de alguma utilidade. Mas, como no caso do seu compadre, parece ter havido a uma espcie de incmodo com o fato de que se tratava de uma grande mobilizao democrtica. Um historiador, Michel Winock, disse mesmo que era a primeira “jornada do internacionalismo democrtico” da histria. 61 Na realidade, foi esse o carter da grande manifestao do domingo, 11 de janeiro. E, a despeito do mau humor dos inimigos da democracia, tanto melhor que tenha sido assim. Como ocorreu no comeo da chamada “primavera rabe”, o gauchismo alrgico democracia ficou irrequieto, no sabendo bem o que dizer. Pois a democracia mobiliza multides, na Frana e fora dela, e isso indispensvel, embora, claro, no seja suficiente. Porm, importante que haja demonstraes democrticas, porque elas valem no s contra o islamismo, mas tambm contra todos os totalitarismos. se nesse sentido que elas so importantes, por isso mesmo que alguns no podem toler-las. A manifestao de 11 de janeiro teve, por outro lado, o grande papel de desmentir a ideia de que, na Frana, ningum se interessa por nada, fora os seus problemas pessoais imediatos, isto , de que haveria uma espcie de torpor na opinio pblica, principalmente a de esquerda. O 11 de janeiro mostrou que no bem assim. O “povo” ps para fora as convices que devem representar o substrato primeiro - histrico e, tambm, “lgico” - das lutas sociais do nosso tempo. , em todo caso auspicioso, e nada negativo, que o “povo” - a propsito, contra o que afirma certa literatura fantasmagrica, pesquisas recentes confirmam que a maioria dos manifestantes era de esquerda ou do centro - empunhe a bandeira tricolor, privatizada, nos ltimos tempos, pela direita. Ele exprime, com isto, uma vontade de universalizao. Que esta universalizao seja “apenas” democrtica, no grave.
Vou omitir aqui, concluindo, as consideraes mais longas que pensava tecer, sobre o que - penso eu - seria possvel fazer, no plano nacional francs, em termos de um projeto de luta contra o jihadismo; algo que assegurasse, ao mesmo tempo, os direitos e o bem-estar da populaes de origem muulmana. Insistirei apenas sobre um grupo de fenmenos que mostram os perigos da situao atual. At aqui, em eleies presidenciais francesas, o eleitorado muulmano votou esmagadoramente na esquerda; mas, apesar disso, vai ficando claro que h um risco de convergncia entre, de um lado, os fundamentalismos e o dogmatismo religioso (em meio islmico) em geral, e, por outro, a poltica da direita e tambm da extrema-direita. A esse respeito, h mais de um fenmeno a assinalar. Primeiramente: a direita clssica tenta arregimentar a populao de confisso muulmana, 62 pelo sacrifcio da laicidade do Estado. Assim, um deputado da UMP (principal partido da direita francesa), eleito por uma circunscrio da regio parisiense, apresentou, em 2006, um projeto de lei punindo a blasfmia, projeto que, felizmente, no foi aprovado. Em segundo lugar, certos movimentos radicais de direita tentam atrair os at aqui to detestados “invasores”, para um cerrar fileiras em nome da luta pela defesa da religio e da moralidade. Assim, o movimento contra a legalizao do casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra o ensino, na escola, de uma pretensa “teoria do gnero” (?), movimento que levou rua centenas de milhares de ativistas, conseguiu mobilizar, para a sua causa, vrias famlias de confisso muulmana. Mais grave do que isso, embora mais limitado em termos quantitativos: esboa-se uma aliana entre certos personagens dos meios salafistas, 63 e a extrema-direita neofascista e antissemita do humorista Dieudonn e do idelogo Alain Soral. 64
No plano internacional, abreviando, tambm, algumas pistas. Uma diminuio do interesse norte-americano pelo petrleo da pennsula arbica - o ideal seria, se como fruto do desenvolvimento de energias renovveis 65 - poderia desfazer ou pelo menos afrouxar o n funesto que une os EUA s reacionarssimas monarquias da Pennsula Arbica, n que tem muito a ver com o imbrgliodo Oriente Mdio. Uma outra pista, maior, evidentemente, Israel. Uma soluo suficientemente satisfatria do problema palestino, a qual dependeria, claro, de uma mudana na atual poltica do governo israelense - mas esta tende a se esgotar, a mdio prazo - alteraria consideravelmente a situao. Edgar Morin insiste, por sua vez, que ser preciso refazer o mapa do Oriente Mdio, porque as antigas fronteiras j no significam grande coisa. De fato, o Iraque est dividido; desejvel e inevitvel, , provavelmente, a independncia dos curdos; e assim por diante. Finalmente, no se pode esquecer do movimento democrtico. Quando houve a chamada “primavera rabe”, no meio da euforia que provocaram os acontecimentos, exagerou-se a importncia e as possibilidades dele. Em seguida, quando os islamistas levantaram a cabea ou equipes mais ou menos ligadas s antigas ditaduras se reinstalaram no poder (as duas coisas aconteceram), o pndulo se moveu em sentido contrrio: tendeu-se a esquecer as foras democrticas, ou a supor que elas havia sido totalmente liquidadas. Mas, embora na defensiva, evidente que o movimento democrtico no morreu. E, pelo menos em um pas, a Tunsia, ele se apresenta como uma fora efetiva. 66

                                                                    ?

Os jornalistas de Charlie Hebdo, que no incorreram em nenhum crime de blasfmia - uma inveno supersticiosa - tornaram-se, na realidade, verdadeiros heris das luzes. preciso saud-los e homenagear a sua memria. Como vimos, no faltaram nem faltam os detratores. Em compensao, eles foram entendidos, e muito bem acolhidos por espritos antidogmticos e democrticos dentro da mouvance muulmana. que, desenhando o Profeta, eles no s praticaram uma ironia legtima, mas, pelo menos nas principais, das famosas caricaturas - no em todas, mas creio que em todas as de capa - ofereceram do personagem um retrato “liberal” (no sentido das luzes), e um retrato que aparece como favorvel ao retratado, pelo menos aos olhos de um leitor no preconceituoso. , por exemplo, o caso da charge em que Maom representado proferindo a frase, “como penoso ser amado por idiotas (cons)”, ou aquela em que ele declara que “perdoa a todos”. Na primeira, particularmente expressiva, o Profeta condena os dogmticos e os denuncia. Pois um intelectual “muulmano”, de esprito livre, Abderwahab Meddeb, formado pelas duas tradies e professor de literatura comparada escreveu, num livro de 2008, um texto que, curiosamente, at onde sei, ningum se lembrou de citar. O autor, que morreu em 2014, e, portanto, se foi antes do grande massacre, posiciona-se, premonitoriamente, se ouso dizer, em favor da Revista, e, em particular, em favor daquela charge; o que ele faz - e isso notvel - no s com esprito de tolerncia, mas num gesto que trai, para alm desta, uma real empatia com a caricatura e com seu autor. O texto merece ser citado extensamente; e se nele se exprime uma certa alegria, tambm com alegria que eu o insiro na concluso deste longo artigo: “E eu me enchi de alegria (j‘ai jubil) - escreve Meddeb - lendo o nmero de Charlie Hebdo, 67 que diz sua maneira e pela fora do desenho o que eu tento pensar em conceito. Aquela edio foi composta para denunciar as supersties e os fanatismos de todas as crenas e no ter de cair em cima s do Isl, no renunciando conquista ocidental da liberdade de dizer e de julgar: aqui no existe zona tabu e ns no temos de proibir a crtica da religio e a derriso para com os fanatismos e as supersties. A capa da revista satrica correspondia exatamente ao meu pensamento, o qual eu j havia exprimido publicamente: um desenho com traos grossos mostrava o Profeta, com uma “balo” 68 com estas palavras: “Que infelicidade ser amado por idiotas” (Que c‘est malhereux d‘tre aim par des cons). Essas multides em fria que protestam com fogo e sangue contra sub-produtos da caricatura 69, so, com efeito, assimilveis a gente de bestice crassa; e eu adiro a esse desenho pois desejo ver o isl se separar daqueles que fazem dele uma entidade boba (bte) e detestvel, para que ele seja o que tambm pode ser: uma configurao inteligente e amvel”. 70































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ilustrao: Rafael MORALEZ




1 Tive o privilgio de me beneficiar da leitura crtica, por vrios amigos, de uma primeira verso deste texto. Maria Caramez Carlotto, alm de ter feito um primeiro trabalho de reviso, fez vrios comentrios e me deu importantes indicaes bibliogrficas de carter sociolgico, que eu vim a utilizar, refundido uma das sees. Daniel Golovaty Cursino me ajudou bastante com as suas observaes sobre a histria do Oriente Mdio, observaes que permitiram equilibrar melhor a perspectiva do artigo e corrigir alguns erros. Carlos Fausto comentou criticamente alguns pargrafos, que poderiam interessar a um antroplogo, e, alm disso, relanou a discusso em torno do teor das caricaturas de Charlie; alm de ter apontado imperfeies em vrias passagens. Tudo isso me levou a introduzir modificaes e acrscimos que me parecem essenciais. Arthur Hussne Bernardo, cuja posio era, no limite, diferente da minha, rediscutiu tambm o carter das caricaturas. Mesmo se eu discordasse de uma parte das suas observaes, indiscutivelmente muito agudas, elas me foram muito teis. Eu incorporei as principais ao texto e tentei responder. Finalmente, Elisabeth de Souza Lobo sugeriu oportunas mudanas de forma, que aceitei. A todos os amigos, muito obrigado. Dado o carter desse artigo, e embora eu tenha tido a impresso, feliz, de que ele foi se tornando um texto coletivo, no pura frmula dizer que eles no so responsveis pelo que, nele, ainda pode ter sobrado de imperfeito ou inexato.


2 Claro que, com isso, no estou entrando nos abismos da histria pessoal de cada um: a vida na residncia talvez fosse difcil; ao deixar o estabelecimento, os jovens no so, ou so pouco, acompanhados. Quanto ao assassino isolado, a condio de nico filho homem de um pai, ao que parece, muito exigente, no lhe deve ter sido favorvel. A acrescentar um evento, de uma outra categoria: um dos companheiros de delinquncia desse terrorista, grande amigo seu, foi morto pela polcia - ele mesmo ficou ferido -, quando policiais perseguiam uma camionete transportando motos roubadas, em que os dois se encontravam.

3 Slavo Zizek, ver L‘Obs, de 22/1/15.

4 Talvez fosse til lembrar que os anos Khomenyi (1979-1989) foram marcados por uma represso sangrenta. Apenas entre 1981 e 1985, o regime executou 8 mil opositores polticos. Ver, a respeito, Mohammad-Reza Djalili e Thierry Kellner, Histoire de l‘Iran contemporain, Paris, La Dcouverte, 2010, p. 81.

5 Sobre a histria de Charlie Hebdo. O ponto de partida foi a revista mensal Hara Kiri, fundada em 1960. L estavam, entre outros, os caricaturistas Wolinski e Cabu (assassinados em janeiro), e tambm Sin e Reiser. Era dirigida por Francis Cavanna (1923-2014) e por George Bernier (1929-2005), vulgo “professor Choron“. Revista satrica, de humor virulento, suspensa mais de uma vez, nos anos 1960. Em 1969, sem suprimir o mensrio, foi lanado o Hara Kiri hebdo (depois, L‘hebdo Hara Kiri), que veio a ser fechado em 1970 por causa da famosa manchete, publicada no momento da morte de De Gaulle, “Baile trgico em Colombey, um morto“. (Colombey-les-deux-glises uma cidadezinha do nordeste da Frana, em que o general De Gaulle se fixara,e onde foi enterrado; a referncia ao baile remete a um incndio, ocorrido poucos dias antes, em um baile de provncia, e que provocara mais de uma centena de mortes). Parte da turma do Hara Kiri, mais alguns novos,fundam ento Charlie Hebdo, que repete a manchete provocadora. O diretor Cavanna. O nome da revista (que se apresenta como a verso hebdomadria de Charlie, mensal em quadrinhos, fundada em 1969, por alguns da mesma turma) vem de um personagem de histria em quadrinhos somado a “family jokes“ em torno da figura de De Gaulle. O Hara Kiri mensal continua saindo at 1986, e tem ainda uma breve ressurreio. Charlie Hebdo fecha em 1981. Fora um nmero excepcional, ele s renasce em 1992, com parte da antiga redao (mas sem o professor Choron), ou de Hara Kiri (Sin, Wolinski, Cavanna, Delfeil de Ton...), e alguns novos: Charb e Tignous (assassinados em janeiro), Renaud, Luz, Bernard Maris (o oncle Bernard, tambm morto em janeiro). O redator chefe (depois diretor) ser Philippe Val.

6 No Brasil - o que foi mais raro na Europa, por parte da esquerda - fizeram-se, entre outras, crticas puramente polticas a Charlie, crticas derivadas de contrassensos ou de m inteno. A insinuao falsa, mesmo se ela contm um gro de verdade. De fato, a atitude do antigo redator chefe e depois diretor (1992-2009) de Charlie - o jornalista e compositor Philippe Val - em relao ao problema palestino, era pelo menos discutvel (no que o Hamas seja inocente, mas Val estabelecia uma espcie de simetria entre a causa palestina e a israelense). Mas, embora diretor, Philipe Val era apenas um dos membros da redao. Alm do que ele deixou Charlie em 2009. Quem assumiu a direo foi Charb, um dos mortos de janeiro. Ora, a posio de Charb em relao questo palestina no deixa dvida. De parte dele ou de Charlie, no h trao de m vontade ou incompreenso em relao aos palestinos. A tese de um Charlie, revista inimiga dos palestinos ou, pior ainda, publicao reacionria, evidentemente um mito.

7 “Le Pape, sa mre et les caricatures“, Henri Pea-Ruiz, Libration, 28 de janeiro de 2015.

8 O critrio seguro. Mas, a propsito da sua aplicao, dever-se-ia dizer o seguinte. Salvo casos muito especiais, “a liberdade de blasfemar“ no oferece maior dificuldade de aplicao; mesmo se preciso insistir em que se trata de um direito a intervenes simblicas (simblico , aqui, o que de ordem estritamente representativa; por exemplo, se algum for manifestar contra Maom na porta de uma mesquita, j est em outro registro). Quanto ao direito de praticar uma religio, pode sim haver casos em que essas prticas se chocam com os valores fundamentais da Repblica, incluindo instncias limtrofes, em que no simples decidir se h ou no incompatibilidade. Uma lei francesa, a meu ver justificadamente, proibiu o uso pblico da burca (vestimenta que cobre inteiramente a mulher, inclusive os olhos). Por outro lado, a legislao francesa proibiu o uso do vu nas escolas primrias e secundrias pblicas, o que me parece, pelo menos, discutvel (a comisso, nomeada pelo governo, que propusera a medida, sugerira tambm, como que temperando a recomendao, o reconhecimento oficial dos feriados de duas religies no crists, o que no foi acolhido pela lei). J a proposta de introduzir uma nova legislao, proibindo o vu tambm nas universidades, onde o pblico adulto, proposta lanada por um ex-presidente, por razes puramente demaggicas, certamente inadmissvel. Para o princpio de liberdade de culto, preciso, portanto, delimitar com finura a fronteira entre o direito de culto e os princpios de autonomia e igualdade, em que se funda a Repblica. Se essa delimitao no sempre fcil, as eventuais dificuldades de aplicao no pem em cheque o princpio. E elas nada tm a ver com o direito blasfmia.

9 Aqui surgem algumas dificuldades terminolgicas e conceituais. H muita ambiguidade entre os prprios especialistas, na utilizao das noes de “Oriente Mdio” e “Oriente Prximo”. S usarei da primeira. Viso com ela, aproximadamente, os pases, em grande maioria, muulmanos, que se situam entre o Egito e o Ir (os dois, inclusive) no eixo oeste-leste; e da Turquia (inclusive) at os limites da frica Negra, na linha norte-sul, (a deveriam entrar tambm o Sudo e a Somlia). Para designar os pases a oeste do Egito-Lbia, Tunsia, Arglia, Marrocos (a deveria figurar tambm a Mauritnia), pode-se utilizar a expresso, imperfeita, mas corrente, at no uso oficial, de “pases do norte de frica“ (abreviada aqui por “norte da frica” ou equivalente). Mas h ainda o Afeganisto (haveria tambm o Paquisto) de ampla maioria muulmana e que interessa ao nosso tema. A expresso “pases muulmanos” designar, no texto, os pases muulmanos que correspondem a esses trs casos, excluindo portanto, vrios outros territrios nacionais (por exemplo, a Indonsia, onde entretanto reside a maior populao muulmana do mundo, o Bangladesh, a ndia, que tem grande populao muulmana, minoritria embora, as ex-repblicas soviticas de maioria islmica, outros pases da frica, etc etc). Para uma discusso erudita dessas questes, ver George Corm, Le Proche-Orient clat 1956-2012, (2 vls), Paris, Gallimard [folio-histoire], stima edio, atualizada e aumentada, 2012, principalmente a introduo primeira parte e o captulo 1: vol. I, p. 65 a 111. E, tambm, no livro do mesmo autor, Histoire du Moyen-Orient, de l‘antiquit nos jours, Paris, La Dcouverte, 2007, cap. 1. Pode-se consultar ainda Le Bilan du Monde, gopolitique, environnement, conomie, edio de 2015 (Le Monde e France Info), p. 172 a 180 (Atlas, Moyen Orient).

10 Ver a esse respeito, entre outras obras, o livro do historiador italiano Franco Cardini Europa e Islam, storia de um malinteso (utilizei a traduo francesa, Europe et Islam, histoire d‘un malentenu, traduzido do italiano por Jean-Pierre Bardos, Paris, Seuil. 2002 (2000)). Sobre a histria poltica recente do mundo muulmano, ver o livro do eminente socilogo e orientalista Gilles Kepel, Fitna, Paris, Gallimard, [folio actuel], 2004. Antoine Sfeir, L“Islam contre l‘Islam, l‘interminable guerre des sunnites et des chiites, Paris, Grasset [le livre de poche, biblio essais], 2012 trata especificamente do combate entre xiitas e sunitas. Um grande livro que cobre a histria moderna dos rabes The Arabs, a history, de Eugene Rogan, (utilizei a traduo francesa: Histoire des Arabes, de 1500 nos jours, traduo francesa de Michel Bessires, Paris, Perrin, 2009).

11 Ver sobre Atartk, e particularmente sobre o seu lado negativo, nacionalista intolerante, ditador responsvel por muitas violncias (embora ele no tenha responsabilidade pelo genocdio armnio), Hamit Bozarslan, Histoire de la Turquie contemporaine, Pais, La Dcouverte, 2007 (2004). Para uma apreciao favorvel, ver Bernard Lewis (que consultei em traduo francesa Islam et Laicit, la naissance de la Turquie moderne, trad. Philippe Delamare, Paris, Fayard, 1988).

12 A propsito de “laico”, seria preciso fazer duas observaes. A primeira a de que os governantes “laicos”, em princpio, no so ateus, mas sim muulmanos, os quais, entretanto, defendem uma poltica de separao, maior ou menor, do Estado, em relao religio. A segunda observao a de que nem todos os laicos so nacionalistas. No texto, refiro-me principalmente aos laicos nacionalistas. Mas h um laicismo pr-ocidental e no “anti-imperialista”, como o do ltimo X, laicismo que no se confunde, evidentemente, com o dos Atatrk, Nasser ou Bourguiba.

13 Ver, a propsito, o livro importante de Timothy Snyder, Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, Basic Books (Perseus Books), 2010 (utilizei a traduo francesa de Pierre-Emanuel Dauzat, Terres de Sang, l‘Europe entre Hitler et Staline, Paris, Gallimard, 2012.

14 Ver, a respeito Eugene Rogan, Histoire des Arabes, op. cit., p. 345, e em geral todo o captulo 9, “la catastrophe palestinienne et ses consquences”.

15 No captulo das violncias, se lembramos a expulso, direta ou indireta, dos palestinos, dos territrios que couberam a Israel, seria bom no esquecer da expulso dos judeus dos pases rabes, da ordem de 800.000 pessoas.

16 Fique claro que nem estou lamentando o fim da URSS - no creio, como alguns, que isso foi uma “derrota do socialismo”, nem estou idealizando os movimentos laicos do Oriente Mdio e do norte da frica.

17 Sobre o wahhabismo e, em geral, sobre a histria da hegemonia das tendncias fundamentalistas, bem como sobre as mltiplas tradies e manifestaes de um Isl tolerante e antidogmtico, ver os livros indispensveis de Abdelwahab Meddeb (cito apenas dois deles), La Maladie de l‘Islam, Paris, Seuil, 2002, e Sortir de la Maldicion, l‘Islam entre civilisation et barbarie, Paris, Seuil [point essais], 2008. E o livro, muito rico, de Hamadi Radissi, professor da faculdade de direito e de cincias polticas de Tunis, Le Pacte de Nadjd, o comment l‘islam sectaire est devenu l‘islam, Paris, Seuil, 2007. Sobre o fundamentalismo hoje, na linha das contribuies dos “muulmanos das luzes”, ver o panfleto filosfico, de Abdennour Bidar, Lettre Ouverte au Monde Musulman, “Les Liens qui Librent”, (Frana, s/ loc.), 2015. Outras autores do Isl das luzes so Mohamed Talbi e Abdelmajid Charfi.

18 As oposies entre tendncias ou partidos, no interior do mundo muulmano levaram a um conflito armado que provocou algumas centenas de milhares de mortos (seno um milho), o que ops o Ir dos alatois ao Iraque de Saddam Hussein, nos anos 1980. As alianas, de um lado e de outro, foram muito complexas, atravessando a diferena entre laicos e religiosos. A guerra levou a um enfraquecimento do regime de Saddam, mas tambm a um esgotamento, relativo, do Ir.

19 Sobre as revolues rabes do incio da segunda dcada, ver - na stima edio, atualizada e aumentada - o captulo 28 e a concluso do segundo volume de Georges Corm, Le Proche-Orient clat, 1956-2012, op. cit. esse autor que prefere definir os objetivos delas em termos de “dignidade”. J Eugene Rogan, em seu importante post-scriptum - acrescentado, aparentemente, no incio de 2012 - sua Histria dos rabes, no hesita em sublinhar o carter democrtico, ou pr-democrtico, que tiveram esses movimentos em sua origem, e ele os descreve com admirao, embora j insistindo sobre o seu destino incerto, nos cinco casos principais que ele considera: Tunsia, Egito, Lbia, Barhein, e Yemen (ver Eugene Rogan, Histoire des Arabes, de 1500 nos jours, op. cit. para o post-scriptum, p. 675 e s.).

20 Aristteles, Retrica, II, 12, 1 388 b e s., Pleiade, I, 794.

21 Les Franais jihadistes, de David Thomson, Paris, ditions des Arnnes, 2014, p. 16, citado pelo psicanalista Fethi Benslama, em “Au del du terrorisme, le ‘Daechisme’”, L‘Obs, n 2625, 22/1/15).

22 Les Franais jihadistes, op. cit., p. 128.

23 Ver a respeito da “desmotivao” em relao ao trabalho, Sthphane Beaud, Joseph Confavreux e Jade Lindgaard (dirs), La France Invisible, Paris, La Dcouverte, 2008, p. 51 e ss.

24 As pessoas empenhadas em dissuadir os candidatos ao jihadismo nos falam tambm da frequncia, entre os candidatos, de traumatismos familiares com razes na infncia. Ver a respeito desse ponto, e do conjunto do problema, Dounia Bouzar, Comment sortir de l‘emprise “djihadiste”?, Paris, Ed. de l‘Atelier, 2015, livro muito importante pelos depoimentos que contm.

25 Para a histria das insurgncias, e das intervenes governamentais, no perodo 1970-1995, ver Christian Bachmann e Nicole Guennec, Violences Urbaines, Paris, Hachette, nova edio, 2002 (1996), com um posfcio da coautora.

26 Sobre a insurgncia de 2005, ver Grard Mauger, L’meute de Novembre 2005, une rvolte protopolitique, Paris, ditions du Croquant, 2006; Laurent Mucchielli, com a participao de D‘Abderrahim Att-Omar, “Les meutes de novembre 2005, les raisons de la colre” in Laurent Mucchielli e Vronique Le Goaziou (dir), Quand les Banlieues brlent, retour sur les meutes de novembre 2005, Paris, La Dcouverte, edio revista e aumentada, 2007 (2006), p. 11 e ss.; e Gilles Kepel, Banlieue de la Rpublique, socit, politique et rligion Clichy-sous-Bois e Montfermeil, Paris, Gallimard, 2011, assim como, do mesmo autor, Quatre-vingt-treize, Paris, Gallimard (folio actuel), 2012.

27 Para a coincidncia de todos esses elementos, ver Stphane Beaud e Michel Pialoux, Violences Urbaines, violence Sociale, genre des nouvelles classes dangereuses, Paris, Fayard, 2003, p. 16.

28 Sobre o carter desastroso do procedimento de Sarkozy, ento ministro do Interior, ver Nasser Demiati, “Nicolas Sarkozy, ministre de l‘intrieur et pompier-pyromane” in Laurent Mucchielli e Vronique Le Goaziou (dir), Quand les Banlieues brlent, retour sur les meutes de novembre 2005, op. cit., p. 58 e s. Quando a insurgncia j amainava, o governo no teve outra ideia melhor do que decretar o estado de urgncia, o que no se fazia desde a guerra da Arglia...

29 Sobre o carter das intervenes policiais, ver Laurent Mucchieli “La police dans les ‘quartiers sensibles‘, un profond malaise”, in Laurent Mucchielli e Vronique Le Goaziou (dir) Quand les Banlieues brlent, retour sur les meutes de novembre 2005, op. cit., p. 104 e s.

30 Enveredo, na continuao do texto, por uma anlise, que estando centrada nos jovens de origem extra-europeia, explora em alguma medida a experincia vivida desses jovens, mas, sem dvida, no o suficiente, faltando, em particular, a experincia vivida nas “insurgncias”. As pesquisas revelam: 1) o enorme mal-estar e o sofrimento dos jovens de origem extra-europeia, sem trabalho, sem dinheiro, sem interesses, sem perspectivas, e sofrendo ainda o peso dos preconceitos (ver a respeito, por exemplo, em, Stphane Beaud, Joseph Confavreux e Jade Lindgaard, La France Invisible. op. cit., p. 33, o depoimento impressionante da experincia de vida de um jovem banlieusard da imigrao); 2) no que se refere experincia das lutas e a sua motivao, as pesquisas mostram a presena de dois motivos: por um lado, os jovens protestam contra a situao econmico-social em que se encontram, mas, por outro, o que no menos importante, eles exigem reconhecimento. Isto , eles no protestam apenas contra precariedade da sua situao material, mas tambm, e tanto quanto, contra as humilhaes que sofrem diariamente (as interpelaes contnuas da polcia, que os despreza e destrata, mais a atitude do governo, e de Sarkozy, em particular, que, reagindo de maneira brutal, e no fazendo o menor gesto de autocrtica, mesmo no momento da “gazagem” da sala de oraes, no fez mais do que engrossar o ressentimento). Ver a respeito disso tudo, Stphane Beaud e Michel Pialoux, Violences Urbaines, violence Sociale, gense des nouvelles classes dangereuses, op. cit., p. 406, 407, Grard Mauger, L‘meute de novembre 2005..., op. cit., p. 27, assim como os depoimentos impressionantes de jovens “insurretos” (observar sobretudo a profundidade do ressentimento, e a exigncia recorrente de reconhecimento) em Laurent Mucchielli, com a participao de D‘Abderrahim Att-Omar, “Les meutes de novembre 2005, les raisons de la colre” in Laurent Mucchielli e Vronique Le Goaziou (dir), Quand les Banlieues brlent, retour sur les meutes de novembre 2005, op. cit., p. 24 a 29, e ainda, no mesmo volume, o texto final, de autoria dos dois organizadores": Laurent Mucchielli e Veronica Le Goaziou, “Conclusion: Les meutes, forme lmentaire de la contestation politique”, p. 163.

31 Sobre a primeira gerao, conviria no perder de vista a situao econmica. J que falei do welfare state, diria que a primeira emigrao filha “dos trinta anos gloriosos”. Os “trabalhadores hspedes”, como dizem sem rir os alemes, vinham constituir um proletariado sem histrias e que custava pouco, assumindo os trabalhos pesados, perigosos, repugnantes, ou simplesmente mal pagos, que os trabalhadores autctones se recusavam a fazer.

32 Poder-se-ia pensar que uma queda da empatia e do respeito para com o pais de origem, facilitaria uma integrao na ptria nova. Na realidade, no assim. Pelo menos na opinio de um especialista (Kepel), um fator explicativo de que haja mais terroristas de origem argelina do que de origem turca, seria o fato de que a Turquia seria hoje uma nao muito mais forte e integrada do que a Arglia. Desse modo, uma relao forte com o pais de origem (a menos que esse paeis condene expressamente a integrao ou as naturalizaes) no dificultaria, mas facilitaria a integrao. Um pouco, talvez, como uma boa relao com a me no dificulta, mas torna mais fcil a relao com a parceira adulta...

33 Ver os dados publicados por Libration, 10 de maro de 2015. H uma ligeira melhora a partir de 2013.

34 Gilles Kepel se debruou sobre o fenmeno, entrevistando os candidatos “da imigrao” em Marselha, e em Roubaix, no norte da Frana. Houve, nacionalmente, perto de quatrocentos candidatos de origem extraeuropeia s eleies legislativas de junho de 2012. No mais do que uma meia dzia ficou entre os 367 eleitos. Ver Gilles Kepel, Passion Franaise, les voix des cits, op. cit. O contedo das entrevistas, muito diversificado, de grande interesse.

35 Supe-se que entre 800 e 1000 jovens, mais ou menos, partiram, da Frana, para o “front” islamista, entre os que aderiram aos aliados de Al Qaida e os que se juntaram ao Daech. Para uma populao muulmana avaliada (h alguns anos) em 5 milhes, isso poderia parecer pouca coisa. Mas so perto de mil jovens que se candidatam a “mrtires”.

36 Impacto que, nosso exemplo, ganha um mximo de expressividade no fato de que os dois assaltantes do Charlie receberam instruo militar no Yemen.

37 Retomando suas pesquisas sobre as populaes de origem muulmana, em cidades francesas que ele visitara h 25 anos atrs, o mesmo Gilles Kepel se diz muito impressionado com o crescimento do trfico de drogas com o seu cortejo de violncias e horrores. Ver Gilles Kepel, Passion Franaise, les voix des cits, op. cit., p. 19. Um dos subttulos da introduo desse livro, “le cad [o chefe de gang] et le salafiste”.

38 Ver, acima, a nota 9. Sobre o que se pressupe ao caracterizar certos pases e territrios a partir de uma religio, e sobre os dificuldades desse procedimento, ver as consideraes de George Corm, in Le Proche-Orient clat, op. cit., principalmente vol I, p. 89 e s.

39 Ver, a respeito do PIB (e do PIB, por habitante), desses pases Le Bilan du Monde, gepolitique, environnement, conomie, op. cit.. 173.

40 Como insiste George Cram, fazendo valer o que aconteceu durante a “primavera rabe” (ver Geoges Cram, Le Proche-Orient clat, 1956-2012, op. cit., vol. II, cap. 28, particularmente, p. 1125).

41 Seria evidentemente insustentvel afirmar que os pases produtores de petrleo no tm nenhum poder sobre o mundo... Haja visto, por exemplo, o que aconteceu por ocasio da chamada “guerra do Kipur” entre os rabes e Israel (1973) (sobre as circunstncias do embargo petrolfero, e suas consequncias, ver Eugene Rogan, Histoire des Arabes, op. cit., cap. 13, “L‘re du ptrole”, p. 480 e s). Mas, a despeito disso, e de um outro elemento, que introduzirei mais adiante, evidente que, em mais de um sentido, as naes muulmanas no do as cartas no planeta. Sobre esse aspecto, ver o prprio Rogan, idem, p. 481, e tambm um dos livros, citados, de Abelwahab Meddeb.Tentando entender o ressentimento que ele v na base do comportamento de Bin Laden, Meddeb faz algumas reflexes sobre a impotncia relativa no s do personagem, mas do “sujeito islmico”, em geral, que “apesar da riqueza (...) fica fora das decises capazes de dar uma perspectiva para o mundo“ (ver Abelwahab Meddeb, La Maladie de L‘Islam, op. cit., p. 161, 162).

42 Sobre a crise dos movimentos laicos e a emergncia da hegemonia islamista, ver Eugene Rogan, Histoire des arabes..., op. cit., principalmente, os captulo 11, “le dclin du nacionalisme rabe” e 13, “le pouvoir de l‘Islam”. Tanto no plano poltico mais geral, como no da “politica de costumes”, assiste-se hoje a uma verdadeira contra-reforma (no sentido geral, no histrico, do termo), j que, no sculo XX no faltaram as tentativas de governana laica e de reforma de costumes. Sobre esta ltima, seria preciso registrar o fato de que algumas delas se apresentaram em forma muito autoritria e, por isso, foram mal recebidas. O exemplo mais impressionante foi a proibio do vu, nos anos 1930, por um X da Prsia (Reza Sh), proibio que, como se poderia esperar, encontrou resistncia (ver Mohamed-Reza Djalili e Thierry Kellner, Histoire de l‘Iran Contemporain, op. cit., p. 51). Compare-se essa proibio com a interdio, tambm autoritria, do fez - barrete masculino tradicional - por Atatrk. J o “desvelamento” das mulheres que praticou Burguiba era facultativo, salvo na administrao pblica (com o que, a lei tunisina se aproximava, mutatis mutandis, da atual legislao francesa). Quanto a Nasser, ver na internet (“Nasser et le voile islamique”) um famoso e divertido vdeo, em que ele “goza“ os Irmos Muulmanos, por causa da exigncia do vu. Alguns desses exemplos mostram, como, para certos problemas, a vertente laica, apesar dos seus defeitos, era melhor do que a religiosa. Outros exemplos confirmam, no plano da poltica de sociedade, o que evidente no nvel poltico mais geral, principalmente quando se trata das formas autoritrias mais violentas: as tendncias fundamentalistas e as laico-autoritrias constituem, essencialmente, uma falsa alternativa Ver, a respeito dela, o livro do egpcio Alaa El Aswany, Extrmisme religieux et Dictature, les deux faces d‘un malheur historique, traduo do rabe por Gilles Gauthier, Paris, Actes Sud, 2011.

43 Para evitar confuses: “fundamentalismo islmico” = islamismo. Isto , conota a vertente, ou as vertentes fundamentalistas do Isl. O que supe, como j foi dito, que “islmico“ ?“islamista“. Evito dizer “fundamentalismo islamista“, porque me parece redundante.

44 Aqui de se perguntar: limitando-nos s duas outras “religies do Livro“ - mas a pergunta poderia ser feita tambm, para alm delas - h fundamentalismos cristos e fundamentalismos judeus? Claro que h. S que o fundamentalismo cristo tem outro peso e funciona diferentemente, apesar de tudo. Isto, devido precisamente ao destino das naes “crists”. Como j se indicou, nelas se operou, com limites embora, a separao entre o poltico (e social-civil) e o religioso. Quanto ao fundamentalismo judeu, ele tem tambm caractersticas especiais, por causa da histria, muito original, da constituio do Estado de Israel, no sculo XX. Digamos que tambm l, e apesar das aparncias, houve certo tipo de separao, sui generis, que no ocorreu no mundo muulmano; embora tenha estado presente, e esteja at hoje, algo como uma “pulso messinica” (ver, a respeito, o vol II, captulo 22, “Le renouveau du judaisme” do livro de Georges Corm, Le Proche-Orient clat..., op. cit., particularmente, a p. 917. A expresso, informa o autor, de Alain Diekhoff). Mas Israel , no contexto, um problema importante demais, eu voltarei a ele logo mais adiante. Israel que eu visava quando me referia, no incio do pargrafo, a outras possibilidades de comparao.

45 Entretanto, os xiitas e gente do entorno dos Irmos Muulmanos tentam, ao contrrio dos sunitas, recuperar a noo de “democracia“. Ver, a respeito Gilles Kepel, Terreur et Martyre, relever le dfi de civilisation, Paris, Flammarion, 2008, p. 175. Esse livro indispensvel pelos materiais originais da ideologia jihadista que ele oferece.

46 “Eis o que ele mesmo nos prometeu: a vida sem fim“ (Joo 2, 25, La Bible, Montreal, Mayard, 2005 [2001], p. 2381). No chamado “Velho Testamento“, frequente o tema do prolongamento da vida humana terrestre, como ddiva divina (p.e. o final do livro de Job, idem, p. 1359).

47 Cf., no judaismo, certos tabus alimentares (camaro, porque armazena as prprias dejeces) ou certas prticas pr-funerrias (lavagem do corpo, com retirada das matrias fecais). Ou, ainda, a proibio de comer o nervo scitico, qual se refere Weber, em O Judaismo Antigo (ver Max Weber, Gesammelte Austze zur Religionssoziologie, III. Das Antike Judentum, Tbingen, Mohr, 1983 (1920), p. 367, Le Judaisme Antique, trad. francesa de Freddy Raphael, Paris, Plon, 1998 (1970). No Coro alm da proibio das “carnes mortas“, da carne do “animal asfixiado“ etc (ver V, 3 Le Coran, op. cit., p. 121), que tambm se encontra no judaismo (cf. Weber, op. cit. p. 368, trad. francesa, op. cit., p. 440: “(...) todo animal no corretamente abatido considerado como carnia“), pode-se ler o seguinte: “(...) se voc se puser no dever de rezar, ento lave o rosto, e as mos, at o pescoo, passe a mo na cabea e nos ps, at o tornozelo. Se voc estiver em estado de impureza, ento purifique-se. Se voc estiver doente, ou em viagem, ou estiver saindo da defecao, ou tiver tocado em mulher, e no encontrar gua, utilize como substituto passe [um pouco de] terra s sobre o seu rosto e as suas mos“ (Coro, V, 6, 122, Le Coran, essai de traduction por Jacques Berque, Paris, Albin Michel (ed. revista e corrigida, Poche), 2002 (1990), p. 122, grifos de RF, Cf. para um texto anlogo: Coro, IV, 43, Le Coran, op. cit. p. 102). Aparentemente, o cristianismo sublima essa oposio: “Ento os “separados“ [os fariseus] vieram, um dia, de Jerusalm, e perguntaram a Jesus: ‘Por que motivo os teus discpulos se permitem no respeitar a tradio dos antigos? Veja: eles levam o po sua boca, sem ter lavado as mos. Jesus lhes respondeu: (...) O ser humano no se suja atravs daquilo que entra na sua boca, mas atravs do que sai“ (Mateus, 15, 1-11, La Bible, op. cit., p. 2004) (uma passagem do livro de Weber, ver op cit., 42,, trad. francesa, op. cit., p. 508, confirma essa leitura).

 

48 Tema arquiexplorado (talvez sem grandes resultados) dizem os antroplogos. Sobre a impureza da mulher menstruada, ver o Coro, XI 222, Le Coran, op. cit., p. 56 e 57. A passagem termina pela frase: “[Deus] ama os que tm escrpulos de pureza”. Sobre o tema da impureza da mulher menstruada, na Bblia, ver Levtico, 15, 19 e s. (La Bible, op. cit., p.218; La Bible, traduction oecumnique, Paris, LGF, 2011 [1979], I, p. 173). Interessante que, no Levtico, a passagem sobre a impureza das mulheres menstruadas vem precedida de uma outra, que trata da impureza dos homens que tiveram uma “poluio” (ver Levitico, 15, 1) - a expresso, por si s interessante -, mas se trata, segundo uma nota dos editores, s da poluio de homens com infeces. Se assim, uma situao patolgica no homem posta no mesmo nvel de uma ocorrncia normal na mulher.

49 Sobre a impureza da mulher depois do parto, que posto em paralelo com a menstruao, ver Levtico, 12, 1 e s. (ed. Mayard, p. 207. ed. Ecumnica, I, 166).

50 “Sejam satisfeitos (sont combls) os crentes (...) que contm a sua sexualidade“.(Coro, XXIII, 1-5, Le Coran, op. cit., p. 361).

51 Uma outra possibilidade seria a de que a distino geral ( suprafsica, mediata) entre o puro e o impuro constituiria um ponto de partida organizando o universo global das significaes religiosas, ponto de partida sob o qual tudo mais (impureza fsica, sexualidade, ou morte) seria subsumido. Mas essa hiptese no necessariamente incompatvel com o esquema dos trs vetores. Tudo se passa como se tivssemos, por um lado, a partir “de baixo”, digamos, um certo nmero de proibies e exigncias “arcaicas”, que incidem sobre determinaes fsicas, em primeiro lugar as relativas pureza e impureza imediatas. Por outro lado, h imposies que, de uma forma ou de outra, devem remeter, em alguma medida pelo menos, a alguma coisa da ordem de um “poder“. Eu diria que o que caracteriza o status arcaico que o poder como que... contaminado, por determinaes fsico-sociais, do tipo das do puro e do impuro imediatos. Ele como que banha nessas determinaes. As luzes viro por um fim, pelo menos relativo, nessa contaminao. Para a presena desse banho arcaico no jihadismo contemporneo, valeria lembrar uma observao de Abdelwahab Meddeb a propsito da congruncia provvel entre a morte - sangrenta, se operada segundo as regras rituais - do animal cuja carne ser ingerida, e a degola, tambm sangrenta, dos prisioneiros, sob o Daech ou na Arbia Saudita (ver Abdelwahab Meddeb, La Maladie de L‘Islam, op. cit., p. 184). Em contraposio a essa ltima prtica, na modernidade contempornea ocidental, o condenado morte tem, pelo contrrio, o direito execuo racional - herdeira da guilhotina - por injeo ou peloto de fuzilamento. Enquanto esperamos a abolio final da pena de morte, diga-se de passagem, h que reconhecer nessa mudana um provvel, ainda que ambguo, progresso.

52 Sobre a obsesso da morte, ver, acima, 5, II.

53 Antes do atentado de 11 de setembro, os terroristas efetuaram um “trabalho do corpo”, com depilao radical e outros procedimentos. A indignao de Bin Laden, j mencionada, diante das mulheres soldados norte-americanas que pisavam o solo sagrada da Pennsula Arbica, rene os temas da pureza e o da mulher.

54 Para mostrar a coexistncia contraditria das duas vertentes, proponho comparar Mateus, 12, 30 ou Lucas, 11, 23, onde se l: “Quem no est comigo, est contra mim. Quem no acumula [ou rene] comigo, dilapida“, La Bible, Montreal, ed. Mayard, op. cit., p.1998 e 2088), com Marcos 9, 40, onde se encontra o seguinte: “Quem no est contra ns, est conosco (id, p. 2048). A primeira afirmao que estabelece o princpio de uma adeso mxima remete a uma atitude de intransigncia fantica. O segundo fixa o princpio de uma adeso mnima; e, com isso, denota uma atitude de tolerncia e de convivialidade. As duas passagens se contradizem. Aquele que “no est contra ns“ (em Marcos 9, 40), na realidade, faz parte dos grupo (referido em Mateus 12,30 e Lucas 11,23) “que no est comigo”. Porque se estivesse, Marcos no diria apenas que ele “no est contra ns”. Ora, deste sujeito, Marcos diz, na continuao que “ele est conosco [ou comigo]”, enquanto, para Mateus e Lucas, “ele est contra mim”.

55 “ (...)[Subttulo] A contradio entre a f e o amor. (...) Os sacramentos no so nada sem a f e o amor. A contradio nos sacramentos nos remete, pois, contradio entre a f e o amor (...) o amor o que manifesta a essncia oculta da religio, a f constitui a sua forma consciente. O amor identifica o homem com Deus, Deus com o homem, portanto o homem com o homem; a f separa o homem de Deus, portanto o homem do homem (...)” (Ludwig Feuerbach, Das Wesen des Christentums, Stuttgart, Reclam, 1974 (1969), p. 369, L‘Essence du Christianisme, trad. francesa de Jean-Pierre Osier, com a colaborao de Jean-Pierre Grossein, Paris, Maspero, 1968, p. 401, grifos de Feuerbach). H, nos Estudos sobre a Sociologia da Religio, de Weber, (p.e., op. cit., p. 102, trad. francesa, op. cit., p. 127; e op. cit., p. 60-61, trad. francesa, op. cit., p. 78-79)) uma oposio recorrente entre um lado pacfico e um lado violento, no judasmo, sem que, entretanto, o grande socilogo alemo suponha que eles sejam contraditrios.

56 “Nada de coero (point de contrainte) em matria de religio: a retido agora bem distinta da insanidade“ (Coro, 2, 256, Le Coran, op.cit. p. 63). Entretando, o valor desse versculo objeto de controvrsia. Esta aflorou por ocasio da querela, desencadeada em 2006, por uma interveno do Papa Bento XVI (Ratzinger) a propsito das virtudes respectivas do Isl e do cristianismo. Os jihadistas, mas parece que tambm o “centro”, consideram o versculo como um texto de juventude, que superado por versculos posteriores, pregando a guerra contra os infiis. No sei se essa posio extrema se fez presente no curso da controvrsia de 2006, provavelmente no, por razes bvias (alguma coisa dessa opinio foi imputada ao Papa). Porm uma tendncia oposta, que transparece numa resposta ao Papa assinada por 38 telogos muulmanos moderados, difundida no dia 15 de outubro de 2006, contesta essa interpretao e aduz outros textos que confirmariam o versculo da tolerncia. Os 38 telogos observam, ao mesmo tempo, que tambm nos Evangelhos h passagens que induzem violncia, como Mateus, 19, 34 (“No pensem que vim introduzir a paz na terra, no vim introduzir a paz, mas a espada”), e no plano prtico, lembram as cruzadas e a colonizao. Ver a respeito dessa interessante discusso, Gilles Kepel, Terreur et Martyre..., op. cit., p. 260 e s.

57 Para que se tenha ideia do que isso significa, eis aqui alguns dados sobre a participao do Qatar no capital de grandes firmas da Frana: 12,8 % de Lagardre, 5,3 de Vinci, 8% de Airbus Group, 5% de Veolia, 5% de Total, 1% de LVMH, 100% de Bein Sport e 100 % do clube Paris-Saint Germain (Dados de Libration, 4 de junho de 2015).

58 Em conversa com o autor.

59 A obra que mais desenvolve o tema (comeando por observar o quanto ele foi ocultado) o livro de Richard Pipes, Russia under the bolshevik Regime, 1919-1924, Londres, The Harvill Press, 1997 (1994), principalmente o captulo 7, “The assault on religion”, p. 337 e s. (o livro o terceiro volume de uma trilogia, cujos dois primeiros so Russia under the old Regime e The Russian Revolution). Quem objetar, fazendo valer o fato de que as posies polticas de Pipes so de direita (o que verdade, mas o historiador no mente), pode confrontar o que ele diz com o que escreve Orlando Figes, historiador de esquerda, crtico, no seu A People‘s Tragedy, the russian revolution 1891-1924. Londres, Pimlico, 1996, p. 745 a 751. (h traduo em portugus, A Tragdia de um Povo, a revoluo russa, 1891-1924, trad. de Valria Rodrigues, So Paulo e Rio, Record, 1999, ver as pginas 915 a 922). No resisto tentao de citar um texto de Lnin que Figes reproduz pag. 749 (eu retraduzo, porque a verso brasileira dessa passagem, na edio Record [p. 920], imperfeita, os grifos so meus): “Cheguei concluso inequvoca de que devemos travar a mais decisiva e impiedosa guerra contra o clero arqui-reacionrio*, acabando com toda a resistncia e usando de toda crueldade, de forma que eles no esqueam desta por dcadas. E quanto mais membros da burguesia reacionria e do clero arqui-reacionrio* conseguirmos fuzilar, melhor ser (the more.....the better)”. [*“the Black Hundred clergy“, literalmente, “o clero pr ‘Cem Negros’”. “Cem negros”, ou “Centrias Negras” era um movimento de extrema-direita, mas a expresso, em Lnin, tem, normalmente, uma significao mais geral].

60 MEW (Marx-Engels Werke, ed. Dietz, Berlin), v. 22, Engels, “Zur Kritik des sozialdemokratischen Programmentwurfs 1891“, p. 257, grifado por Engels.

61 Ver, na internet, “11 janvier 2015, un jour qui fait la France“.

62 No se trata aqui de idealizar a esquerda. Nas provncias, e particularmente, em regies de grande populao de origem extraeuropeia, a esquerda do tipo PS , frequentemente, corrupta, e comprometida com a pior politica clientelista. Destaco, como perigo, uma direita agressiva, que explora, sem vergonha, uma suposta identidade de interesses com o mundo imigrante.

63 O salafismo est em ofensiva, nos meios da imigrao, e vai tomando as posies ocupadas anteriormente por ativistas prximos dos Irmos Muulmanos, como o famoso predicador Tariq Ramadan.

64 Ver Gilles Kepel, Passion Franaise, les voix des cits, Paris, Gallimard, 2014, principalmente p. 81 e s.

65 Gilles Kepel faz f numa substituio do petrleo pela energia atmica, o que me parece insustentvel. verdade que o grande orientalista escrevia antes de Fukushima. (Ver Gilles Kepel, Terreur et martyre..., op. cit., p. 300-302).

66 Sobre a situao mais recente, e o papel do exemplo tunisino, pode-se ler ainda um texto de Gilles Kepel, sua entrevista (cujo contedo vai alm do que sugere o ttulo), “L’Iran pourrait redevenir le gendarme du Moyen-Orient”, publicado por Le Monde, nmero de 2 de setembro de 2014, e reproduzido em Bilan du Monde, gopolitique, environnement, conomie, dition de 2015, op. cit., p. 204 e s.

67 Trata-se do nmero 712, hors srie, de 8 de fevereiro de 2006, Mahomet dbord par les intgristes, como indica a nota de rodap.

68 Espao fechado e curvilneo, onde se pem as falas, nas histrias em quadrinhos.

69 Provvel referncia a algumas das caricaturas dinamarquesas, que o autor, como desenhista que tambm , aprecia pouco, do ponto de vista artstico.

70 Abdelwahab Meddeb, Sortir de la maldicion, l’islam entre civilisation et barbarie, Paris, Seuil, 2008, p. 137, grifo meu.