revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Axel HONNETH

Reconhecimento como ideologia: sobre a correlao entre moral e poder 1

 

traduo: Ricardo Crissiuma

 

Na mesma medida em que, nas duas ltimas dcadas, o conceito de reconhecimento se tornou o cerne normativo de inmeros esforos polticos de emancipao, tambm cresceram, simultaneamente, as dvidas quanto ao seu potencial crtico. Para a expanso do ceticismo terico, contribui incontestavelmente a experincia de que vivemos hoje em uma cultura afirmativa em que o reconhecimento propalado publicamente veste com frequncia traos apenas retricos e possui carter meramente compensatrio. Ser elogiado oficialmente por determinadas caractersticas e capacidades aparenta ter se tornado um instrumento da poltica simblica cuja funo subjacente enredar indivduos ou grupos sociais ordem social dominante por meio da sugesto de uma autoimagem positiva deles mesmos. Longe de contribuir de maneira duradoura para o melhoramento das condies de autonomia dos membros de nossas sociedades, o reconhecimento social, ao que tudo aparenta, serve apenas produo de concepes [Einstellungen] conformes ao sistema. Por conseguinte, as reservas levantadas nesse intervalo contra o novo princpio partem da tese de que as prticas do reconhecimento no levam ao empoderamento dos sujeitos mas, ao contrrio, sua sujeio. Por meio de processos de reconhecimento recproco - assim se deixa resumir a crtica - os indivduos so condicionados a uma determinada relao a si que os motiva assuno voluntria de tarefas e deveres teis sociedade.2

Nessas consideraes iniciais espelham-se reflexes que levaram, j h mais de trinta anos, o terico marxista, Louis Althusser, a retratar na prtica do reconhecimento pblico o mecanismo central de todas as formas de ideologia.3 Seus argumentos desenvolvidos apenas de maneira rudimentar, referindo-se exclusivamente poltica de rgos estatais, depois foram retomados por Judith Butler com o propsito de reform-los, via incorporao da psicanlise de Jacques Lacan, em um abrangente projeto.4 Althusser serve-se, como se sabe, do duplo significado do conceito francs de subjectivation para explicar a sua categoria de “ideologia”: os indivduos humanos tornam-se “sujeitos” - no sentido de ser consciente de suas prprias responsabilidades e direitos - na medida em que eles se sujeitam a um sistema de regras e prescries prticas que lhes confere uma identidade social. Uma vez que o ato de sujeio concebido nessa acepo dada pelo modelo de uma aprovao pblica, aquilo que ns podemos chamar de “reconhecimento” perde de uma vez todas as conotaes positivas e torna-se mecanismo central de toda a ideologia. Reconhecer algum significa ento provocar-lhe, por fora de estmulos recorrentes e ritualmente fortalecidos, precisamente a autocompreenso que se encaixa ao sistema estabelecido de expectativas de comportamento.

Mas isso por certo no quer dizer que Althusser tenha usado esse conceito de ideologia em um sentido crtico. Ele se limita antes a um uso meramente descritivo do conceito,5 na medida em que ele descreve, sem qualquer valorao normativa, o primado institucional do reconhecimento como mecanismo da produo de sujeitos conforme ao sistema. Para uma teoria crtica da sociedade que procura encontrar no exerccio do reconhecimento recproco o seu fundamento normativo, as definies de Althusser, entretanto, colocam um grande desafio. Pois, luz das reflexes desse autor, aquela teoria tem de se defrontar com a pergunta que visa saber se o reconhecimento social eventualmente tambm poderia assumir a funo de assegurar a dominao social. Nesse novo contexto, o conceito de ideologia perde o seu carter meramente descritivo e vem a ser uma categoria depreciativa pois, com ela, so denotadas formas de reconhecimento que tm de ser consideradas como falsas ou injustificveis, j que elas no possuem a funo de aumentar a autonomia pessoal mas, ao contrrio, a de produzir concepes conformes dominao.6

Seria certamente equivocado imputar teoria do reconhecimento o fato de no ter se preocupado, desde o comeo, com fenmenos negativos de sujeio e dominao. O impulso crtico de todo seu projeto deve-se, acima de tudo, ao seu ponto de partida nas manifestaes sociais de ausncia ou insuficincia de reconhecimento: ela devia destacar prticas de humilhao e aviltamento da dignidade [Entwrdigung] por meio das quais sujeitos so privados de uma forma fundamentada de reconhecimento social e, com ela, de uma condio decisiva para a formao de suas autonomias.7 Por outro lado, no entanto, tais formulaes tambm deixam claro que o reconhecimento sempre foi tratado conceitualmente como o oposto de prticas de dominao ou sujeio. Essas formas de exerccio de poder devem ser concebidas como fenmenos de privao de reconhecimento [vorenthaltenen Anerkennung], de desrespeito e de humilhao premeditados, de modo que o “reconhecimento” no possa nunca suscitar a suspeita de funcionar como um meio de dominao. Essa pressuposio de inocncia, no entanto, perde toda a sua autoevidncia com as reflexes estimuladas pelo conceito de ideologia de Althusser. Pois tal conceito destaca formas de reconhecimento que so efetivas como meios de dominao social, uma vez que, sob o modelo de aprovaes rituais, criam uma autoimagem em conformidade sociedade e com isso contribuem para a reproduo das relaes de dominao existentes. Sem esforo, deixam-se citar exemplos do passado da sociedade que tornam claro quo frequentemente o reconhecimento manifestado publicamente serviu, na realidade, apenas para a produo e a boa conservao de uma relao a si individual que se adaptou perfeitamente ao sistema dominante da diviso de trabalho. Por exemplo, o orgulho que o “tio Tom” sentiu em relao recorrente louvao de suas virtudes submissas fez dele servo voluntrio na sociedade escravista.8 O agitado clamor pela “boa” me e dona de casa que provinha, por sculos, de igrejas, parlamentos e mdias de massa, deixou mulheres persistirem em uma autoimagem que vinha, com perfeio, ao encontro da diviso especificamente sexual do trabalho.9 E a valorizao pblica gozada pelo soldado corajoso e heroico produziu de maneira contnua uma classe suficientemente grande de homens que se incorporou prontamente guerra em busca de glria e experincia.10 Por mais triviais que possam ser, esses exemplos deixam claro, de maneira ainda mais patente, que mesmo o reconhecimento social sempre pode possuir a funo de atuar em prol de uma ideologia fomentadora de conformao. A contnua repetio das mesmas formas de reconhecimento terminam por alcanar, sem recorrer represso, o escopo de criar um tipo de sentimento de autoestima que providencia os recursos motivacionais para formas de sujeio voluntria.

Os casos citados, no entanto, devem a sua fora sugestiva somente circunstncia de serem revestidos com a certeza de uma valorao retrospectiva. A prpria seleo dos exemplos, at mesmo os prprios instrumentos de sua descrio, so o resultado de um juzo moral que s pode ser fruto da perspectiva de um presente moralmente mais avanado [fortgeschrittenen]. Ns, que somos os contemporneos de uma poca que se tem por moralmente superior frente ao passado, estamos, para ns mesmos, certos de que a apreciao valorativa do escravo virtuoso, da boa dona de casa e do heroico soldado era de carter puramente ideolgico. Colocando-nos, por contraste, naquele passado, ento parece incomparavelmente mais difcil diferenciar entre uma forma falsa, ideolgica, de reconhecimento e uma que seja correta e moralmente requerida. De repente, ficam deriva os critrios que outrora nos eram dados com tanta certeza. Por que o escravo no poderia, por meio da experincia de ter sua prpria sujeio estimada por seu senhor branco, alcanar uma forma do sentimento de autoestima que o ajudasse a um certo grau de autonomia interior? E no so as mulheres parcialmente compensadas com o fato de que elas encontraram reconhecimento pblico como mes provedoras daquele desrespeito que lhes era infligido devido ao impedimento de trabalhos e servios alheios ao lar? Por fim, o esquema de valores do herosmo masculino pode ter ajudado queles homens que padeceram em suas culturas locais de insignificncia social, por motivo de desemprego ou falta de qualificao, uma vez que eles puderam alcanar, de maneira compensatria, prestgio e considerao em meio a uma subcultura masculina independente. Em cada caso essas possibilidades interpretativas deixam claro que por meio de uma considerao mais prxima das circunstncias histricas um determinado dispositivo de apreciao valorativa, que ns retrospectivamente tomamos por pura ideologia, pode se provar como uma condio para a conquista de maior autoestima por parte de grupos especficos. A determinao do teor ideolgico de formas de reconhecimento parece assim tanto mais difcil quanto mais forte ns nos colocamos no interior das pressuposies socioculturais que dominavam quele momento do passado. Apenas quando os prprios concernidos se revoltaram contra uma prtica dominante de reconhecimento, ns dispomos de um ponto de apoio, em relao quele tempo, para poder falar de uma mera ideologia. No geral, no entanto, essa dificuldade de valorao perde peso com a distncia temporal que nos separa dos casos em questo; pois quanto maior se torna a distncia histrica tanto mais facilmente dispomos de critrios aceitos universalmente que nos permitem diferenciar, de maneira retrospectiva, formas ideologica e moralmente exigidas de reconhecimento.

Para o presente, portanto, esse problema terico reservaria, por certo, seus traos mais intrincados. Enquanto ns no tivermos nenhum ponto de apoio emprico de que os prprios concernidos experimentam determinadas prticas de reconhecimento como repressivas, limitadoras ou estereotipadas, extremamente difcil encontrar diferenciaes significativas entre formas ideolgicas e justificadas de reconhecimento. A dificuldade decorre do conhecido fato de que ns designamos constantemente por um ato de reconhecimento, a manifestao pblica de um valor ou de um desempenho que deve ser atribudo a uma pessoa ou a um grupo social. Falar dentro desse contexto de uma “ideologia” significa atribuir a uma prtica em si positiva e valorizada [auszeichnenden] os elementos negativos de uma sujeio sem represso - mesmo ela ainda parecendo, prima facie, desprovida de todos os traos discriminatrios. Como, assim soa a pergunta que podemos retirar dessas reflexes, formas de manifestao pblica de um valor social - ou seja, formas de reconhecimento - podem, no obstante, possuir no presente um carter de dominao? com esse problema que eu gostaria de me ocupar no que se segue. De sada, recomenda-se resumir mais uma vez o que ns, aps uma srie de tentativas de elucidao, podemos hoje entender por uma prtica de reconhecimento. Com isso, vai se mostrar que esse conceito possui um teor normativo na medida em que ele designa o comportamento racional pelo qual ns podemos reagir frente s peculiaridades [Eigenschaften] de valor de uma pessoa (ou grupo) (I). Essas pr-reflexes conceituais, no entanto, apenas aparentemente oferecem uma soluo para o problema de diferenciar formas ideolgicas e moralmente justificadas de reconhecimento social, pois verificaremos que s raras vezes ideologias de reconhecimento so simplesmente irracionais, mas que, no geral, ao contrrio, mobilizam razes valorativas que esto colocadas implicitamente em nosso horizonte de valor (II). Com isso, a soluo para o nosso problema s pode residir na tentativa de elencar as condies de aplicao das formas de reconhecimento at que se possa mostrar o “cerne irracional” de todas as meras “ideologias” do reconhecimento. Eu presumo que essa irracionalidade no jaz propriamente na superfcie semntica do vocabulrio valorativo, tendo de ser, ao invs disso, encontrada na discrepncia entre promessas valorativas e realizao material (III).

I.

Para Althusser, o problema que gostaria de trazer para o centro de minhas explicaes no pode, grosso modo, sequer existir. Seu conceito de “reconhecimento” unidimensional, no sentido de que ele no permite diferenciaes entre “verdadeiro” e “falso” ou entre “ideolgico” e “justificado”. Para ele, toda a forma de reconhecimento tem de possuir antes o carter de uma ideologia, porque atravs da mera exortao ou “interpelao” dos concernidos sempre ser impingida uma unidade imaginria que eles, como indivduos, no devem possuir a partir de si. Em contraste, a tentativa de diferenciar entre formas de reconhecimento “ideolgicas” e adequadas tem de comear com a determinao do sentido positivo de “reconhecimento”.11 Apesar de a literatura acadmica sobre o tema do reconhecimento ter se expandido fortemente nos ltimos anos, o teor do cerne conceitual do fenmeno visado ainda , por certo, fortemente disputado. Na maior parte das vezes o conceito utilizado de maneira vaga, escorando-se frouxamente em Hegel, para se referir a consideraes e prticas atravs das quais sujeitos individuais ou grupos sociais so confirmados em determinadas de suas peculiaridades. At aqui, no apenas a relao com o conceito kantiano de “respeito” permanece inexplicada; nesse entremeio tornou-se tambm sobretudo mais claro do que antes, que o conceito de reconhecimento - nas distintas lnguas do ingls, do francs e do alemo - compreende diferentes componentes de significao cujas relaes entre si no so, com efeito, transparentes. Em alemo, o conceito parece designar, essencialmente, apenas aquele fato normativo que est ligado ao ato de conferir um status positivo; enquanto no ingls e no francs ele compreende, adicionalmente, um significado epistemolgico adicional de “relembrar” ou “identificar”. Acresce-se a essa dificuldade o fato do conceito tambm poder ser utilizado nessas trs lnguas para os atos de fala de “assentir” e de “admitir”; casos em que o reconhecimento adquiri, precipuamente, um sentido autorreferente.12 Por fim, uma perspectiva de referncia wittgensteiniana em que o “reconhecimento” funciona como uma reao performativa s expresses de outras pessoas, entrou em cena para concorrer com a maneira hegeliana de utilizao do conceito. Sobretudo atravs dos escritos de Stanley Cavell, que no se vale de qualquer recurso a Hegel, a categoria do “acknowledgement” penetrou no crculo interno da filosofia analtica.13

Nesse emaranhado de confuses conceituais e perguntas no respondidas, s possvel se obter clareza atravs de uma instituio categorial que no se espanta nem com unilateralizaes nem com excluses. Assim, deve-se ter em conta a circunstncia de que o reconhecimento representa um ato moral que est ancorado no mundo social como um acontecimento cotidiano. Eu parto de quatro premissas frente as quais, nesse meio-tempo, pareceu-me se estabelecer um razovel consenso. Primeiramente, pode-se afirmar que o modo original do reconhecimento consiste naquilo que colocado em foco com o significado alemo da palavra; por ele, sempre se deve entender a afirmao de peculiaridades positivas de sujeitos ou grupos humanos - com o que, contudo, no se exclui a possibilidade de se estabelecer uma conexo sistemtica entre este e os outros significados do termo. Em segundo lugar, tambm h consenso em ressaltar o carter ativo do reconhecimento: um ato de reconhecimento no pode se esgotar em meras palavras ou enunciaes simblicas, uma vez que somente atravs das correspondentes maneiras de comportamento que a credibilidade to significativa normativamente para o sujeito reconhecido pode ser produzida. Na medida em que ns nos limitamos a relaes intersubjetivas, deveria se falar do “reconhecimento” como uma “postura”, uma considerao [Einstellung] que veio a ser efetiva na ao.14 Alm disso, em terceiro lugar, deve-se assumir que esse ato de reconhecimento apresenta um fenmeno distinto no mundo social, e que, portanto, no pode ser entendido como um produto colateral de uma ao direcionada para um outro objetivo, mas, ao contrrio, tem de ser apreendido como expresso de um propsito independente. Seja atravs de gestos, atos de fala ou polticas institucionais, essas enunciaes ou medidas so sempre um caso de “reconhecimento” se sua finalidade primordial est direcionada afirmativamente, da maneira que for, existncia de outra pessoa ou grupo. Essa predefinio conceitual exclui, por exemplo, conceber-se uma considerao positiva que inevitavelmente anda junto com a perseguio de uma srie de outros interesses de interao como uma forma de “reconhecimento”. Se eu tenho o forte desejo de jogar xadrez regularmente com uma mesma pessoa, provvel que eu expresse atravs disso uma apreciao particular pelo valor de suas capacidades intelectuais mas a finalidade primordial de meu propsito ao agir [Handlungsabsicht] est direcionado a jogar xadrez conjuntamente. Uma quarta premissa, sobre a qual hoje h certo consenso, deixa-se resumir na tese de que o “reconhecimento” se apresenta sob um gnero conceitual que compreende distintas espcies. Assim, aparecem nas “posturas” do amor, do respeito jurdico e da estima, a cada vez, diferentes acentuaes de uma considerao-fundamental que se deixa apreender genericamente como “reconhecimento”.

As quatro premissas que eu expus at aqui resumem apenas de onde se deve partir atualmente de modo a se contar com um uso conceitual razoavelmente clarificado: o reconhecimento deve ser concebido como um gnero de espcies diferentes de uma considerao prtica em que se reflete o propsito primordial de uma certa afirmao do defrontante [des Gegenbers]. Diferentemente daquilo que Althusser tinha em mente, essas posturas afirmativas possuem um inequvoco carter positivo, pois elas permitem ao concernido identificar-se com as prprias peculiaridades e, atravs disso, alcanar maior autonomia. Longe de representar uma simples ideologia, o reconhecimento forma o pressuposto intersubjetivo para a capacidade de realizar, autonomamente, metas de vida.15 O verdadeiro desafio na clarificao conceitual comea, portanto, apenas l onde se trata do carter epistmico de um tal comportamento afirmativo; ponto esse marcado pela pergunta se ns devemos entender o reconhecimento como um ato atributivo ou antes como um ato receptivo. Frente pergunta sobre como devemos caracterizar adequadamente o caso genrico do “reconhecimento”, parecemos estar diante de duas alternativas que concernem relao cognitiva com o parceiro de interao. Ns podemos conceber a afirmao que ocorre com um ato desse tipo ou a partir do modelo de atribuio - por fora da qual como que conferida uma peculiaridade nova e positiva ao outro sujeito, ou ns entendemos esse ato a partir do modelo de uma percepo, de modo que a peculiaridade preliminarmente dada de uma pessoa de maneira secundria apenas, de alguma forma, fortalecida ou manifestada publicamente. No primeiro caso, o que ns entendemos por “reconhecimento” conferiria ou convencionaria aos sujeitos concernidos um status que eles no poderiam possuir anteriormente; no segundo caso, em contrapartida, tratar-se-ia de um tipo determinado de percepo de um status independente preliminarmente existente. Uma outra possibilidade de determinar a diferenciao entre essas duas maneiras de ver a questo tambm pode consistir em falar, no primeiro caso, de uma realizao produtiva; no segundo, em contrapartida, de uma realizao reprodutiva do reconhecimento. O status ou as peculiaridades positivas que possui uma pessoa ou um grupo social sero criados atravs do ato de reconhecimento ou simplesmente reproduzidos de uma maneira determinada e significativa.

No fcil se decidir entre esses dois modelos alternativos de representao, pois cada um parece possuir uma vantagem distinta. Se considero bem, o modelo da percepo ou da recepo vai ao encontro de nossa primeira intuio de que o comportamento do reconhecimento tem de ser um ato motivado por razes prticas: no reconhecimento ns reagimos correta ou adequadamente frente quelas razes que esto inscritas nas peculiaridades valorativas que os seres humanos possuem atravs de distintas perspectivas preliminarmente.16 Em contraste, o modelo que opera com a representao da “atribuio” est livre de qualquer mistura com um tal realismo de valor; o que levado em conta aqui a intuio de que no reconhecimento tem de se tratar sempre de um ato constitutivo em que so conferidas capacidades particulares a uma pessoa ou a um grupo. A desvantagem desse modo de considerar a questo mostra-se, a meu ver, porm, exatamente no ponto em que parece consistir a vantagem do modelo da recepo: quando atravs da postura do reconhecimento devem ser meramente atribudas peculiaridades positivas ao outro sujeito, ento no possumos mais quaisquer critrios internos para julgar a assero ou a adequabilidade de uma tal atribuio; no seriam postos quaisquer limites ao mbito de variao do reconhecimento, uma vez que ns teramos de considerar como capacidade ou status de uma pessoa tudo o que proviesse de um ato de atribuio. Desse estado de coisas, a nica sada seria oferecida pela tese de que a legitimidade do reconhecimento mede-se pela qualidade normativa de seu vir a ser; mas da o conceito de reconhecimento perderia todas as implicaes morais que, no entanto, o que deve torn-lo diferencivel de um “label-approach” sociolgico.

Agora, primeira vista, no se est melhor com o ponto de vista oposto, ou seja, o modelo de recepo e resposta. Para poder se afirmar que em um comportamento de reconhecimento reage-se “corretamente” frente s peculiaridades valorativas de uma pessoa ou um grupo de pessoas, a existncia objetiva de valores precisa ser pressuposta de uma maneira que no mais concilivel com nossa inteleco [Einsicht] sobre a maneira como eles so constitudos. Por certo, parece ser acertado que ns deixemos o reconhecimento residir no “reino das razes” de modo que ele no seja desprovido do seu carter de uma ao moral; pois somente quando o nosso reconhecimento de outras pessoas motivado por razes que ns eventualmente tambm possamos tentar articular, esse reconhecimento se deixa conceber como um agir motivado por uma inteleco, podendo ser, assim, acrescido, em um sentido mais amplo, ao mbito da moral. A proposta suplementar de designar esse tipo de razes como “valorativas” tambm tem de se esclarecer pelo fato de que em condutas de reconhecimento ns sempre aparentamos testemunhar o valor de uma pessoa (ou grupo). As limitaes morais, s quais ns nos sabemos obrigados ao reconhecer, provm das significativas peculiaridades que, atravs de nossa conduta reconhecente, ns trazemos, em certa medida publicamente, expresso. A dificuldade comea apenas l onde se trata de determinar mais precisamente o status dessas razes valorativas. Aqui, parece de fato no se oferecer outra sada seno recorrer a um realismo valorativo que no mais concilivel com o resto de nossas convices ontolgicas de fundo. Esse indesejvel estado altera-se, por certo, quando ns admitimos a possibilidade de que valores desse tipo exponham certezas do mundo da vida cujo carter pode ser submetido a alteraes histricas. No seriam assim peculiaridades de valor inalterveis, objetivas, mas histricas e mutveis, que ns teramos de perceber em pessoas (ou grupos), para reagir frente a elas “corretamente” na conduta de reconhecimento. A imagem esboada precisaria, no entanto, ser complementada de ainda mais elementos para alcanar uma teoria parcialmente plausvel. O mundo da vida social teria de ser concebido maneira de uma “segunda natureza”, na qual os sujeitos seriam socializados de modo a aprender, progressivamente, a fazer a experincia das peculiaridades significativas das pessoas. Esses processos de aprendizagem precisariam ser concebidos como processos complexos em que ns adquirssemos, conjuntamente com a percepo de peculiaridades valorativas, os modos de conduta correspondentes cuja peculiaridade teria de consistir na limitao autoevidente de nosso egocentrismo natural. Como resultado, ns poderamos compreender a conduta de reconhecimento do homem como um conjunto de hbitos que foram vinculados s razes dos valores de outras pessoas - suscetveis a revises - no processo de sociabilizao17 .

Com essas reflexes, no entanto, ainda no est resolvido o problema que aparenta constituir a autntica dificuldade desse realismo moderado de valor. J foi dito que as peculiaridades significativas, que podemos adequadamente reconhecer em outras pessoas, s possuem efetividade dentro de um horizonte de experincia de um determinado mundo da vida. Quando seus membros so socializados exitosamente em sua cultura, eles percebem tais peculiaridades de valores pessoais tal qual dados objetivos do meio social, assim como tambm fazem a experincia de outras particularidades culturais, primeiramente, como fatos dados e autoevidentes. Assim, nas molduras dessa concepo, surge o perigo de um relativismo fundamentalmente inconcilivel com os fins normativos do conceito de reconhecimento, uma vez que os valores a partir dos quais a adequabilidade da conduta do reconhecimento medida parecem, ento, ter validade normativa apenas para uma nica cultura. Disso adviria que o relativismo com o qual o modelo de resposta e recepo est associado no se diferencia, de modo algum, daquele modelo da atribuio. Em ambos os casos, a validade das posturas de reconhecimento - sejam elas descritas como atribuies, ou como reaes adequadas - seriam dependentes somente do que dado normativamente em cada mundo da vida. Segundo minha convico, essa dificuldade levantada pelo modelo da recepo s seria evitada se o realismo moderado de valores for equipado com uma robusta concepo de progresso. Basicamente, isso significaria supor um desenvolvimento direcionado nas variaes culturais das peculiaridades de valor humanas que permitiriam juzos fundamentados sobre a validade trans-histrica de uma cultura particular de reconhecimento.18 Sem poder aprofundar nos detalhes dessas concepes de progresso - que, estou convencido, teriam de ser determinadas como formas de reflexo do nosso saber por meio da qual ns nos orientamos no mundo da vida19 - eu quero me restringir s indicaes da ideia principal: com a diferenciao histrica das peculiaridades de valor que ns aprendemos - graas nossa sociabilizao - a perceber e a considerar racional em outros homens, cresce simultaneamente o nvel normativo de nossas relaes de reconhecimento. Pois a cada valor que ns podemos afirmar atravs do reconhecimento aumentam as chances de o homem se identificar com as suas capacidades e, por conseguinte, aumentam suas chances de alcanar uma maior autonomia. Essa indicao deve bastar para justificar a ideia de um ancoramento do conceito de reconhecimento em um realismo moderado de valores.

Antes, no entanto, que eu possa voltar para a pergunta, como ns podemos diferenciar formas ideolgicas e justificadas de reconhecimento, precisamos tratar - brevemente ao menos - de mais um problema. Este advm do fato de que se costuma falar de ideologia como formao da conscincia ou sistema de expresso valorativa, cuja fonte no deve ser a conduta intersubjetiva, mas as regras e arranjos institucionais. Ns assumimos, assim como Marx - que, por sua vez, considera a forma de contrato burguesa como uma dessas instituies produtoras de ideologia20 - que a constituio especfica de determinadas instituies leva, primordialmente, ao surgimento de convices enganosas ou ficcionais. Se esses tipos de ideologia tambm podem construir modelos de reconhecimento, ns temos igualmente de esclarecer o que pode significar que no apenas pessoas, mas tambm instituies sociais possam oferecer reconhecimento. Ns temos, ento, de transpor o plano intersubjetivo de reconhecimento em que ns nos orientamos at aqui para o plano do reconhecimento garantido institucionalmente.21

O ponto de partida para uma tal transposio consiste na observao de que as prticas e regulaes institucionais tambm podem conter determinadas representaes que dispem sobre quais valores peculiares do homem especificamente devem obter reconhecimento. Assim o valor que o homem, na qualidade de sujeito de carecimentos privados, deve reconhecidamente possuir, obteve expresso na instituio da pequena famlia moderna; enquanto o fato normativo de que os membros das sociedades modernas devem ser respeitados como sujeitos livres e iguais, manifestou-se no princpio da igualdade institucionalizado pelo direito moderno. Em ambos os casos, a respectiva instituio deixa-se conceber diretamente como uma incorporao institucional de uma forma especfica de reconhecimento que os sujeitos manifestam intersubjetivamente com base em determinadas peculiaridades de valor. Mas tem de se diferenciar entre instituies em que modelos de reconhecimento acedem socialmente “expresso” dessas prticas e regulaes institucionais que articulam determinadas formas de reconhecimento s indiretamente, ou apenas como um efeito lateral; na rotina de quase todas instituies so veiculadas determinadas representaes de sujeitos humanos que, por certo, no promovem prticas intencionais de reconhecimento, mas que se deixam antes ser apreendidas como cristalizaes de modelos de reconhecimento. Por exemplo, as regulaes que estabelecem a remunerao, o seguro sade ou as frias de trabalhadores em alguns ramos espelham formas de reconhecimento especficas, batalhadas no interior da sociedade. De maneira semelhante, o mesmo vale nas prticas e rotinas organizacionais atravs das quais pacientes so tratados nos hospitais - os esquemas de percepo e comportamento que formam a pressuposio para que os indivduos sejam tratados a toda vez de uma determinada maneira como clientes ou membros nesse tipo de organizao, deixa-se conceber como sedimentao de prticas de reconhecimento dadas no mundo da vida. Certamente, a direo dessas sedimentaes pode se interverter, a saber, no caso em que as prprias organizaes tm de tomar para si um papel privilegiado na criao ou descoberta de novas peculiaridades de valor do homem. Nesses casos, modelos de reconhecimento modificados imprimem-se, primeiramente, nas regulaes e prticas de uma instituio, antes mesmo deles alcanarem expresso em uma prtica narrativa do mundo da vida. provvel que esse segundo caso de reconhecimento institucional tenha um significado especial para a pergunta, em que medida determinados modelos de reconhecimento possuem um carter ideolgico por despertarem uma predisposio para sujeio voluntria.

II

Nessas reflexes que eu dispus at aqui, a preocupao essencial girava em torno da necessidade de um entendimento adequado do conceito de reconhecimento. Ante alternativa colocada entre um modelo de atribuio e um modelo de recepo, eu tomei o caminho de um realismo moderado de valor - devemos entender por “reconhecimento” um comportamento reativo por meio do qual ns respondemos de maneira racional a uma peculiaridade de valor que ns aprendemos a perceber em sujeitos humanos segundo o grau de integrao segunda natureza de nosso mundo da vida. J essa determinao conceitual d suficientemente a conhecer toda a diferena frente proposta de Althusser para quem toda forma de reconhecimento tem de representar, indistintamente, uma forma de ideologia. Ele afirma que independentemente do que precisamente concerne aos sujeitos, a mera atribuio de um status social representa uma prtica ideolgica, porque, simultaneamente iluso da unidade e da identidade, ela cria a disposio para se admitir expectativas de comportamento correspondentes. Em contraste, a proposta aqui desenvolvida assume a possibilidade de uma forma racional e adequada de reconhecimento que equivale a fazer valer de maneira performativa, na esfera pblica, as peculiaridades humanas preliminarmente existentes. Essa formulao, no entanto, ainda no permite entender de maneira clara o suficiente por que um conceito de “reconhecimento” apreendido desse modo deve corresponder a uma ao moral. Se por certo ns estamos lidando aqui com um agir que mediado por razes valorativas, isso por si s ainda no demonstra nem de longe que a deve se tratar tambm de um ato moral. A correlao com a moral s vem primeiramente luz quando se observa de forma mais precisa aquele aspecto que eu j descrevi anteriormente como “limitao do egocentrismo”. De certa maneira essa ideia remonta a Kant que dizia, no contexto da introduo de seu conceito de respeito, que “toda a representao de um valor” nos constrange a submeter o nosso agir a uma limitao que “derroga” o nosso “amor de si”.22 Reconhecer algum - assim podemos prosseguir - significa ento perceber nele uma peculiaridade de valor que nos motiva intrinsecamente a no mais nos comportar de forma egosta mas, ao contrrio, conforme aos propsitos, vontades ou carecimentos daquela outra pessoa. Com isso, torna-se claro que o comportamento de reconhecimento tem de representar um agir moral, uma vez que ele se deixa determinar pelo valor de outras pessoas; na considerao [Einstellung] do reconhecimento, o comportamento no se orienta pelos prprios propsitos mas, ao contrrio, pelas peculiaridades valorativas do outro. Se assim, ento, tem de se poder diferenciar tantas formas da ao moral quantos valores h para se reconhecer no sujeito humano. Por isso, em artigos recentes, eu cheguei ao resultado de que temos de diferenciar trs fontes da moral que devem corresponder s formas de reconhecimento que se diferenciam em nosso mundo da vida; em consonncia com uma srie de outros autores, eu iria afirmar que o horizonte de valor da sociedade moderna marcado pela representao de que ao homem - como ser com carecimentos, como sujeito autnomo dotado dos mesmos direitos que os outros e essencialmente capaz de desempenhar diversas atividades [leistungsfhigem] - deve convir um valor correspondente s diferentes formas do comportamento do reconhecimento (amor, respeito jurdico, estima social).23

Antes que eu possa prosseguir nessa linha de raciocnio, eu quero primeiramente voltar-me pergunta que deve permanecer, de fato, central. No se deve excluir, assim eu disse no comeo, que tais formas de reconhecimento social possuam apenas uma funo ideolgica, por estimularem uma relao-a-si individual que se ajusta forma de dominao existente. Ao invs de conferir expresso a um valor, aqueles tipos de ideologias do reconhecimento assegurariam a disposio motivacional de cumprir, sem resistncia, certas tarefas e deveres. Provavelmente, importante aqui estreitar ainda mais o espectro das enunciaes pblicas e das representaes subjetivas que so suscetveis de um modo geral para um tal papel ideolgico; pois a maioria das classificaes valorativas que ns podemos encontrar, hoje, em nosso mundo da vida, no preenche de modo algum os pr-requisitos para poderem ser consideradas como ideologias do reconhecimento.

O sistema de convices que pode estar em questo com essas formas de ideologia tem, evidentemente, de possuir, em primeiro lugar, a peculiaridade de exprimir positivamente o valor de um sujeito ou um grupo de sujeitos. Esses sistemas s podem cumprir as funes a eles atribudas se derem uma chance ao indivduo de relacionar-se consigo mesmo de uma maneira afirmativa, de tal modo que eles se vejam motivados para a assuno voluntria de determinadas tarefas. Nessa medida, esto fora do espectro das enunciaes de valor que estamos determinando todas as classificaes que possuem um carter notoriamente discriminatrio; aqueles sistemas de convico em que um valor precisamente negado a grupos de pessoas especficos - como no racismo, na misoginia ou na xenofobia -, no podem de forma alguma assumir o papel de ideologias do reconhecimento, pois eles, em regra geral, conduzem ao aviltamento da autoimagem dos concernidos. Ideologias que, por fora do reconhecimento social podem ser eficazes, no deveriam contribuir para a excluso dos grupos de pessoas a que elas se destinam, mas, ao contrrio, teriam de contribuir para sua integrao.

Em segundo lugar, para que possamos atingir esse efeito, os sistemas de convices que procuramos tm de ser “crveis” tambm para os destinatrios. Se os destinatrios, por eles mesmos, no tm boas razes de se identificar com as enunciaes de valor vlidas para eles, esses sistemas de convico perdem sua funo performativa. Essa condio limitativa no tem apenas um lado trivial, mas tem tambm um lado complexo que no nada simples de se explicar. Certamente, todas as enunciaes positivas de valor capazes de fortalecer a autoimagem de uma pessoa ou de um grupo de pessoas tm de ser francamente realistas; no sentido auto-vidente de que elas possam ser ligadas, em medida expressiva, a capacidades e virtudes factuais: louvar o policial por sua facilidade em fazer contas tem to pouco sentido quanto prezar um talentoso matemtico por sua fora fsica, uma vez que ambos esto sendo distinguidos por desempenhos estranhos s suas respectivas profisses. Mais essencial, entretanto, do que esse componente da realidade para o critrio de sua “credibilidade”, ainda um segundo componente que est vinculado progresso do reino de razes valorativas: somente essas enunciaes de valor que no recaem no nvel valorativo deixado para trs no processo de superao de atribuies de identidades unilaterais ou inadequadas sero apropriadas para serem aceitas pelos destinatrios. Dito positivamente e expresso de maneira mais simples: disso resulta que ideologias do reconhecimento s podem utilizar as enunciaes de valor que esto, em certa medida, no topo do vocabulrio valorativo do presente; enunciaes que, por contraste, distinguem visivelmente peculiaridades de valor que, no meio tempo, caram em descrdito, so percebidas como no sendo crveis por parte dos destinatrios. Nessa medida, ao lado do componente de realidade, jaz no interior do critrio da credibilidade, um componente de racionalidade que possui indubitavelmente um ndice histrico ou temporal: uma mulher que, hoje, ainda louvada publicamente pelas suas virtudes de dona-de-casa possui menos ensejo de se identificar com essa enunciao de valor a ponto de ela, com isso, chegar a considerar o seu sentimento de auto-estima verdadeiramente fortalecido.

Por conseguinte, aqueles modelos de reconhecimento que ns podemos descrever como “normalizantes”24 tambm no podem ser designados como “ideologias” do reconhecimento. Pois, nesses contextos, a expresso “normalizao” significa que uma pessoa ou um grupo reconhecido por meio de definies de peculiaridades ou de atribuies de identidades que essa mesma pessoa ou precisamente os membros do grupo experimentam diretamente como limitao de seus raios de autonomia.25 Nessa medida, um reconhecimento normalizante no pode motivar a desenvolver uma autoimagem afirmativa que conduza admisso voluntria de tarefas e sacrifcios determinados que lhes so impostos por um outro. Mais difceis ainda so, sobretudo, os casos em que apenas supomos o efeito da normalizao, sem para isso possuir o ponto de apoio emprico de um mal-estar ou pretenso do prprio concernido. Nessas situaes, ligam-se s distines tomadas como negativas a hiptese de que, de posse do conhecimento exaustivo das circunstncias, os concernidos teriam de recusar a definio dessas peculiaridades, uma vez que elas limitariam suas autonomias. Essa suposio leva basicamente tese de que um determinado modelo de reconhecimento atua de maneira “normalizante” se uma atribuio de identidade limitadora, valorativamente ultrapassada, conservada sem justificao, enquanto “ideologias” do reconhecimento s podem manter aquele efeito destitudo de represso que as caracteriza com a ajuda de enunciaes de valor conformes ao tempo e racionais de um ponto de vista valorativo.

Talvez ainda se deixe nomear uma terceira condio que precisa ser dada a fim de que formas do reconhecimento social possam assumir uma funo ideolgica: essas enunciaes de valor no tm de ser apenas positivas e crveis mas elas tambm tm de ser contrastantes, no sentido de trazerem expresso, a cada vez, um novo valor ou um desempenho particular. Essa limitao resulta do fato de que os indivduos s possuem a possibilidade de se identificar com as determinaes que lhes so vlidas, se, sua luz, eles puderem se sentir distinguidos. Assim, a enunciao de valor que eles utilizam sobre si mesmos tem de provar um contraste em comparao com o passado ou com a ordem social circundante que oferea uma garantia para o sentimento de uma distino peculiar. Se, no entanto, uma forma existente de reconhecimento social expandida apenas para incluir um crculo social que at agora foi dela excludo, esse momento de decisiva importncia do sentimento de uma distino peculiar que desperta a disposio motivacional para a sujeio voluntria pode estar ausente.

Com essas trs limitaes, que so seguramente de pesos diferentes, comecei a tracejar as condies sob as quais ideologias do reconhecimento so potencialmente eficazes. Elas s podem exercer a funo de evocar uma relao-a-si individual que venha a motivar a admisso voluntria de servios e tarefas se as enunciaes de valor a eles vinculadas forem, ao mesmo tempo, positivas, crveis e, em certa medida, contrastantes. Mas, tomadas em conjunto, essas condies para o xito tambm j deixam, ao mesmo tempo, claro que tais ideologias no podem apresentar sistemas simplesmente irracionais de convices; elas tambm precisam, antes, mobilizar razes valorativas que possuam poder de convencimento suficiente em meio s condies dadas, a fim de motivar racionalmente seus destinatrios a aplicar essas razes a si mesmos. Em oposio a ideologias de traos excludentes que virtualmente saltam o horizonte valorativo de percepo do presente na medida em que se fazem cegas a determinadas peculiaridades de valor de grupos de pessoas, ideologias do reconhecimento operam no “espao das razes” historicamente existente: elas apenas ampliam, por assim dizer, as peculiaridades valorativas que aprendemos a perceber nas outras pessoas, por meio do acento de uma nova significao que, quando bem empregado, tem a peculiaridade de produzir uma relao a si adaptada e funcionalista. Como inerente a toda nova acentuao de reconhecimento social, tambm essas ideologias racionais esto atreladas ao horizonte de valor que compreende a cultura normativa do reconhecimento nas sociedades modernas. Assim elas tambm no podem se esquivar de se servir semanticamente daqueles princpios do amor, da igualdade jurdica ou da justa compensao por desempenho que organizam as relaes dadas de reconhecimento recproco at o cerne de nossa percepo valorativa. A pergunta que ns temos de fazer, portanto, consiste em saber como se deixam diferenciar, dentro dessas condies, formas justificadas e no-justificadas de reconhecimento social. A partir de que ponto uma nova acentuao torna-se uma ideologia que possui apenas o efeito de evocar uma relao a si conforme a um dado papel social?

A extenso completa das dificuldades que se colocam aqui no se torna por certo clara enquanto ns no nos conscientizarmos de que o desenvolvimento histrico do reconhecimento geralmente se consuma na forma de uma explorao de novos pontos de vista no horizonte de princpios universais. Sempre evocao de um princpio de reconhecimento superior, uma distino particular nova e at aqui desprezada posta em circulao; sua considerao compele expanso do horizonte valorativo de percepo e, com isso, a aceder a uma intensificao do reconhecimento. Assim, segundo penso, pode-se afirmar que, nos ltimos dois sculos, novos carecimentos foram trazidos constantemente tona ao chamado do sentido normativo de “amor” - para citar apenas dois exemplos, o bem-estar da criana e o carecimento de autonomia das mulheres, que, paulatinamente, levaram ao aprofundamento do cuidado e da dedicao recprocos. A mesma dinmica tambm se deixa observar ,naturalmente, nas relaes de reconhecimento do direito moderno em que o processo de reclamaes judiciais de condies de vida at aqui desprezadas levou a um inequvoco aumento da igualdade de direito. Eu falaria dessa dialtica do universal e do particular mesmo em relao ao princpio de distribuio conforme o desempenho do trabalho [Leistungsprinzip], porque quanto a essa questo uma ininterrupta luta simblica pelo significado disso que deve chamar-se “desempenho” [Leistung] ou mrito trouxe-nos, cada vez mais, para o limiar de um tempo, onde se comea a sobressair um entendimento mais amplo de contribuies e desempenhos sociais. Contudo, quanto mais precisamente ns tomamos conhecimento que as relaes de reconhecimento mudaram, e sim, se expandiram e melhoraram historicamente atravs de novas acentuaes de princpios universais, tanto mais difcil vai se tornar, em meio correnteza desse fluxo de significaes, a identificao de formas apenas ideolgicas de reconhecimento. Pois quem nos garante que no caso de uma nova valorao ideolgica, aparentemente funcionalista, no estamos lidando, de novo, apenas com um deslocamento de acentuao a que a luta por reconhecimento progrediu historicamente? O caso simples somente l onde os concernidos se voltam, eles mesmos, contra uma nova forma de distino valorativa. Aqui, ns temos ao menos uma primeira razo para colocar em questo a legitimidade das formas modificadas de reconhecimento e para apresentar a suspeita de uma ideologia. Mas onde no h um tal protesto, onde os sujeitos, eventualmente sob o efeito das novas formas de reconhecimento, aparentam alcanar um respeito mais forte de si, ali faltam-nos primeiramente todos os critrios para diferenciar entre deslocamentos ideolgicos e justificados de acentuao. Na ltima parte da minha reflexo, eu quero representar um exemplo dos tempos mais recentes para com isso esboar, ao menos, os primeiros rudimentos da resoluo da pergunta.

III.

Vimos at aqui que ideologias do reconhecimento tm de apresentar classificaes positivas, cujo teor valorativo seja a tal ponto crvel que elas possam ser aceitas por meio de boas razes pelos seus destinatrios: a relao a si dos mesmos tem de poder ser alterada luz da nova distino de modo a lhes acenar com o prmio psicolgico de um elevado autorespeito na medida em que consigam apropriar-se efetivamente das capacidades, dos carecimentos e das virtudes associadas a essa distino.

Hoje, os mais imediatos candidatos de uma tal ideologia parecem ser contedos publicitrios que configuraram iconograficamente o esquema do reconhecimento a tal ponto que um determinado grupo de pessoas se veja positivamente desafiado a adaptar seus prprios modos de comportamento a uma lista dada de standards. A meta desejada atingida quando o exerccio da prtica a ela correspondente s possvel com o auxlio do artigo de consumo que o spot publicitrio mais ou menos dissimuladamente anunciara. De toda forma, o exemplo da publicidade de consumo s apropriado para ilustrar as peculiaridades atravs das quais as ideologias do reconhecimento so caracterizadas sob certas condies, pois, em geral, esses contedos publicitrios s so recebidos sob a reserva mental daqueles que sabem que eles no oferecem nada alm de fices de modo que eles no podem intervir de forma efetivamente transformadora na prtica cotidiana. Mas se certas publicidades transpassam esse limiar e atuam efetivamente de maneira a conformar comportamentos, ento determinados produtos publicitrios tambm exercem precisamente o mesmo poder que convm s formas ideolgicas de reconhecimento: elas possuem assim a capacidade “regulativa” de produzir modos de comportamento por vincular a sua execuo com a vantagem da aquisio de sentimento de autoestima e aprovao pblica. O poder que as ideologias do reconhecimento exercem , desse modo, bem no sentido de Foucault, a um s tempo, produtivo e sem represso. Ao prometer reconhecimento social demonstrao subjetiva de determinadas capacidades, carecimentos ou desejos, elas criam a disposio para a adoo de uma rede de prticas e modos de comportamento que esto sintonizados funo de reproduo da dominao social.26 Mas mesmo com essa elucidao conceitual do tipo de poder que as ideologias do reconhecimento representam, ainda no est naturalmente respondida a questo de como elas deixam-se identificar enquanto tais em uma correnteza ininterrupta e de vrias camadas de luta por reconhecimento. A comparao com a propaganda moderna torna por certo claro que essas ideologias tm de possuir um trao apelativo que sustente retoricamente sua credibilidade valorativa; no entanto, as fundamentadas reivindicaes de nossos dias por novas acentuaes no reconhecimento social tambm no passam mais sem os elementos de uma poltica simblica que lhes chame a ateno pblica. Ao invs de continuar a explicar essa questo apenas conceitualmente, no que se segue, desejo utilizar um exemplo emprico e atravs de sua descrio espero conseguir uma elucidao mais precisa. Dos inmeros novos modelos de reconhecimento que se desenham hoje em nossa cultura social - a revalorizao do trabalho domstico feminino em conexo com o princpio de remunerao conforme o princpio de desempenho, a considerao da filiao das minorias culturais em conexo com a igualdade jurdica, a ideia de um reconhecimento do “trabalho cvico” [Brgerarbeit] - eu quero me valer de um caso que j possui de antemo todos os sinais de uma pura “ideologia” do reconhecimento. A explicao do caso deve mostrar se eu posso encontrar critrios que ofeream indicaes mais seguras sobre o teor ideolgico das formas de reconhecimento.

Uma mudana estrutural de profundo alcance ocorre em tempos mais recentes nas esferas do trabalho do capitalismo mais desenvolvido, cuja consequncia advm que os empregados so interpelados [adressiert] de uma nova maneira. Na literatura do management de nossos dias, no se trata mais simplesmente de “assalariados” [Lohnabhngigen] ou de “foras de trabalhos”, mas de criativos “empreendedores da prpria fora de trabalho” [Arbeitskraftunternehmer].27 O deslocamento de acentuao que acompanha essa modificao de nomenclatura liga-se ao discurso da autorrealizao individual, a fim de traduzi-la em fator de desempenho na esfera dos servios e da produo no quadro da organizao do trabalho. Os crescentes carecimentos de autorrealizao devem vir ao encontro das esferas do trabalho de modo que, atravs da flexibilizao das hierarquias, do crescimento da autonomia dos teams e de um maior grau de autopromoo, aumentem as chances de que a atividade seja compreendida como exteriorizao autnoma de capacidades aprendidas. Para alm disso, no entanto, uma imagem completamente modificada da profisso parece acompanhar essa nova interpelao [Adressierung], em que os sujeitos no devem conceber a sua atividade como o cumprimento de uma necessidade mas como realizao de uma “vocao” [Berufung]. A ideia de chamar os empregados de empreendedores de si mesmos, leva-nos a apresentar toda troca de lugar de trabalho ou toda a nova relao dos empregados como resultado de uma deciso prpria que se orienta unicamente pelo valor intrnseco de cada trabalho. Portanto, aparentemente, junto com a modificao da interpelao, implementa-se tambm uma nova acentuao do antigo princpio de desempenho [Leistungsprinzip], porque agora sero conferidas aos empregados dependentes todas as competncias [Leistungen] autnomas, criativas e flexveis, que at aqui eram reservadas apenas ao empreendedor de tipo clssico. Essa nova forma de reconhecimento dita que toda a fora de trabalho qualificada est assim em condies de planejar o prprio caminho profissional como o arriscado investimento em que se emprega autonomamente todas as suas capacidades.

Nessas formas modificadas de interpelar os empregados encontram-se, certamente, os traos gerais que nos fazem redescobrir exatamente aquela forma de reconhecimento que eu antes descrevi como “ideologia” de poder regulativo. A suspeita que se levanta por conta desse exemplo de que o deslocamento da acentuao do reconhecimento preenche aqui, sobretudo, a funo de evocar uma nova relao a si que motiva a assuno voluntria de cargas de trabalho consideravelmente elevadas. A flexibilizao e a desregulao do trabalho, que acompanham a transformao estrutural do capitalismo neoliberal, requerem competncias de autopropaganda produtiva [produktive Selbstvermarktung], que a utilizao da denominao recognocitiva “empreendedores da prpria fora de trabalho”28 contribui precisamente para criar. Mas entre essa suspeita inicial e uma afirmao fundamentada, h um abismo terico cuja superao requer critrios que s so dificilmente desenvolvidos. Se a nova interpelao deve se tratar efetivamente de um reconhecimento, ento, antes de mais nada, tm de ser consideradas preenchidas as condies que eu anteriormente descrevi como caractersticas de uma tal ideologia: os sujeitos possurem boas razes do tipo valorativo para relacionarem a si as modificadas distines, de maneira que, nesse caso, eles alcanassem um grau mais elevado do sentimento de autoestima ou autorrespeito. Com isso, todo caminho real da crtica ideolgica, que consiste em comprovar a irracionalidade de um sistema de convencimento tido como ideolgico, est interditado; pois de uma perspectiva valorativa ao menos, a nova forma de reconhecimento tem de ser racional ao ponto de que ela seja percebida como suficientemente “crvel” pelos empregados para que eles possam utiliz-la por si mesmos. Nessa medida, ainda me parece aconselhvel elencar da forma mais detalhada possvel as condies a serem preenchidas pelo reconhecimento social, de modo que possivelmente encontremos os dficits atravs dos quais as ideologias do reconhecimento so caracterizadas. Para essa finalidade, tenho de retomar o fio da minha argumentao onde eu o deixei quando apresentei o reconhecimento como a reao moral, racionalmente adequada, peculiaridade de valores dos homens.

J bem no comeo de minhas reflexes, apontei que o reconhecimento no deve se esgotar em meras palavras ou externaes simblicas mas tem de estar acompanhado de aes que as credenciem. Um ato de reconhecimento , em certa medida, incompleto enquanto ele no resulta em modos de comportamento que tambm tragam efetivamente expresso os valores articulados. De toda forma, s tem sentido falar de “realizao” do reconhecimento em determinados modos de comportamento, na medida em que ns estamos lidando apenas com o caso de interaes simples em que dois homens esto frente a frente; to logo, no entanto, ns trocamos de escala e temos diante dos olhos casos de reconhecimento generalizado, tal como so exercidos por instituies sociais, ns no podemos mais meramente supor a consumao do reconhecimento em formas de interao ou modos de comportamento correspondentes. Certamente, o reconhecimento institucionalmente generalizado, a longo prazo, tambm tenderia a se reverter em uma modificao nas formas de comportamento [Habitusformen], mas a primeira fonte de sua realizao consiste ela mesma no terreno de medidas e providncias institucionais. Quando novos modos de reconhecimento generalizado so implementados socialmente, determinaes de direito precisam ser alteradas, outras formas de representao poltica tm de ser estabelecidas, redistribuies materiais tm de ser efetuadas.

disso, portanto, que provm a necessidade de tambm considerar ao lado do componente valorativo um segundo componente, “material”, concernente credibilidade do reconhecimento social, que, dependendo do grau de complexidade das interaes sociais, consiste em modos adequados de comportamento ou em medidas institucionais correspondentes. Uma forma modificada de reconhecimento social s ser crvel quando, no somente ela for racional sob uma perspectiva valorativa mas tambm preencher o pr-requisito de fazer justia nova peculiaridade de valor do ponto de vista material - alguma coisa no mundo fsico dos modos de comportamento ou dados institucionais tem de ter sido modificada para que o interpelado possa ficar efetivamente convencido de que ele reconhecido de uma nova maneira.29

esse segundo, esse componente “material”, que pode oferecer uma chave a essa difcil tarefa de diferenciar formas ideolgicas e legtimas de reconhecimento. Tal como vimos, ideologias do reconhecimento podem desenvolver o seu poder regulativo apenas se o seu vocabulrio valorativo for suficientemente racional para abrir aos destinatrios maneiras crveis de novas e positivas relaes a si. Em geral, tais ideologias tornam-se tanto mais exitosas quanto mais fortemente elas se voltam para expectativas valorativas que apontam na direo do progresso da cultura do reconhecimento recproco. Mas o dficit pelo qual essas ideologias so identificveis tende a figurar como a incapacidade estrutural de assegurar os pr-requisitos materiais a partir dos quais as novas peculiaridades valorativas podem ser efetivamente realizadas pelos concernidos: entre o prometer valorativo e a realizao material abre-se um abismo, que, nessa medida, caracterstico, porque a proviso dos pr-requisitos institucionais no seria mais concilivel com a ordem dominante da sociedade. Se ns aplicamos esse critrio ao exemplo que eu descrevi anteriormente, ento, segundo penso, ele se provar proveitoso. A nova maneira de interpelar os empregados e os trabalhadores qualificados como “empreendedores da prpria fora de trabalho” contm, do lado valorativo, a promessa de reconhecer um grau mais elevado de individualidade e de motivao intrnseca ao prprio trabalho, no entanto, ela no assegura, por si mesma, as polticas institucionais que permitiriam uma realizao consistente dos novos valores; antes, os interpelados so compelidos por condies inalteradas de trabalho a simular motivao, flexibilidade e aptides, l onde suas prprias trajetrias individuais [eigenen Bildungsgeschichte] no oferecem razes. A nova forma de reconhecimento no deficitria ou irracional da perspectiva valorativa, mas no basta s requisies materiais nas quais a credibilidade do reconhecimento justificado se mediria plenamente, uma vez que as providncias, que seriam necessrias para realizar biograficamente o valor recentemente acentuado, no so disponibilizadas com o ato do reconhecimento. Mas se apenas esses componentes do preenchimento material so contados como as condies que, quando tomadas em conjunto, constituem a racionalidade do reconhecimento, ento, pode-se falar que as ideologias do reconhecimento sofrem de um segundo nvel de dficit de reconhecimento. Mesmo que elas possam ser racionais no sentido de que relacionam seu vocabulrio a partir do reino historicamente mutvel das razes valorativas, elas ainda se provam como irracionais na medida em que no levam a cabo o ato do reconhecimento para alm do plano meramente simblico atingindo o preenchimento material. Um segundo caso de novo tipo de reconhecimento que, sob esse aspecto, pode se mostrar como ideolgico a atual conversa que virou moda do “trabalho cvico”: tambm aqui conferido a um grupo social uma distino simblica, que pode motivar novas formas de sujeio voluntria sem que as correspondentes medidas no plano institucional sejam introduzidas.

Certamente, o critrio assim formulado no nos deve extraviar para uma hermenutica da suspeita que toma seu assunto sempre como j sobejamente conhecido. Pois no nunca de se excluir que entre a promessa valorativa e o preenchimento material abra-se somente uma distncia temporal providenciada pela demora na realizao dos pr-requisitos institucionais. Tal como no caso das interaes simples, no plano do reconhecimento institucional, ns tambm podemos frequentemente contar com processos de aprendizado de longo termo antes que o teor valorativo de uma nova forma de reconhecimento possa ser sedimentado em novos modos de comportamento ou arranjos institucionais. Mas, tudo somado, o critrio do preenchimento material nos pe mo um proveitoso instrumento para testar, previamente, se a modificao de um aspecto do reconhecimento se trata, factualmente, apenas de um crescimento de poder regulativo. Esses modelos institucionais de distino valorativa em que est ausente qualquer perspectiva de um preenchimento material, ns podemos, com conscincia tranquila, chamar de “ideologia” do reconhecimento.






























fevereiro #

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ilustrao:Rafael Moralez


 



1 Agradeo muito pelos valiosos conselhos e indagaes aos participantes da conferncia sobre “Power and Recognition” na Universidade de Utrecht (13-15 Maro 2003), do colquio “Philosophy and Social Sciences” em Praga (20-24 Maio 2004) e ao meu prprio colquio de pesquisa sobre filosofia social; ajudaram-me particularmente no correr dessas discusses as indicaes de Bert van den Brink, Rahel Jaeggi e Daniel Owen. [Este texto foi primeiramente publicado na revista do Instituto de Pesquisa Social, WestEnd Neue Zeitschrift fr Sozialforschung. I. (2004) Heft 1: 51-70. Mais recentemente, foi coligido e republicado no livro de ensaios do autor: Das Ich im Wir: Studien zur Anerkennungstheorie. Frankfurt: Suhrkamp, 2010, pp.103-130. Para esta traduo, recorri muitas vezes traduo francesa de Oliver Voirol (cf.: Honneth, A. La socit du mpris: Vers une nouvelle Theorie critique (ed. et. Oliver Voirol). Paris: La Dcouverte, 2006, pp.245-274), que me foi gentilmente cedida pelo prof. Marcos Nobre, a quem agradeo. (N.T.)]

2 Patchen Markell, Bound by Recognition, Princeton University Press, Princeton/Oxford, 2003; Kelly Olivier, Witnessing. Beyond Recognition, University of Minneapolis, 2001; Markus Verweyst, Das Begehren der Anerkennung. Subjekttheoretische Positionen bei Heidegger, Sartre, Freud and Lacan, Campus, Francfort/New York, 2000.

3 Louis Althusser, Aparelhos Ideolgicos de Estado. (trad. Walter J. Evangelista e Maria L. V. de Castro. Rio de Janeiro: Edies Graal, 1985.

4 Judith Butler “'Conscience Doth Make Subjects of Us All': Althusser's Subjection”, pp. 106-131. In: The Psychic Life of Power: Theories in Sujection. Standfort: Standfort University Press, 1997.

 


5 Raymond Geuss, Teoria Crtica: Habermas e a Escola de Frankfurt (trad. Bento Itamar Borges), Campinas, Papirus, 1988, cap.1.

6 Raymond Geuss, op. cit., p. 23 ss.

7 Axel Honneth “Die soziale Dynamik von Missachtung. Zur Ortsbestimmung einer kritischen Gesellschaftstheorie”, In: __, Das Andere der Gerechtigkeit. Aufstze zur praktischen Philosophie, Frankfurt/M: Suhrkamp, 2000.

8 Cf.: Gert Raeithel, Geschichte der nordamerikanischen Kultur.Bd 1: Vom Puritanismus zum Brgerkrieg 1600-1860, Frankfurt/ M. 1995, Cap. XXXI.

9 Cc.: Karin Hausen, “Die Polarisierung der 'Geschlechtercharaktere' - Eine Spiegelung der Dissoziation von Erwerbs- und Familienleben”, in: Werner Conze (Hg.), Sozialgeschichte der Familie in der Neuzeit Europas, Stuttgart 1976, pp.363-393; Brbel Khn, “Vom Schalten und Walten der Hausfrau. Hausarbeit in Rat, Tat und Forschung i 19. und 20. Jahrhundert”, in: Birgit Bolognese-Leuchtenmller und Michael Mitterauer (Hg.), Frauen-Arbeitswelten. Zur historischen Genese gegenwrtiger Probleme, Wien 1993, pp. 43-66.

10 Schilling, Ren, Kriegshelden. Deutungsmuster heroischer Mnnlichkeit in Deutschland 1813-1945, Paderborn 2002.

 


11 Para o que se segue: Honneth, A. “Der Grund der Anerkennung. Eine Erwiderung auf kritische Rckfragen”, 2004a)

12 Avishai Margalit, “Recognition II: Recognizing the Brother and the Others”, in: Aristotelian Society Supplementary, 75 (2001), pp. 127-139.

13 Stanley Cavell, “Knowing and acknowledging” In: Must we mean what we say? A Book of Essays. Cambrigde: Cambridge University Press, 2002.

14 Cf.: Heikki Ikheimo “On the Genus and Species of Recognition”, in: INQUIRY 45, 2002, Vol.45 (4), pp. 447-462; Arto Laitinen, “Interpersonal Recognition: A Response to Value or a Precondition of Personhood?” in: INQUIRY 45 2002, Vol.45 (4), pp. 463-478.

15 Aqui mostra-se certamente, em relao a Althusser, uma diferena, que est to profundamente mergulhada social-ontologicamente, que ela aqui mal se deixa explicar adequadamente. Por razes de princpio, Althusser no concede nenhuma chance aos sujeitos de ganhar um grau mais alto de autonomia em suas aes e decises cotidianas; ele parte antes do princpio de que os indivduos s podem se tornar sujeitos capazes de identificao social, na medida em que eles so sujeitados a uma rede de regras sociais atravs de uma interpelao pblica que no pode possuir qualquer espao de variao para a autonomia individual. Em contraste a isso, eu parto (com Durkheim) do princpio, que essas regras sociais do reconhecimento tm de deixar se diferenciar precisamente de acordo com os espaos de autonomia para os sujeitos que elas abrem.

16 Laitinen, A. “Interpersonal Recognition: A Response to Value is a Precondition of Personhood?”, in: INQUIRY 2002, Vol.45 (4), p. 463-478.

17 John McDowell, “Two Sorts of Naturalism”, in: Mind, Value, and Reality, Havard: Havard University Press, 2001, pp. 167-197; Eva Lovibond, Ethical Formation, Cambridge/ Mass. : Harvard University Press, 2002, Part II; Axel Honneth, “A irretrocedibilidade do progresso: a determinao kantiana da relao entre moral e histria” In: Peres, D.; Mattos, F.; Repa, L.; Keinert, M. Melo, R. et ali (orgs.) Tenses e Passagens: filosofia crtica e modernidade. So Paulo : Esfera Pblica/Singular, 2008, pp.27-42.


18 Cf. sobre isso, Axel Honneth, “Zwischen Hermeneutik und Hegelianismus. John McDowell und die Herausforderung des moralischen Realismus”, in: __, Unsichtbarkeit. Stationen einer Theorie der Intersubjektivitt, Frankfurt/M: Suhrkamp, 2003, pp. 106-137.

19 Cf. Axel Honneth, “A irretrocedibilidade do progresso: a determinao kantiana da relao entre moral e histria”, 2008.

20 Karl Marx O Capital: Crtica da Economia Poltica. Tomo I. So Paulo : Nova Cultural, 1985. (trad. Flvio Kothe; Regis Barbosa:).

21 Emmanuel Renault, “Reconnaissance, Institutions, Injustice”, in: De la reconnaissance, Revue du Mauss, Semestrielle 23 (2004), pp. 180-195.

22 Immanuel Kant, Fundamentao da Metafsica dos Costumes, So Paulo: Discurso Editorial, 2009 (trad., introd., notas Guido Antnio de Almeida), pp.131-133, Anotao 2, B: 16-17/ Ak 401.[Cabe destacar que na edio da Fundamentao da Metafsica dos Costumes de que se vale o autor (a saber, Immanuel Kant Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. Hamburg: Felix Meiner, 1999) est escrito “eine Vorstellung von einem Wert” e no “jede Vorstellung von einem Wert” (grifos meus) como citado por Honneth no artigo. O trecho completo da citao de Kant na traduo de Guido de Almeida : 'O respeito propriamente a representao de um valor que faz derrogao (Abbruch) ao amor-de-mim-mesmo (eigene Selbstliebe)'. (N.T.)]”.

23 Axel Honneth “Umverteilung als Anerkennung. Eine Erwiderung auf Nancy Fraser”, in: Nancy Fraser und Axel Honneth, Umverteilung oder Anerkennung? Eine politisch-philosophische Kontroverse, Frankfurt/M. 2003, pp. 129-224.

24 Caroline Emcke, Kollektive Identitten. Sozialphilosophische Grundlagen, Frankfurt/ M. 2000; Hans-Uwe Rsner, Jenseits normalisierender Anerkennung. Reflexionen zum Verhltnis von Macht und Behindertsein, Frankfurt/ New York 2002.

25 Emcke, Kollektive Identitten, 237 ss.

26 Wolfgang Detel, Macht, Moral, Wissen. Foucault und die klassische Antike, Frankfurt/M. 1998, p. 55 ss.

27 Sven Opitz, Gouvernementalitt im Postfordismus. Macht, Wissen und Techniken des Selbst im Feld unternehmerischer Rationalitt, Hamburg 2004, Kap. 8; Gnther Voss und Hans J. Pongratz, “Der Arbeitskraftunternehmer. Eine neue Grundform der Ware Arbeitskraft?”, in: Klner Zeitschrift fr Soziologie und Sozialpsychologie, 50 (1989), pp. 131-158.

28 Opitz, Gouvernementalitt im Postfordismus, Kap.8.

 

 

29 Nesse sentido, John L. Austin (Quando dizer fazer. Porto Alegre: Artes Mdicas, 1990) fala que certas afirmaes performativas s podem ser tomadas como bem-sucedidas ou consumadas, se, como seu resultado, fez-se “isto ou aquilo”. No conceito de “realizao material”, eu transponho sua anlise das afirmaes performativas ao caso especfico do “reconhecimento”.