revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Daniil KHARMS

ilustrao: Rafael CARNEIRO

Apresentao e traduo Daniela MOUNTIAN e Moissei MOUNTIAN

 

 

Sobre o autor

 

O poeta, escritor e dramaturgo Daniil Kharms (1905-1942), cujo nome verdadeiro era Daniil Ivnovitch Iuvatchv, nascido em So Petersburgo, foi um dos mais talentosos e originais vanguardistas russos.
Em 1928, Daniil Kharms e outros artistas de Petersburgo, ento Leningrado, como Aleksndr Vvedinski (1901-1941), Konstantin Vguinov (1899-1934), Igor Bkhterev (1908-1996) e Nikolai Zaboltski (1903-1958), criaram a OBERIU (Associao para uma Arte Real). A OBERIU, que durou cerca de trs anos, reuniu literatura, cinema, teatro e artes plsticas, e produziu experincias artsticas inovadoras, como a pea Elizaveta Bam (1928), escrita por Kharms especialmente para a noite de apresentao da associao. Depois da dissoluo da OBERIU, que pode ser considerada o ltimo movimento importante da vanguarda russa, a obra de Kharms, sempre perpassada pelo cmico, ganhou linhas minimalistas e filosficas (ou metafsicas), incorporando muitas das ideias do crculo dos tchinari, um grupo no oficial de filosofia e arte fundado por Vvedinski ainda nos anos 1920 do qual quase todos os oberiuty fizeram parte.
Daniil Kharms teve um percurso como o de muitos outros vanguardistas do perodo stalinista. Distante do que, a partir de 1932, passou a ser chamado de “realismo socialista”, foi preso duas vezes, em 1932 e em 1941, morrendo logo depois numa cela psiquitrica. Ao longo da dcada de 1930, j muito isolado e quase sem condies de sobreviver (chegou a passar fome ao lado da esposa), produziu sobretudo trabalhos em prosa, estes que o consagrariam depois, como a srie Causos, miniaturas escritas entre 1933 e 1939, e A velha, de 1939, sua nica e magistral novela. Em vida praticamente apenas seus textos e poemas para crianas foram publicados e, desde ento, tornaram-se muito queridos do pblico russo. A obra “adulta” de Kharms s chegou ao nosso conhecimento graas ao filsofo e amigo Ikov Drskin (1901-1980), que, durante o Cerco de Leningrado, foi casa do escritor, depois de sua ltima priso, e apanhou todos os manuscritos de l. Na Rssia, o trabalho de Kharms s comeou a ser publicado integralmente no fim dos anos 1980.
Com humor e nonsense, Daniil Kharms desvela o trgico da vida, sai em busca de um real que parte da vida em si mesma, virando-a pelo avesso. Sua criao hoje comparada de escritores do quilate de Beckett e Ionesco. Na verdade, Kharms, assim como Kafka, a quem tambm assemelhado, prenuncia o absurdo, ou absurdismo, em arte.

 

 


 

 

 

Os textos selecionados fazem parte da srie Causos (Trad. Daniela e Moissei Mountian)1, retirados do livro: “Os sonhos teus vo acabar conntigo”: prosa, poesia, teatro (Trad. Aurora Fornoni Bernardini, Daniela e Moissei Mountian). So Paulo, Ed. Kalinka, 2013 - apoio: Instituto de Traduo (Rssia)

 

Soneto

Um caso surpreendente aconteceu comigo: de repente esqueci o que vem antes, se o 7 ou o 8.
Fui at os vizinhos e perguntei o que pensavam sobre o assunto.
E qual no foi a surpresa deles, e tambm a minha, quando de repente eles se deram conta de que tambm no conseguiam se lembrar da ordem dos nmeros: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 eles lembravam, mas o que vem adiante esqueceram.
Fomos todos loja “Gastronom”, na esquina da Rua Znmenskaia e da Bassiinaia, e perguntamos a opinio da caixa. A caixa sorriu com tristeza, tirou um martelinho da boca e, mexendo levemente o nariz, disse: “Na minha opinio, em todo o caso o sete vem depois do oito, a no ser quando o oito vem depois do sete”.
Ns agradecemos caixa e demos no p com alegria. Mas, ento, ao ponderar as palavras dela, ficamos desanimados outra vez, porque elas no faziam sentido.
O que fazer? Fomos ao Jardim de Vero e comeamos a contar as rvores. Mas, quando a conta dava 6, parvamos e comevamos a discutir: na opinio de uns, o 7 seria o prximo; na opinio dos outros, o 8.
Ns poderamos ter ficado a discutindo por muito tempo, mas ento, por sorte, uma criana caiu de um banco e quebrou os dois maxilares. Isso nos distraiu de nossa discusso.
Depois voltamos cada um para a sua casa.
<12 de novembro de 1935>

 

 


 

 

 

Um jovem que surpreendeu o vigia

- Veja s - disse o vigia examinando uma mosca. - Basta passar um pouquinho de cola de marceneiro nela e para ela ser o fim. Mas que histria! Por uma colinha toa!
- Ei, seu caipira! - gritou um jovem de luvas amarelas.
O vigia entendeu logo que era a ele que o jovem se dirigia, mas continuou a olhar para a mosca.
- Ser que estou falando sozinho? - gritou o jovem de novo. - Sua besta!
O vigia esmagou a mosca com o dedo e, sem virar a cabea para o jovem, disse:
- Por que est berrando desse jeito, seu cara de pau? Eu escuto muito bem. No precisa berrar!
O jovem limpou a cala com as luvas e disse numa voz delicada:
- Diga l, vovozinho, como se passa daqui para o cu?
O vigia olhou para o jovem, apertou um olho, depois apertou o outro olho, depois coou a barbicha, olhou outra vez para o jovem e falou:
- Bem, no se pode ficar aqui parado, v andando.
- Perdoe-me - disse o jovem -, mas tenho um assunto urgente. Deixaram um quarto pronto pra mim l.
- Est bem - disse o vigia -, mostre o ingresso.
- No tenho ingresso; eles me disseram que me deixariam entrar mesmo assim - disse o jovem espiando o rosto do vigia.
- Essa boa! - disse o vigia.
- Ento? - perguntou o jovem. - Vai me deixar passar?
- T bom, t bom - disse o vigia. - V logo.
- Mas como? De que lado? - perguntou o jovem. - Eu no conheo o caminho.
- Pra onde tem que ir? - perguntou o vigia, srio.
O jovem cobriu a boca com a palma da mo e disse baixinho:
- Para o cu!
O vigia inclinou-se para a frente, moveu a perna direita para firmar-se melhor, olhou atentamente para o jovem e perguntou com voz severa:
- Voc est me fazendo de tonto?
O jovem sorriu, levantou a mo com sua luva amarela, acenou um adeus acima da cabea e repentinamente desapareceu.
O vigia aspirou o ar. Havia cheiro de pena queimada.
- Cada uma! - disse o velho, abriu a jaqueta, coou a barriga, cuspiu no lugar onde o jovem estava e caminhou lentamente at sua guarita.
<sem data>

 

 


 

 

 

Quatro demonstraes de como uma nova ideia pode atordoar uma pessoa despreparada

I
Escritor: Eu sou um escritor.
Leitor: Na minha opinio, voc um m...a!
(O escritor fica paralisado por alguns minutos, atordoado com essa nova ideia, e cai morto. Ele retirado.)
II
Pintor: Eu sou um pintor.
Operrio: Na minha opinio, voc um m...a!
(O artista ficou branco como um papel,
E balanou como uma vara,
E sbito morreu.
Foi retirado.)
III
Compositor: Eu sou um compositor.
Vnia Rubliv: Na minha opinio, voc um m...a!
(O compositor, ofegante, desabou.
Sbito foi retirado.)
IV
Qumico: Eu sou um qumico
Fsico: Na minha opinio, voc um m...a!
(O qumico no disse nem uma palavra e estatelou-se no cho.)

13 de abril de 1933

 































fevereiro #

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1 Moissei Mountian tradutor e editor da Kalinka.
Daniela Mountian tradutora, editora da Kalinka e doutoranda do programa de Literatura e Cultura Russa da USP.