revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

 

Luiz MARQUES

A regresso ao carvo1

 

Sabemos que para manter o aquecimento global a nveis no superiores a 2-2,4 C at 2100, as emisses de gases de efeito estufa devem ser estabilizadas at 2015 e, at 2050, diminudas em 50% em relao aos nveis atuais.2 Essa meta ainda poderia ser atingida hoje e poderia mesmo ser superada, como afirma o “Relatrio Especial sobre as Fontes de Energia Renovvel e a Mitigao das Mudanas Climticas” apresentado pelo IPCC em Abu Dhabi em 9 de maio de 2011, conhecido pela sigla SRREN (Special Report on Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation). Segundo esse relatrio:3

perto de 80% do suprimento de energia mundial poder ser satisfeito por fontes renovveis em meados do sculo, se se promoverem polticas pblicas adequadas. Isto evitaria lanar na atmosfera 220 a 560 Gigatoneladas de CO2-eq (GtC02eq) entre 2010 e 2050.

No h por que duvidar de nossa capacidade tecnolgica de atingir essa meta at 2050. Mas como o fluxo global de investimentos e as tomadas de deciso emanam de uma rede corporativa estreitamente vinculada economia dos combustveis fsseis, e portanto contrria a essas “polticas pblicas adequadas”, a perspectiva de avanos significativos no sentido preconizado pelo SRREN absolutamente irrealista.
O carvo , globalmente, o mais importante fator no aumento das concentraes atmosfricas de CO2. Segundo Maria van der Hoeven, diretora-executiva da Agncia Internacional de Energia (AIE): “Mais de trs quintos do aumento das emisses de CO2 desde 2000 devem-se queima de carvo para produzir eletricidade e calor”.4 Os dados da Clean Coal Centre da Agncia Internacional de Energia (IEA) mostram que h atualmente no mundo 2300 estaes geradoras de energia movidas a carvo (coal-fired power stations), 620 das quais esto na China.5 Dado que 1142 delas encontram-se nos Estados Unidos,6 entende-se sem dificuldade a suposta “guerra contra o carvo”, mote lanado por Daniel P. Schrag, membro do Conselho de Cincia e Tecnologia da Casa Branca, e to alardeado pela imprensa.7 Observa-se, de fato, certa mobilizao global contra o carvo: algumas usinas termeltricas de carvo sero descontinuadas a curto e mdio prazo na China e nos EUA; o carvo perdeu atratividade para alguns investidores e o Banco Mundial est restringindo o financiamento a novas usinas termeltricas a carvo. Alm disso, as populaes imediatamente vitimadas pela poluio gerada pela extrao, transporte, processamento e queima do carvo comeam a dar mostras de impacincia, fato que no se verifica apenas nos Estados Unidos e na China.
Mas nada disso decisivo. A inapetncia pelo carvo to somente uma questo de rentabilidade:

as emisses de CO2 a partir de termeltricas movidas a carvo caram 13,1% entre 2005 e 2012, segundo a U.S. Energy Information Administration, mas aumentaram 7,1% no primeiro quarto deste ano [2013]; as usinas comearam a queimar carvo medida que os preos do gs natural aumentaram.8

A debilidade do Presidente Obama frente aos lobbies do carvo notria. As normas baixadas em 20 de setembro de 2013 pela Environmental Protection Agency (EPA), regulamentando a captura de carbono para as novas (e apenas estas) usinas termeltricas base de carvo, suscitaram a reao da Peabody Energy, a maior corporao de carvo do mundo, para quem essa normatizao est “fora do reino da lei, fracassa em proteger o consumidor norte-americano e agredir a confiabilidade eltrica e a habilidade norte-americana para competir”9 . Dado o histrico de Obama, a atual correlao de foras e o Coal Caucus formado por um grupo bipartidrio de deputados dispostos a derrubar essas normas,10 no parece promissor apostar no presidente. Como se no bastasse, a atual tecnologia de captura de carbono to ineficiente que emite quase tanto carbono em sua instalao e operao quanto o captura... Em relao aos escrpulos do Banco Mundial, h muitas fontes de investimento alternativas, de modo que, globalmente, como se ver adiante, os projetos de novas usinas termeltricas base de carvo vo de vento em popa. A insatisfao popular, enfim, em seu estado atual de organizao, mal arranhar a tendncia ao crescimento mundial do carvo.
Analistas das mais diversas procedncias dizem-no em unssono: o carvo continuar sua tendncia ascensional. Maria van der Hoeven, j citada, afirma: “Gostemos ou no, o carvo est aqui para ficar ainda por um longo tempo”.11 Colin Marshall, diretor executivo da Cloud Peak Energy, outra das maiores corporaes do carvo nos EUA, declarou em setembro de 2013: “Se a histria significa algo, o mundo em poucos anos necessitar de mais commodities, metais e energia, incluindo carvo”.12 Andy Roberts, da Wood Mackenzie ecoa: “O crescimento ser menor, mas continuar a ocorrer e simplesmente no vemos o pico do carvo”.13 Os nmeros so igualmente eloquentes e mostram que nos ltimos dez anos a produo mundial no cessou de aumentar:

Produo mundial de carvo em gigatoneladas entre 2003 e 2011

2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011

5,3 5,71 6,03 6,34 6,57 6,79 6,88 7,22 7,69

Fonte: BP Statistical Review of World Energy. Junho de 2012 (em rede)

Em 2012, a produo global de carvo foi de 7,83 Gt.14 Em dez anos, houve, portanto, um aumento de cerca de 45% na produo global de carvo, ao passo que a populao mundial aumentou no mesmo perodo de 6,35 a 7,08 bilhes, isto , em apenas pouco mais de 10%. Em 2013, a produo continuou a aumentar. “Extramos hoje 8 a 9 Gigatoneladas de carvo por ano e estima-se que em 2030 sero extrados 13 Gt por ano (...). Uma Gt mais que duas Muralhas da China que tem 6250 km de comprimento.”15 Outro modo de perceber esse aumento contnuo em nosso sculo exprimi-lo em termos de consumo de toneladas de petrleo equivalente. A figura 1 mostra um aumento de 56% nesse consumo entre 2001 e 2011, com uma taxa de crescimento econmico global na dcada de 4,4%, e de 5,4% nos pases fora da OCDE.16

1. Consumo global de carvo em milhes
de toneladas de petrleo equivalente

Fonte: http://gregor.us/coal/the-world-turns-to-coal/
a partir de BP Statistical Review of World Energy June 2013

O carvo a derriso das epopeias compostas maior glria da revoluo tecnolgica permanente do capitalismo. No mundo imaginado por essas grandes narrativas, uma nova idade do homem, movida a energias mais limpas, renovveis e eficientes - solar, hidrognio, fuso nuclear, nitrognio, geotrmica, elica, martima, etc. - estaria j se descortinando. No mundo real, vivemos hoje uma histrica regresso ao carvo, isto , infncia da Revoluo Industrial. Em 1880, 97% da energia primria consumida no mundo provinha do carvo, enquanto em 1970, s vsperas da primeira crise do petrleo, apenas 12% era oriunda dele. Mas em 2004, essa porcentagem mais que dobrara, atingindo 26%, enquanto em 2010, ela ainda progredira de um ponto percentual, atingindo 27% (sendo que 81,3% da oferta global de energia primria provinha ento de combustveis fsseis). Em seu ltimo relatrio, de junho de 2013, a BP Statistical Review of World Energy afirma que o carvo atingiu em 2012 quase 30% (29,9%) do consumo de energia primria no planeta:17

Participao do carvo no consumo de energia primria do planeta

2004 - 26%
2010 - 27%
2012 - 29,9%

O carvo essencial em vrios ramos da indstria, entre os quais na indstria de ao, pois 70% da produo mundial de ao usa carvo (por vezes de origem vegetal) em seus processos produtivos.18 Mas ele utilizado predominantemente na gerao de eletricidade. Segundo a Agncia Internacional de Energia (AIE), em 2012, a queima do carvo correspondeu a cerca de 60%  da produo mundial de energia eltrica gerada a partir de combustveis fsseis e a 41% da produo total  de energia eltrica19 . Eis em 2012 o peso do carvo na gerao de energia eltrica de alguns pases industrializados ou “emergentes”:

 

Participao do carvo
na gerao de energia eltrica

Alemanha 41%
China 79%
Polnia 80%
EUA 45%
Austrlia 78%
frica do Sul 93%
ndia 68%
Fonte: World Coal Association
http://www.worldcoal.org/coal/uses-of-coal/coal-electricity/

Entre 2007 e 2012, a demanda global de carvo aumentou a uma taxa anual de 3,4%. A figura 2 mostra como o suprimento mundial de carvo (expresso em bilhes de toneladas de petrleo equivalente) alcanou em 2011 o suprimento mundial do petrleo na faixa de 4 bilhes de toneladas de petrleo equivalente.

2. Suprimento global de combustveis fsseis
(petrleo = linha de cima; carvo = linha do centro; gs = linha de baixo)
Descrio: Figure 1. World fossil fuel supply based on world production data from BP's 2012 Statistical Review of World Energy.
Fonte: BP Statistical Review of World Energy 2012
http://ourfiniteworld.com/2012/12/19/why-world-coal-consumption-keeps-rising-what-economists-missed/

A Agncia Internacional de Energia (AIE) projeta que a demanda de carvo crescer a uma taxa de 2,3% ao ano at 2018.20 Para o Worldwatch Institute (WWI), em 2017 o carvo substituir o petrleo como fonte primria dominante de energia no planeta.21 A figura 3 mostra que, em 2030, o carvo ser de longe o principal responsvel pela energia eltrica produzida no mundo, conforme os cenrios projetados pela U.S. Energy Information Administration (EIA) e pela Agncia Internacional de Energia (AIE), que, de resto, pouco diferem entre si.

3. Porcentagens da gerao de eletricidade por tipo de fonte geradora - 2030
segundo projees da EIA e da AIE

Descrio: http://www.instituteforenergyresearch.org/wp-content/uploads/2011/02/Fuel-Type-2030.png
Petrleo Gs Carvo Nuclear Hidreltrica Biomassa/elia, outros renovveis

Lixo
Fonte: Institute for Energy Research, “Energy Forecasts Agree on Global Fossil Fuel Domination”, 2011
http://www.instituteforenergyresearch.org/2011/02/22/energy-forecasts-agree-on-global-fossil-fuel-domination/
Algo entre mais de um tero (34%) e quase a metade (43%) da energia eltrica mundial provir em 2030 do carvo. Essas porcentagens variam em funo de se aplicarem (34%) ou no (43%) as polticas preconizadas pela Agncia Internacional de Energia. Na melhor hiptese (34%), o carvo pesar mais que o dobro das hidreltricas e do nuclear, 50% a mais que o gs (22%), sendo que as demais fontes, o petrleo (2%) e as renovveis e de menor impacto ambiental no somaro, juntas, mais que 15%, isto , menos da metade do carvo. Isto na melhor hiptese. Na pior hiptese, a do business as usual, o carvo representar sozinho, com seus 43%, mais que a soma de todas as fontes, com exceo do gs (21%) e quase igualar a soma do gs, do nuclear e da energia hidreltrica (46%). Tanto na melhor quanto na pior hiptese, o futuro, como se v, pertence ao carvo, o mais primitivo, o mais poluente e intensamente emissor de CO2 dentre os combustveis fsseis.
A figura 4, realizado a partir de dados e projees da Agncia Internacional de Energia (AIE), mostra como o aumento do consumo do carvo na gerao de energia eltrica acelera-se a partir do segundo decnio do sculo. Segundo esse quadro, o carvo fornecer 50% do aumento da oferta de energia eltrica nas prximas duas dcadas.

4. Eletricidade global anual segundo as fontes geradoras
(em TWh, de 1990 a 2035)

Fonte: AIE. A partir de Mark P. Mills, The cloud begins with coal. Big Data,
Big Networks, Big Infrastructure and Big Power. An Overview of the Electricity
Used by the Global Digital Ecosystem. Agosto de 2013
http://www.tech-pundit.com/wp-content/uploads/2013/07/Cloud_Begins_With_Coal.pdf?c761ac

 

I. Os quatro fatores que favorecem a opo pelo carvo

(1) O primeiro fator o aumento do preo do petrleo e a percepo de que qualquer eventual queda no seu preo ser conjuntural,22 tal como mostra a figura 5.

5. Evoluo do preo do petrleo desde 1861

Fonte: Price of Petroleum, Wikipedia, a partir de dados fornecidos pela BP Workbook of historical data

Essa percepo apenas a expresso da crescente certeza de que o pico de produo do petrleo lquido ou convencional (excludo o petrleo extrado de areias betuminosas e das rochas de xisto) est para ser atingido ou j foi atingido. Richard Heinberg e Colin Campbell propuseram em 200623 um quadro comparativo das datas em que se estima tenha ocorrido ou esteja para ocorrer o pico do petrleo, isto , o momento em que a curva da produo global de petrleo comea inapelavelmente a decair. Pode-se complet-lo e atualiz-lo aqui com alguns dados suplementares. Segundo as percepes e estimativas dos especialistas abaixo elencados, as datas do pico do petrleo distribuem-se entre 2005 e 2015:

2005 - Kenneth S. Deffeyes. Deffeyes afirma em 2010 que “alguns anos atrs, a Chevron lanou uma srie publicitria afirmando que estvamos queimando dois barris de petrleo para cada novo barril descoberto. Hoje, podemos estar queimando cinco barris para cada novo descoberto”;24

2006 - Henry Groppe, um estudioso veterano das reservas petrolferas, baseado em Huston, declarou numa entrevista em 2005 que “a produo total de petrleo lquido pode ter atingido seu pico neste ano ou talvez poder atingi-lo no prximo”, percepo reiterada em sua conferncia na ASPO em 2006;25

2007 - Ali Samsam Bakhtiari;26

2007 - Richard Duncan (2000);27

2007/2008 - Chris Skrebowsky, editor da Petroleum Review, publicado pelo Energy Institute of London, diretor do Oil Depletion Analysis Center (ODAC), hoje assumida pela The New Economics Foundation (NEF) e membro fundador da ASPO;28

2010 - Colin Campbell, fundador e diretor da ASPO;

2012 - ExxonMobil. Como bem nota Colin Campbell, “muito embora a ExxonMobil nunca empregar o termo pico do petrleo, ela de fato a ele se refere ao afirmar que a produo se tornar estvel at 2012”;29

2013 - Rembrandt Coppelaar;30

2015 - Jean Laherrere;31

2015 - J. Robinson West, criador e diretor da empresa de consultoria PFC Energy de Washington;32

2015 - Robert Hirsch.

Nos anos 2004-2011, conforme Robert Hirsch relata em 2011 na Conferncia anual da ASPO-USA, a produo convencional de petrleo lquido atingiu o que o autor chama “um patamar flutuante de sete anos”, com uma variao positiva de apenas 6% no perodo dentro dessa faixa de 80 a 85 milhes de barris de petrleo produzidos por dia. Suas estimativas e de sua equipe de que este patamar deve permanecer ainda mais um a quatro anos e ento, a partir de 2015, a produo de petrleo comear a declinar a uma taxa de 2% a 4% ao ano, conforme mostra a figura 6.33

6. Estimativa do pico do petrleo segundo Hirsch (2011)

Fonte: R. Hirsch, R. H. Bezdek, R.M. Wendling The Impendig World Energy Mess. Apogee Prime, 2010, p. 128

Heinberg e Campbell mostram previses que atrasam esse pico para depois de 2020, tal como a proposta pela CERA (Cambridge Energy Research Associates) e mesmo para 2037 (United States Geological Survey), mas elas so hoje minoritrias. A prpria Agncia Internacional de Energia projetou em 2008 um declnio de quase 50% na produo de petrleo convencional para 2020 e o relatrio de junho de 2013 da BP afirma:34

O petrleo permanece na liderana mundial dos combustveis com 33,1% do consumo global de energia, mas continua a perder pelo 13 ano consecutivo participao no mercado, sendo essa participao a mais baixa em nossos registros, os quais comearam em 1965

Ao contrrio do petrleo lquido, o carvo ainda abundante, facilmente acessvel e menos desigualmente distribudo no planeta. Segundo a World Coal Association:35

estima-se que h mais de 861 bilhes de toneladas de reservas provadas. Isto significa que haver carvo disponvel nos prximos 112 anos, mantidos os nveis atuais de produo.

Expressas em short tons (1 short ton = 907 kg), essas reservas provadas de carvo montam hoje a pouco mais de 900 bilhes de toneladas, o que equivale a 4.196 BBOE (billion barrels of oil equivalent), isto , energia em carvo equivalente energia fornecida por pouco mais de 4 trilhes de barris de petrleo. Por reservas provadas entendem-se reservas seguramente existentes e acessveis em termos tecnolgicos e econmicos, mantidos os preos atuais, o que est longe de ser o caso das reservas de petrleo, cada vez mais remotas, de extrao perigosa e custosa, alm de no-raro em pases de grande instabilidade poltica.
A figura 7 mostra a abundncia das reservas provadas de carvo em relao ao gs e ao petrleo, conforme sua distribuio em pases ou regies e comparadas em termos de equivalentes energticos de petrleo. Como se v, no haver escassez a curto e mdio prazo de carvo e, com exceo da Amrica do Sul e do Oriente Mdio, regies mal aquinhoadas, essas reservas distribuem-se por 70 pases de modo no to desigual quanto o petrleo lquido.

7. Reservas globais provadas de petrleo lquido, gs
e carvo em bilhes de toneladas de petrleo equivalente

Descrio: http://www.worldcoal.org/media/jpg/585/115105new_fossil_fuel_reserves_to_go_on_where_is_coal_map2012.jpg
Fonte: BP Stastistical Review of World Energy 2011

As reservas de carvo concentram-se sobretudo na frica do Sul, Moambique, ndia, Austrlia, China, Monglia, Rssia e Estados Unidos. Para as burocracias e corporaes russas, chinesas e norte-americanas, a expectativa de lucrar com os 8 trilhes de dlares em que esto avaliadas essas reservas conta mais que argumentos de cunho ambiental. Nada indica, portanto, que a opo pelo carvo seja preterida em benefcio de opes menos impactantes.

(2) O segundo fator que impulsiona o consumo do carvo o declnio dos recursos hdricos. A energia hidreltrica no aumentar doravante sua participao percentual na gerao global de energia eltrica. Como visto na figura acima, segundo a Agncia Internacional de Energia (AIE), em 2011, a gerao de energia eltrica por hidreltricas era da ordem de 16% da gerao global. Em 2030, essa participao permanecer em 16% ou mesmo cair para 14%, segundo a EIA (U.S. Energy Information Agency).

(3) O terceiro fator a recente abundncia de gs extrado por hidrofracionamento nos EUA. A entrada do gs no-convencional no mercado norte-americano abriu uma crise no mercado interno do carvo, o que estimulou a partir de 2009 a via escapatria da exportao, como mostra a figura 8.

8. Exportaes de carvo dos EUA
em milhes de toneladas

Descrio: http://s.wsj.net/public/resources/images/MK-CJ165A_COALE_NS_20140108134204.jpg
Fonte: Alison Sider, “The Future of Coal: Gulf Coast Hums as Exports Rise”.
The Wall Street Journal, 8/I/2014, a partir de Global Trade Information Services (em rede)

O Porto de New Orleans sextuplicou suas exportaes de carvo em relao a 2009, segundo o Departamento de Comrcio dos EUA.36 Os portos de Hampton Roads, no estado da Virgnia, os mais importantes terminais de exportao de carvo nos EUA dobraram sua atividade desde 2009, enquanto as exportaes de carvo provenientes de Baltimore triplicaram no mesmo perodo37 . A imensa jazida de carvo de Powder River Basin, entre os estados de Wyoming e Montana nos EUA, j exporta 7 milhes de toneladas anuais para a sia, mas tem potencial para exportar at 135 milhes de toneladas por ano, caso se construam trs portos projetados para dar vazo a essa demanda38 .

(4) Quarto fator: como visto acima, a ndia, a China, o Japo, a Polnia, a Alemanha, a frica do Sul e os Estados Unidos so crucialmente dependentes do carvo, enquanto a Austrlia nele tem sua principal fonte de receitas de exportao. Cinco dentre as maiores economias do planeta - os EUA, a China, o Japo, a Alemanha e a ndia -, com cerca de 40 trilhes de dlares de PIB (mais da metade do PIB mundial), esto ancoradas no carvo e vm impulsionando esse consumo nos ltimos decnios. O consumo de carvo nos EUA - o segundo maior do mundo depois da China - duplicou nos ltimos quarenta anos, sendo que mais de 90% dele destina-se a alimentar usinas termeltricas.39 Entre 2000 e 2010, a China, o Japo e a ndia aumentaram seu consumo, respectivamente, em 133%, 100% e mais de 40%. Veerappa Moily, que rene nesse pas as funes de Ministro do Petrleo e do Gs Natural e de Ministro do Meio Ambiente, acaba de dar o sinal verde para a abertura de diversas minas de carvo40 . A figura 9 discrimina a participao desses trs pases na curva da demanda desde 1965, sempre com dados expressos em termos de potncia energtica equivalente ao petrleo (petrleo equivalente). O consumo global multiplicou-se por 2,7 nos 47 anos entre 1965 e 2011. Mas mesmo se expurgssemos o consumo da China, ndia e Japo, o consumo de carvo teria ainda assim crescido algo como 20%.

9. Consumo mundial de carvo
em milhes de toneladas equivalentes (mtoe)
Descrio: content_world_coal_consumption
Fonte: Centre for Global Energy Studies
http://www.cges.co.uk/news/755-is-coal-seeing-a-comeback-

A China e a Monglia

No esforo de controlar a poluio atmosfrica, o governo chins proibiu em setembro de 2013 a construo de novas usinas termeltricas nas vizinhanas de Pequim, Shangai e Guangzhou.41 Essas so medidas paliativas que no alteram significativamente o estado da questo. Qualquer reduo no uso de carvo na costa leste da China ser compensada pelo uso na regio oeste, onde se encontram as reservas de carvo e onde vrias provncias tm planos para desenvolv-las.42 O plano 2011-2015 visa a explorao de 860 milhes de toneladas suplementares capazes de acrescer a produo de energia em mais 300 GW. Para tanto, o governo chins aprovou a construo de ao menos mais 15 stios de explorao de carvo, num investimento de 8,9 bilhes de dlares que capacitaram o pas a aumentar sua produo de carvo em mais 100 milhes de toneladas apenas em 2013. Segundo Deng Ping, do Greenpeace, “a indstria do carvo continua a aumentar no noroeste da China. A escala desses complexos foi raramente vista em outros lugares do planeta, com minas a cu aberto, termeltricas movidas a carvo e instalaes qumicas vinculadas indstria do carvo no mesmo lugar”.43 A China aumentou sua produo prpria de carvo a ponto de poder export-lo. Mas o custo do transporte interno entre as minas e as provncias da costa leste to elevado, que prefervel import-lo da Austrlia e dos EUA. Segundo o estudo do Centre for Global Energy Studies (CGES),

essa tendncia continuar no futuro, pois a eletricidade e os setores industriais da China dependem pesadamente de carvo e seu deslocamento interno no facilmente realizado. Alm disso, as reservas domsticas de carvo no so abundantes. A ratio reservas / produo chinesa de 35 anos, o que muito pouco, se comparada com 240 anos nos EUA e 500 na Rssia. Isto significa que por volta de 2015 a China pode ter de importar 2 a 3 vezes mais carvo do que o faz hoje”.44

 

Essa importao se far cada vez menos dos Estados Unidos e cada vez mais da Austrlia e da Monglia, onde a gigantesca mina de Talvan Tolgoi (As Cinco Colinas), a maior mina de carvo de alta qualidade no mundo, situada a apenas 200 km da fronteira chinesa, comea a ser explorada por trs corporaes: a estatal chinesa Shenhua Energy, a norte-americana Peabody Energy e um consrcio russo-mongol.45

Austrlia

No chamado Galilee Basin, situado em Queensland, no nordeste da Austrlia, esto em desenvolvimento nove projetos de minerao de carvo que arrasaro metade dos 8 mil hectares de uma reserva natural, o Bimblebox Nature Refuge, habitat de koalas e de cerca de 150 espcies de pssaros, algumas delas ameaadas de extino.46 Apenas um deles, a mina China First, pertencente ao magnata do carvo, Clive Palmer, poluir por ano 10 bilhes de litros (10 mil megalitros) de gua dessa reserva natural.47 Cinco desses projetos implantaro minas de carvo maiores que qualquer outra atualmente em funcionamento na Austrlia. Apenas o carvo de duas dessas nove novas minas - a Alpha Coal e a Kevin's Corner - emitir no processo de extrao e de queima 125 milhes de toneladas de CO2 equivalente. Segundo clculos do Greenpeace, quando esses nove projetos estiverem operacionais, o carvo do Galilee Basin emitir, nos processos de extrao e queima, 705 milhes de toneladas de CO2 equivalente, o que guindar o Galilee Basin posio de stima “nao” mais emissora desse gs no mundo, atrs apenas da China, EUA, ndia, Rssia, Japo e Alemanha.48
A Austrlia j hoje, sem essas novas minas, a maior exportadora mundial de carvo. Suas exportaes, sobretudo para o Japo, a China, a Coreia do Sul, a ndia e Taiwan, cresceram mais de 50% nos ltimos 10 anos, sendo que a China quase dobrou suas importaes desse pas em 2012.49 A economia da Austrlia depende dessas exportaes, graas s quais ela foi a nica a no se retrair em 2009 no concerto das economias industriais.

Alemanha

O impacto do desastre da usina nuclear de Fukushima Daishii, no Japo, em 2011, tem levado pases de grande envergadura industrial, como o prprio Japo, a Alemanha, a Sua e o Reino Unido, a reverem suas opes energticas em detrimento do nuclear, o que, ao menos a curto e mdio prazo supe um incremento de novas usinas termeltricas. Em 2011, Angela Merkel ordenou a descontinuao dos oito reatores nucleares mais antigos do pas e pretende descontinuar os nove reatores remanescentes at 2022.
Isso implica aumentar o uso do carvo. A Associao de Importadores da Alemanha indicou um incremento de 25% nas importaes de carvo em 2013. Seis novas plantas movidas a carvo com uma capacidade de 4.536 megawatts devem entrar em operao na Alemanha em 2013, segundo os dados do operador nacional de energia do pas, o Bundesnetzagentur. E isso apenas o comeo. “Se quisermos sair da energia nuclear e adotar energias renovveis”, declarou Merkel a seu Parlamento, “necessitaremos de usinas termeltricas durante o perodo de transio. Ao menos 10, mais provavelmente 20 Gigawatts [a partir de usinas movidas a combustveis fsseis], precisam ser construdas nos prximos 10 anos”.
Essas novas plantas funcionaro base de gs e de carvo,50 mas enquanto as usinas movidas a gs so deficitrias, as de carvo so lucrativas. Segundo o Bloomberg, aos preos atuais do carvo, os operadores das plantas movidas a carvo lucraro 8,85 euros por megawatt/hora, ao passo que os operadores de plantas movidas a gs amargaro um prejuzo de 18,74 euros por megawatt/hora, o que tem motivado o fechamento de algumas delas.
As consequncias dessa regresso ao carvo no primeiro PIB da Europa e quarto do mundo j se fazem sentir. Em 2011, o pas emitiu 917 milhes de toneladas de CO2 equivalente e em 2012 aumentou suas emisses para 931 milhes de toneladas de CO2 equivalente. Esse incremento confirma-se em 2013 segundo as estimativas do Instituto DIW (Deutsches Institut fr Wirtschaftsforschung). Claudia Kemfert, diretora da unidade de energia de Berlim do DIW, declarou imprensa: “A tendncia de aumento de emisses de CO2 na Alemanha alarmante”. De seu lado, Gerald Neubauer, do Greenpeace da Alemanha, declarou: “O aumento do consumo de carvo desastroso para a poltica relativa ao clima e um mau sinal para a transio energtica na Alemanha”.

II. 1199 novas usinas termeltricas movidas a carvo

Em 2007 e nos anos subsequentes, “a China construiu, por semana, duas usinas termeltricas movidas a carvo com capacidade equivalente a cerca de 500 megawatts (MW). Cada uma dessas usinas de 500 MW gera por ano 3 milhes de toneladas de dixido de carbono”.51 Em 2012, ela continua construindo uma usina de propores comparveis por semana.52

Em 2013, Pequim aprovou a construo de minas de carvo que elevaro sua produo em mais de 100 milhes de toneladas. A escala do aumento, que inclui apenas grandes projetos, reflete sua meta de pr em operao 860 milhes de toneladas a mais em sua capacidade de produo de carvo ao longo de cinco anos at 2015, o que mais que a inteira produo anual da ndia. Segundo dados compilados pela Reuters, a Comisso de Desenvolvimento Nacional e Reforma, o rgo mximo de planificao da China, aprovou a construo de 15 novas minas de grande escala de extrao de carvo com uma capacidade de produo anual em 2013 de 101,3 milhes de toneladas.53

 

O crescimento mundial passado, presente e futuro da produo e consumo mundial de carvo mostra quo remotas so as chances de que se venha a inverter a curva ascendente das emisses de gases de efeito estufa nos prximos anos. Os dados da Clean Coal Centre da Agncia Internacional de Energia (AIE) mostram que h atualmente no mundo 2300 estaes geradoras de energia movidas a carvo (coal-fired power stations), 620 das quais na China.54 Para compensar a perda em maro de 2011 da usina nuclear de Fukushima Daishii, o Japo construiu duas usinas termeltricas movidas a carvo que entraram em funcionamento em dezembro de 2013.
Em novembro de 2012, um estudo do World Resources Institute (WRI) inventariou 1199 novos projetos de usinas termeltricas movidas a carvo no mundo todo, com uma capacidade instalada total de 1.401.278 MW. Esses projetos, propostos por 483 empresas de energia, avanam em 59 pases e apenas a China e a ndia representam 76% das novas capacidades de gerao de energia previstas.55 “Estimativas de um banco de dados de usinas termeltricas movidas a carvo elaborado pelo Greenpeace do Extremo-Oriente mostram que 570 novas usinas movidas a carvo, com uma capacidade geradora total de 650 Gw, esto sendo propostas, encomendadas ou em construo na China.”56 Ela planeja construir em seu territrio, segundo outras estimativas, 450 usinas termeltricas movidas a carvo, com capacidade de queimar 1,2 bilhes de toneladas de carvo por ano. Como os fornos devem ser esfriados com gua e o prprio carvo deve ser lavado, isso implicar o uso de 9 bilhes de toneladas de gua em um pas encurralado pela falta desse recurso vital, sendo que metade dessas usinas sero construdas em reas de escassez hdrica.
As “cinco grandes” corporaes de gerao de energia chinesas (Datang, Huaneng, Guodian, Huadian e a China Power Investment), que so tambm as maiores do mundo no ramo, esto entre os mais ativos desenvolvedores desses projetos no mundo. Alm da China e da ndia, dez outros pases “em vias de desenvolvimento” tm projetos de usinas termeltricas movidas a carvo: Cambodja, Repblica Dominicana, Laos, Marrocos, Nambia, Oman, Senegal, Sri Lanka e Uzbequisto. Nenhum desses pases consome atualmente carvo em quantidades relevantes, mas passaro a faz-lo em breve.
Com o declnio do nvel de gua de suas hidreltricas, o Brasil participa dessa tendncia expanso do carvo. Em 2013, o carvo mineral representa ainda menos de 1,5% da oferta de eletricidade brasileira. Mas essa porcentagem deve aumentar. “Entendemos que chegou o momento do carvo”, afirmou em julho de 2013 Altino Ventura Filho, Secretrio de Planejamento e Desenvolvimento Energtico do Ministrio das Minas e Energia.57 A afirmao corroborada por Marco Aurlio de Andrade, secretrio-geral das Cmaras de Comrcio Exterior, para quem o Brasil deve importar mais carvo em 2013: “A comercializao deve aumentar consideravelmente, visto os investimentos em termeltricas a carvo e o aumento na siderurgia de um modo geral”.58 J em 2011, as importaes de carvo mineral (bens primrios) cresceram 13,8%, em quantidade, em relao ao ano de 2010 e o consumo de carvo destinado especificamente s usinas termeltricas aumentou de 5,7 milhes de toneladas em 2009 para 7,2 milhes de toneladas em 2011.59 De fato, o recurso a usinas termeltricas movidas a gs e carvo tem aumentado significativamente, por causa, antes de mais nada, do declnio do nvel mdio de carga dos reservatrios hdricos. Em 2001, esse nvel tinha ndice 6,2; em 2009, ele recuou para 5,4 e, em 2013, desceu para 4,7. Com essa tendncia declinante e com secas mais prolongadas, o Brasil tem importado carvo da Austrlia, Estados Unidos, Rssia, Canad, Colmbia, Venezuela, Indonsia e frica do Sul. As usinas termeltricas movidas a carvo e a gs permaneceram em 2013 e devem permanecer em 2014 constantemente acionadas: “Se a hidrologia no melhorar, vamos continuar com trmicas at 2014”, declarou em maio de 2013 Hermes Chipp, Presidente do Operador Nacional do Sistema Eltrico (ONS).60

 

III. “A nuvem comea com o carvo”

A chamada era das Tecnologias da Informao e das Comunicaes (ICT, Information-Communications-Technologies) tem apenas intensificado o uso do carvo. A era ICT eletrointensiva. Ela consome muito mais energia eltrica e, portanto, muito mais carvo, que as tecnologias anteriores, sobretudo por causa da armazenagem e recuperao de dados e da navegao em rede por banda larga sem fio. Como estabelece um estudo de Mark P. Mills, o ecossistema digital global implica um incremento constante da demanda de carvo. Segundo esse autor:61

Baseando-se em estimativas mdias, o ecossistema das Tecnologias de Informao e Comunicaes (ICT) usa cerca de 1500 TWh [terawatts/hora] de eletricidade anualmente, algo igual a toda a gerao de energia do Japo e da Alemanha combinadas - tanta energia quanto a utilizada para a iluminao global em 1985. O ecossistema ICT aproxima-se hoje de 10% da gerao mundial de eletricidade. (...) Ganhos de eficincia continuaro a moderar o crescimento da demanda de energia em ICT. Mas a taxa histrica de aperfeioamento na eficincia das tecnologias empregadas em ICT comeou a se tornar mais lenta a partir de 2005, ao que se seguiu quase imediatamente uma nova era de rpido crescimento do trfego de dados globais, e em particular a emergncia da banda larga sem fio para smartphones e tablets. (...) A tendncia agora promete ser de um crescimento mais rpido, e no mais lento, do uso de energia em ICT.

Sempre segundo Mills, as projees no aumento do trfego de dados so estonteantes. “O trfego da internet”, afirma ele, “exceder em breve, por hora, o trfego anual da internet em 2000.” As grandes corporaes que controlam a armazenagem e o fluxo de dados globais dependem estreitamente do carvo, tal como mostrou o levantamento abaixo realizado pelo Greenpeace em 2012.

10. Dependncia do carvo dos Centros de Dados
(em porcentagem de energia eltrica fornecida pelo carvo)

Fonte: Greenpeace International. How Clean is Your Cloud, Abril 2012. A partir de Mark P. Mills, The cloud begins with coal. Big Data, Big Networks, Big Infrastructure and Big Power. An Overview of the Electricity Used by the Global Digital Ecosystem. Agosto de 2013 http://www.tech-pundit.com/wp-content/uploads/2013/07/Cloud_Begins_With_Coal.pdf?c761ac

Segundo os clculos de Mark Mills, o consumo de energia eltrica apenas do Centro de Dados do Facebook em North Carolina, aberto em 2012, abocanhar ao longo da prxima dcada um milho de toneladas de carvo. Alm disso, a renovao dos Centros de Dados dos EUA, hoje com uma provecta idade mdia de 12 anos, implicar maior consumo de energia eltrica. Esse consumo aumentar sobretudo fora dos EUA mais rapidamente que nos EUA. Apenas em Chongqing, na China, est em construo um Centro de Dados com quase 100 mil m2 e calcula-se que globalmente em 2010 os Centros de Dados j consumiam 250 a 350 TWh por ano. De modo que as curvas do aumento do consumo de energia eltrica desses Centros nos EUA e no mundo devero evoluir na forma descrita pela figura 11.

11. Eletricidade usada pelos Centros de Dados
(em TWh, de 2000 a 2025)


Fonte: Microsoft Global Foundation Center. A partir de Mark P. Mills, The cloud begins with coal. Big Data, Big Networks, Big Infrastructure and Big Power. An Overview of the Electricity Used by the Global Digital Ecosystem. Agosto de 2013 http://www.tech-pundit.com/wp-content/uploads/2013/07/Cloud_Begins_With_Coal.pdf?c761ac

 

IV. O mais poluente dos combustveis fsseis

Se o carvo desvantajoso em relao ao petrleo e ao gs em termos energticos (uma tonelada de petrleo equivale em termos calorficos a 1,5 toneladas de antracito ou hard coal e a 3 toneladas de linhito), ele o tanto mais em termos ambientais. O carvo polui o ar, as guas e os solos em todas as fases de seu ciclo industrial, da extrao ao transporte, lavagem, queima, aos rejeitos aps a queima e aos impactos ambientais das minas abandonadas.

Extrao

Nos trs tipos de jazidas e mtodos de explorao - lavra a cu aberto, minas subterrneas e as de remoo de topo de montanha (MTR) -, a poluio produzida pela extrao de carvo imensa, seja pelo impacto na rea, seja pelo uso intenso de gua, seja ainda pela gerao de resduos. No que se refere extrao por remoo do topo de montanha, a Union of Concerned Scientists do MIT adverte:62

Se a minerao de carvo tem de h muito causado danos ambientais, o mtodo de longe o mais destrutivo um tipo relativamente novo de minerao de superfcie chamado remoo do topo de montanha (MTR = mountaintop removal). Praticado atualmente no sul do estado de West Virginia e no leste de Kentucky, esse mtodo requer desmatar o topo da montanha e ento rebaix-lo centenas de ps com explosivos. Os detritos so lanados num vale adjacente, soterrando riachos e destruindo tudo o que antes crescia ali. Essa prtica deixa em seu rastro uma rea aplainada com solos to pobres que podem suportar apenas gramas exticas e uma mudana profunda em relao ao ecossistema diverso e densamente florestal de antes.

De forma geral, as minas a cu aberto matam tudo o que est volta, alteram as coordenadas fsicas e biolgicas de todo o meio ambiente, desestruturam a topografia e o solo, inclusive pelo movimento constante de seu maquinrio. A explorao de superfcie causa destruio completa da rea da jazida, das reas usadas para depsito da terra removida (chamada “camada estril”) para se atingir o veio, bem como das bacias de rejeito. O primeiro impacto da minerao a cu aberto a perda irreversvel da paisagem e, antes de mais nada, da cobertura vegetal e do solo que a sustenta, o assim chamado capeamento. Quantidades colossais de terra so removidas por escavadeiras de arrasto (draglines) e ps mecnicas e empilhadas na paisagem circunstante. O trabalho de desmonte do solo e das rochas realizado por explosivos de alta potncia.
O carvo extrado mergulhado em um lquido de densidade intermediria para separ-lo da terra e das rochas (Float and sink testing) e para tri-lo segundo seu tamanho. Ele em seguida enxaguado com gua e substncias txicas para desembara-lo desse lquido. O fludo resultante dessa lavagem (coal slurry), composto de gua usada (blackwater) e os demais rejeitos desse processo no podem ser reciclados ou aproveitados e so expedidos para as bacias de rejeito, reservatrios ricos de compostos carcinognicos e metais pesados que se infiltram no solo, ou evaporam ou entram em contato com rios e lagos.
O carvo ainda fracionado in situ,processo que emite partculas poluentes, como, por exemplo, dixido de enxofre, xidos de nitrognio e monxido de carbono. Finalmente, ele transportado por caminhes ou esteiras s usinas de beneficiamento, s usinas de coque, s termeltricas, etc. Nas minas de Santa Catarina, para cada tonelada de carvo lavrado (ROM, run of mine) “so gerados cerca de 60% de resduos slidos (rejeitos grossos e finos) e aproximadamente 1,5 m3 de efluentes cidos”.63

guas

A poluio das guas pelos rejeitos da indstria do carvo advm sobretudo da drenagem cida de minrios (DAM), decorrente da infiltrao da gua de chuva sobre os rejeitos gerados na extrao e lavagem do carvo. Ao atingir rios e lenis freticos, essas guas com baixo pH contaminam-nos com diversas sustncias txicas.64 A figura 12 mostra as concentraes tpicas (mg/L) de uma DAM na minerao de carvo a cu aberto em Santa Catarina, em geral muito superiores aos nveis fixados pelo CONAMA.

 

12. Concentraes tpicas (mg/L) de uma
DAM na minerao de carvo a cu aberto

Parmetros DAM
mg/L

Fonte: Carolina Resmini Melo, Morgana Nuernberg Sartor Faraco, “Carvo”.
Universidade Federal de Santa Catarina
http://pt.slideshare.net/materiaissustentabilidade/carvo-9837000.

O carvo e os poluentes qumicos acima elencados vm contaminando h muitas dcadas os rios e matando, desfigurando e diminuindo a fecundidade dos peixes e de outros animais. Dennis Lelmy, do U.S. Forest Service, declarou: “Fiz uma carreira contando os cadveres de peixes e outros animais selvagens mortos pelo carvo”.65 Esses efeitos sobre as guas foram avaliados pela Agncia de Proteo Ambiental (EPA) nos EUA, que “identificou 132 casos onde os rejeitos de carvo de usinas termeltricas poluram rios, correntes e lagos, e 123 casos de poluio de lenis de gua”. Ao todo, as usinas termeltricas movidas a carvo contriburam para a poluio de 399 corpos de gua que so fontes de gua potvel. Apenas os rejeitos de carvo aps sua queima so responsveis por 50 a 60% de toda a poluio que adentra as guas desse pas. Em Ohio, as minas abandonadas um sculo atrs continuam a contaminar as guas do Racoon Creek. Segundo Avner Vengosh, da Duke University, a legislao voltada para melhorar a qualidade do ar implica piora na qualidade da gua: Clean coal means perhaps cleaner atmosphere but dirtier water.

Atmosfera, o “arpocalipse”

A queima do carvo emite uma srie de poluentes extremamente danosos para a sade humana e para a biosfera, contidas na fuligem (soot) e nas cinzas volantes (ash fly). Como o carvo mais puro j foi extrado e as corporaes privilegiam a explorao do carvo mais barato que possam encontrar, o carvo queimado nas termeltricas est se tornando mais sujo. Mesmo antes de sua queima, quando, por exemplo, de sua armazenagem e transporte, a poeira do carvo dispersa na atmosfera doses importantes de mercrio e arsnico.

Fuligem e cinzas volantes

Segundo Michael Brooks, o carvo “emite hoje em dia mais de duas vezes mais CO2 que o gs natural - e muito mais fuligem, cinzas radioativas, xidos de nitrognio, dixido de enxofre e outros poluentes”.66 Ainda que as partculas de fuligem sejam um subproduto de quase todos os processos de combusto, a do carvo uma de suas maiores produtoras. Essas partculas contm em sua estrutura numerosos compostos orgnicos, os assim chamados HAPs (Hidrocarbonetos Aromticos Policclicos, ou PAHs na sigla em ingls), dentre os quais o benzo(a)antraceno, um composto mutagnico que pode causar modificaes da proliferao de tecidos, como da medula ssea, dos rgos linfticos, das gnadas e do epitlio intestinal. Esse composto cancergeno pode tambm provocar tumorao em animais e mutao em bactrias, alm de ser, por seu carter lipoflico, uma tpica substncia caracterizada por bioacumulao e bioconcentrao.
As cinzas volantes resultam da fuso e da calcinao das impurezas minerais incombustveis do carvo. Com dimenses que variam entre 0,5 e 100 micrometros (um micrometro um milionsimo do metro), essas partculas em suspenso no fluxo gasoso produzido pela queima do carvo contm arsnico, brio, berlio, boron, cdmio, cromo, tlio, selnio, molibdeno, mercrio e dixido de enxofre. O dixido de enxofre penetra os pulmes e afeta irreversivelmente sua capacidade respiratria, causando asma, tosse recorrente e outros problemas.
A combinao de partculas de fuligem e de cinzas volantes constituem o smog, famoso desde a letal crise de Donora, na Pennsylvania em outubro de 1948, que matou 20 pessoas e adoeceu metade da cidade, e do Great Smog de dezembro de 1952 em Londres, que causou 12 mil mortes67 e levou ao Clean Air Act promulgado pelo Parlamento ingls em 1956. A situao hoje na China , naturalmente, muito pior. No inverno de 2013-2014, em decorrncia de uma intensa atividade de usinas termeltricas movidas a carvo (70% da gerao de energia chinesa baseia-se na queima do carvo), o smog chegou a afetar 15% do territrio da China, incluindo as grandes concentraes urbanas de Pequim, Changai, Harbin, Chengou e mesmo Lhassa, a capital tibetana.68 Em janeiro de 2014, em Pequim, as concentraes de partculas de 2,5 microns de dimetro (PM 2,5), as mais nocivas, atingiu 670 microgramas, mais de 26 vezes mais elevado que o teto de 25 microgramas preconizado pela Organizao Mundial da Sade para uma exposio por 24 horas.

V. Chuvas cidas

Embora o termo “chuva cida” tenha sido cunhado em 1872 pelo qumico escocs, Robert Angus Smith, no contexto da poluio industrial em Manchester, o termo s comeou a ser amplamente utilizado depois que um grupo de pesquisadores descobriu em 1963, numa floresta de New Hampshire (um estado do NE dos EUA) um riacho to cido quanto um suco de tomate. Na base da formao de chuvas cidas, caracterizadas por um pH menor que 5,7, esto no apenas a queima de carvo, mas diversas atividades industriais que emitem na atmosfera o dixido de enxofre (SO2) e o xido de nitrognio (NO). Este ltimo composto origina-se da combusto de carburantes fsseis nos motores de veculos, caldeiras, centrais termeltricas e outros. Quanto ao dixido de enxofre, suas emisses no provm apenas da queima de carvo e de petrleo, mas tambm das siderrgicas e do tratamento de gs natural.
O dixido de enxofre reage na atmosfera com o vapor de gua e o oxignio, produzindo cido sulfrico (H2SO4), ao passo que o xido de nitrognio reage com os mesmos componentes para formar cido ntrico (HNO3). Essas substncias dispersam-se por centenas de quilmetros na atmosfera e ao se precipitarem com as chuvas acidificam florestas, rios, lagos e oceanos. As chuvas cidas que poluem, por exemplo, os lagos e lagoas da regio de New England no NE dos Estados Unidos e mesmo no Quebec tm origem nas regies industriais entre Chicago e Pittsburgh.69 Da mesma maneira, a usina termoeltrica de Candiota, em Bag, no Rio Grande do Sul, provoca a formao de chuvas cidas no Uruguai.70
Os danos causados pelas chuvas cidas infraestrutura, cultura e ao patrimnio cultural so bem conhecidos. Elas corroem estruturas de ao, bem como as fachadas arquitetnicas e as esculturas executadas em arenito, calcrio e mrmore. Objetos de cermica, txteis, tintas, metais, borracha e couro corroem-se quando expostos s chuvas cidas. Mas no menores so os danos causados aos organismos e ao meio ambiente. hoje sabido que o sistema nervoso humano, sobretudo infantil, sofre seja por exposio direta s chuvas cidas, seja por intermdio da gua e da cadeia alimentar.
Nos solos, as chuvas cidas matam insetos e envenenam plantas e rvores. De um lado, dissolvem certas substncias presentes naturalmente no solo, mas que, uma vez dissolvidas, so absorvidas pelas razes e intoxicam as plantas. De outro, dissolvem certos nutrientes necessrios s plantas, antes que essas possam absorv-los. Alm disso, as chuvas cidas corroem a cera protetiva das folhas, tornando-as vulnerveis ao frio e a agentes externos.

“Chuvas cidas no so coisa do passado”

Legislaes restritivas nos Estados Unidos, na Europa, Japo e Coreia do Sul implicaram, ao longo dos trs ltimos decnios, uma reduo das chuvas cidas nessas regies do mundo. Alm disso, desde o final dos anos 1970, comearam a se instalar nas usinas termeltricas e demais instalaes industriais, sobretudo nos EUA e no Japo, diversos tipos de filtros e de processos de remoo e captura do dixido de enxofre na combusto dos combustveis fsseis (os assim chamados flue-gas desulfurization ou FGD). Mas, 50 anos aps soado o sinal de alarme, o problema continua, no apenas na China e em outros pases do Extremo-Oriente, onde, conforme dados dos perodo 1980-2010, as chuvas cidas continuam a aumentar, mas tambm nos pases ocidentais. Segundo uma pesquisa publicada na revista Biogeochemistry, em 2006, em partes dos estados de Ontario e do Quebec, no Canad, a combinao de cidos sulfrico e ntrico na gua est “mantendo alguns lagos com pH baixo demais para permitir a recuperao das comunidades biolgicas”.71
Segundo o Center for Biological Diversity, em Adirondack Mountains (Estado de New York), as chuvas cidas diminuem a taxa de reprodutividade dos salmes e trutas e chegam a diminuir pela metade o nmero original de espcies de peixes desses habitats. Segundo Kevin Bundy, advogado do Center for Biological Diversity, que move desde 2012 uma ao contra a Environmental Protection Agency (EPA) dos Estados Unidos, “chuvas cidas no so coisa do passado, mas uma ameaa presente e efetiva aos ecossistemas florestais e fauna aqutica em todo o pas”. O World Resources Institute reporta projees do Banco Mundial acerca de um provvel aumento das chuvas cidas na sia nos prximos dois decnios. “Em 2020, as emisses asiticas de SO2 podem atingir 110 milhes de toneladas mtricas. Em consequncia disso, danos aos ecossistemas e s safras agrcolas devem crescer dramaticamente.”72 No que se refere s emisses de xido de nitrognio (NO), elas aumentaram 2,8% na China em 2012, em relao aos nveis de 2010, malgrado as metas do governo chins de uma reduo de 10% dessas emisses at 2015.73

Um novo efeito observado

Uma pesquisa publicada na revista Environmental Science and Technology mostra uma mudana tendencial na qumica de dois teros de 97 rios e riachos dos EUA, de New Hampshire Flrida: as guas esto se tornando mais alcalinas. Paradoxalmente, a causa desse fenmeno, observado h seis anos, so as chuvas cidas. Em primeiro lugar porque estas corroem as rochas, sobretudo de calcrio, dos leitos dos rios, aumentando o teor de carbonato das guas e, portanto, seu pH. Em segundo lugar, porque, para contrabalanar a acidificao dos solos produzida pelos fertilizantes, os fazendeiros colocam calcrio no solo, o qual lavado pelas chuvas. A maior alcalinidade estimula o crescimento de certos tipos de algas, cuja proliferao provoca o fenmeno de hipxia, vale dizer, a diminuio do oxignio na gua, com impactos sobre a vida fluvial. Alm disso, a gua alcalina misturada com esgoto transforma a amnia em uma sua forma mais txica. Gene Likens, que descobriu junto com sua equipe as chuvas cidas em 1963, declarou a respeito: “os impactos so grandes, maiores que jamais pensamos, 50 anos atrs, que poderiam ser”.74

VI. O Brasil, a siderurgia e o carvo vegetal

O Brasil o maior produtor de carvo vegetal do mundo, com uma produo que em 2010 atingiu 7,4 milhes de toneladas, 85% delas destinadas ao setor siderrgico.75 Os danos que a queima de carvo vegetal causa ao meio ambiente so idnticos aos danos causados pelo carvo mineral, no obstante seu poder calorfico ser menor. Soma-se, entretanto, a estes, um dano maior: o desmatamento. Como se sabe, o carvo vegetal usado na indstria sidero-metalrgica, com duas funes: (1) para alimentar os altos-fornos, e (2) como agente numa reao qumica que ocorre dentro dos altos-fornos pela qual o carbono contido em suas molculas fixado no minrio de ferro, o qual , assim, transformado em ferro gusa, matria-prima do ao e do ferro fundido. O Brasil lder mundial na produo de ferro gusa a partir justamente de carvo vegetal, base do parque siderrgico do norte do pas, responsvel em 2011 por 1 bilho de dlares em exportaes.
Na escala atual, a produo de carvo a partir da carvoagem de madeira nativa da floresta amaznica um fenmeno indissocivel da explorao da mina de Carajs. Encravada na floresta amaznica, Carajs uma das maiores jazidas polimetlicas do mundo, riqussima em minrio de ferro de alto teor de pureza, mas tambm em ouro, estanho, bauxita, mangans, nquel, cobre e terras raras. O territrio vitimado pela minerao estende-se por 900 mil km, uma rea banhada pelos rios Xingu, Tocantins e Araguaia, e avana por trs estados do pas: Par, Tocantins e Maranho. Em incio dos anos 1980, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) indenizou a United States Steel, que at ento controlava Carajs, e constituiu o Programa Grande Carajs (PGC). O empreendimento continua hoje sob controle da Vale S.A. (ex-CVRD), corporao eleita em 2012 a pior empresa do mundo pelo “Public Eye Awards”, por causa de sua atuao brutal nas esferas dos direitos humanos e do meio ambiente.76 Apenas uma das novas reas de minerao, a Carajs Serra Sul S11D, envolve investimentos de 40 bilhes de reais e tem por meta uma produo de 90 milhes de toneladas de minrio de ferro por ano.
A ditadura militar estimulou atravs de benefcios fiscais a criao do polo siderrgico Carajs, em Marab (Par) e em Aailndia (Maranho), complementar proximidade das jazidas, alm da estrada de ferro Carajs, com 892 km de extenso, de propriedade da Vale S.A., que liga a produo desse parque industrial aos terminais martimos de exportao de So Lus. Segundo Thiago Medaglia, o “polo Carajs abastecido em mais da metade de sua demanda por madeira nativa retirada da floresta”.77 Medaglia cita um estudo de 1987 de Azis Ab’Saber no qual o grande gegrafo j denunciava que, “na tica dos empresrios siderrgicos, tudo computvel no balano das viabilidades, menos os custos ambientais ou os impactos sociais negativos”.
Apenas em 2009, informa Thiago Medaglia, as trs maiores produtoras de ferro gusa do Par - Cosipar, Ibrica e Sidepar - “teriam promovido o desmate ilegal de 27 mil hectares de floresta - o equivalente a 15 mil caminhes carregados de carvo enfileirados”. Essas trs empresas foram reprimidas com uma suspenso temporria e um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), mas a produo das guseiras de Carajs continua aumentando. Entre suas vtimas, alm das populaes locais, escravizadas e reduzidas a condies de vida brutais, contam-se as castanheiras, rvores de predileo das carvoarias, imensas, longevas e com capacidade de sustentar uma produo de amndoas por oito sculos. Reduzida a carvo, ela impulsiona uma produo de ferro gusa que passou de 179 mil toneladas em 1989 para cerca de 2 milhes de toneladas em 2012, como mostra a figura 13.

13. Produo de ferro gusa em Carajs (1989-2012)

Fonte: Thiago Medaglia, “A ferro e fogo”. National Geographic, fevereiro de 2013

Alm do polo de Carajs, o maior exportador de ferro gusa, sobretudo para as aciarias dos Estados Unidos, notadamente para a Nucor Corporation, um segundo polo de usinas guseiras concentra-se no sudeste e centro-oeste, particularmente em Minas Gerais, Esprito Santo e Mato Grosso do Sul. A indstria siderrgica nesta regio do Brasil a grande responsvel pelo desmatamento do que resta da Mata Atlntica, notadamente em Minas Gerais, o estado que mais desmatou esse bioma entre 2010 e 2013.

Concluso

A maior incgnita dos dois decnios vindouros a transio do petrleo convencional por seus sucedneos fsseis, o gs de xisto, o petrleo de areias betuminosas, o petrleo de xisto e, sobretudo, o carvo. Se esses sucedneos forem capazes de continuar a satisfazer a voracidade do capitalismo global, teremos em breve ultrapassado - se j no ultrapassamos - o limite alm do qual ingressamos num terreno cujo declive nos impele inapelavelmente a um colapso socioambiental de propores insondveis. A menos que nossas sociedades, viciadas e anestesiadas pelos combustveis fsseis e por tudo o que tm proporcionado, encontrem em si a coragem, a lucidez e a fora de se impor a dolorosa deciso de abandonar os combustveis fsseis antes que eles nos destruam, a menos que redefinam radicalmente quanta energia de fato precisamos para uma vida civilizada - o que por certo pressupe redefinir o que entendemos por vida civilizada -, elas acabaro presas de trs mecanismos perversos, pois quanto mais durar a sobrevida dos combustveis fsseis:

1. mais lenta, difcil e custosa ser a transio energtica, j que uma transio de matriz energtica requer um estoque de energia abundante e barata para se realizar;

2. mais essa sobrevida aumentar a desorganizao socioeconmica em que seu esgotamento nos lanar, quando este finalmente chegar para uma populao significativamente maior que 2014 e cada vez mais consumidora de energia per capita;

3. mais profundamente, enfim, estaremos imersos em crises ambientais cuja escala, velocidade e acelerao no cessam de se ampliar: mudanas climticas, colapso da biodiversidade, acidificao ocenica, eutrofizao e multiplicao das zonas anxicas fluviais, lacustres e marinhas, destruio dos recifes de corais, desmatamento e vulnerabilizao das florestas, declnio dos recursos hdricos, secas mais intensas e prolongadas, desertificao e eroso galopantes, incndios mais frequentes e mais devastadores, chuvas cidas, aumento no buraco da camada de oznio na estratosfera do rtico, concentraes crescentes de oznio e de outras partculas txicas na troposfera, poluio da terra e do mar por esgotos, pelo lixo municipal e industrial, intoxicao qumica da natureza e do homem, degelo dos pergelissolos com crescente liberao de metano na atmosfera, retrao do gelo nas altas cordilheiras, no rtico e na Groenlndia, acelerao do aumento do nvel do mar e intensificao dos eventos meteorolgicos extremos: furaces maiores, chuvas torrenciais, inundaes, veres trridos, invernos setentrionais mais rigorosos e com nevascas mais intensas, paradoxalmente num mundo mais quente. A lista est longe de terminar...
Estamos, em suma, aproximando-nos ou ultrapassando o ponto em que tais desequilbrios inviabilizaro no apenas qualquer transio energtica, mas a sobrevivncia de qualquer sociedade organizada. convico da comunidade cientfica que a acelerao das concentraes de gases de efeito estufa na atmosfera provocada pela queima de carvo e demais combustveis fsseis acarretar um “planeta largamente inabitvel”, expresso de Steven Sherwood, subscrita por uma suma de trabalhos cientficos78 .

 






























fevereiro #

7


ilustrao:Rafael Moralez


1* Esse texto uma verso ampliada de um captulo de meu livro, intitulado Capitalismo e Colapso ambiental, de prxima publicao. Uma primeira verso dele, muito reduzida, foi apresentada em 2013 num seminrio do Ncleo de Estudo Populacionais (NEPO) da Unicamp a convite do Prof. Roberto do Carmo a quem reitero aqui meus agradecimentos.

 

2Cf. B. Fisher, N. Nakicenovic (coord.), “3 - Issues related to mitigation in the long-term context”. International Panel on Climate Change (IPCC), p. 173: “Using the ‘best estimate’ assumption of climate sensitivity, the most stringent scenarios (stabilizing at 445-490 ppmv CO2-equivalent) could limit global mean temperature increases to 2-2.4C above the pre-industrial level, at equilibrium, requiring emissions to peak before 2015 and to be around 50% of current levels by 2050” http://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar4/wg3/ar4-wg3-chapter3.pdf.

3 Cf. IPCC, Special Report on Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation (SRREN), 11 Sesso do Grupo de Trabalho III, 9/V/2011: “Close to 80 percent of the world‘s energy supply could be met by renewables by mid-century if backed by the right enabling public policies. (...) The rising penetration of renewable energies could lead to cumulative greenhouse gas savings equivalent to 220 to 560 Gigatonnes of carbon dioxide (GtC02eq) between 2010 and 2050”.

4 Cf. Maria van der Hoeven, Discurso de lanamento do livro de Keisuke Sadamori et al., Medium-Term Coal Market Report 2013. Market Trends and Projections to 2018. International Energy Agency, Paris, 16 de dezembro de 2013: “More than three-fifths of the rise in global CO2 emissions since 2000 is due to the burning of coal to produce electricity and heat”.

6 Cf. Juliet Eilperin, “Obama to take sweeping action on climate”. The Washington Post, 22/VI/2013:“According to the Edison Electric Institute, a utility trade group, there are 1,142 coal-fired utilities in the United States”.

7 Cf. Aaron Blake, “Obama Science adviser calls for ‘war on coal’. The Washington Post, 25/VI/2013: "The one thing the president really needs to do now is to begin the process of shutting down the conventional coal plants. Politically, the White House is hesitant to say they’re having a war on coal. On the other hand, a war on coal is exactly what’s needed.”Descrio: http://www.washingtonpost.com/blogs/the-fix/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif. Na imprensa republicana, o tema assumiu tons de denncia. Veja-se, por exemplo, Phil Kerpen, “Obama declares war on coal”. Fox News, 25/VI/2013.

8 Cf. Juliet Eilperin, “Boehner thinks new White House climate rules would be ‘crazy’. But Obama may not have a choice”. The Washington Post, 20/VI/2013.

9 Cf. Pilita Clark, James Wilson, Lucy Hornby, “Energy: The toll on coal”. Financial Times, 30/IX/2013.

10 Cf. John Finnerty, “‘Coal Caucus’ formed to oppose new strict federal emission limits on coal plants”. Register Herald.com, 28/IX/2013.

11 Art. cit.: “Like it or not, coal is here to stay for a long time to come”.

12 Cf. Clifford Krauss, “U.S. Coal Companies Scale Back Export Goals”. The New York Times, 13/IX/2013: “We continue to believe that West Coast exports represent a good long-term opportunity”. (...) “If history means anything, the world in a few years will need more commodities, both metals and energy including coal.”

13 Apud Clark, Wilson, Hornby, art. cit. Financial Times, 30/IX/2013: “Growth will be lower but it is still going to grow and we just do not see peak coal”.

14 Cf. Coal Facts. World Coal Association (em rede).

15 Cf. James Syvitski, Charles Vrsmarty, Sina Marx and Anik Bhaduri, “Changing the History of the Earth. The Role of Water in the Anthropocene”. Global Water System Project (GWSP), Bonn, maio de 2013: “We mine 8 to 9 Gt/y of coal and by 2030 this is expected to reach 13 Gt/y (?) 1 GT is more than two Great Walls of China which is 6250 km long”.

16 Cf. BP Statistical Review of World Energy June 2013 (em rede).

17 BP Statistical Review of World Energy June 2013 : “Coal reached the highest share of global primary energy consumption (29.9%) since 1970” (1970 a data de incio dos registros da BP Statistical Review).

18 Cf. Coal Statistics. World Coal Association: “Coal is used in the production of 70% of the world's steel”. http://www.worldcoal.org/resources/coal-statistics/.

19 Key Workd Energy Statistics 2012

20 Cf. Keisuke Sadamori et al., Medium-Term Coal Market Report 2013. Market Trends and Projections to 2018. International Energy Agency, 2013.

21 Cf. Milena Gonzalez, Matt Lucky, “Fossil Fuels Dominate Primary Energy Consumption”. WorldWatch Institute (WWI), 24/X/2013 : “The International Energy Agency predicts that by 2017, coal will replace oil as the dominant primary energy source worldwide”.

22 Cf. “Is coal seeing a comeback?” Centre for Global Energy Studies, 11/X/2011: “Without doubt the rise in oil prices has induced a market shift towards the use of cheaper fuels such as coal” .

23 Cf. Heinberg, Campbell, The Oil Depletion Protocol. A Plan to Avert Oil Wars, Terrorism and Economic Collapse, Gabriola Island, New Society Publishers, 2006.

24 Cf. When oil peaked. New York, Hill and Wang, 2010. Prefcio: “From 2005 onward, oil production has shown no growths”. (?) Captulo 1: “A few years ago, Chevron ran a series of ads saying that we were burning two barrels of oil for every new barrel we found. Today we may be birning five barrels for each newly barrel found”.

25 Apud Heinberg, Campbell, cit., 2006 (e-book: 16%).

26 “World Oil Production Capacity Model Suggests Output Peak by 2006-2007. Oil and Gas Journal, April, 26, 2004 (em rede).

27 Apud Heinberg, cit., 2006, nota 45.

28 Apud Heinberg, cit., 2006, nota 46.

29 Cf. Colin Campbell, “Peak Oil Time for ExxonMobil”. ASPO International. “Even though ExxonMobil never will use the word Peak Oil they have in fact used it by saying that the production will stay flat to 2012” (em rede).

30 Apud Heinberg, cit., 2006, nota 48.

31 Apud Heinberg, cit., 2006, nota 49.

32 Apud Heinberg, cit., 2006, notas 39 e 50.

33 Cf. R. Hirsch, R. H. Bezdek, R.M. Wendling The Impendig World Energy Mess. What it is and what it means to you! Apogee Prime, 2010, p. 128.

34 Cf. BP Statistical Review of World Energy June 2013 (em rede): “Oil remains the world’s leading fuel, at 33.1% of global energy consumption, but it also continued to lose market share for the 13th consecutive year and its current market share is the lowest in our data set, which begins in 1965”.

35 Cf. World Coal Association: “It has been estimated that there are over 861 billion tonnes of proven coal reserves worldwide. This means that there is enough coal to last us around 112 years at current rates of production” .

36 Cf. Alison Sider, “The Future of Coal: Gulf Coast Hums as Exports Rise”. The Wall Street Journal, 8/I/2014.

37 Esses dados encontram-se em Max Ehrenfreund, “Environmentalists sue Export-Import Bank over loan guarantee to domestic coal broker”. Washington Post, 31/VII/2013.

38 Cf. S. J. Keller, “The Next Climate War”. New Scientist, 13/X/2012, pp. 10-11.

40 Cf. Julien Bouissou, “En Inde, un nouveau Ministre de l’cologie pas ‘vert’ du tout”. Le Monde, 9/II/2014.

41 Cf. Krauss, art. cit. na nota anterior.

42 Cf. Pilita Clark, James Wilson, Lucy Hornby, “Energy: The toll on coal”. Financial Times, 30/IX/2013: “Any reduction in coal in the east [of China] is most likely to be accompanied by increased use in the west, where a number of provinces have big plans to develop their coal reserves”.

43 “En dpit de la pollution, Pkin continue d’investir des milliards dans le charbon”. La Tribune, 8/I/2014.

44 Cf. Centre for Global Energy Studies, 11/X/2011: “This trend will continue in the future since China’s electricity and industrial sectors depend heavily on coal and displacement is not easily feasible. Furthermore, domestic coal reserves are not abundant: the Reserves to Production ratio is 35 years in China compared with 240 years in the US and 500 in Russia. This means that by 2015 China can be expected to import 2 to 3 times more coal than it does today” .

45 Cf. Arnaud de La Grange, “La Mongolie, futur mirat des steppes”. Le Figaro, 26/VI/2012.

46 Cf. Bridie Jabours, Oliver Milman, “Clive Palmer's Galilee Basin mine given green light by Greg Hunt”. The Guardian, 20/XII/2013.

47 Cf. Oliver Milman, “Conservationists to fight on against China First mine despite legal change”. The Guardian, 23/XII/2013.

48 Cf. Graham Readfearn, “The whopping climate change footprint of two Australian coalmining projects”. The Guardian, 7/XI/2013; Greenpeace, setembro de 2012: “Cooking the climate, wrecking the reef. The global impact of coal exports from Australia’s Galilee Basin” .

49 Dados da Australian Coal Association, in http://www.australiancoal.com.au/exports.html.

50 Cf. B. Radowitz, “Germany Looks to Fossil Fuel Amid Nuclear Exit”. The Wall Street Journal 10/VI/2011.

51 “China is currently constructing the equivalent of two, 500 megawatt, coal-fi red power plants per week. One 500 megawatt coal-fired power plant produces approximatively 3 million tons/year of carbon dioxide”. The future of coal. Option for a carbono-constrained world. An interdisciplinar MIT study, 2007 .

52 Cf. Fred Pearce, “A new course for global emissions? New Scientist, 9/IX/2013, p. 7: “China has been vilified for building two new coal-fired power stations every week. That’s now down to one”.

53 Cf. “China approves massive new coal capacity despite pollution fears”. Reuters, 7/I/2014:“China approved the construction of more than 100 million tonnes of new coal production capacity in 2013. (...) The scale of the increase, which only includes major mines, reflects Beijing's aim to put 860 million tonnes of new coal production capacity into operation over the five years to 2015, more than the entire annual output of India. (...) According to data compiled by Reuters, the National Development and Reform Commission (NDRC), China's top planning authority, approved the construction of 15 new large-scale coal mines with 101.3 million tonnes of annual capacity in 2013”.

55 Cf. Ailun Yang, Yiyun Cui, “Global Coal Risk Assessment. Data Analysis and Market Research”. World Resources Institute, novembro de 2012: “According to WRI’s estimates, 1,199 new coal-fired plants, with a total installed capacity of 1,401,278 megawatts (MW), are being proposed globally. These projects are spread across 59 countries. China and India together account for 76 percent of the proposed new coal power capacities” .

56 Cf. Greenpeace, “China’s coal rush faces conundrum”: “Greenpeace East Asia’s coal power plants database estimates that 570 new coal power plants, with a total installed capacity of 650GW, are proposed, commissioned or under construction in China” .

57 “Carvo Mineral j pode ser competitivo no prximo leilo”. Associao Brasileira do Carvo Mineral (ACBM), 24/VII/2013 .

58 “Brasil deve comprar mais carvo da Colmbia em 2013”. Terra, 5/IV/2013.

59 Cf. Lus Paulo de Oliveira Arajo, “Carvo Mineral”. Departamento Nacional de Produo Mineral / Rio Grande do Sul (DNPM/RS), 2012 .

60 Cf. Carlos Eugnio, “Termoeltricas vo operar at 2014”. Dirio do Nordeste. 24/V/2013.

61 Cf. Mark P. Mills, The cloud begins with coal. Big Data, Big Networks, Big Infrastructure and Big Power. An Overview of the Electricity Used by the Global Digital Ecosystem. Agosto de 2013 : “Based on a mid-range estimate, the world’s Information-Communications-Technologies (ICT) ecosystem uses about 1,500 TWh of electricity annually, equal to all the electric generation of Japan and Germany combined - as much electricity as used for global illumination in 1985. The ICT ecosystem now approaches 10% of world electricity generation. (...) The growth in ICT energy demand will continue to be moderated by efficiency gains. But the historic rate of improvement in the efficiency of underlying ICT Technologies started slowing around 2005, followed almost immediately by a new era of rapid growth in global data traffic, and in particular the emergence of wireless broadband for smartphones and tablets. (...) Trends now promise faster, not slower, growth in ICT energy use”.

62 “How Coal Works”. Union of Concerned Scientists: “While coal mining has long caused environmental damage, the most destructive mining method by far is a relatively new type of surface mining called mountaintop removal (MTR).  Currently practiced in southern West Virginia and eastern Kentucky, this method requires stripping all trees from the mountaintop and then blasting away the top several hundred feet with explosives.  The resulting debris is dumped into an adjacent valley, burying the streams and destroying everything that once grew there.  The practice leaves behind a flattened area with soils so poor they can only support exotic grasses, a profound change from a once diverse and heavily forested ecosystem”.

63 Cf. Flvia M. F. Nascimento et al., “Impactos ambientais nos recursos hdricos da explorao de carvo em Santa Catarina”. http://www.cprm.gov.br/publique/media/evento_nascimento.pdf.

64 Cf. Carolina Resmini Melo, Morgana Nuernberg Sartor Faraco, “Carvo”. Universidade Federal de Santa Catarina, s.d. http://pt.slideshare.net/materiaissustentabilidade/carvo-9837000.

65 Cf. Dina Cappiello, Seth Borenstein, “More water pollution can be blamed on coal”. The Columbus Dispatch, 19/I/2014: “I’ve made a career of body counts of dead fish and wildlife made that way from coal”. As citaes sucessivas provm desse artigo.

66 Cf. Michael Brooks, “Frack to the future”. New Scientist, 10/VIII/2013, pp. 36-41.

67 Cf. Michelle L. Bell, Devra L. Davis, Tony Fletcher, “A retrospective assessment of mortality from the London smog episode of 1952: the role of influenza and pollution”. Environmental Health Perspectives, 2004, Janeiro, 112, 1, pp. 6-8: . “If the excess deaths in the months after the 1952 London smog are related to air pollution, the mortality count would be approximately 12,000 rather than the 3,000-4,000 generally reported for the episode”.

68 “Pollution em Chine: pour la premire fois, um citoyen poursuit le gouvernement”. Le Monde, 25/II/2014.

69 Cf. Kenneth S. Deffeyes, When oil peaked, New York, Hill and Wang, 2010, captulo 6, posio 929.

70 “Onde ocorre chuvas cidas no Brasil”. Pensamento verde, 25/VI/2013.
http://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/onde-ocorre-chuva-acida-no-brasil/.

71 Cf. David W. Schindler, Peter J. Dillon, Hans Schreier, “A review of anthropogenic sources of nitrogen and their effects on Canadian aquatic ecosystems”. Biogeochemistry, 79, 2006, pp. 25-44: “In parts of Ontario and Quebec (...), combined inputs of sulphuric and nitric acids are (...) keeping some lakes at pH values too low to allow the recovery of biological communities”.

72 Cf. “Acid rain in Asia is likely to increase”. World Resources Institute. World Resources 1998-1999: “By 2020, Asian SO2 emissions could reach 110 million metric tons if no action is taken beyond current levels of control. As a result, damage to natural ecosystems and crops is likely to increase dramatically”.
http://www.wri.org/publication/content/8435.

73 Cf. Wayne Ma, “China Far From Meeting Environmental Targets”. China Real Time (Wall Street Journal), 26/XII/2013: “Nitrogen-oxide emissions, which affect air quality, rose by 2.8% in 2012 from 2010 levels (...). China is targeting a reduction of 10% by 2015”.

74 Apud Christopher Joyce, “Rivers on Rolaids: How Acid Rain is Changing Waterways”. NPR, 13/IX/2013: "The impacts are large, larger than we ever thought 50 years ago they might be."

75 Cf. Thiago Medaglia, “A ferro e fogo”. National Geographic, fevereiro de 2013, pp. 89-103.

76 Veja-se Public Eye: “More then 88,000 people participated in the voting for the worst company of the year. The winner of the Public Eye People's Awards is Vale with 25.042 votes”. (...) “The corporation’s 60-year history is tarnished by repeated human rights abuses, inhumane working conditions and the ruthless exploitation of nature. Vale is currently taking part in the con- struction of the Belo Monte Dam in the Amazon. The dam is likely to result in the forced relocation of 40,000 people, who have neither a voice in the matter nor will they likely receive compensation”. http://www.publiceye.ch/en/ranking/.

77 Cf. Medaglia, art. cit. p. 90.

78 “It looks like if we fuly ‘develop’ all of the world’s coal, tar sands, shales and other fssil fuels we run a high risk of ending up in a few generations with a largerly unlivable world”. Cf. M. La Page, “Global Warm/ning”. New Scientist, 17/XI/2012, p. 39.