revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

 

Ruy FAUSTO

Caetano Veloso, Roberto Schwarz, etc.

 
 

A polmica que se instaurou entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz a propsito da Verdade tropical 1de Caetano, e da crtica que faz ao livro Roberto Schwarz em seu Martinha versus Lucrcia 2(“Verdade tropical, um percurso de nosso tempo”), me interessa por mais de uma razo. Schwarz um velho amigo, mas um amigo que, por razes acidentais, vejo cada menos, e com quem pouco posso discutir. Caetano, por sua vez, andou elogiando uma revista eletrnica de cuja comisso diretora eu fao parte, e fiquei curioso para saber onde ele est.3 E not least, se o texto de Schwarz no discute especificamente problemas de esttica musical, o livro de Caetano obviamente se ocupa muito disso. Ora, ainda que no tenha grandes ttulos para discutir msica popular brasileira, eu tenho a experincia de quem gostou dela desde menino e que a acompanhou mais ou menos de perto, at o momento em que saiu do Brasil.

Schwarz elogia a qualidade literria do livro de Caetano (ML, p. 52), e aprecia bastante, para alm da literatura, o Caetano do pr-golpe. Porm, se em nenhum momento a sua crtica inteiramente negativa - o artigo de Schwarz pontuado por concessivas e observaes que tentam equilibrar o julgamento -, evidente a sua insatistao, no plano da crtica e da poltica (e tambm da literatura), com o que Caetano escreve na pele do indivduo e do artista que passa a ser, depois da experincia do golpe. Difcil resumir a prosa excepcionalmente forte de Schwarz, que joga no plano da poltica e da crtica social em geral, e dos juzos estticos.

Caetano apreciara razoavelmente textos anteriores em que Schwarz comentava a sua msica. Observando que os gostos de Schwarz esto longe dos do tropicalismo, ele fica razoavelmente satisfeito com uma atitude crtica que no simplesmente negativa, como a que, em relao a ele, tinha Augusto Boal (VT, p. 441). Claro, h uma dificuldade no Schwarz comentando Caetano: no s Roberto se ocupou pouco de msica - circunstncia de que ele adverte imediatamente, sem deixar de reivindicar, com razo, a validade do seu trabalho crtico sobre o compositor, porque a obra e a atividade de Caetano tem generalidade (ML, p. 52 ) -, mas o seu pensamento muito marcado por Theodor Adorno, grande filsofo e esteta dialtico, que, entretanto, aprecia pouco, o menos que se poderia dizer, a msica popular. Schwarz, bem pouco musical, como confessa, e ainda por cima adorniano, criticando um msico popular brasileiro? o leitor teme o resultado. Mas o resultado, claro, no mau, e se dificuldades h em sua crtica - pelo menos, tentarei mostrar -, elas no vm da. A generalidade do empreendimento de Caetano tornam-no, apesar de tudo, um bom objeto para o nosso grande crtico de extrao frankfurtiana.

H uma ruptura entre o Caetano pr-golpe e o Caetano que vem depois, ruptura que est no centro da anlise crtica de Roberto. “Em perspectiva histrica, tratava-se da reavaliao do passado recente. O ascenso socializante do pr-64, cujo impulso superador e democrtico fazia a beleza dos captulos sobre Santo Amaro e Salvador, agora era revista sob luz contrria, como um perodo incubador de intolerncia e ameaa liberdade. Depois de serem motivo de orgulho, os grupos que se erguiam contra o imperialismo e a injustia social passavam a ser portadores de ‘embries de estruturas opressivas’, contra os quais mesmo um incndio [o incndio do prdio da UNE, comentado com complacncia por um amigo de Caetano, e alguma ‘empatia’ com esse juzo por parte deste ltimo, RF] no seria uma providncia descabida. Ainda que imaginemos que o incndio tenha sido uma flor de retrica, a mudana de posio era radical” (ML, p. 85). Schwarz explora a fundo os tropeos da nova atitude e do novo discurso. Em textos que afloraram na polmica recente, tem-se um Caetano que (pondo-se na pele de um golpista?), a propsito das origens do golpe de 64, fala da “necessidade de perpetuar essas desigualdades” que se mostraram “como o nico modo de a economia brasileira funcionar” (ML, p, 108, VT, p. 14); do preo que se pagaria em termos de “liberdades fundamentais” com uma eventual “tentativa de no alinhamento com o Ocidente capitalista” (ML, p. 85. VT, p. 49); da exigncia do amor e do perdo “sem sombra de rancor” (VT, p. 410), atitude que j aparecera, no desejo vivido por seu amigo Gil (embora sob o efeito da droga), de amar at? os militares opressores (VT, p. 302). Etc. Diante desses textos, o leitor no pode deixar de ter um mesmo gesto de decepo, e pensa, como Roberto, como infeliz o happening em que Caetano, andando a contracorrente de uma manifestao de estudantes reprimida pela polcia, fantasiado de tropicalista (cabelo, “casaco militar europeu sobre o torso nu”, colar indgena, jeans e sandalias), vocifera contra todos, para, depois, confessando-se interrogativamente narciso, sentir-se, enquanto promotor e ator da performance, “acima de Chico Buarque ou Edu Lobo” (VT, p. 312-313)?

E, com tudo isto, a anlise da virada de Caetano por Roberto Schwarz no me convence. Aqui nos defrontamos com dois nveis diferentes: o do significado geral, para alm de Caetano, da mutao - pois impossvel no generalizar o problema -, e o outro, que concerne propriamente maneira pela qual o artista reagiu diante da mudana. Passarei mais de uma vez de um registro ao outro.

O que Schwarz critica, de fato, em Caetano? Parece ser - pelo menos, frequentemente, assim que a coisa se manifesta - o fato de ter mudado. Ou, digamos, o que Roberto critica, pelo menos em primeira instncia, o fato de que Caetano mudou radicalmente. “Reviravolta” (ML, p. 85), “mudana de posio (?) radical” (ib), “converso histrica” (ML, 87) “revelao” (ib). (Ele observa, no que tem certamente razo, que “iluminaes tanto podem esclarecer como obscurecer (?)” (ib)). Mas, a meu ver, a mudana, de Caetano, no tem apenas explicao - o golpe mais outras coisas, ela tem certa legitimidade. E isso, Roberto Schwarz parece no ver.

Uma questo prvia a de saber o que que ocorreu objetivamente. O golpe, sem dvida. Mas o golpe vai se inserir num contexto internacional, contexto que tanto espacial quanto temporal. Primeiro, tentemos dizer o sentido do golpe: derrota da esquerda, sem dvida. “Derrocada da esquerda” (ML, p. 87). Mas s no Brasil? Roberto generaliza, o que d ao que ocorreu em 1964 e no imediato pr-64 um sentido que vai se diferenciando: “Truncamento da revoluco social no Brasil” (ML, p. 96) “Derrota do socialismo” (ML, p. 80).4 Mais precisamente: Roberto insere a sequncia histrica nacional no que aconteceu no mundo, na segunda metade do sculo XX. Mas, afinal, o que aconteceu, a rigor, no mundo, nesse momento? Lemos em Martinha versus Lucrcia: “(?) inverso da mar histrica no mundo, a qual at segunda ordem deixava sem cho a luta pelo socialismo” (ML, p. 79).

Ora, relevante para tentar entender o que significou a experincia brasileira pensar com lucidez o que ocorria no mundo, e o que ocorreria nas trs dcadas seguintes, que foram decisivas. E a, a frmula da inverso histrica que deixa sem cho a “luta pelo socialismo”, me parece muito ambgua. Houve, primeiro, a crise do welfare state e o avano do neoliberalismo e do capital financeiro. Mas houve tambm a crise do sistema, dito, muito imperfeitamente, sovitico, a derrocada do imprio comunista (idem, quanto imperfeio do termo). Ora, se a derrocada da URSS fortalece num primeiro momento a hegemonia dos EUA, ela no a meu ver perda do cho na luta pelo socialismo. Diria mesmo: com ela o socialismo, a longo prazo e mesmo a mdio prazo, no perde mas ganha. Vitria dos EUA, houve sim, mas no houve derrota do socialismo. A derrota foi de uma caricatura dele, na forma de um poder burocrtico totalitrio por um perodo, autoritrio em seguida. Insisto nesse ponto, porque no h nada mais desastroso atualmente do que a tendncia de alguns a ver no desmoronamento do imprio sovitico uma derrota da esquerda. Essa a interpretao que do ao final do sculo XX, gauchistas daqui e da Europa; o que no s constitui - estou convencido - uma interpretao errada do que se passou no mundo nesse perodo, mas tem consequncias tambm para a leitura do que ocorreu no Brasil. que s a conscincia da realidade desse processo, que , em seu conjunto, original, e escapa das certezas da esquerda clssica, nos permite entender bem, com um olhar crtico de esquerda, as ambiguidades que acompanham tambm grande parte da esquerda brasileira antes e depois de 1964. Roberto fala do “impulso superador e democrtico” que habita “o ascenso socializante do pr-64” (ML, p. 85), do “vasto movimento de democratizao que vinha de longe” (ML, p. 76) do “aprofundamento da democracia” (ML, p. 109) que estaria no bojo das lutas da esquerda. Sim, mas seria necessrio marcar desde logo as ambiguidades presentes desde cedo no movimento. Ora, se o que faz a fraqueza de Caetano so as piscadas aos vencedores e as frases em que se fala pelo inimigo, e cuja modalidade dificil precisar, o que faz a sua fora que ele est plenamente consciente daquelas ambiguidades, (mesmo se no plenamente lcido a respeito do alcance delas) - e consciente como uma parte importante da esquerda mesmo depois e muito depois de 64 no . Caetano tenta pensar os problemas que esto contidos nessa ambiguidade. Roberto quer fechar a porta a consideraes como as que fao aqui sobre Caetano (as quais no justificam o injustificvel, mas alteram essencialmente a avaliao global), lembrando que, j antes de 64, havia intelectuais no s afinados com uma esttica avanada, mas que, politicamente, eram crticos irreconciliveis do stalinismo. “Embora minoritria, a fina flor da reflexo crtica do perodo era, alm de socializante, antistalinista com conhecimento de causa e amiga do experimentalismo em arte. Basta lembrar Mario Pedrosa, Anatol Rosenfeld, Paulo Emilio Salles Gomes e Antonio Cndido” (ML, p. 89). Mas, aqui, cabem pelo menos duas observaes: primeiro que a reflexo crtica que se d no periodo posterior a 64-68 e ditadura, por parte importante dos participantes do movimento anterior ao golpe, no visava repensar o que representavam Paulo Emlio, Mrio Pedrosa, Rosenfeld ou Antonio Cndido, mas outra gente, do Brasil e de fora: lderes da luta armada, chefes de Estados socialistas etc. E depois o essencial: Roberto supe que o anti-stalinismo era uma garantia crtica segura, e que, nesse sentido, quem era anti-stalinista antes do golpe e da ditadura no teria nada de essencial a aprender com eles, sobre a poltica mundial, sobre a esquerda em particular. Ora, isto um engano, e um engano, eu diria, enorme. A ditadura e o contexto global do mundo na segunda dcada de 1960, mais o que houve nas trs dcadas seguintes, nos levaram a pensar muitas coisas, que ns, anti-stalinistas intransigentes dos anos 1950/1960 - minoria herica, permito-me dizer, que enfrentava as maiorias comodamente instaladas nas suas certezas mais ou menos pr-stalinistas - nunca havamos pensado. Porque h uma coisa que no aparece no texto de Schwarz: o tamanho de nossas iluses no perodo pr-golpe e pr-ditadura. E insisto: iluses que atingiam tambm e muito os que j no tinham iluses com Stlin. Assim, poderamos ser anti-stalinistas, mas achvamos que Cuba, apesar de alguns erros, caminhava para o socialismo, que no havia nada de muito grave nas medidas que tomava o poder chins, que o Viet-minh e, depois, o Cambodge, eram modelos em termos de movimento de libertao nacional (eles representavam, sem dvida, movimentos anticoloniais, mas depois se viu que no eram s isso) etc etc. Ora, para alm da questo mais especfica do anti-stalinismo, que uma manifestao particular de uma conscincia semi-crtica, o que se passa com Caetano muito (embora no seja apenas isso) uma tomada de conscincia dos problemas do socialismo, e isso, mesmo se as solues que ele pretende dar descambam frequentemente num pequeno desastre ideolgico e terico. Mas estou convencido de que, se no tomarmos conscincia de que houve por parte de muitos, no ps-ditadura - uma releitura crtica do conjunto dos problemas do socialismo, e de que essa releitura foi em si mesma legtima, no entenderemos a mudana de Caetano. E apesar de tudo o que h de negativo em seu discurso, acabaremos fazendo um julgamento injusto do personagem e da sua trajetria. Porque se a Roberto incomoda que Caetano tenha mudado, eu ousaria dizer que a mim incomoda um pouco que Roberto, ele, no tenha mudado (ou que tenha mudado muito pouco). Porque o discurso de esquerda que est no fundo do texto de Roberto em que ele critica o artista , a meu ver, um discurso excessivamente ortodoxo, insuficientemente crtico. O que falta nele?5

O golpe de 64 e os anos de ditadura nos levaram a repensar criticamente muitos problemas. Primeiro, a refletir sobre o prprio movimento e o contramovimento. No que devamos ter qualquer tipo de hesitao no que se refere ao carter reacionrio da revoluo de 64, nem que pudsssemos ser de um ou de outro modo indulgentes diante da barbrie repressiva, quantitativamente menor do que nos outros pases, mas qualitativamente igual no seu horror. Mas a gente comeou a refletir sobre as perspectivas polticas que tinham os chefes da resistncia - e no se tratava apenas de saber se a luta armada tinha apoio social ou no (cf ML, p. 76) -, mas de se perguntar sobre o projeto deles a longo prazo. E dessas reflexes passamos a nos perguntar que sentido tinha a direo cubana, que era sempre a nossa referncia ltima. E, para alm de Cuba, era o problema geral da chamada degenerescncia stalinista que se recolocava para ns, embora fssemos - alguns de ns, eu inclusive - comunistas crticos (frequentemente, mas no sempre trotskizantes), ou pelo fato mesmo de sermos comunistas crticos. Porque o comunismo crtico (trotskizante ou no), que no fundo tem hoje, mesmo quando no levam o nome, uma surpreendente atualidade nos meios de extrema esquerda, nos levava a uma espcie de reformismo, diante dos governos totalitrios. Em uma de suas verses, a trotskista precisamente (mas as outras no eram muito diferentes), a URSS era um “Estado operrio (sic !)” embora deformado e talvez at degenerado. Mas “Estado operrio” (!!) quand mme. A conscincia da insuficincia desses juzos, que, diga-se de passagem, mesmo se em forma mais elaborada e inteligente so ainda sustentados por muita gente - e no necessariamente, longe disso, gente medocre ou mal intencionada -, nos levou a meditar sobre muito mais coisas. (Falo, claro, da minha experincia, mas ela no foi, apenas, minha). A histria do sculo XX teria de ser repensada, a partir de outubro e do bolchevismo. O bolchevismo foi, finalmente, no mais do que um ramo da rvore socialista, e um ramo que se revelou, desde o incio, infectado, ou sujeito a infeco, uma infeco grave que levou a uma verdadeira regresso histrica. O ramo social-democrata no estava acima de crticas, pior que isso, sua histria revelava momentos bem sinistros - mesmo se, em geral, nesses momentos, as figuras de proa da social-democracia j estivessem fora -, mas tinha tambm qualidades insuspeitadas e figuras muito respeitveis. Antes da ciso, penso em Jaurs, depois, por exemplo, na esquerda menchevique-internacionalista, no melhor do socialismo nrdico, em alguma coisa do socialismo europeu, apesar das derivas colonialistas e pr-capitalistas, mas ele no foi s isso O marxismo no o mesmo que o socialismo, mesmo se ele veio a ser hegemnico, e se Marx , do ponto de vista cientfico - mas no necessariamente politico -, a sua figura mais alta. H que retomar, tambm, a tradio no marxista do socialismo.

Mas o que tem a ver tudo isto com Caetano Veloso e o seu livro? que evidentemente - insisto - mesmo se sua maneira, claro, Caetano se debrua sobre esses problemas. E h nisso um grande mrito. A certeza do que estou afirmando vem do fato de que, em geral, caracterstico de Caetano o esforo de reflexo, e de reflexo crtica, mesmo se os resultados no so sempre bons. A acrescentar o que ele escreveu e fez depois de publicar esse livro (volto a isso mais adiante). Mas tambm, imediata e simplesmente, do que vem escrito no livro, e, em parte - mas s em parte - mesmo nos seus maus momentos. Porque no creio que seja complacncia de minha parte fazer uma dupla leitura, do tipo da que vou indicar em seguida. Por exemplo, que Caetano escreva que “qualquer tentativa de no-alinhamento com os interesses do Ocidente capitalista resultaria em monstruosas agresses s liberdades fundamentais” (VT, p. 49) evidentemente uma barbaridade. Mas se ele dissesse - e no esteve longe de dizer isto - que “qualquer tentativa de passar por cima da democracia dita formal resultaria em monstruosas agresses s liberdades fundamentais”, estas seriam, a meu ver, palabras bien dichas. Em mais de uma ocasio, Caetano parece querer reabilitar o mercado; ou, pelo menos, escreve de forma ambgua em relao ao mercado (ver VT, p. 14, VT, p. 437?, e comentrios em ML, p. 80 e 83). “Havia muito que oscilvamos mais ou menos conscientemente, entre nos caracterizar como ultra-esquerda - a verdadeira esquerda, uma esquerda esquerda da esquerda - ou como defensores da liberdade econmica, da sade do mercado” (VT, p. 437). A primeira opo a boa, evidentemente, mas seria absurdo supor que a reflexo sobre o mercado s pudesse ser concesso aos militares ou “custo espiritiual da instalao do novo regime” (ML, p. 94). Afinal, um autor to radical quanto Castoriadis acha que se deve repensar o problema do mercado. Mais precisamente, no projeto socialista que temos na cabea - e, ateno, hoje sabemos que preciso tematizar explicitamente esse projeto, outra novidade, ou a novidade principal -, haveria talvez um lugar para algum tipo de mercado. Ou projetamos uma sociedade em que reinaria uma comunho de bens universal? Por outras palavras: continuamos a propor um projeto comunista, ou passamos a querer, sim, a neutralizao do capital, mas sem eliminar todo tipo de troca e de mercadoria? O problema srio. E - digamos - acho que vai um pouco depressa demais quem supe que questionar o modelo comunista pular para a trincheira do adversrio. Afinal, na tradio da esquerda, muitos e muitos, a maioria, provavelmente, no eram comunista, mas professavam certa ideia de socialismo deixando lugar para algum tipo de mercado. Dir-se- que divago. Caetano no pensou nisso, ele estaria preocupado com as “caixas registradoras” e o ganho dele prprio e dos seus pares. Acho que no. Claro que ele reflete a sua situao e a dos artistas, claro que h, j disse, um elemento de ambiguidade a-crtica em suas consideraes; mas, dado o grau de investimento reflexivo que revelam seus escritos, impossivel no dizer que Caetano est tambm invocado com a ideia de uma sociedade em que o mercado desaparece inteiramente. No h - creio eu - como no reconhecer a, em um nvel, sem dvida, um esforo de reflexo; em vez de supor, sem mais, ou quase, que ele aderiu “ao mercado”, ou que aderiu simplesmente (Roberto no diz isso dessa forma brutal, mas a ideia de que poderia haver um elemento vlido nas referncias de Caetano ao mercado est ausente do seu texto). De um modo mais geral - e Roberto no cessa de cobr-lo por isso -, Caetano v em gestos, atitudes, declaraes de gente de esquerda, “esboos de futuros Estados totalitrios” (VT, p. 466), “embries de estruturas opressivas” (VT, p. 102, cf. ML, p. 85). Quando Caetano observa, diante de certas atitudes de Vandr, que muitas vezes ele, Caetano, se perguntava se aquilo “no seria um esboo dos prestgios oficiais de que gozam, em nome da histria, figures insossos de pases comunista” (VT, p. 276) - Schwarz registra, verdade, a perspiccia de Caetano. Mas logo toma distncia diante da “ironia duvidosa” da continuao do comentrio, “que jogava com chaves da guerra fria” (ML, p. 82 e 83) (Caetano diz que as possibilidades de realizao dos projetos oportunistas-totalitrios de Vandr tinham se tornado remotas, pois estvamos “livres do perigo vermelho, desde que os nossos inimigos militares tomaram o poder” (VT, p. 83)). Entretanto, se a frmula balana na corda, as preocupaes de Caetano no so tolas nem vazias. Dir-se-, com Roberto, que “faria parte de um discernimento intelectual mais exigente distinguir entre antagonismos secundrios e principais, adversrios prximos e inimigos propriamente ditos” (ML, p. 84). Sim e no. Sem dvida, no fogo do processo golpista e da resistncia antigolpista era preciso, sim, deixar de lado, provisoriamente, algumas coisas. Mas a conversa em torno de contradies primrias e secundrias h muito tempo “faz gua”. Bem entendido, a diferena entre esquerda e direita no desapareceu, nem se tornou sem importncia. Mas com a emergncia do totalitarismo, e com a conscincia plena do que ele significava, a diferena se complica. Com o surgimento da categoria totalitarismos de esquerda, ficou claro que se ser de esquerda condio necessria para a lucidez poltica, no , de jeito algum, condio suficiente. Mais do que isso, quando amadurece a compreenso do fenmeno totalitrio, descobre-se que, se sempre necessrio ser de esquerda para ser lcido em poltica, a condio necessria muito insuficiente. De fato, se, de certo modo, algum como Stalin poderia ser considerado como um indivduo de esquerda, v-se que possvel ser de esquerda e ser, ao mesmo tempo, um grande criminoso poltico. Mais ainda: percebe-se que, em certas circunstncias - sob uma ditadura comunista, por exemplo, no numa eleio em pas capitalista - perfeitamente legtimo sentir-se mais prximo de algum de centro-direita, ou mesmo de direita republicana, do que de algum que - pelo menos de certo modo - pode ser considerado de esquerda. O campo da esquerda existe, mas no um campo homogneo. Muito longe disso. H no nosso campo, uma massa de formas degeneradas, das quais estamos mais longe do que quase de ningum. (Mais longe do que destes ltimos, estamos, sem dvida, dos totalitrios de direita). Tudo isso mostra, creio eu, e mesmo se preciso considerar as circunstncias, como o tema da diferena entre antagonismos principais e secundrios perigoso.

Caetano descobre que “no achava que os operrios da construo civil em Salvador, ou os poucos operrios das fbricas reconhecveis como tais (?) ou as massas operrias vistas em filmes e fotografias - pudessem ou devessem decidir quanto ao futuro da minha vida” (VT, p. 110-111). Roberto se escandaliza: “como no ver a parte do desdm e da excluso poltica nessa formulao, sem falar na fantasia ideolgica de um futuro pessoal incondicionado” (ML, p. 88). E continua observando que “ns, intelectuais” “costumamos tolerar ou adular” membros de outras classes (“banqueiros, polticos profissionais ou donos de estaes de TV”) que “influem”, certamente, “na nossa vida” (id). Mas judiciosa essa observao? Seria preciso lembrar at onde iam as iluses em torno da “classe universal”, e como isto pesava sobre a conscincia dos intelectuais, para entender a atitude de Caetano. Ns acreditvamos que o fim da explorao e da opresso viria de uma tomada de conscincia radical da massa explorada, que tornaria possvel uma revoluo social, revoluo, no interior do qual, a intelectualidade e a classe mdia, em geral, teriam, tudo somado, uma importncia muito pequena. E mais : havia sim um verdadeira mitificao da condio operria, que nos fazia nos perguntar a cada momento em que medida servamos, e em que medida no servamos Classe. Essa atitude continuaria a ser legtima? Bem entendido, no haver mudana radical no Brasil sem que a conscincia das massas se desenvolva. Mas, ao mesmo tempo, impensvel essa mudana sem uma grande mobilizao das classes mdias e da intelectualidade. Ento a situao no mudou? Mudou sim, porque nem achamos que a famosa tomada de conscincia do proletariado venha - seno fatalmente, mas pelo menos inevitavelmente - com o desenvolvimento do processo, nem acreditamos - eu pelo menos no acredito - que o papel das outras classes seja simplesmente, digamos, de coadjuvante intelectual do despertar das classes populares. Diga-se de passagem, a inconscincia do papel que podem ter as classes mdias, e o desprezo pelo suposto moralismo que elas professariam e que seria um de seus pecados mortais, , certamente, um dos preconceitos que mais dificultam o progresso das esquerdas no Brasil. Se a neutralizao do capital depende sim e em primeiro lugar de que os mais pobres se disponham a combat-lo, depende tambm, e muito, da lucidez e da combatividade das classes mdias, lucidez e combatividade que nunca ser efetiva se continuarmos denunciado o seu pecado original, diante da pureza essencial da classe eleita. Quem quer que tenha militado no perodo anterior a 64 sabe bem que havia algo de mtico na nossa relao com a massa operria. Isso no tem nada a ver com a ideia de que no somos condicionados pelo mundo em que vivemos, incluindo outras classes, nem implica em no termos conscincia da nossa condio de privilegiados (em muitos casos, s relativamente privilegiados). E as reticncias de Caetano em relao “ditadura do proletariado” (VT, p. 110, referidas por Schwarz em ML, p. 87) se iluminam, a meu ver, pelo mesmo tipo de circunstncias. As reflexes crticas do artista o levam a se perguntar - um pouco como sntese de tudo - pelo destino do processo, caso a esquerda fosse vitoriosa. Assim, aparece o tema dos “embries de estruturas opressivas” (ver mais acima minhas referncias a VT, p. 276, 102 e 466, e ML, p. 85). O caminho que percorramos ou que havamos percorrido no representava simplesmente uma “luta por uma sociedade melhor” (ML, p. 85), nem simplesmente “um aprofundamento da democracia” (ML, p. 109), nem simplesmente um “ascenso socializante” “cujo impulso [era] superador e democrtico” (ML, p. 85). Na realidade, o movimento representava tudo isso, por um lado; mas, por outro, havia uma sombra, que no era uma simples hiptese, mais ou menos gratuita, de intelectuais pessimistas, de que a coisa pudesse dar num resultado muito pouco satisfatrio, ou, mais precisamente, muito pouco democrtico e at bem sinistro. Esse problema est no texto de Roberto, porm sob a forma meio pobre da “sombra da Unio Sovitica“ (ML, p. 86), sombra que “pesaria sobre qualquer tentativa socializante”, mas que - insiste Roberto - no se poderia transformar em “impedimento absoluto insatisfao com o capitalismo”, o que constituiria “outra forma de terror ou de paralisao da histria” (ML, ib). Porm Caetano teria dado esse passo? No creio. Em resumo, Caetano se pergunta, de forma escandalosa se tudo aquilo era “propriamente desejvel” (VT,p. 60). (“E hoje nos do bons motivos para pensar que talvez nada disso fosse propriamente desejvel”). O isso o conjunto do processo: o movimento dos estudantes apoiando Goulart, o governo admirvel de Arraes articulado com as camadas populares, as atividades dos Centros Populares de Cultura da UNE etc, tudo aquilo, diz Caetano, que parecia nos conduzir a reformas e nos livrar de uma situao injusta, alm de nos alar “acima do imperialismo americano” (VT, p. 59-60). Como concluso, digamos monoltica, a ideia de que tudo era simplesmente indesejvel certamente muito pobre, e errada. Mas, se considerarmos todo o livro, e tambm (voltarei a isso), o conjunto da histria de Caetano, no s antes do golpe mas tambm depois, seramos obrigados a ler esse indesejvel como uma concluso peremptria, ou, em vez disso, como uma sombra de dvida, pairando sobre o sentido do movimento? Na realidade, Caetano levanta no s questes tcnicas, ou, no jargo tradicional, tticas e estratgicas - saber se teramos ou no teramos xito. Mas tambm, mais radicalmente, quais eram os fins do movimento, ou, mais modestamente, a que tudo aquilo iria conduzir? E essa questo de fato vinha imbricada com uma de direito: aquilo tudo valia a pena? Parafraseando Foucault, no se tratava mais de perguntar se os nossos objetivos ltimos eram realizveis, mas de indagar se eles eram desejveis. De novo, acho que h mrito nisso. Sem dvida, h mrito quando no se transforma em trampolim para passar direita. Mas Caetano no passou direita. O meu argumento teria ainda de ser desenvolvido, porm interrompo provisoriamente essas consideraes para passar da poltica esttica, j que quase no falei de esttica at aqui. Uma vez feita essa incurso - que no uma digresso: h na esttica de Caetano um encaminhamento que corresponde grosso modo ao da sua polica e que vai interessar discusso da crtica de Schwarz - retomarei a poltica, ou a esttica com a poltica.

Para quem gosta da msica popular brasileira, o grande passeio que faz Caetano pela sua histria, medida que vai narrando a gnese do tropicalismo, - parafraseando o que diz o prprio Caetano, citado por Schwarz, a propsito dos avatares da msica brasileira - “uma sucesso de delcias para a minha inteligncia” (VT, p. 32, ML, p. 71). Caetano discute genealogias, distingue formas, julga, traa paralelos. Tudo isso extramemente estimulante, como, alis, Schwarz no deixa de assinalar. E os problemas que o compositor levanta - mesmo se estou longe de concordar com tudo o que ele diz -, guardadas as propores e as diferenas, tm algum paralelismo ou imbricao com a problemtica poltica que comecei a percorrer nos pargrafos anteriores. Vou tentar entrar nessa grande caminhada pelo interior da msica popular brasileira, embora, como j assinalei, minha competncia seja limitada.

Lendo o livro de Caetano, tem-se a impresso, esquematizando muito, de uma sucesso de formas: a do samba e do choro clssicos; a da bossa-nova: e, digamos, para no nos fixar demais no tropicalismo, a - na falta de melhor denominao - da ps-bossa nova. Entre elas, ou coexistindo com elas, uma srie de manifestaes mais ou menos individuais, frequentemente de implantao regional, as quais, muitas vezes, forneceram elementos importantes para a constituio da nova forma que germinava. Exemplos disso so Caymmi e Luiz Gonzaga, e, no plano dos estilos, o samba-cano.

Aqui h que considerar a histria de Caetano, como msico muito ligado sucesso dessas formas, e o que ele diz a respeito delas.

Difcil passar por cima das suas muitas observaes interessantes e julgamentos muito afinados (Schwarz no poupa elogios: “inteligncia esttica notvel” (ML, p. 67), “crtico de arte de primeira qualidade” ( ML, p. 73)). Caetano gosta de Caymmi, no que tem plenamente razo. Queria inclusive incluir “Dora” em seu primeiro disco tropicalista, mas houve oposio. Observe-se que o que ele aprecia em Caymmi no a msica praieira, de certa beleza, mas de valor esttico duvidoso. Ele v, com razo, na msica de Caymmi, uma grande msica urbana. Quando critica - e ele critica algumas vezes - Caetano acerta frequentemente: assim, no “engole“ a famosa “A banda” de Chico Buarque, no que d prova de um juzo seguro, e tanto mais porque esse juzo no envolve o conjunto da obra de Chico.6O grande heri do livro Joo Gilberto. No sem motivo. Mas confesso que estranho o lugar excessivamente modesto que nele ocupa Tom Jobim.

O discurso de Caetano sobre a msica popular o de algum que julga muito. Apesar da sua chamada generosidade excessiva, que examinarei mais adiante, - e pelo que foi dito no pargrafo anterior isso j fica evidente -, Caetano distingue sim a msica que vale da que no vale. Por outro lado, inscreve-se contra a tendncia de seus amigos concretistas a julgar em termos de diferenas quantitativas. Ou, se entendo bem, em querer distinguir valores estticos, valendo-se da categoria da “quantidade” (cf. VT, p. 231). Caetano quer outra coisa, uma espcie de diferena que parece ser mesmo de valor. por a que entendo as expresses que ele emprega de vez em quando para designar o campo do negativo (em sentido pejorativo): “msica execrvel” (VT, p. 288), “comercialismo vulgar” (VT, p. 161), “convencionalismo comercial” (VT, p. 480). Desde j, eu diria, entretanto, que alm da categoria do “comercial” dever-se-ia pensar num outro preenchimento possvel do campo do negativo: o da msica-barulho, o da msica-barbrie, que no propriamente comercial, mas que vale pouco ou nada como msica. (Sem dvida esse juzo deveria ser mais bem justificado e o objeto mais bem definido).

Mas o trabalho de Caetano com seus amigos (Gil, Os Mutantes, Gal Costa?) , em grande parte, o de utilizar uma msica estranha s tendncias dominantes, samba clssico e bossa-nova. Do aproveitamento daquele trash, junto com a herana dessas duas tendncias, ele tira uma produo original, cujo valor indiscutvel, e que vai se firmar, depois de muita luta, como um gnero plenamente legtimo, nascido depois da bossa-nova. Isso no contexto de um atitude crtica diante da arte socialista-nacionalista do pr e ps-64. Sob esse ltimo aspecto, - v-se hoje - sua postura tinha, a meu ver, bastante justificao.7Para caracterizar o novo estilo, o do tropicalismo - que mais do que uma forma musical, mas nos limites desse texto, reduzo um pouco as faces do objeto -, Caetano recorre ao termo sincretismo : “A palavra-chave para se entender o tropicalismo sincretismo” (VT, p. 286, cf. ML, p. 96). Aqui aparecem problemas interessantes. A msica de Caetano surge, sem dvida, da fuso de uma pluralidade de formas, desde o samba pr-bossa nova, at o rock, passando pelo samba-cano. At mais do que isso, porque ele utiliza tambm a produo de gente que no faz msica (e no estou me referindo aqui s aos artistas plsticos, mas tambm a animadores de auditrio). A tendncia de Caetano de valorizar tudo aquilo que ele, de algum modo, utilizou. Se alguma coisa passou sua msica - ou ao tropicalismo em geral, ou mais em geral ainda, a qualquer forma musical que ele aprecia -, que, de algum modo a fonte tinha valor e importncia. Tenho a impresso de que h a uma dificuldade.8 A utilizao de certas peas de mquinas do passado, ou contemporneas, deveria ser encarada, creio eu, como tendo a mesma significao da utilizao de elementos do mundo social e, em particular, miditico. Quero dizer que a utilizao de peas no deveria ser a porta para a legitimao, seno a idealizao, das obras ou performances de onde foram retirados. E isto, mesmo se essas obras parecem ter um cunho marcadamente popular (as aspas querem indicar a ambiguidade radical da expresso). A tese que quero defender a de que, por exemplo, se Caetano utiliza (legitimamente) frases ou ttulos de Chacrinha (“Alegria, alegria”), isso no limite deveria ser to insuficiente para legitimar Chacrinha como artista popular, como o uso (legtimo) da “Coca-cola” na letra das msicas o seria, para a legitimao social ou poltica da grande firma capitalista internacional, fabricante da bebida. O que aparece como um obstculo para essa comparao que, num caso, temos uma grande marca do capital mundial, e no outro, um animador de auditrio cujo pblico era constitudo em parte de empregadas domsticas. Porm, no s seria possvel, em certa medida, cruzar essas qualificaes - o povo bebe Coca-cola, os animadores de auditrios, se no so capitalistas, chegam a receber somas considerveis - mas, o essencial, seria preciso dizer que num caso como no outro a possibilidade da utilizao de peas no d, de forma alguma, valor esttico (ou valor social ou poltico) Coca-Cola e ao Chacrinha. Eu diria a mesma coisa, para casos menos chocantes, como o do samba-cano do tipo Dick Farney, que parece ter tido um papel na constituio da bossa-nova, e depois do tropicalismo. Vamos supor que essses ltimos tiraram bastante de Copacabana etc. Mesmo que isso seja verdade, no creio que seja motivo suficiente para perder de vista o valor duvidoso da msica de Dick Farney. Alis, poder-se-ia observar que o que era positivo a provavelmente no era a espcie - o tipo de samba-cano que praticava Dick Farney, nem o singularidade, as canes que ele criou, mas o gnero, o gnero samba-cano. E ento vale dizer que poder-se-iam encontrar outros exemplos do gnero, esses sim bons ou muito bons, os sambas-cano de Caymmi, por exemplo, alis muito criticados, em seu tempo, pelos puristas. (Sem prejuzo do argumento geral, no sei, entretanto, que peso teve o samba-cano de Caymmi na gnese das novas formas). Mas o caso mais importante parece ser o de Roberto Carlos ou da dupla Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A atitude para com eles aparece como um divisor de guas. Caetano no cessa de reivindic-los (ele diz, alis, que Augusto Campos se interessa pelos dois aduzindo razes tericas complicadas, que no so as suas (ver VT, p. 204)). Confesso que no ouvi suficientemente Roberto Carlos, e ainda menos Erasmo Carlos. Mas ouvi suficientemente, embora no s, o famoso “Que tudo v para o inferno” (“Quero que voc me aquea?”), que Caetano aprecia (VT, p. 452). No creio que sairia do show ao se ouvir essa pea, como fizeram alguns espectadores (ib). Mas acho a cano do tipo agressivo-nihilista, sem nenhuma beleza ou riqueza do ponto de vista meldico ou harmnico. Aqui, a gente se pergunta se Caetano acerta. E volto ao argumento: que ele tenha tirado alguma coisa de Roberto Carlos - no sei bem o quanto - no deveria levar a valorizar uma figura que, salvo erro, no enriquece a msica popular brasileira, no que ela tem de melhor. Quanto ao Chacrinha, acho que fenmeno sociologicamente importante, mas na medida em que manifestao essencialmente regressiva. As mesmas razes eu invocaria em relao a pelo menos muita coisa do rock ou do i, i, i. Caetano passou por l, e a partir da fez boa msica, nova, criativa, com uma poro de qualidades. Mas o grosso da produo de rock me parece apontar mais para barulheira regressiva, para barbrie esttica, do que outra coisa. Sem dvida, Beatles e Cia, so outra histria. A se tem, em geral, msica popular de muito boa qualidade: inventiva, rica melodicamente, talvez tambm harmonicamente, e sem os traos de violncia e agresso que aparecem em uma parte considervel, parece, da produo rockeira.

H tambm uma outra discusso esttica possvel, em torno da qualidade literria do livro de Caetano. No que se refere questo, j vimos, Schwarz no poupa elogios, mas visando, principal ou essencialmente, as duas primeiras partes do livro, l onde o autor se ocupa da sua vida em Santo Amaro, sua cidade natal, e depois em Salvador (ML, p. 52 e 53). Quanto s outras partes, o julgamento muda. Ou, mais precisamente, a mudana de perspectiva por parte de Caetano, tambm esteticamente, lhe parece forada: “(?.) quando aparece, a insistncia no carter antidemocrtico da luta pela democracia um corpo estranho no relato, de cuja dinmica interna no parece resultar” (ML, p. 86). (Observe-se a expresso “carter antidemocrtico da luta pela democracia”: Schwarz a utiliza criticamente, provavelmente para mostrar a [m] contradio em Caetano, e, entretanto, esse oxmoro, bem interpretado, tem alguma objetividade, e uma terrvel objetividade [que, entretanto, no nos deve levar imobilidade]: verdade sim que parte importante dos que lutavam contra os inimigos da democracia no tinham, a longo prazo, um projeto democrtico). A descambada a partir da terceira parte do livro no seria apenas poltica, mas tambm esttica: “Em termos de consistncia literria, de coerncia entre as partes da narrativa, que numa autobiografia quase-romance tm valor esttico-poltico, o novo ponto de vista antiesquerda destoa e no encontra apoio na apresentao - to notvel - do perodo anterior a 64” (ML, p. 85).

Se Roberto est simplesmente afirmando que as trs ltimas partes no so sempre muito satisfatrias do ponto de vista literrio e, tambm, que esse resultado tem talvez alguma coisa a ver com as derrapagens polticas do autor, estou de acordo. Mas a frase vai mais longe. Ela sugere algo como que a necessidade de uma continuidade (tanto poltica como esttica?) entre as partes, e parece fechar a porta a uma descontinuidade de outro tipo, que , por onde, a meu ver, o livro poderia alcanar uma grande altura literria. Porque se a beleza das duas primeiras partes real, ela de um tipo tradicional; a continuao, com ruptura poderia ser mais do que isto. E acho que o crtico perde de vista, em alguma medida, as exigncias propriamente estticas, seja em sua atitude um pouco exigente demais diante da narrativa da priso em que se fala de choro e de masturbao mais do que de resistncia (ML, p. 103, VT, p. 383), seja tambm quando mais ou menos insensvel beleza de algumas pginas que descrevem os primeiros dias do compositor, de volta ao Brasil. Schwarz: “O apelo ao maravilhoso compreensivel como expresso de desejo, embora kitsch. Como explicao do curso das coisas, regressivo, uma verdadeira abdicao“ (ML, p. 105) “(?) desaparece o jogo dos conflitos e das alianas de classe que subjazem inveno esttica e consagrao artstica, sem o qual a beleza no se compreende socialmente“ (ML, p. 106). Sem dvida, Caetano volta “em 72 - auge da ditadura” (ML, p. 104) e poderia ter escrito sobre a situao do pas. Mas no deixa de ser estranha essa coisa de “compreenso social da beleza” (parafraseio), e, mais, a relativa frieza do crtico literrio (ele cita, entretanto, parte do final da passagem) diante de um texto de uma indiscutvel beleza: “Depois que o sol se ps atrs da ilha de Itaparica, algo comeou a surgir no topo da ladeira da Montanha. Eu, aparentemente o primeiro a ver, perguntei aos amigos prximos o que seria aquela forma cnica branca que aparecia por trs do vrtice da balaustrada, no ponto mais baixo da praa, que onde ela se encontra com o ponto mais alto da ladeira da montanha. No imaginvamos que pudesse ser um trio eltrico - eles no entram na praa por ali e no o fazem em silncio. Houve uma movimentao para identificaar o objeto. Parecia um avio pondo o bico no ngulo da ladeira. Era o caminho do trio eltrico Tapajs que se apresentava em forma de foguete espacial. To logo se mostrou inteiro aos folies na praa, acenendo suas luzes, os msicos comearam a tocar “Chuva, suor e cerveja”. Imediatamente caiu uma chuva forte que durou toda a noite. A multido comeou a cantar e danar sob a chuva e eu, chorando e rindo, vi, inscrita no flanco anterior do ‘foguete’, a palavra inventada pelo pessoal do trio cujo caminho agora passava bem perto de ns, subindo par a rua Chile: CAETANAVE” (VT, p. 457). Essa passagem uma espcie de acme do livro e, apesar do seu eventual deficit poltico, de uma fora literria inegvel. E esta no vem da continuidade com o passado, mas antes de uma certa ruptura. Pouco mais tarde, Caetano sobe na nave que o leva para casa, onde tambm morava Gilberto Gil (Essa continuao citada, parcialmente, por Schwarz (ML, p. 105): “Depois dali, o trio parou de tocar e a Caetanave seguiu at o Rio Vermelho, onde tnhamos alugado uma casa (?) Gil, que no gostava de Carnaval mas acreditava em disco voador, estava dormindo quando o caminho chegou nossa porta. O som do gerador o fez acordar pensando em alguma cena de fico cientfica, em alguma nave extraterrestre. Ele correu para a varanda da frente e viu suas expectativas confirmadas: no meio da noite, aquela gigantesca ogiva branca piscando luzes tomava conta da rua, parada em frente de casa. Ele demorou a se recompor para tentar entender o que que estava se passando. Quando me viu descer do objeto estranho do qual o som trepidante provinha, entendeu antes de tudo que a magia e o originrio se reafirmavam mutuamente, que o simblico e o orginrio no precisavam ser distinguidos um do outro - que, naquele momento forte, o mito vinha fecundar a realidade. A rejeio que o exlio significara no apenas se dissipava: dava lugar a uma carinhosa compensao (VT, p. 458). Um comentrio poltico de Caetano, que se segue a essa muito bela passagem, , sem dvida ambguo: a ditadura no tinha “vindo de Marte” mas era “uma expresso do Brasil” (ib). Schwarz observa, com razo: “ser tambm parte do Brasil” no “justificao” (ML, p. 57). Mas a impresso que se tem que alguma coisa se perdeu nessa leitura. Difcil escapar da suspeita de que, pelo menos s vezes, quando a beleza no social ou corretamente social, a esttica schwarziana deixa escapar um pouco a beleza.

???

Assim, os percursos poltico e esttico de Caetano tm certo paralelismo, e a crtica tem de seguir caminhos que so grosso modo homlogos. H em Caetano um esforo de ruptura, que muito louvvel, no interior da atmosfera de conformismo geral e de “engajamento automtico” (VT, p. 436), mas ruptura em parte comprometida, num plano como no outro, por uma tendncia a homogeneizar o melhor e o pior, num gesto que acaba minando a atitude crtica. Caetano rompe barreiras polticas e estticas, mas, depois, em poltica, acaba dando? aquele abrao a quem se deve abraar mas tambm a quem se deve sempre combater; e, em esttica, a quem se deve apreciar, mas tambm a quem no parece merecer elogio, ou tanto elogio.

Porm, em poltica, a desconfiana de que alguma coisa estava errada e o esforo para encontrar solues, mesmo elas resultam frequentemente em formulaes tortas, inegvel. Os problemas estavam e em parte ainda esto l; o mal-estar existia e ainda existe. No basta dizer, com Schwarz, que os socialistas ficam devendo “uma resposta para a reconfigurao geral do capitalismo, de que 64 faz parte” (ML, p. 89). O que faltava - e, pelo menos a boa parte da esquerda dos pases emergentes, Brasil inclusive, ainda falta - mais do que isso: uma reflexo em profundidade sobre o que significa o fato de que poderes cujo ponto de partida foram, a longa distncia pelo menos, revolues populares, terem degenerado no s em governo autoritrios e em desigualdade, mas em genocdios que no deixaram atrs, quantitativamente, os que o outro lado praticou. O mote de certa extrema esquerda europeia, de que sofremos “derrota“ com a queda do Muro, a pior coisa nas circunstncias presentes9. “ a prpria noo de progresso“ (ML, p. 97) que tem de ser rediscutida. Que tem, ainda, de ser rediscutida, para alm do ponto a que chegou a discusso na obra dos representantes mais lcidos da esquerda do sculo XX.

Em esttica, o percurso, at certo ponto paralelo,10 tambm encerra lies. Caetano trilha um caminho original, para alm do samba tradicional e da bossa-nova, e seus resultados revelam o quanto o seu impulso heterodoxo se justificava. Mostram como era possvel fazer boa msica rompendo com os cnones - os cnones clssicos, mas tambm outros, mais recentes -, e como as suas reticncias diante da arte socialista-nacionalista do perodo tinha considervel pertinncia. Entretanto, salvo erro, o seu abrao esttico final tambm abraa demais.

Concluindo pelo mais urgente. Hoje se faz muita crtica poltica a Caetano. A esse propsito, sem defender o indefensvel, devo dizer que prefiro a atitude crtica de Caetano - apesar das derrapagens, desde que se as assinale - do que o bom mocismo de esquerda dos que vo ao beija-mo ritual no Caribe. Eu diria mesmo que Caetano serve mais e melhor a esquerda do que o fazem os zelotas. E, repito, o mal-estar subsiste. preciso combater a viso simplista de uma esquerda para a qual “o fracasso histrico” do comunismo (VT, p. 310) foi derrota da esquerda, e que se compraz (aqui, j no me refiro a Schwarz) num terceiro mundismo tolerante para com os mais sinistros personagens, desde que eles deem provas de suas convices “anti-imperialistas”. No se trata - j disse - de abandonar a distino esquerda/direita, muito pelo contrrio, mas de cruz-la com a oposio antitotalitrios (ou democratas) versus totalitrios, e tambm com a oposio antiprodutivistas versus produtivistas (ou se deve supor que as questes ecolgicas so bla-bla-bla ou manobra da direita?). A complexidade da situao atual exige um raciocnio difcil, para alm de antigas, e tambm de menos antigas, simplificaes. Seria necessrio mexer tambm com outras coisas. O culto dos livros santos - ou do Livro Santo - no desapareceu em certos meios (H pouco tempo, ouvi uma discusso na Universidade, em que os oradores, professsores e alunos da Universidade, se sucediam fazendo verdadeiras profisses de fidelidade doutrina). H tambm outras coisas incmodas, no microcosmo: por exemplo, essa sociabilidade estranha, de pequenos grupos saltitando em torno de um guru de esquerda? -se tentado a pensar esses fenmenos como happenings de certa esquerda intelectual ortodoxa, a comparar, talvez, mutatis mutandis, com os happenings da banda tropicalista?

No pude acompanhar muito de perto a trajetria poltica de Caetano, nos ltimos anos. Mas at onde acompanhei, parece-me que se, de fato, ele, s vezes, d uma no prego outra na ferradura, sua postura foi e continua sendo a de um homem de esquerda. A acrescentar, coisa que no muito frequente entre ns, e pela qual paga certo preo, que ele tem convices democrticas firmes. Para um artista brasileiro, no pouco juntar essas duas coisas. A acrescentar o apetite enorme pelas coisas do esprito: pela arte em geral, e, o que menos frequente, pela teoria. Um msico popular devorador de teoria (Roberto j insistiu com felicidade sobre “a envergadura intelectual” do compositor, ver ML, p. 53) animador. Para terminar, no posso deixar de assinalar a presena de um motivo tico bem marcado, pontuando o livro (ver, por exemplo, VT, p. 276 e 278). A esquerda tradicional nunca levou isso a srio, pior, em geral considerava essa atitude como um defeito (moralismo)?

Que siga a discusso, para alm e por cima de nossas competncias e especialidades. Claro, o prestgio enorme de certas figuras artsticas torna delicado esse dilogo. Mas aceito o risco. O contrrio seria, no fundo, ceder a preconceitos, mesmo se eles se apresentam sob a forma invertida de uma exigncia de discreo ou de seriedade profissional.

19 de outubro de 2012

 

Com agradecimento a Ricardo Crissiuma, cujas observaes sobre a primeira verso me foram muito teis. Sem responsabiliade.

   

 






























fevereiro #

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ilustrao:Rafael Moralez



1 Verdade Tropical, So Paulo, Companhia de Bolso, 2008 (1997), abrevio por VT.

2 Martinha versus Lucrcia, ensaios e entrevistas, So Paulo, Companhia das Letras, 2012, abrevio por ML.

3 Esse texto , evidentemente, de minha estrita responsabilidade. Se me dispus a escrev-lo no foi para pagar algum tipo de dvida, mas para aceitar o convite discusso, que certas referncias implicitamente lanavam. O risco de ser mal-entendido em seus motivos no razo suficiente para abandonar a discusso de problemas importantes.

4 Mesmo se aqui ele se refere, mais particularmente, a um livro sobre o Brasil.

5Aqui aparece um problema. Eu estaria sendo justo, nesse ponto, com Roberto Schwarz? Afinal, ele escreveu um ensaio como “Altos e baixos da atualidade de Brecht  (in Sequncias Brasileiras, Companhia das Letras, 1999), em que, precisamente, ele compara o que pensava a esquerda antes de 64 (e 68) e da ditadura, e o que pensava depois? Ele no faz, precisamente, o balano do fim de um certo nmero de iluses? Problema difcil. Por um lado (primeira hiptese) me pergunto se h perfeita homogeneidade entre esse texto e a crtica de Caetano em Martinha versus Lucrcia. Por outro (hiptese alternativa), se o que se encontra no ensaio sobre Brecht, apesar de tudo suficiente, em termos crticos. Primeira hiptese: Schwarz teve uma trajetria complexa no ps-ditadura. Houve um momento em que ele parecia ir muito longe no plano da crtica: lembro-me que gostava de dizer e repetir que “no sabia se era marxista”. Depois houve (talvez) uma inflexo ortodoxa. Hiptese alternativa: como a diferena entre a perspectiva do “comunismo crtico” e a do socialismo democrtico (quero dizer, democrtico e radical) stil, embora essencial, o ensaio de Sequncias brasileiras, talvez no seja incompatvel com certa ortodoxia. Para mim, no plano mais terico, o essencial estaria em se alar at a crtica do marxismo, mais precisamente, a uma viso crtica da histria, de esquerda, radical, mas que no ser mais, a rigor, marxista. Sob essa perspectiva, os dois ensaios no marcariam uma ruptura. Uma observao para terminar essas consideraes (mesmo se elas permanecem um pouco aporticas): a posio de Roberto era, na origem, bastante heterodoxa, relativamente a sua gerao. Leitor de Frankfurt, ele s vezes nos escandalizava, criticando, por exemplo, a ideia marxiana de uma sociedade transparente. Se assim, e isso pode estar na ordem das coisas, o mais heterodoxo dos anos 1960 se revela hoje, relativamente, como o mais ortodoxo.

6 Roberto (ver ML, p. 81-82) no perdoa muito a Caetano a atitude ambgua que ele tem sobre a sua prpria periculosidade, e enxerga por trs disso um jogo duvidoso. Atacado pela esquerda, Caetano acha que a direita no se ocupar dele. Mas ouve com satisfao (e “cumplicidade”, escreve Roberto) o que diz o major tal sobre “o insidioso poder subversivo“ do trabalho deles. Mas esse quiproquo no foi um pouco o de todos ns? Se me permitem introduzir aqui a minha prpria experincia, lembro-me do descompasso de falas entre o funcionrio do consulado brasileiro em Paris que me retirava o passaporte obtido no nosso consulado no Chile, e o funcionrio francs que hesitava em me conceder asilo poltico. O primeiro justificava o ato de forma solene (e cmico-jurdica): “o senhor um inimigo do regime“. O que me fazia sentir muito orgulhoso da minha periculosidade (com isso, talvez cmplice do funcionrio e do governo?). O ltimo explicava a sua hesitao em me conceder asilo, dizendo, na vertente oposta: “Mas afinal, o que o senhor fez, publicava uma revista? s isso?“ . O que me fazia enrubescer, pela sbita conscincia de que - como dizia Graciliano - eu no era mais do que um “revolucionrio chinfrim”.

7 A relao que existe objetivamente entre Caetano e Chico aparece bem na verso que d o primeiro de “Carolina”, deste ltimo. (Ver em VT, p. 228, a referncia a essa verso “em tom estranhvel“, e as razes que teriam tido Caetano e seus amigos para “relativizar“ o trabalho de Chico, como pretensa “sntese final da dialtica da composio de msica popular no Brasil“ (VT, p. 228-229)). Ouvindo a destruio de “Carolina“ por Caetano, v-se bem as qualidades de um e de outro.

8Sem negar alguns bons resultados, acho que dominava uma atitude excessivamente indulgente em relao arte socialista-nacionalista, ou, pelo menos, diante de algumas das suas expresses. Para tomar um exemplo muito presente no livro, o teatro de Boal. Se houve um lado muito acertado no que fez Boal, lado que, de resto, Caetano, grande admirador do Zumbi assinala, certos espetculos, por exemplo, aqueles que punham os guerrilheiros no palco saudando o comandade Guevara, eram de doer. Quanto ao chamado Teatro do Oprimido, no pude acompanhar de perto a trajetria mas a julgar pelo que li em matria de intervenes no s do pblico mas tambm no pblico (sobre o pblico), confesso o meu ceticismo. Caetano tomou distncia diante dessas coisas, a contrapelo do entusiasmo reinante, o que se justificava e justifica.

9Meu amigo R.C. observa, com razo, que o raciocnio de Caetano a respeito no deve ser este. Ele no gosta de tal ou tal artista, porque pode tirar alguma coisa da obra deste, mas o contrrio: tira porque gosta. De acordo. Mas no creio que essa observao destrua o meu argumento. Apesar do modo com que o exprimi, ele no pretende ser “histrico”. Diz apenas que legtimo (ou pode ser) tomar de emprstimo momentos de formas em si mesmas ilegtimas.

10Recentemente, um terico ingls que andou pelo Brasil h quase cinquenta anos, e teve muito contato com todos ns, escreveu um texto sobre o Brasil que ilustra bem esse tipo de posio. Se ele bem informado sobre o nosso pas - apesar de alguns pesares -, sua mensagem de quem assina um terceiro-mundismo a-crtico, capaz de dar cobertura aos tropeos de Amorim e Lula com as piores ditaduras do mundo emergente, e a de quem professa, no mximo, um reformismo benevolente em relao ditadura castrista. Ele parece descontente com a intelectualidade daqui, a qual, a seu ver, hoje no teria mais a mesma fora. No fundo, ns que deveramos nos decepcionar com ele. Dos anos 60 do sculo passado, quando esteve no Brasil, segunda dcada do sculo XXI, ele no mudou nem um pouco, isto , parece que no aprendeu nada..

11No plano esttico, eu tenderia a ser menos crtico em relaes s posies de Schwarz, mas isso - um pouco paradoxalmente - principalmente no que se refere msica (e tambm TV). De fato, se declarando-se pouco competente nesse campo, fala pouco de msica propriamente, ele esboa entretanto uma apreciao crtica, que, em grandes linhas, me parece correta. Alis Caetano observa que, ao contrrio de Boal, Schwarz no tem uma atitude de franca oposio em relao aos seus experimentos estticos (“(?) Schwarz no demonstrava (?) nem hostilidade nem desprezo pelo nosso movimento“, (VT, p. 441)). Mas Schwarz no aprecia tudo aquilo de que Caetano gosta em matria de msica popular brasileira, e tambm no “simpatiza” com Chacrinha, (“(?) animador de TV clownesco, autoritrio e comercial”, (ML, p. 99)). - No o julgamento artstico (em sentido estrito) de Schwarz sobre Verdade Tropical que me parece mais discutvel; o seu julgamento literrio.

12 EXCURSO - J que, de um modo ou de outro, a esttica de Schwarz surge nessa discusso - essa esttica com suas imbricaes polticas, naturalmente -, talvez fosse o caso de me estender um pouco sobre o tema. No sei - mas li pouco a respeito - se a obra de Schwarz teve at aqui a discusso crtica que ela merece. A ocasio me leva a ousar algumas consideraes, que no tm outro carter seno o de tentativas ou de hipteses crticas. Costuma-se criticar a esttica de Roberto, pondo em evidncia um sociologismo capaz de comprometer a apreciao esttica. Minha impresso a de que, se o tema da dissoluo ou do empobrecimento da dimenso esttica pelo peso das consideraes sociolgicas no sempre errado, ele frequentemente superficial. Desconfio que, se a esttica de Schwarz s vezes parece insatisfatria, ela peca (ou parece pecar) menos pelo peso da sociologia, do que, eu diria, pelo peso do marxismo. Por outras palavras, at aqui os crticos, ao que parece, no dissociaram suficientemente anlise sociolgica e anlise marxista. Questionaram-se as duas coisas conjuntamente, como se elas fossem inseparveis. Mas na realidade anlise sociolgica marxista no um todo indissocivel. Pode haver anlise sociolgica e mesmo crtico-sociolgica sem que ela seja necessariamente marxista. Quero dizer que os caminhos da crtica a Schwarz seguiram, a meu ver, uma direo um pouco simplista, aceitando paradoxalmente um pressuposto que, na prtica - em teoria, claro que o autor, Roberto, sabe que a distino marxismo/sociologia possivel - a do autor criticado. Em vez de opor o esttico ao sociolgico, seria melhor contrapor o (esttico-)sociolgico marxista ao (esttico-)sociolgico no-marxista. Minha hiptese - a ser verificada - a de que no tem sociologia demais em Schwarz. Tem talvez capital demais, se posso dizer assim. E isso num duplo sentido. Se os textos literrios apontam em geral para um registro social, este nem sempre o do capitalismo. Ora, esse social no capitalista - nem relativo ao capitalismo - merece suficiente ateno na obra de Schwarz? Ou ele escolheu objetos que ficam fora desse contexto? Eu estou pensando principalmente nas sociedades burocrtico-totalitrias. Claro que Roberto conhece o fenmeno burocrtico e se refere a ele (ver por exemplo, o referido ensaio sobre a [no] atualidade de Brecht). Mas eu me pergunto se ele fez anlise literria de textos que eventualmente remeteriam a esse tipo de sociabilidade e de regime ( provavel que parte da obra de Kafka, remeta, premonitoriamente ou no, ao contexto que estou visando; no, entranto, o conto de Kafka “Tribulao de um pai de Famlia” que Roberto examina em livro quase homnimo). Se os seus objetos (de Schwraz) no servem para pensar um social que no seja capitalista (ou relacionado com o capitalismo) - do que no tenho certeza, preciso ler ou reler tudo o que ele escreveu, - seria de se perguntar se essa escolha de objeto inocente, ou se ela remete a uma fixao na ideia de que o social no sculo XX e s pode ser o capitalismo. Por outro lado, o peso do marxismo induz, em geral, talvez um certo privilgio, nem sempre muito justificvel, adianto, do macro-social, em detrimento do micro, o que implica, mesmo nos casos em que o melhor referente seria mesmo “a ordem burguesa”, a ler esta “ordem” em termos muito holsticos. Por outras palavras, o que quero dizer que mesmo l onde a referncia sociedade capitalista em princpio no seria problemtica, o peso do marxismo o leva a dar um privilgio talvez exorbitante “sociedade burguesa” global (em prejuzo de domnios microsociolgicos relativamente autnomos no interior dessa ordem), e, com ela, de novo, aos significantes capital e capitalismo. Essa reflexo me vem, entre outras ocasies leitura, precisamente, do referido “Tribulao de um pai de famlia” (in O pai de famlia e outros estudos, Paz e Terra, 1978). Nesse ensaio, que comenta o continho genial de Kafka, de mesmo ttulo, Roberto prope uma leitura sociolgico-marxista, que ele ope “leitura metafsica, segundo a qual Kafka no fala de sociedade alguma em particular, mas da mortalidade em geral, da angstia de ter entranhas” (p. 25). Aqui eu me perguntaria se essa alternativa correta. No haveria uma terceira leitura possvel? Sem me estender muito. O conto, cujas figuras so Odradek, um objeto estranho e intil, meio inerte, meio animal, meio humano, e o narrador, o pai de famlia, remete sem dvida a um universo social, que Roberto caracteriza como ordem burguesa. Tudo bem. S que me pergunto, se a sua leitura dessa ordem no inflete demasiado em direo anlise marxista da mercadoria (com citao do Capital e tudo), e sociedade global capitalista (embora o termo capitalismo s aparea uma vez). Porque, para mim, se se trata, certo, da ordem burguesa, e da tribulao do chefe de um pai de famlia no interior daquela ordem, o centro do conto a vida familiar, mais precisamente a oposio entre a imobilidade forada do narrador e a mobilidade absoluta de Odradek, que, como um gato, some por vrios dias, depois volta casa (e mesmo dentro desta, no para quieto). Claro, dir-se-, mas a mobilidade no explica nada, ela remete a alguma coisa, e esta precisamente a ordem burguesa. Sim, mas esta pode ser iluminada de mais de um modo. Roberto insiste em que Odradek no pode ser mercadoria, em que, dentro daquela sociedade tudo tem de ser mercadoria e portanto ser til etc. Mas no seria deslocar um pouco o problema? Essa utilidade que se exige de tudo, tem a ver com uma domesticidade convencional (capitalista? talvez, mas talvez semi- ou at pr-capitalista) em que tudo deve ter uma funo, pelo menos esttica. forar um pouco a barra, a meu ver, pular da para uma citao de Marx sobre a mercadoria. Finalmente, esta no central no conto. Por outro lado, a angstia diante da morte, mquina de guerra da leitura metafsica - parece-me - tambm presente. (Roberto explora um “alm de tudo“, que precede a referncia ao fato de que Odradek vai sobreviver ao narrador, para tentar mostrar que esse aspecto no o essencial, alm do que - continua - trata-se no de vida e morte, mas de longevidade maior ou menor). Entretanto, o alm de tudo indica em primeiro lugar uma conjuno (em sentido lgico): aquilo, mas tambm isto. Talvez seja banal, mas penso que integrar essa dimenso, em lugar de substitu-la pelo discurso social-marxista, no empobreceria a anlise, nem a condenaria a um ecletismo de menor tenso esttica. Creio que, com isto, a anlise ganharia em rigor e preciso. De resto, o texto parece exigi-lo. - Em outro lugar, eventualmente tambm a partir de outros ensaios, tentarei comprovar - ou desmentir - essas hipteses.