revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037



 

 

Apresentação

 


Na temporalidade arredia de um projeto que, para o bem e para o mal, passa ao largo de todo e qualquer apoio institucional, contando apenas com a generosidade dos seus colaboradores, chega aos leitores a oitava edição da Revista Fevereiro. Contrariando a expectativa talvez gerada por essa intermitência temporal, segue praticamente intacta a linha editorial que orienta a Revista desde a sua fundação há aproximadamente meia década: a tentativa de construir um caminho entre a rigidez do texto acadêmico e a superficialidade do jornalismo hegemônico para analisar, criticamente, o tempo presente. Assim como a proposta editorial, segue inalterado o nosso projeto intelectual mais amplo, de pensar a política, a teoria e a cultura de uma perspectiva teórica e normativa que, na linha da melhor tradição crítica de esquerda, desconstrua falsas dicotomias como as que opõem, por exemplo, liberdade e igualdade, indivíduo e sociedade, ação e estrutura, escolha e determinação, respeito e laicidade, desenvolvimento e sustentabilidade.
Se esse esforço por superar visões dicotômicas e reducionistas perpassa, de um modo ou de outro, todos os textos desta edição, é no conjunto de intervenções sobre temas e eventos polêmicos - que, por isso mesmo, parecem exigir posicionamentos estanques - que ele se torna ainda mais desafiador.
É o caso marcante dos textos que compõem o Dossiê Charlie Hebdo que abre esta oitava edição da Fevereiro. Buscando analisar criticamente o ataque à publicação satírica francesa de janeiro deste ano, os quatro textos que formam o dossiê vão, cada um a seu modo, construir mediações críticas para superar as falsas dicotomias que circunscreveram, em limites demasiado estreitos, o debate sobre o Chalie.
Nesse sentido, em “Je Suis Charlie: balanço e reflexões”, Ruy Fausto esquadrinha o conjunto complexo de circunstâncias que possibilitaram os ataques terroristas de janeiro de 2015 sem, com isso, incorrer em qualquer tipo de determinismo ou causalidade reducionista que esvaziasse o significado da ação individual dos três jovens que operaram os ataques. Analisar as condições de possibilidade para a ação sem abrir mão da ideia de responsabilidade individual é, portanto, um dos desafios centrais do autor que, em uma análise de profundidade incomum - considerando-se o caráter recente dos acontecimentos - procura reconstruir, em toda a sua complexidade, “os caldos de cultura” que possibilitaram a eclosão de uma mentalidade terrorista na França. Da trajetória moderna do islã aos seus fundamentalismos específicos, passando pela situação dos imigrantes nos banlieus franceses, pela atuação recente das grandes potências no Oriente Médio e pela incapacidade da esquerda de pensar de forma complexa a questão religiosa, Fausto oferece um quadro complexo e amplo para avaliar o significado do Charlie e o absurdo do seu ataque.
A tentativa de superar falsas oposições para recolocar os termos do debate suscitado pelo ataque orienta, também, o esforço de Henri Pena-Ruiz no texto “O papa, a mãe do papa, e as caricaturas”.Publicado originalmente no jornal Libération e republicado aqui tanto na seção de língua estrangeira quanto no dossiê Charlie emtradução de Roberta Soromenho Nicolete. O texto parte de um comentário crítico à reação do papa ao ataque ao Charlie Hebdo para propor uma distinção fundamental entre insulto pessoal - que ataca a pessoa como tal - e crítica religiosa - que tem na crença e não no crente o seu objeto. Segundo o autor, “a psicologia do fanatismo recusa esta distinção, pois ela rejeita toda a distância entre a pessoa e a sua convicção. Com efeito, ela exige o respeito às crenças e não apenas aos crentes enquanto pessoas (…) disso decorre o delito da blasfêmia que pretende penalizar toda crítica a uma religião entendendo que ela insulta pessoas religiosas como tais”. Assim, reconhecendo que são as pessoas e não as crenças que merecem respeito incondicional, Pena-Ruiz resgata o direito à crítica religiosa - elemento essencial da laicidade moderna - sem que isso implique corroborar qualquer desrespeito aos crentes de toda sorte.
É também a tentativa de superar outra falsa polaridade que estruturou o recente debate sobre o Charlie Hebdo que mobiliza a análise de Charles Kirchbaum em “Liberalismo politico e liberdade de expressão”. Deslocando o foco da discussão do islã para  as religiões em geral, e do caso específico do Chalie Hebdo para a liberdade de expressão de modo mais amplo, o autor consegue colocar o evento em perspectiva histórica, superando, através de um rigoroso trabalho conceitual, a oposição entre liberdade e respeito. O resultado é a possibilidade de recolocar tanto a liberdade de expressão quanto a tolerância - que apareceram do calor da discussão sobre o Chalie como inconciliáveis - como valores públicos essenciais.
Fechando o dossiê Chalie, Cícero Araújo parte de um balanço dos textos anteriores para propor uma análise sobre “O direito ao humor”. Ligado à “capacidade humana de expressar o lado ridículo das coisas, não importa o que seja”, o humor, lembra o autor, está presente “em todas as civilizações, em todas as línguas e em todas as literaturas”. Já a tolerância ao humor não parece ser tão universal, dependendo, ao contrário, da inflexibilidade das crenças sociais fundamentais, sejam elas religiosas ou não. Isto posto, fica claro que o riso - como insistiam os filósofos iluministas - exerce um papel fundamental no combate ao fanatismo, incluindo o fanatismo religioso, mas não só. Isso não impede que, seguindo a Poética de Aristóteles, o autor reconheça a diferença essencial entre o cômico e o simples “vitupério”, este último destituído de ambiguidade e leveza. Assim como não impede que, reconhecendo a charge como obra de arte, reconheça a possibilidade da crítica, mais especificamente a crítica estética, “que evidentemente nunca se reduz apenas a sua forma, mas à particular combinação de forma e conteúdo que a obra logra (ou não) alcançar”. Como nos textos anteriores, toda a polêmica envolvendo o Charlie Hebdo se ilumina quando reconhecemos mediações essenciais, no caso, entre reprovação moral e crítica estética.
Saindo da tensa Paris contemporânea para a “docemente provinciana” São Paulo dos anos 1950, a Fevereiro segue com um texto de Bento Padro Jr. sobre as transformações da vida cultural e inelectual da capital paulista na segunda metade do século XX. Publicado originalmente na Revista da Biblioteca Mário de Andrade em 1992, o texto “A biblioteca e os bares na década de 50” é um esforço de pensar a vertiginosa transformação da cidade de São Paulo que, ao mesmo tempo em que “se desprovincianizava, para o bem da sua vida cultural”, se tornava menos aberta à sociabilidade e, portanto, menos habitável.É impossível ler o texto de Bento Padro Jr. e não pensar na São Paulo de hoje, na sua tentativa quase hercúlea de promover uma outra organização do espaço urbano tendo em vista a construção e a reconstrução de espaços vivos de sociabilidade, capazes de tornar a cidade, de novo, habitável. De certo modo, não deixa de ser essa questão - sobre a possibilidade da vida em São Paulo - o tema da apresentação de Alexandre Carrasco que, vale notar, é, assim como Bento Prado Jr. nos anos 1950, um assíduo frequentador da Biblioteca Mario de Andrade nos anos 2010. Os dois filósofos, cada um no seu tempo histórico, encontram-se na tentativa de refletir sobre a cidade e sua sociabilidade possível. Mas eles se encontram, ainda, em outro lugar, não menos fundamental: a crise da universidade que, por mais estranho que pareça aos que se acostumaram a pensar a USP apartada do destino da cidade de São Paulo, é parte da reflexão de Bento e de Carrasco sobre o ambiente urbano e cultural da nossa maior metrópole
Entrando na seção de artigos, os leitores encontrarão um necessário e inevitável debate sobre a situação atual do país. Em “A representação e sua crise: anotações sobre a experiência brasileira (I parte)”, Alexandre Carrasco dá início a uma reflexão sobre as raízes mais profundas, do ponto de vista institucional, cultural e histórico, da nossa crise política. Tomando como ponto de partida conceitual e empírico do livro de Marcos Nobre, Imobilismo em movimento. Da abertura democrática ao governo Dilma, Carrasco vai propor aprofundar o esforço que, segundo ele, constitui um dos maiores méritos da análise de Nobre, qual seja, “tentar reconstruir, em uma linha de tempo algo distendida, a experiência da representação política”. Mas se Nobre, como sugere o subtítulo do seu livro, toma como marco a redemocratização, Carrasco propõe ir além e pensar não só a função do PMDB durante a transição democrática mas, também e como elemento essencial, o papel do MDB durante a Ditadura. Essa opção inscreve o artigo de Carrasco em uma interessante tradição intelectual que considera essencial resgatar a história política do país, com especial atenção para as décadas de ditadura, para compreender as raízes do nosso impasse.
Se Carrasco recua no tempo através de uma análise que poderíamos denominar, com alguma liberdade, de estrutural, Cícero Araújo se volta à conjuntura política para analisar o significado das últimas eleições presidenciais e seus desdobramentos. Em “Derrota na vitória”, a intenção do autor é, através de uma análise complexa, entender como a esquerda, mesmo ganhando as eleições de 2014, perdeu disputa mais ampla na sociedade, o que implicou “a reemergência (com toques gramscianos) dos conservadores”. O PT, e a esquerda de modo geral, ao se concentrarem quase que exclusivamente na disputa pelo Estado, esqueceu da importância essencial de disputar, noturna e diuturnamente, a sociedade civil. Isso significa uma reconfiguração profunda da vida política do país que viveu, desde o final da ditadura, uma hegemonia cultural do campo progressista. Essa nova configuração da sociedade civil tem impacto sobre a nossa arquitetura institucional, a partir do deslocamento dos poderes constitucionais cujo equilíbrio ancorado no executivo definiu, por anos, o nosso “presidencialismo de coalisão”.
Saindo da recente crise política brasileira para a longínqua crise do Oriente Médio, a Revista Fevereiro traz uma leitura crítica de Fabio Metzger do livro de Loretta Napoleoni, A Fênix Islamista: o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio. Buscando compreender a gênese e o significado do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), Napoleoni tem, segundo o resenhista, o mérito de demonstrar o pouco cuidado que “as principais potências ocidentais” tiveram com o crescimento do salafismo e do jihadismo entre o amplo mundo árabe sunita que, hoje, reivindica um Estado próprio, ainda que “teocrático em todos os sentidos”. Apesar dos eventuais problemas e polêmicas, como a sugestão de que a formação do Estado Islâmico pode ter paralelos com a formação do Estado de Israel, o livro de Napoleoni e a análise crítica de Metzger valem a pena pela forma como enfrentam uma questão complexa e essencial do atual momento histórico.
Encerrando a seção de artigos, Ruy Fausto publica a segunda e última parte do seu “O ciclo do totalitarismo”,em que dá continuidade ao seu esforço teórico e político para pensar criticamente tanto os totalitarismos do século XX quanto a forma como a esquerda lidou com eles. Nesta parte do texto, além de discutir de um horizonte crítico as Teses sobre a história de Walter Benjamin e a tentativa de reconstruir uma nova história marxista a partir de uma releitura dos melhores textos de Marx, Ruy Fausto vai analisar, de uma perspectiva antes pós-marxista do que marxista, a atual situação de dois regimes que podem ser considerados desdobramentos da linhagem totalitária: a China e Rússia. Na conclusão, retoma a importante questão da atualidade e do sentido da esquerda democrática e crítica à sua própria tradição teórica e política em face do capitalismo e do totalitarismo.
A tradicional seção literária, como o título desta edição já indica, torna-se cada vez mais uma seção de arte, com a colaboração de artistas visuais como ilustradores. O centro da seção está em “Dossiê Hilda Hilst”, que traz uma “diálogo cego” entre as poetas e artistas Marília Garcia, Fabiana Faleiros e Luisa Nóbrega a partir da proposições de trechos de Hilda Hilst. Além das expressivas ilustrações de Débora Bolsoni e Raquel Nava, acompanha o dossiê uma acurada introdução do crítico e poeta Fábio Weintraub.  
É impossível passar por essa seção sem ser capturado pela excelente análise “Lá fora, aqui de dentro: uma resenha para Barulho Feio de Rómulo Fróes”, de Vinicius Pastorelli (ilustração de Wallace Masuko). Percorrendo a trajetória musical de Fróes, Pastorelli nos brinda com uma análise de um dos grandes músicos brasileiros contemporâneos. O mesmo pode ser dito sobre a crítica de Alexandre Carrasco do aclamado filme Branco sai, preto fica, de Adirley Queirós.
A Fevereiro se encerra com a Seção em língua estrangeira, uma simbólica porém fundamental tentativa de inserir a esquerda brasileira no debate público internacional. Com o já mencionado texto de Henri Peña-Ruiz, “Le Pape, la Mère du Pape et les caricatures”,a Fevereiro se fecha com o mesmo tema com que se abre: o sentido e o significado do ataque à publicação satírica francesa Chalie Hebdo da perspectiva democrática. Acompanha a Revista os tradicionais desenhos de Rafael Moralez.
Sejam bem vindos à Fevereiro n. 8, boa leitura!
































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