revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

Traduo: Alex CALHEIROS e Marina YAJIMA

Ilustrao: Vitor BUTKUS

Fragmento epistolar, ao garoto Codignola

 

 

Caro garoto, sim, claro, que nos encontremos,
mas no espere nada desse encontro.
Seno uma nova iluso, um novo
vazio: daqueles que fazem bem 
dignidade narcsica, como uma dor.
Aos quarenta anos eu sou como aos dezessete.
Frustrados, o de quarenta e o de dezessete
podem, claro, encontrar-se, balbuciando
ideias convergentes, sobre problemas
entre os quais se abrem dois decnios, uma vida inteira,
e que s aparentemente so os mesmos.
At que uma palavra, sada das gargantas incertas, 
ressecada de pranto e vontade de estarem ss-
revela sua irremedivel disparidade.
E, ademais, devo ainda fazer-me poeta
pai, e ento cederei ironia
- que te embaraar: sendo o de quarenta
mais alegre e jovem que o de dezessete,
ele, agora j dono de sua vida.
Alm dessa aparncia, dessa encenao,
no tenho nada mais para te dizer.
Sou avaro, o pouco que possuo
o mantenho junto ao corao diablico.
E os dois palmos de pele entre zigoma e queixo,
sob a boca torta por tantos sorrisos
de timidez, e o olho que perdeu
o seu doce, como um figo azedado,
te pareceriam o retrato
justo daquela maturidade que te faz mal,
maturidade no fraterna. De que pode te servir
um coetaneo - simplesmente entristecido
na magreza que lhe devora a carne?
Ele deu aquilo que deu, o resto
rida piedade.

 

 

 






























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