revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037



 

Juliette GRANGE

Tradução: José Luiz Bastos NEVES 

A expressão do neoconservadorismo em Filosofia, Ciências Humanas e Sociais na França, desde o início dos anos 2000

 


Apresentação geral, definições

Esta reunião de textos procura pôr em evidência a unidade doutrinal de um conjunto que se apresenta como vago e disperso, cobrindo o campo da filosofia e do conjunto das ciências humanas. Esse conjunto merece ser examinado não apenas em seu conteúdo mesmo, mas de algum modo também quanto à sua natureza. Ele aparenta ser uma produção ad hoc de grupos que asseguram sua promoção de início por razões antes políticas do que pelo surgimento de uma escola de pensamento. A coerência deve-se essencialmente a uma conexão em rede de um conjunto de domínios (da teologia à epistemologia, da economia às ciências cognitivas, da ecologia à biologia e à ética médica). Esse conjunto não é novo, ele se exprime há várias décadas na Europa (círculos intelectuais ligados ao Vaticano ou à Opus Dei, Lichtenstein, Polônia), nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Na França, ele permaneceu bastante minoritário, apanágio de grupos e círculos de reflexão com pouca influência sobre a Universidade ou nos organismos de pesquisa (mesmo se alguns universitários e pesquisadores, a título individual e de modo não reivindicado, pertencessem a ele). Há alguns anos, e a favor de mudanças ocorridas na própria vida política francesa, esses grupos até então discretos passaram a visar a uma tomada institucional.
Em uma primeira aproximação, podemos dizer que os dois traços marcantes dessa forma particular de neoconservadorismo são os seguintes:
1) ser a justificação filosófica ou teórica da ponte ideológica entre o ultraliberalismo econômico e o conservadorismo moral e religioso. Essa associação entre hipermodernismo econômico e antimodernismo social e familiar recebe uma caução intelectual por um conjunto de textos diferentes, mas possuindo uma inegável unidade de intenção ideológica. O neoliberalismo será definido aqui como “arte política de impor normas, como extensão e disseminação dos valores do mercado sobre a política social e todas as instituições”.1 O próprio neoconservadorismo, por sua vez, ilustra bem a contradição do neologismo e é bastante diferente do conservadorismo clássico (como, por exemplo, o conservadorismo liberal inglês saído de Burke). Sua natureza e seus modos de expressão são diferentes. Um dos teóricos do neoconservadorismo (Irving Kristol) precisa que se trata menos de um movimento do que de uma sensibilidade, cuja expressão se inicia com um grupo de pessoas “pouco numeroso, mais solidário do que estruturado, suficientemente bem organizado para controlar alguns Think Tanks, esses grupos de reflexão situadosentre a fundação e a universidade, e para colocar alguns amigos de postos estratégicos no governo e na administração”.2
2) o traslado para a França de um conjunto próspero nos Estados Unidos sob a era de G. W. Bush.3 Apresentado nas instituições francesas como uma “ruptura” da decalagem temporal (os Estados Unidos parecem ter passado a outro capítulo de sua história), as ideias e as palavras de ordem desse conjunto sofrem igualmente uma distorção devida à especificidade da história e das instituições europeias e francesas. A retórica da mudança é tanto mais forte quanto sua imposição é mais artificial. Em particular,  o papel da Igreja católica na história política, a relação entre o ensino da filosofia, debate público e instituições de ensino são muito diferentes na França e nos Estados Unidos.
O modus operandi dessa corrente ideológica não é classicamente político (partido, expressão pública, órgãos de imprensa ou mídia). Trata-se de converter, sem fazer alarde, as elites da universidade, do mundo dos negócios  e da política. As instituições filosóficas prestigiosas (ENS, Collège de France, École des Hautes Études en Sciences Sociales, Sorbonne e CNRS) são particularmente visadas nas ciências humanas e sociais, mas, igualmente, existem projetos concernentes às ciências ditas “duras”. Em parte, essa proposta de uma filosofia geral coerente - que é ao mesmo tempo uma teoria do conhecimento e uma concepção da sociedade em suas relações quanto à crença - deve seu sucesso ao esgotamento, no campo intelectual, dos modelos de emancipação e à fraqueza teórica do pós-modernismo acadêmico. Em parte, ela se impõe porque não é identificada. É a partir de redes de internet e de círculos intelectuais que ela se exprime, como ocorre aliás com inúmeras ideias neoconservadoras. Ela tem uma grande visibilidade e uma grande atividade na internet (cf. glossário de sites e blogs em anexo).

Alguns traços comuns constituindo a base retórica da expressão francesa do neoconservadorismo

A estruturação do pensamento neoconservador é polêmica em todas as suas expressões; ela se veste com uma retórica da ruptura e elabora antíteses (a “perda do sentido”) dispostas estrategicamente para definir ao contrário sua própria perspectiva. A “perda do sentido” e dos valores, o relativismo e o materialismo4 (o consumismo, o comunismo) assombrariam com efeito a Europa e a sociedade francesa.
Um reencantamento impor-se-ia: volta às emoções, ao sentido, à fé, à verdadeira vida do verdadeiro povo (emudecido pelos intelectuais, pelos professores marxistas, preguiçosos e nocivos, a laicização forçada das instituições). O povo das periferias carece de sentido, sua pobreza é antes de tudo espiritual. Os sofrimentos e os problemas sociais vêm de uma falta da qual são responsáveis o modernismo ateu, o hedonismo (assimilado ao consumismo), o individualismo (assimilado ao egoísmo), os fundamentalistas da laicidade e o relativismo.
Os filósofos parisienses negadores e niilistas não compreenderiam, afirma a retórica neoconservadora, que há “fraqueza da alma”, “recalque de Deus” (Allan Bloom, Pierre Manent), que são eles os conservadores obsoletos, e o liberal-libertarismo é opressivo (ele conduz até mesmo ao assassinato - de fetos). A religião cristã, a volta às raízes cristãs da França e da Europa virão a socorro da verdadeira liberdade e da verdadeira democracia.5
Trata-se de um apelo - clássico no contexto da direita religiosa - aos valores tradicionais? Não exatamente: a crise do capitalismo é aqui apresentada como uma crise espiritual. Assim como o neoliberalismo exige que a autoridade do Estado seja posta a serviço do mercado, o neoconservadorismo exige que ela seja posta igualmente a serviço de um retorno à ordem e aos valores.
Os arroubos sobre a “crise do sentido” 6 conduzem explicitamente a tocar os sinos da democracia liberal. O Estado deve impor sua própria reforma à sociedade (o fim da função de formar o cidadão pelas instituições públicas, da garantia pelo Estado do direito das pessoas).
O ideal neoliberal do modelo da empresa e da rentabilidade imposta ao Estado (no lugar do serviço público e da solidariedade) combina-se a um comunitarismo. A privatização mercantil do sistema público de saúde ou de educação permite ao mesmo tempo tanto o impulso do ensino confessional por exemplo quanto o da lógica do mercado.7
Esse conjunto ideológico não é novo (essa argumentação assombra as sessões de formação de certos grupos católicos, as obras de João Paulo II, de Think Tanks ou círculos de reflexão há várias décadas). Ele emergiu lentamente em trabalhos de intelectuais franceses neoconservadores, em campos disciplinares variados (C. Delsol, D. Folscheid, J. Staune, Y. Roucaute).
O fato novo desde aproximadamente o ano 2000 é, na França, que ele serve de base e ordena subterraneamente um certo número de trabalhos e produções teóricas em filosofia e ciências humanas. Além disso, não se resume mais a grupos marginais. Mesmo se essa corrente bem organizada ainda não fez seu coming out, ela se impõe ou tenta se impor em instituições (CNRS, EHESS, ENS, universidades etc.) com grande rapidez e determinação, e com tanta maior facilidade quanto menos identificada pelas pessoas responsáveis por essas instituições.

Como se exprime teoricamente o neoconservadorismo nas ciências humanas e sociais, e na filosofia?

- Uma filosofia tomista e realista

Trata-se menos de trabalhos dizendo diretamente respeito à filosofia medieval - ainda que esses trabalhos existam (ver o site Doutor angélico, as traduções de C. Michon, etc.) - do que de filosofia dita realista, propondo uma compreensão realista da verdade. No realismo, esta é considerada como independente de todo contexto histórico ou social. O realista afirma a existência de um senso comum, de um mundo real e de um único ponto de vista possível sobre esse mundo. “Todo o conteúdo do realismo está, em germe, na afirmação de que há sentido em se falar de um ponto de vista de Deus” (Hilary Putnam, Realism with a human face). Haveria uma espécie de natureza última da realidade e nosso acesso a essa última não seria apenas função das categorias do espírito humano e da linguagem.
O realismo neotomista contemporâneo formula o realismo tomista no contexto da filosofia da linguagem, modernizando e interpretando a grande doutrina tomista. A hipótese de uma proximidade de intenção e de estilo entre a filosofia medieval e a metafísica analítica (que pretende tomar apoio nos trabalhos de Frege, Wittgenstein, Russel e outros pensadores mais recentes) justifica a expressão de uma doutrina em que filosofia da linguagem, teoria do conhecimento e epistemologia são estreitamente misturadas em uma nova forma de apologética. A noção de “razão” adquire então uma polissemia inegável. Uma das variantes desses trabalhos frequentemente sofisticados concerne a filosofia da religião e o estatuto teórico da crença (as “razões” de crer).

- Um cognitivismo sociológico
Esse realismo metafísico neotomista tem prolongamentos no conjunto das ciências humanas e sociais. Ele se apoia nas ciências cognitivas ou em certos casos teoriza uma aproximação supostamente cognitiva. Encontramos um bom exemplo dele na obra de Pierre Livet e Frédéric Nef, Les Êtres sociaux, Hermann, 2009. Encontramos igualmente, entre outras, interpretações da neuro-teologia e da neuro-economia que realizam uma aproximação científica e experimental da crença e da escolha racional. O individualismo metodológico (ou ao menos uma certa leitura dele, a partir dos trabalhos de R. Boudon), serve geralmente como ponto de partida teórico.

- Uma filosofia política: a lei natural e os direitos humanos
A inanidade totalitária (sic) do contratualismo moderno e do conceito de justiça social é suposta validar o fundamento religioso dos direitos humanos. A igualdade não de pessoas, mas de culturas (senão de cultos) é argumentada a partir dos teóricos americanos do comunitarismo (Mac Intyre). A laicidade “positiva” reconhecerá o papel civilizacional das religiões no espaço cultural e político.
Propostas diretamente políticas seguem como consequência: “caráter próprio” das leis em função das comunidades, “república de proximidade” (essa expressão significa que as comunidades podem reivindicar instituições ad hoc). Um novo humanismo, que não conceberia mais a pessoa à maneira moderna, mecânica e abstrata (Jean Staune) deve servir de base para essa nova filosofia política.
O personalismo ético polonês8 e uma releitura da moral aristotélica das virtudes, entre outros, fundam um humanismo particular que naturaliza os critérios morais. Haveria assim atos (e pessoas) morais e imorais em si, bons ou maus. Existem, pois, valores universais (fixados em proposições dogmáticas pela autoridade das Igrejas em matéria moral), e uma elite, dotada de valor substancial, poderia promover esses valores (ver Qu’est-ce que l’Université? de Michel Bastit).
Um direito da pessoa deveria substituir o direito do indivíduo e permitir lutar contra a instrumentalização materialista (no domínio médico em particular). O sentido e o respeito da vida (dos comatosos, dos excluídos do direito à vida, dos fetos e deficientes) fundariam uma nova acepção do direito como religiosamente fundado.

    Uma filosofia geral deve ser exprimida e publicada, e constituir a futura base como do ensino universitário. A I.A.P. de Liechtenstei promove há temos “uma forma temporal e dinâmica” de uma doutrina eterna. A interdisciplinaridade (Instituto interdisciplinar de Paris) constitui uma base teórica-teológica mais frequentemente evocada que desenvolvida.

Essa filosofia comporta, por outro lado, uma releitura completa da história da filosofia moderna (Descartes, Iluminismo, Kant, o idealismo alemão, Heidegger, a French theory), que ela designa como “ultrapassada”, “envelhecida”, “arcaica”, e o mesmo diz a respeito da filosofia tal como é ensinada na França (no liceu ou na universidade). Essa retórica da novidade promove uma filosofia mais anglo-saxã (analítica, cognitivista, assim como a filosofia analítica da religião).
Aos autores clássicos da filosofia é aplicada uma grade de leitura e uma metodologia novas. A partir das Investigações lógicas (a Quinta investigação, em particular) de Husserl, teoriza-se a tensão da consciência para o objeto e mais ainda “uma maneira que o objeto tem de se dar no interior da tensão do sujeito”. De fato, trata-se de voltar às bases subjetivas da filosofia moderna (por exemplo, o espaço e o tempo como juízos sintéticos a priori do sujeito em Kant, e não propriedades do objeto9 ). A fenomenologia propõe-se ir “às coisas mesmas” não apenas no campo cognitivo, mas em todas as dimensões da experiência nas quais o objeto se dá.10 Os valores morais eles mesmos são igualmente objetos de experiência.

    A renovação espiritual e intelectual da Europa teria esse preço. A problemática medieval das relações entre fé e razão se enriquece então com contribuições vindas da lógica, da fenomenologia (a intencionalidade) e da filosofia da linguagem. Referências desconhecidas (mesmo para o filósofo profissional) a filosofias de língua inglesa são supostas fornecer a prova do caráter inovador dessa filosofia. Debates extremamente especializados dão lugar a colóquios muito fechados e o neófito tem dificuldades para apreender as questões envolvidas nessas discussões frequentemente esotéricas, ainda que deem, por referência constante à lógica, impressão de “sério” e de “cientificidade”. Por vezes, alusões mais new-look (rock, arte contemporânea) polvilhadas aqui e ali terminam por dar um toque final mais up to date ao debate.

 

- Cavalos de Tróia e cúmplices inocentes
Essa filosofia surpreendente avança muitas vezes mascarada. A retórica da ruptura, que caracteriza o neoconservadorismo e cujo alicerce é ideológico, fez ninho de modo oportunista na França há uma década em um dissenso filosófico que era inicialmente estranho: trata-se da oposição frontal entre filosofia analítica e filosofia “continental”.
Certos filósofos (como, por exemplo, Jacques Bouveresse), que não têm nada que ver com o fundamentalismo cristão, veem sua autoridade intelectual instrumentalizada e suas doutrinas utilizadas como cavalos de Tróia para a promoção daquilo que se apresenta como um ramo da filosofia analítica (o neotomismo analítico). Em certos casos, em nome da “ciência” (termo polissêmico que pode designar ao mesmo tempo tanto as ciências exatas quanto a filosofia ou teologia realista), condena-se o caráter aproximativo dos filósofos franceses, a não especialização de seu vocabulário e sua ausência de “rigor”, utilizando no caso trabalhos de Sokal e Bricmont, eles próprios pouco suspeitos, contudo, de simpatia com relação à intrusão do espiritualismo na ciência.

E as ciências exatas?

As ciências se ocupam do como, as religiões constituídas do por quê. Essa partilha, assim como aquela entre fatos e valores, deve ser revista.11 Donde o desenvolvimento da ideia surpreendente de uma física alternativa tão “produtiva” quanto a física atual, mas aberta ao “mistério”. Pesquisadores “cristãos” poderão abordar juntas ou separadamente as questões conjugadas do como e do por quê.
Uma nova “teoria da evolução” exprime-se então nesse suposto encontro entre a razão científica e a fé católica. A emergência é não mais uma transformação, e sim uma criação. O “plano inteligente” não é mais um finalismo simples: a ação de Deus tem uma especificidade. Deus não realiza nada diretamente na evolução, mas ele está na origem do possível (que ele criou na origem), possível que se atualiza com toda independência no curso da história humana.12
O princípio antrópico possui uma vertente embriológica (a emergência da alma no embrião) e ele é retrabalhado graças ao conceito de “superveniência” (survenance), assim como graças a uma nova definição do possibilismo e do acaso, que mobilizam trabalhos pertencentes à lógica modal. Essa doutrina tem consequências práticas (a interdição do aborto e da contracepção, por exemplo), assim como dimensões biológicas, lógicas e cosmológicas. Que uma tal teoria da evolução seja desenvolvida no interior da Igreja, nada mais normal; o que é menos normal é pretender dar uma base científica e filosófica àquilo que resta, em fim de contas, uma apologética.

- Cientistas cristãos, a filosofia das ciências, ponta de lança da ideologia neoconservadora
A nova visão do mundo, a convergência entre ciência e religião, “reabre os caminhos do sentido” (Bernard D’Espagnat). Um “novo paradigma científico” está em marcha: Jacques Monod, Weinberg ou Crick estão ultrapassados. Uma nova filosofia da ciência deve combater o “derrotismo epistemológico” (quando um cientista admite que a questão “por quê” não é aquela à qual ele possa responder) para fazer admitir a ideia de que os procedimentos do crente e do cientista são muito mais próximas do que as filosofias de Bachelard ou de Auguste Compte deixariam supor.13
A Natureza é o resultado de um projeto que foi “programado” em todos seus detalhes:  Deus quis assim na origem, no momento da criação. O universo é então uma expressão coerente, racional, elegante e harmoniosa de uma intenção. Deus não joga dados, e o mundo não é o resultado, altamente improvável e desprovido de sentido, de acontecimentos fortuitos (Paul Davies, Charles Townes).

A retórica da inovação

Trata-se aparentemente da proposta de uma volta aos fundamentais (amor e família, sentido e espiritualidade, valor e trabalho, disciplina e autoridade). Mas o modo de expressão desse reacionarismo é muito particular: ele não é nem um tradicionalismo (que gostaria de reabilitar o passado religioso, moral ou cultural), nem um conservadorismo no sentido clássico da perenização das instituições existentes. Esse reacionarismo se veste com uma retórica da ruptura: o retorno aos fundamentais seria inovador, fruto de uma ruptura. A revolução intelectual, o “novo paradigma” quer-se outra coisa do que um retorno ao passado. A filosofia e as ciências humanas modernas ou pós-modernas seriam “ultrapassadas” por aquilo que se expõe como uma ruptura ativa hipermoderna. Essa retórica tem, entre outras, a virtude de “embaralhar as pistas”, mas essa dupla postura de um “retorno” (ao sentido) e de um avanço radical permite fazer, com o mesmo gesto, tábula rasa de toda a cultura, da filosofia e dos valores emancipadores das formas políticas modernas. Em particular, a filosofia estranhamente dita “continental” seria caipira e ultrapassada, último vilarejo gaulês. Igualmente, a sociologia, como ciência “mole”, não teria mais nada a dizer em face do rigor cognitivista que esclarece “cientificamente” os comportamentos humanos.
Essa ruptura se exprime igualmente em termos de “reforma” do management do Estado, em um estilo neoliberal, ao mesmo tempo que em termos de “retorno”. Nós estamos aqui muito longe dos discursos da extrema direita populista francesa, e isso inclusive no estilo adotado: fundações (Templeton, Singer-Polignac), redes internacionais, Academia de ciências morais e políticas, dinamismo físico e aspecto elegante dos leaders.  Esses “inovadores” praticam o lobbying político escolhido, ou a tomada de poder almejada (ENS, média, casas editoriais), esperando menos um movimento da opinião a seu favor (a sociedade francesa é bastante descristianizada) do que uma tomada de poder efetiva. Esses detratores do Estado visam ocupar funções de Estado e impor pelo Estado a dupla proposta neoliberal e neoconservadora.
Contra o “Terror democrático”, a guerra justa das ideias é subterrânea. Contudo, pode-se chegar a impor a verdade pela força (Roucaute). Do mesmo modo que as novas relações de força internacionais puderam ser pensadas nos Estados Unidos de G. W. Bush como devendo ser impostas pela “civilização” a seus inimigos, na França o combate contra os três R (Reforma, Revolução e Maio 68 - que substitui o terceiro termo da fórmula de Mauras)  permitirá superar a crise moral e espiritual, e defender o povo contra seus opressores (os intelectuais progressistas).14

Conclusão

A cor pastel das ideologias, os títulos enganadores, os sites e organismos de faixada amável, todos esses jovens e dinâmicos militantes pelo “retorno ao sentido”, as palavras de liberdade, humanismo, transdisciplinareidade, espiritualidade, os colóquios de lógica ou de filosofia de ciência, escondem então uma empresa ideológica de envergadura e com objetivo direta e precisamente político.
A expressão filosófica do neoconservadorismo na França não é uma escola de pensamento à qual pudéssemos nos opor em um debate. A filosofia é a ponta de lança de uma nebulosa de grupos ativistas e solidários cujo objetivo não é apenas intelectual. A mais de um título, essa expressão é integrada ao “clubismo” da direita francesa que, nesses últimos decênios, desejou conquistar o poder intelectual e cultural. Mas ela apresenta igualmente traços novos, estranhos à história intelectual e institucional europeia. Ela concerne agora algumas centenas de responsáveis e talvez uma centena de milhares de simpatizantes.
Estranhos ao republicanismo de direita e às correntes classicamente liberais que criticaram o keynesianismo graças à Escola de Chicago, esses grupos visam impor uma concepção neoliberal do Estado e não hesitam em transpor um limite: a praticar um ataque aos valores e instituições democráticas (colocar em operação o equivalente francês do Patriot Act, reduzir drasticamente os orçamentos públicos, em particular da educação). O objetivo é, em um primeiro tempo pela produção de argumentos (sobre a injustiça da redistribuição, por exemplo), em seguida pelo engajamento das instituições, de desfazer muito rapidamente as legislações socialmente progressistas criadas desde 1936 e sobretudo 1945, e depois retomar os avanços do século XIX no domínio da justiça social. E impor ideias “moralizadoras” por capilaridade (por exemplo, voltar à questão da separação das Igrejas e do Estado na França, em nome da ideia de uma Europa cristã15 ).
Não se trata da promoção de uma ordem totalitária ou fascista, tal como as história a conheceu, mas de outro modus operandi: “Trata-se, ao contrário, de uma situação política na qual numerosos elementos fundamentais da democracia representativa e constitucional foram esvaziadas de sua substância, abandonadas ou curto-circuitadas. (...) Esses elementos incluem a igual distribuição e proteção das liberdades do cidadão; a independência mínima da imprensa e das outras mídia (...), um poder judiciário razoavelmente isolado da esfera política e comercial, a separação da Igreja e do Estado (...)”.16

 
































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ilustração:Rafael Moralez



1 Wendy Brown, Les Habits neufs de la politique mondiale, néolibéralisme et néo-conservatisme, Les Prairies ordinaires, trad. fr. 2008.

2 Alain Frachon, Daniel Vernet, L’Amérique messianique, Seuil, p.9.

3 Esse conjunto é bem descrito e analisado por Susan George (La Pensée enchainée. Comment les droites laïques et religieuses se sont emparées de l’Améeique, Fayard, 2007).

4 Ver por exemplo a obra recente de Chantal Delsol, l’Âge du renoncement, Cerf, “La nuit surveillée”, 2011.

5 Communio, sept./oct. 1994.

6 Jean Staune.

7 A solidariedade saída do programa do Conselho nacional da Resistência tendo sido apagada, a população é abandonada a si mesma e aos grupos religiosos que promovem a caridade e a entreajuda (sob o modelo dos projetos do governo de David Cameron, visando confiar às associações e instituições caritativas - em primeiro lugar, a Igreja anglicana - uma parte importante das missões de solidariedade e de educação, com orçamentos públicos).

8 Ver Rocco Bultiglione, La Pensée de Karol Wojtyla, p. 373 et ss. As Investigações lógicas de Husserl, a filosofia de Roman Ingarden são seus pontos de partida.

9 Frédéric Nef.

10 Apresentaremos ao longo de uma exposição as convergências entre a forma intencional fenomenológica e a forma do sentido tomista. Da fenomenologia à ontologia, chegamos às coisas elas mesmas.

11 J. Staune, Science et quête de sens, p. 7 : “a análise das ideias no Ocidente mostra que um tal ‘separacionismo’ é cada vez mais difícil de se sustentar quando se aborda as questões relativas ao sentido de nossa existência”.

12 Ver colóquio sobre o finalismo nas ciências sob a direção de J.-J. Wünenburger et M. Bastit.

13 Ver a jornada de estudos de 12 de maio de 2011, sob a direção de M. Bastit em Nancy, consagrada à epistemologia da cosmologia: “O vocabulário da cosmologia contemporânea apela a conceitos de forte conotação filosófica ou religiosa para sintetizar suas descobertas ou para caracterizá-las: tempo A e B, começo, causa, movimento, criação, origem, isto é, Deus. Segundo um movimento inverso, os filósofos, e certos teólogos, procuram integrar em seus trabalhos conceitos e teses saídas dos desenvolvimentos da cosmologia: Big-Bang, singularidades, energia. O colóquio terá por objetivo avaliar o interesse e a legitimidade dessas trocas, assim como dos desenvolvimentos aos quais eles podem dar lugar em metafísica e em filosofia das religiões”.

14 Thomas Franck, Pourquoi les pauvres votent à droite, trad. fr., Agone, 2007.

15 Pierre Manent, La Raison des nations, Gallimard 2006, in fine.

16 Wendy Brown, Les Habits neufs de la politique mondiale, néolibéralisme et néo-conservatisme, « Les Prairies ordinaires », trad. fr. 2008, p. 70.