revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

Traduo de Maurcio Santana DIAS

Ilustrao: Vitor BUTKUS

Poema poltico

 

Poema tirado do livro Trasumanar e organizzar, 1971.

 

Me levantar s quatro da manh sem ter pregado olho;
ento, tomado de uma irrefrevel deciso brechtiana,
peguei a cueca
Longe daqui, mundo!, eram dez da noite, e, mais longe
ainda, dez da manh: mas aqui
Vai, vai, homem, vai, siga sua inspirao;
a cueca, as meias;
o terno preto, aconselhado pela me ou esposa
Se minhas ventas so grossas
sob a testa ossuda e os cabelos meio porcamente ondulados
Aspirei a brisa do mar, a brisa do mar!
curioso. Amanh, calculava _que sempre dupla
a inspirao brechtiana_ e eu estava tomado_
a televiso
Onde, oh mundo!, eram dez da manh um menino
era assassinado, e quem sabe mil: mas este, no momento,
no era o caso que me preocupava
Vai, homem, vai: vai mostrar quanto penou
para vestir essa cueca
L fora, no gelo, onde as vidas annimas
conhecem to bem a cor vtrea do ar;
estavam entorpecidos de frio; no tinham dormido
Ecce homo! Eis-me aqui.
O que vocs esperavam? A minha cara _
No elegeram algum superior, mas um igual!
Pela primeira vez na histria das democracias!
Sim, sim; tenho a cara igual deles: que no exprime nada
seno uma vontade mdia, e no faz segredos
das baixezas corporais
No sou um peixe grande
No quiseram escolher um homem superior;
mas um ignorante que nem eles; com a cara deles _
talvez demasiado, e involuntariamente, expressiva
um homem com quem se urina nos mictrios como com um irmo
Pois o que esto esperando, esses idiotas,
para me matar (ou pelo menos me cuspir na cara)
A inspirao profunda
e eu estou acima de mim, como o sol sobre o rebanho
Se Eles elegeram Presidente
pela primeira vez, repito, na histria das democracias
algum igual a eles, tambm verdade,
para dizer duma vez, que a muitos deles sou inferior:
por isso me desprezam como um co bastardo
que suja tudo por a: como pequeno burgus
no nasci no Conhecimento! Podia tranquilamente
ter ficado fora disso, como seus pais,
ser um bom americano _
O que me impeliu pouco antes da aurora
que agora aqui traz retalhos sobre o espelho de guas frias e inspitas
a vir vestir a cueca
H uma grande Verdade
e sua angstia que no me deixou dormir
como um santo. A Verdade,
bem, no se pode dizer, vocs bem sabem, meus jovens.
E eis por que me calo: e tudo o que me vem boca
conversa fiada: a gua suja, entendo vocs,
como vo, rapazes, um belo dia, mas frio, ah etc.
assim que a Verdade,
quando profundamente sentida, se expressa.
De resto, ela compreende todo o inteligvel e todo o humano:
Eles, os verdadeiros superiores, so os nicos que podem diz-la...
Acaso eu poderia, um advogadozinho vestido
pela me ou esposa em roupa escura
A explorao no explorao,
a guerra no guerra,
um soldado morto no um soldado morto;
h justamente algo alm, isto ... aquela Verdade.
A Verdade que me fez acordar na alvorada feito um papa,
e vir tremer aqui,
como numa campanha eleitoral,
porque amanh tem imprensa e televiso.
Acredito em tudo o que meus superiores, Aqueles
que nasceram no Conhecimento, e meus iguais,
que finalmente me elegeram como um deles,
e ento, idiotas,
o que esto esperando para me matar ou pelo menos me cuspir na cara?
Mas j que estou fora de mim, Nixon que aparece a Nixon,
uma verdade que entende a minha Verdade e a sua Verdade...
Somos igualmente ignorantes, eu e vocs.
Agora fala em mim a grande pietas da verdade com v minscula:
a que tem palavras
e que eu, aqui, parado feito um idiota diante de vocs
(a gua suja, eu entendo, hello, rapazes,
um belo dia, mas meio friozinho)
Pobres entorpecidos, estremunhados,
que s valem porque tm tantos outros iguais atrs de si,
e sem o grupo morreriam;
que seguiro pelas ruas que conduzem ali de onde eu parti;
orgulhosos do grande nmero que lhes d razo e a que do razo,
orgulhosos de sua pobreza,
orgulhosos dos trapos e uniformes
com que giram profissionais
para se proteger do justo gelo da noite;
orgulhosos de serem donos desta luz
que empurra o cu desde seu fundo para lhe devolver a cor,
uma cor inexistente que depois
se torna velho azul para andorinhas famintas
Orgulhosos do sentimento que compartilham com humildade;
orgulhosos de serem simples cidados jovens e annimos:
e vocs tambm, vocs tambm, agarrados a uma Verdade com V maiscula,
que d angstia, mantm acordado, no sai da garganta,
no tem palavras. uma luz que no vem para fora, esta,
como aquela deste sol do Estado de Washington em 7 de maio de 1970
E de fato tambm vocs balbuciam,
balbuciemos, rapazes: FALEMOS DE AMENIDADES,
pois s o que sabemos dizer;
portanto ignorncia contra ignorncia;
pois se assim no fosse sua Palavra se alaria
neste jardim como a de um Profeta no deserto,
e eu tombaria no cho com este meu corpo to cheap, de co,
na terra, sobre os dejetos e o gelo das guas artificiais,
chorando por quem explorado e assassinado
e vendo pela primeira vez todos os mortos do Vietn;
em vez disso eu volto pra casa,
e amanh de manh vocs vo falar na TV:
outra lngua tambm esta da Verdade que no tem palavras
E a eu lhes dou uma piscadela, somos cmplices
Pois bem, pobres rapazes, rigidamente vestidos segundo suas regras,
fiquem com a sua inocncia,
que eu fico com a minha: com tecido preto sobre o corpo de pouco preo;
no culpa sua se vocs no sabem falar como os poucos profetas;
e eu no tombarei no cho
no existem explorados
no h mortos;
O Vietn no mais que um sonho, a realidade que se deve combater
pelas razes que Eles sabem; e esse seu saber
a graa cada sobre o mundo, que faz que sua histria seja a nica histria
e diante dela nunca h uma verdadeira alternativa, nunca;
vocs no lhe podem opor seno seu pranto.

11 de maio de 1970

   
   

  Comizi d’Amore, 1963

 
 
   
   





























fevereiro #

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