revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

 

Yves COHEN

o conjunto significativo da figura do chefe
(Frana, Alemanha, Unio Sovitica e Estados Unidos, 1890 - 1940)

 

“Desta perspectiva, o menor chefe de polcia do Marrocos e Csar tm a mesma essncia.”1

 

Este artigo tenta identificar um fenmeno contemporneo que desempenha um papel significativo na histria do sculo XX e, provavelmente, somente deste sculo: a figura do “chefe”. Trata-se, assim, de reconhecer um elemento presente na composio profunda da vida social. Essa entidade pouco abordada pelos historiadores e socilogos porque transversal a todos os recortes que configuram tais disciplinas, bem como s suas descries das totalidades sociais. O perodo estudado vai de 1890 a 1940 e apenas quatro pases sero analisados: a Frana, a Alemanha, a Unio Sovitica e os Estados Unidos2 . Nesses pases em que a revoluo industrial j alcanara certo desenvolvimento, constitui-se uma figura do chefe que no existia no sculo XIX. Para atender preocupao das elites econmicas, polticas, militares e culturais, essa figura vem de certa forma compensar o desaparecimento da classe natural de comando representada pela aristocracia, e dar uma forma geral ambio presente em todos os setores da vida social, e, sobretudo, nas empresas. Tal ambio d-se a ver atravs de formas muito diversas em numerosos meios sociais que no necessariamente mantm relaes amistosas, mas que contribuem cada um com o seu quinho. Se tal movimento especfico a cada pas, ele no se desenvolve sem circulaes transnacionais, como as da psicologia das massas, da gesto cientfica do trabalho e do culto, no tanto do chefe, mas dessa figura mesma do chefe.

As palavras para designar “chefe”

Se em trs das lnguas concernidas nesta pesquisa existe um termo que se impe para nomear a figura do “chefe” (chef, em francs, leader, em ingls e Fhrer em alemo), parece que, em russo, necessrio recorrer a duas palavras e falar das figuras do vo?d’ (chefe, mais prximo de guia) e do rukovoditel’ (chefe, mais prximo de dirigente). Voltaremos a essa questo mais adiante. Se tais palavras existem h muito tempo em cada uma dessas lnguas, juntamente com outros termos que tambm designam os portadores de autoridade em diferentes domnios e em diferentes nveis, a figura do chefe s se forma no sculo XX.

Numa primeira fase, que vai do final do sculo XIX aos primeiros anos do sculo XX, a significao desses termos j se transforma.

Em francs, at o final do sculo XIX, o sentido da palavra chef era, etimologicamente e praticamente, o da cabea de um corpo. Em 1694, o primeiro dicionrio da Academia Francesa enuncia que “o chanceler o chef da justia”, que o “primeiro presidente o chef do parlamento” etc. Isso no concernia os postos intermedirios aos quais se aplicavam uma srie de outros nomes que no aquele de chefe. Nas empresas, no sculo XIX, o chefe o patro. Em um regulamento de fbrica de 1862 pode-se ler: “Os contramestres ou funcionrios responsveis pelo estabelecimento, representando os chefs e agindo em seu nome, devem ser obedecidos e respeitados como os prprios chefes o seriam”. No entanto, a palavra “chef” serve cada vez mais para designar ttulos precisos como os de “ingnieur en chef”, “chef d’atelier” e, medida que se aproxima o fim do sculo, “chef d’quipe”.3 Na administrao pblica construram-se no sculo XIX hierarquias administrativas muito precisas em que os “chefes de diviso” e os “chefes de escritrio” tm atribuies bem definidas. Essa construo leva, no comeo do sculo XX, concepo do “poder hierrquico” como uma sequncia de “chefs” que emergem a partir do ministro.4 Reservada at ento s mais altas posies, a palavra “chefe” se impe lentamente para todos aqueles que tm funes de comando intermedirio, por menores que elas sejam e por mais prximas que estejam da “linha de frente”. Mas em todos esses casos, somos remetidos a um estatuto individual e no a uma categoria geral dos chefes. Salvo na expresso dos operrios grevistas que no se intimidam por essas distines e gritam, no final do sculo XIX, “Abaixo os chefes!”, incluindo todos na mesma categoria. A palavra “chef” perde seus predicados em parte graas a essa prtica semntica operria.5 Mas no exrcito que a palavra chefe alcana a maior generalidade. O general Foch fala, em 1903, de um “chefe localizado em um qualquer nvel da hierarquia”.6 /p>

Pode-se dizer que o destino da palavra chefe como termo geral comea com a publicao, em 1895, de um livro que encontra imediatamente um grande sucesso internacional, Psicologia das multides, de Gustave Le Bon. Le Bon prope solues para “no ser governado demais [pelas multides]”.7 O termo que ele emprega , sobretudo, aquele de condutor (“meneur”). Mas para um engenheiro ou um oficial, difcil se reconhecer em tal termo porque o condutor, segundo Le Bon, quase um psicopata que imprime suas convices s multides que manipula. , no entanto, bem a que se encontra o lugar do “chef”, isto , no controle e na direo das multides, sendo que na perspectiva de Le Bon “multido” designa qualquer grupamento humano. O chef adquire ento uma dimenso genrica que vale para todos os nveis.

No caso da Alemanha, a palavra Fhrer se impe quando pensamos no chefe alemo do sculo XX. No entanto, at o comeo deste sculo ela designa, ao contrrio de “chef” em francs, apenas pequenas funes: a de guia de viagem (tanto o personagem quanto o livro) ou a de condutor de uma mquina. Para falar de um chefe o termo Leiter domina. Alm disso, o modelo monrquico ainda muito proeminente. Em 1868, a primeira obra alem sobre a gesto de empresas serve-se desse modelo. “Apenas um deve reinar” porque a monarquia , segundo o autor, a nica forma constitucional justificada para a empresa. “O monarca deve ser o empresrio ou bem aquele que o substitui. Seu olhar e sua vontade devem tudo penetrar”.8 Ora, esse modelo invertido nos primeiros anos do sculo XX. A discusso moderna sobre a gesto cientfica do trabalho do estadunidense Taylor desempenha um grande papel nesse processo, mas sobretudo a evoluo poltica que imprime sua marca. Os chefes no devem mais se espelhar no Kaiser, mas o Kaiser que deve ser, de agora em diante, um bom Fhrer para o desenvolvimento da Alemanha. Para o vigsimo quinto aniversrio de Guilherme II, um intelectual declara: “Ns solicitamos um Fhrer pelo qual atravessaremos o fogo”.9 Em alemo, scientific management se traduz por wissenschaftliche Betriebsfhrung e esse termo de Fhrung - a orientao ou a gesto - que se aplica conduo da empresa. A discusso que atravessa o pas a respeito dos termos de Fhrer e de Fhrung , como se v, muito anterior apario do nazismo. Existe, com efeito, uma transformao semntica e, tal como na Frana, ela est ligada ao crescimento econmico e industrial e aos problemas polticos que ele coloca s elites de toda natureza.

Na Rssia, percebe-se nesse momento a fragilidade do poder czarista e tenta-se pensar no que pode permitir ao pas escapar de suas incertezas. Do lado do poder, procura-se evitar no apenas a revoluo, mas tambm a reforma. Nesse pas que reclama da falta de homens prticos, justamente a formao de novas geraes de chefes que parece ser a soluo mais promissora tanto para a poltica quanto para a economia. Um dos principais homens de Estado descreve, em 1896, quais so os chefes de que o Estado russo tem grande necessidade e quais deveriam ser sua educao e suas qualidades.10 Seu livro traduzido para o ingls em apenas dois anos mais tarde. Estamos mais prximos, aqui, dos chefes que dirigem, os rukovoditeli. Mas do lado da oposio ao poder e da revoluo, o chefe que guia que emerge, to importante quanto aquele que dirige. O livro fundador do bolchevismo escrito em 1902, O que fazer?, de Lnin. Ora, trata-se de um livro sobre o chefe e o comando. Ele diz o que deve ser um social-democrata e este deve ser, em primeiro lugar, um chefe. O termo mais empregado aquele de vo?d’, que equivale ao de leader, de Fhrer ou de Duce em italiano, e secundariamente ao de “rukovoditel’”. Para Lnin, o partido social-democrata deve ser no somente uma organizao de militantes, mas, uma “organizao de chefes”.11

A lngua inglesa conhece uma inflexo do mesmo tipo no mesmo perodo. Os Estados Unidos, evidentemente, se servem dessa lngua na qual a palavra leader existe h muito tempo, mas no o termo leadership (liderana), que s se instala verdadeiramente no final do sculo XIX. O que se refora, ento, o discurso que os americanos tm sobre si mesmos e sobre o seu pas, fabricado por lderes. A partir da a preocupao com a liderana se manifesta em todos os domnios, tanto na educao quanto na poltica, na indstria como no exrcito. Para o autor da primeira tentativa de escrever uma psicologia da liderana, em 1904, esta , em toda a sua generalidade, “o fato maior da vida social”.12 A liderana do pas, das empresas e de qualquer grupo, assim como os leaders em todos os domnios tornam-se, desde antes da Primeira Guerra Mundial, objetos de uma discusso comum e cruzada da qual o futuro presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, um dos principais protagonistas. Taylor, que constri uma teoria perfeitamente determinista da organizao cientfica do trabalho, a qual busca escapar influncia dos indivduos, tambm participa paradoxalmente desse vocabulrio. Por ocasio de uma conferncia em Harvard em 1909, ele exalta “os raros dons dos grandes condutores de homens que apelam ao mesmo tempo admirao, ao amor, ao respeito e ao temor”. Harvard, justamente, qualificada por um outro autor como “me dos lderes”.13 Vemos formularem-se, nessa instituio, muitas das principais proposies sobre a liderana. Nos Estados Unidos, a instituio escolar ser, desde muito cedo, considerada como o lugar da formao de lderes desde a primeira infncia. Se a palavra leader pertence de fato lngua inglesa, aquela de leadership antes americana.

Conceber a figura

A Primeira Guerra Mundial e as revolues que ela engendra irrompem sobre essas premissas e reforam um movimento j claramente desenhado. A figura do chefe ento se cristaliza. Ao menos na Frana, ela fruto de esforos deliberados. A partir do momento que se forma um “chef”, termo empregado sem predicado, ele encontra sua encarnao.

A figura do chefe que j existia individual. Na verdade, so antes figuras de chefe. A de Napoleo, por exemplo, domina amplamente na Frana, como a de Bismarck na Alemanha ou aquelas dos grandes presidentes nos Estados Unidos. A guerra promove outras dessas figuras como, na Frana, os marechais Joffre e Foch e, na Alemanha, Hindenburg. O modelo absoluto da figura individual Moiss. Um historiador francs bem conhecido da metade do sculo XIX, Sainte-Beuve, fala dele da seguinte maneira: “Moiss no apenas um homem, um personagem real, uma figura: ao mesmo tempo em que ele profetiza o Cristo e o Messias, ele antecipa alguns de seus sofrimentos, de suas situaes e de suas agonias dolorosas”.14 Moiss uma figura porque ele anuncia Jesus.

A figura do chefe que se desenha por ocasio da guerra no aquela de indivduos, mas de um tipo social. assim que um psiclogo francs se coloca explicitamente como projeto forjar a figura do chefe ou, mais exatamente “o tipo humano: chefe”. Ele escreve, no primeiro artigo francs sobre “A psicologia do chefe”, “Ns queremos atingir um objetivo mais geral, criar uma abstrao, o chefe, na qual sero reunidas as caractersticas comuns aos diversos nveis e reagrupadas as qualidades dissociadas que se atribuem ao chefe para perceber, na sua unidade, o tipo humano: chefe”. O objetivo a descrio de uma categoria geral de chefe. Outros autores, mais prximos das teorias modernas da gesto, colocam-se no mesmo momento a mesma tarefa de esboar a “fisionomia dos chefes”, no caso de uns, ou de proceder “elaborao da figura moderna do chefe de empresa”, no caso de outro.15

A partir da, essas pessoas se propem a confeccionar uma ferramenta de estruturao do social. O que elas mesmas denominam uma “figura” ou uma “fisionomia” no se reduz palavra chefe e aos seus diversos equivalentes nas diferentes lnguas. A figura do chefe um complexo significante que comporta, alm do nome, componentes de ordens variadas: imagens, representaes, “caracteres comuns”, qualidades (ou “traos”), comportamentos, signos, uma relao consigo mesmo como chefe e certamente ainda outros elementos.16

A figura tem diversas faces. Importa notar, certamente, que essa figura do sculo XX forma-se em um novo regime de imagens. A conduta das massas que a modernidade identifica como um fenmeno que a constitui exige que se retraduza o retrato dos reis em retratos de chefes e que se tire todo partido da reproduo mecnica das imagens.17

A imagem de um chefe, fotografado ou filmado, no mostra as suas enfermidades: Stalin tinha vergonha do seu brao esquerdo mais curto por conta de um acidente quando criana, bem como de seu rosto marcado pela varola; o conselheiro de relaes pblicas de Franklin Roosevelt orientou-lhe a jamais ser fotografado em sua cadeira de rodas. O olhar se lana ao horizonte, na direo do futuro em que todas as promessas do presente se realizaro. O chefe mostrado na sua relao com as massas: Roosevelt ao microfone nos “bate-papos ao p da lareira” (fireside chats), Stalin no mausolu de Lnin apontando um corajoso proletrio marchando ou uma jovem pioneira, Hitler com a p na mo na abertura de um canteiro de obras de uma rodovia, Mussolini de frente para uma multido reunida. Os chefes de outros nveis tm suas fotos estampadas nos quadros de honra ou nas pginas dos jornais “corporativos”. A participao das imagens na construo da figura do chefe mereceria muitos volumes de histria comparada, transnacional e transsetorial.

A “figura” se aproxima da “persona” que os historiadores das cincias utilizam para falar do erudito, do homem de cincia, da “scientific persona” que se projeta no Ocidente desde o sculo XVI. Persona, como no caso do chefe, no designa nem uma profisso, nem um “papel”, mas uma “fisionomia reconhecvel”.18 Como a figura do chefe, a scientific persona um complexo significante. Essa figura tem um nome, o de cientista (scientist), que a ope ao nome da persona que a precede historicamente, isto , o “filsofo natural” (natural philosopher). Essa fisionomia do erudito tambm formada por traos de comportamento padronizados (como a ateno ao objeto, a humildade, o desinteresse), guardadas as especificidades dos diferentes contextos culturais.

O termo persona melhor do que o de “figura”, mais corrente no linguajar dos atores como no das cincias sociais, por chamar a ateno para a importncia do envolvimento pessoal. A palavra latina persona significa mscara (de teatro). A persona do chefe seria uma mscara? O estudo da sua “figura” apresenta uma coleo de traos (sobretudo positivos) que se impem s pessoas, servindo para que estas definam a si mesmas no que tm de essencial. No mais que a scientific persona, a figura do chefe no um “papel” como aqueles entre os quais circulamos ao passar de um contexto a outro segundo o socilogo americano Erwin Goffman.19 A figura de chefe supe realizar um trabalho sobre si mesmo para que se consiga desempenhar melhor a sua atividade pblica. Essa figura tem caractersticas coletivas e contribui fortemente para compor a persona; mais que isso, para compor essa personalidade mesma que objeto de mltiplos cuidados psicolgicos e de interesses literrios nesse mesmo perodo. Os chefes so convidados a escutar conferncias, a participar de formaes especializadas ou a ler livros sobre a personalidade. A partir desse momento, no parece que essa persona contempornea seja equivalente persona medieval: ela no constitui uma mscara sob a qual um eu verdadeiro existiria, mais ou menos dominado. Essa fabricao da relao com os outros uma fabricao de si e no de uma iluso. Tambm no estamos, portanto, diante da persona tal como Jung a define: “uma mscara de esprito coletivo, uma mscara que disfara a individualidade”.20 A persona adotada - como a de chefe - uma parte da verdade das pessoas, uma verdade ela mesma compsita, mltipla e ao mesmo tempo nica. a mesma coisa para a figura. Esta no exterior s pessoas. Quando as pessoas se tornam chefes, elas adotam ao mesmo tempo tal figura.

Mas podemos acompanhar a contribuio de cada pas elaborao de uma figura. Existem fortes especificidades locais nas figuras de chefe que se constroem em cada pas, mas elas no so menos marcadas por uma cultura internacional do comando que circula de modo particularmente intenso. Com o florescimento dos discursos cientficos e polticos sobre o chefe, o comando e as multides em toda uma srie de pases, formou-se em escala mundial, a partir do final do sculo XIX e comeo do XX, um vasto domnio de circulao21 em que se encontram os leitores de Le Bon, de Lnin, de Taylor do psiclogo francs Binet, do terico francs da administrao, Fayol, de Stalin, de Max Weber, dos psiclogos sociais americanos etc., todos contribuindo de modos mais ou menos diretos para uma concepo de chefe.

As qualidades do lder estadunidense

Nos Estados Unidos, desenvolvem-se rapidamente profisses inteiras que tm a tarefa de trabalhar sobre as qualidades do chefe, sua seleo e sua formao. Entre estas esto os educadores, os psiclogos, os socilogos, os pensadores da gesto, os polticos. Eles criam as formaes em leadership nas universidades e as management schools. Desde 1920, diz-se aos contramestres que eles devem ser lderes e propem-se a eles formaes especficas para que se aproximem apropriadamente da figura. Os Estados Unidos so o principal ateli em que se definem as qualidades do chefe ou, dito de outro modo, os “traos” de sua “personalidade” que contribuem em primeiro lugar para compor a figura do leader. Ora, essas qualidades podem ser muito variadas. De fato, nenhuma lista comum e nica chega a se construir a partir das publicaes e das trocas.

Para um autor, “algumas das qualidades ou caractersticas que parecem ser a base do talento para a liderana (leadership ability) so a personalidade, a perseverana, o tato, a coragem, a iniciativa, a deciso e a inteligncia”. Para outro, so a “iniciativa, o autocontrole e a autonomia”. Para o terceiro, as jovens lderes podem ter as qualidades de serem confiveis, amigveis, ter uma “personalidade magntica”, iniciativa, uma aparncia de comando etc. Para uma quarta, que fez pesquisa num acampamento de meninas, so “a sade e a vitalidade, a lealdade e o entusiasmo” que surgem mais cedo.22 Parece-me que esta constatao basta para caracterizar a disperso das categorias descritivas utilizadas. Ao contrrio, os estudos sobre as qualidades que definem o seguidor, aquele que obedece (follower) so muito mais raros. A followership vale para aquele que “reconhece a liderana responsvel, confere todo o valor opinio dos experts, respeita a experincia passada, sacrifica a si mesmo em nome do dever, coopera com alegria para o bem do grupo, trabalha fielmente nas comisses” e, claro, reconhece as autoridades.23

As qualidades que caracterizam o lder so, portanto, um grande canteiro aberto em todos os domnios... Masculino? Feminino? Um dos principais autores escreve que:

o lder, no velho sentido de boss ou de chefe utilizava traos pensados [?] como masculinos, ao passo que o lder como homem de influncia (educador) utiliza muitos traos pensados como femininos. Evidentemente, completa ele, uma mistura desses traos necessria para o lder eficaz, seja ele homem ou mulher24 .

Mas no podemos nos enganar: a figura do leader referida constantemente no masculino, e se passa o mesmo nos outros pases para os seus chefs, Fhrer e vo?dia.

Periodicamente, educadores e psiclogos especializados reconhecem a frgil confiabilidade “cientfica” dos resultados obtidos nas pesquisas sobre a figura do chefe e suas qualidades. Trata-se de uma constatao bem estabelecida s vsperas da Segunda Guerra Mundial.25 Mas pouco importa, preciso dizer aos lderes que eles o so. Os traos da figura do lder, mesmo que escapem a toda definio cientfica, lhes fornecessem um espelho reconstitutivo. Edward Bernays, o inventor e grande mestre estadunidense das relaes pblicas, no se engana quanto a isso. Para ele “a personalidade um instrumento de propaganda” e constitui uma funo constante do conselheiro em relaes pblicas valorizar de modo vivo a personalidade dos que encarnam os grupos que eles dirigem e, afirma ele, “a opinio o exige instintivamente”.26

A eleio de Franklin D. Roosevelt presidncia dos Estados Unidos em 1932 testemunha bem essa nova cultura. Nos doze minutos da sua primeira comunicao ao povo norte-americano, em maro de 1933, no momento mais crtico da Grande Depresso, o termo leadership aparece sete vezes, por exemplo: “Eu assumo sem hesitao a liderana desse grande exrcito do nosso povo que se consagra a um ataque disciplinado dos nossos problemas comuns”. No se viu nada parecido nos pronunciamentos inaugurais dos presidentes anteriores. O leader estadunidense uma das caractersticas do pas e da sua identidade. O desenvolvimento de uma cultura da liderana corresponde ao momento em que este pas apresenta-se como candidato hegemonia mundial. Ela indissocivel desse projeto. Pensar em termos de leadership em qualquer pas do mundo remete assim invariavelmente referncia e poltica estadunidense.

Na Frana

Na Frana, as qualidades do chefe no so objeto de pesquisas conduzidas por psiclogos experimentais que tentariam, como nos Estados Unidos, calcular a parte de umas e de outras e suas correlaes. Alguns termos diferentes dos usados para descrever as qualidades estadunidenses afloram nos textos franceses, como aqueles de carter e de exemplo a dar, mas outros tambm so comuns. Assim, um dos principais pensadores da administrao, do comando e do chefe, Henri Fayol, quer, em primeiro lugar, que o chefe tenha “sade e vigor fsico” e, em segundo, inteligncia e vigor intelectual. Em seguida aparecem as qualidades morais, que so a vontade refletida, firme e perseverante; a atividade, a energia e mesmo a audcia se necessria, a honestidade, a iniciativa, a coragem de assumir responsabilidades, o sentimento do dever e a preocupao com o interesse geral. O carter, muito estimado pelos militares, no est presente porque Fayol o considera muito impreciso e pouco apto a reagrupar os elementos precedentes. Em quarto lugar, convm que o chefe tenha uma “slida cultura geral”. preciso tambm que ele saiba administrar e que seja competente em seu domnio.27 O grande exemplo do chefe francs, sua grande figura singular , durante esse perodo, incontestavelmente Lyautey, o oficial tornado marechal, arteso da colonizao principalmente na frica e um dos primeiros a pensar o chefe no texto que ele publica em 1891 sobre “o papel social do oficial”. Pensar sobre o chefe na Frana pensar em Lyautey.

Neste pas, o ser-chefe tem interesses comuns com a humanidade. Em primeiro lugar, diferentemente da proposio de J.-M. Lahy, para quem nem todos so chefes porque ser um chefe pertencer a um tipo humano particular, diz-se frequentemente que cada um pode ser chefe. Um antigo capelo das trincheiras e futuro responsveis pelos escoteiros da Frana assim o anuncia: “Nem todos sero diretores gerais, mas todos ns poderemos ser chefes, nem que seja chefe de esquadro, chefe de equipe ou chefe de famlia. Para falar sinceramente, ningum escapa a isso” 28 . A proposio vai ao encontro de vrias outras escritas por diferentes autores. Ser um chefe ser um homem e reciprocamente. Uma das obras francesas mais reputadas sobre o chefe, escrita por um grande engenheiro - e leitor de Lyautey -, Raoul Dautry desenha o retrato do homem do seu tempo:

Um homem pode ser um verdadeiro chefe mesmo que exista sob suas ordens apenas dois operrios sem qualificao. No basta ser um general para ser incontestavelmente um chefe. O chefe aquele que permanece inteiramente fiel s responsabilidades da sua funo, aquele que a anima suscitando nela iniciativas, que realiza os ritos com amor, que, no desenvolvimento da sua tarefa, sabe entrar numa relao de amizade com os outros homens. Sobre este, no nem mesmo preciso dizer que um chefe. Ele um homem. Um chefe apenas aquele que, em qualquer nvel hierrquico, assegura totalmente o seu ofciode homem.

Mesmo Marc Bloch, que encontrou um chefe notvel durante a “Drle de guerre”, comenta: “Fiz a descoberta de um homem”.29 A figura francesa do chefe , assim, naturalizada. Esse pensamento amplamente compartilhado do homem como chefe - homem masculino - data essa poca que muito difcil de ser representada hoje, mesmo que tenham se passado pouco mais do que setenta anos.

Soviticos

A figura stalinista do chefe o chefe autorizado a s-lo. Ela no comporta a menor reserva que viria da propenso libertria do marxismo que, nesse caso, no existe. Ela pode se dividir em duas. Existe, em primeiro lugar, o chefe de empresa, o rukovoditel. Esse chefe emerge do comando nico que Lnin havia definido desde 1918. Segundo ele, se os operrios tm todos os direitos na poltica, no trabalho eles devem obedecer rigorosamente ao chefe:

preciso aprender a conjugar o esprito democrtico das massas trabalhadoras, tal como ele manifesta-se nos meetings, isto , impetuoso, transbordante como uma inundao de primavera, com uma disciplina de ferro diante do trabalho, com a submisso absoluta durante o trabalho vontade de uma nica pessoa, o chefe sovitico (soveckogo rukovoditel).30

Como esse chefe funcional e necessrio construo do socialismo, ele pode ter qualidades. O governo estalinista relana o chefe nico aps o perodo da NEP, quando estava integrado ao “tringulo” composto pelo diretor de fbrica ou da administrao (1), pelo secretrio do partido (2) e o do sindicato (3). A diretiva de setembro de 1929 que reinstaura o “comando nico” na economia desencadeia grandes discusses nas empresas. O desafio consiste em evitar a ingerncia direta do partido e do sindicado nas decises de gesto. A realidade das prticas , evidentemente, diferente da regra. Se para as maiores empresas e as construes mais importantes dos primeiros planos quinquenais, o chefe operacional (o diretor) assume claramente a precedncia sobre o responsvel do partido no mesmo nvel, o mesmo no ocorre necessariamente no caso dos diretores de empresas mais modestas. Em todo caso, o diretor portador de “direitos”, de autoridade. A tal ponto que, no congresso do partido de janeiro de 1934, o dito “congresso dos vencedores”, os grandes chefes do pas e a Pravda pedem que os diretores se apresentem a partir de ento como chefes, e que tenham, portanto, suas qualidades, particularmente a de ter “avtoritetny”, isto , ser competente em seu domnio. A figura do chefe econmico e administrativo exige que ele (tambm nesse caso, extremamente raro que seja “ela”) seja treinado, experimentado, competente e atento ao seu pessoal e capaz de responder instantaneamente a toda injuno da instncia superior.

A figura do chefe poltico um pouco diferente. Seus primeiros traos so posicionais. Ele deve colocar-se frente das massas, estar na vanguarda, e no ser seguidor. Em uma carta de 1934, Stalin chama a ateno dos membros do comit poltico, a mais alta instncia do partido comunista, sobre o que poderia ser o modelo do chefe. Os negcios vo muito mal na regio de Cheliabinsk, onde um certo Ryndin o secretrio do partido. Stalin escreve que “Ryndin um demagogo de baixa vontade, ele se conforma aos seus colaboradores, ele se deixa levar, no sabe os dirigir, os conduzir, ele tem medo de ofend-los”.31 O chefe deve conduzir e no permanecer atrs, ele deve ter essa coragem de no ser complacente com seus prprios subordinados. Inmeras so as menes necessidade de chefes “fortes” e a denncia dos “fracos” (sem falar dos oportunistas): essa fora deve ser orientada em direo aos inimigos sempre ameaadores, mas tambm em direo aos amigos, porque eles esto sempre prontos a ceder aos inimigos.32

Quanto s suas qualidades, a figura do chefe poltico oferece a imagem reversa da figura liberal. Stalin a desenha em pessoa e pensando na sua prpria pessoa. Ele aquele a que chamamos oficialmente o Vo?d, qualificao que havia sido concedida antes, ainda que mais discretamente, a Lnin. Para Stalin, no se trata de modo algum de ser um “homem excepcional”. Na verdade, as massas promovem mesmo pessoas comuns!”. Stalin pronuncia essas palavras em uma conversa en petit comit com os seus companheiros mais prximos em 07 de novembro de 1937, aps as festividades do 20 aniversrio de outubro, momento que , tambm, o mais intenso da represso conduzida no pas contra toda uma srie de grupos sociais e nacionais e, ao mesmo tempo, contra amplos setores do partido comunista e outras organizaes pblicas. Isso significa que as proposies de Stalin tm um sentido muito particular nesse momento de grande extermnio. O alvo dessas crticas principalmente formado por trotskistas, essas “figuras” que se apoiavam apenas em homens de elite. Stalin opera, nesse ponto, uma inverso essencial. Ao descrever a si mesmo e seus companheiros prximos como “ordinrios”, ele desenha a boa figura do chefe para o movimento comunista inteiro. O chefe comunista justamente aquele que no tem as qualidades que em breve denominaremos “carismticas”. Por exemplo, ele no necessariamente sabe falar de modo ardente: “Comparado ao talento oratrio deles, eu sou um orador pobre”, diz Stalin pensando em Trotsky e em seus supostos amigos. O que se torna o mximo para um dirigente comunista precisamente a ausncia da melhor qualidade do chefe liberal.

a lgica mesma do desdobramento do culto comunista do chefe que foi, muitas vezes, nomeada de culto personalidade. O culto de Stalin no para de se desenvolver na URSS a partir de 1929. Mas ele negado, pois no pode haver culto da personalidade e, alis, a prpria modstia de Stalin e dos dirigentes comunistas o probe. Stalin ataca explicitamente a possibilidade de um culto personalidade: “As personalidades aparecem e desaparecem na histria, o povo permanece e ele no se engana jamais [?] A personalidade no o essencial”. Desde ento, todo chefe stalinista tem como primeira qualidade a de ser modesto. Para melhor ser chefe, preciso tomar emprestada a velha figura operria do antichefe, isto , de um chefe diferente daquele que protege os lucros e os projetos capitalistas, corts, atendo, afetuoso e paternal, mas implacvel com o inimigo que ele “desmascara” dentro ou fora do partido.

A figura do chefe no menos imponente no comunismo no poder do que em outros lugares. Ela chega mesmo a ser provavelmente mais estruturante do social do que em um pas liberal onde, mesmo se ela por vezes mais hesitante e pouco clara, a busca de conciliao entre o chefe e a democracia constante, como o mostram as publicaes e os debates sobre essa questo que ocorreram nos Estados Unidos e na Frana a partir do incio do sculo XX.

As formas alems e hitleristas da figura do chefe

De todo modo, no perodo entre guerras, essa capacidade de conciliar a figura do chefe com a democracia perdurou na Alemanha durante os menos de quinze anos da Repblica de Weimar, at que uma outra frmula, a de que a democracia inimiga radical do Fhrer, se tornasse vitoriosa, lanando a Alemanha no crime absoluto e na destruio atravs de uma guerra mundial que ela mesma provocou.

A figura do Fhrer desenvolve-se ao mesmo tempo em dois lugares, o da poltica e o da indstria, mas tambm em dois tempos. O tempo do debate pblico durante a Repblica de Weimar fornece a imagem de uma Alemanha que apenas mais um dentre os vrios pases em que a obsesso do chefe e dos chefes se desenvolve. A vitria de Hitler em 1933 lana o pas no reino extremo de uma figura do chefe no apenas exacerbada, mas localizada no corao de tudo o que essencial. A partir do momento em que Guilherme II aparece como um frgil chefe de guerra em 1917 impe-se a necessidade de uma repblica constitucional. Em numerosos pontos do espectro poltico a mesma coisa dita: faltou Alemanha um Fhrer.

nesse contexto que aparece a proposio de Max Weber. Weber intervm ao mesmo tempo na poltica e na sociologia e, nos dois lados, ele confere prerrogativas ao chefe. Alm disso, ele prope um quadro interpretativo muito forte para o debate sobre a autoridade e sobre o chefe em curso no apenas na Alemanha, mas tambm em outros pases. Esse o momento em que ele aperfeioa sua sociologia da dominao e, ao mesmo tempo, participa de modo intenso da cena poltica. Pouco confiante na capacidade da democracia alem permitir uma “seleo de chefes” satisfatria, Weber prope um presidente eleito diretamente pelo povo, autorizado a dissolver o parlamento e a tomar medidas de exceo. A est o lugar imediato para o chefe carismtico que ele define politicamente ao mesmo tempo em que o pensa sociologicamente. Para Weber, a democracia no a escolha:

Ou bem a democracia admite sua frente um verdadeiro chefe e, por consequncia, aceita a existncia de uma “mquina”, ou bem ela renega os chefes e recai, ento, sob a dominao dos “polticos profissionais” sem vocao que no possuem as qualidades carismticas profundas que constituem os chefes.33

O chefe weberiano tem, portanto, as qualidades que o tornam carismtico. Em uma passagem, essas qualidades so a vontade e a potncia da palavra demaggica e, em outra, as trs “qualidades” maiores do chefe poltico so a paixo, o senso de responsabilidade pessoal e a “capacidade de viso”.34 Importa notar que naquele momento e at depois da Segunda Guerra Mundial a noo de carisma quase restrita sociologia alem. apenas aps essa guerra que sua capacidade de nomear a figura do chefe se desenvolve ao mesmo tempo no seio da disciplina sociolgica e no discurso ordinrio, primeiramente nos Estados Unidos. Atualmente, no possvel falar de um lder sem acrescentar “carismtico”. Antes da Guerra era suficiente dizer “leader”, “chef” ou “Fhrer” para obter as mesmas conotaes que a expresso “chefe carismtico” fornece hoje.

No mbito da indstria, ao lado dos conceitos de racionalizao e organizao do trabalho, desenvolve-se a noo de “conduta de homens” (Menschenfhrung). Do que se trata? O Menschenfhrer, em qualquer nvel que seja, deve ser um chefe, um leader. Suas tarefas so, em primeiro lugar, polticas. Elas consistem em assegurar a coeso do corpo social e restaurar uma cooperao pacfica no trabalho, expulsando o esprito de luta. Elas consistem tambm em gerar certo nmero de tcnicas sociais como a seleo por testes, a orientao profissional, o aprendizado e, em um registro mais geral, a poltica social.

Os principais institutos responsveis pela formao de profissionais para o patronato alemo resvalam no nazismo a partir de 1933. A partir de 1934, a lei faz oficialmente do gerente um Betriebsfhrer, quer dizer, o Fhrer da firma. Esse Fhrer deve ser o primeiro portador da “ideia nacional-socialista do trabalho”. Suas qualidades tornam-se ento propriamente magnticas: ele deve acreditar nessa ideia, “ele deve ser exemplo dela e lev-la at o ltimo homem da sua equipe” 35 . Seu instinto e seu sangue o conduzem em todos os seus atos e no a sua funo nem qualquer tcnica administrativa. O trabalho sobre si para aperfeioar a sua personalidade seu primeiro dever. Vemos, novamente, em outro contexto, emergir a temtica da personalidade.

Ao se transformar em um polo magntico, o Fhrer da empresa tem como nica fonte de legitimidade sua relao com o Fhrer alemo. O princpio do Fhrer, que se torna a lei social, implica que cada alemo possa considerar-se como um Fhrer com a condio de que ele aceite uma submisso total a Hitler. Hitler no representa o povo: ele o povo e o povo alemo, excluindo qualquer outro. Ele no pode ser o Fhrer de pessoas que pertencem a sub-raas. Assim, a principal qualidade de todo pequeno ou mdio Fhrer a de “ir ao encontro do” Fhrer, fazendo-se seu intermedirio. A figura do chefe nacional-socialista, que durante doze anos a figura alem, tem os traos do Fhrer. Inseparvel de Hitler e da Alemanha, ela no pode comparar-se, a partir da, a nenhuma outra. Ela desmorona ao mesmo tempo em que a Alemanha nazista, levando consigo a prpria palavra Fhrer que permanece ainda muito afetada por esse percurso trgico.

Dos ttulos de nobreza aos grandes homens e por fim aos chefes

Alm dessas emergncias dispersas e quase independentes, ainda que conectadas, a figura do chefe objeto de operaes idnticas em muitos pases. Tal o caso quando se separa o que dito do “grande” do que dito do “chefe”. O esforo do sculo XVIII tinha sido o de permitir que a grandeza se libertasse da lgica estamental. Aps a separao, por vezes violenta, dos nobres e dos grandes, vem o momento de se separar os grandes e os chefes. O discurso comum dos operadores dessa distino consiste em dizer que a autoridade moral no supe necessariamente o comando: “Ns devemos fazer uma distino entre a eminncia intelectual e a liderana (leadership)”, escreve um psiclogo americano, mobilizando termos prximos aos de outros autores franceses. Segue-se uma definio aparentemente forte da lideranaque significa “o contato direto, face a face, entre os chefes e os que o seguem: o controle social pessoal” 36 .

O “face a face” a caracterstica distintiva do comando? Ainda que no seja novo, um dos maiores problemas dos chefes e lderes do sculo XX o comando e a influncia distncia. Isso to vlido para o gerente de empresa quanto para o oficial e o poltico e, dentre os polticos, to vlido para o chefe democrtico quanto para o ditador.

Para o controle distncia, existem tcnicas intelectuais, como o grfico ou o organograma que servem para representar os processos e as organizaes e que atuam conjuntamente com uma outra forma de representao supostamente exata, a fotografia. Para favorecer o contato o mais direto possvel com as massas, os chefes do sculo XX dispem ainda de novos recursos tcnicos comuns como o telefone, a rdio e o cinema. A manifestao de massa fortemente apreciada pelos regimes fascistas e o poder stalinista, mas ela pouco corrente nos Estados Unidos. Franklin Roosevelt, que se apresenta explicitamente como um leader pra os Estados Unidos e emprega muito conscientemente todas as tcnicas modernas da liderana, o primeiro a utilizar de modo sistemtico as transmisses radiofnicas “ao p da lareira”. Na falta do contato direto, fsico, pessoal, ao alcance da voz e da vista, a rdio lhe permite resolver o problema do chefe distante, quer dizer, ela transporta a sua presena para longe, e at cada pessoa em particular, assim como outros se servem do telefone ou da carta manuscrita. O chefe do sculo XX, figura da modernidade, procura tambm distinguir-se do mestre brutal e do homem com mo de ferro das pocas precedentes.

Classe?

Se a figura do chefe aquela de um tipo social, podemos ir mais longe e dizer que se trata de uma classe? Isso parece difcil, uma vez que um chefe pode ser ao mesmo tempo um pai e um patro, um padre e um professor. No vemos desenhar-se uma classe nem pelas relaes econmicas claras nem por relaes de poder delimitadas. O que poderia ser comum uma cultura da autoridade e um culto dos ttulos. Mas mesmo que os chefes tenham todos uma posio de autoridade que supostamente os levaria a compartilhar a cultura correspondente, isso no basta para fazer deles uma classe. Dada a sua generalidade, a figura atravessa todas as fronteiras sociais e tem, para inmeros autores, a vocao de unir todo o corpo social, ainda que se excluam de fato implicitamente, salvo excees, as mulheres e, por vezes, os no-nacionais ou os anti-nacionais. certo que por meio dessa prpria transversalidade busca-se promover o esprito de comunidade e no o esprito de luta social por direitos. Nessa perspectiva, alis, a Unio Sovitica est no mesmo tom que os pases liberais e fascistas. As doutrinas do chefe que a se desenvolvem visam igualmente desqualificar toda poltica, privar todo conflito social de justificao, j que a promoo dentro dos quadros do regime estaria aberta a todos, ou quase todos.

A figura do chefe pode ser uma maneira de falar de um social sem classes. Ela representa o mundo como um acmulo de hierarquias em que, no fim das contas, cada um tem o seu lugar. Ela uma realidade profunda desse tempo, sob a forma relativamente simples de uma representao, mas, tambm, na sua existncia objetiva e quase material, como uma tenso, como um conjunto significativo complexo e plstico, onipresente, acessvel e disponvel, sem uma definio perfeita sobre a qual todos esto de acordo, sem ter outra existncia para alm das suas diversas ocorrncias (que no so nem repertoriadas nos glossrios nem nos catlogos de categorias econmicas ou sociolgicas). Reciprocamente, o social concebido como composto de classes no exclui os chefes. bem esse o sentido da batalha terica entre Lnin e Rosa Luxemburgo. Em um texto redigido contra esta ltima, o primeiro afirma que as “massas” se dividem em “classes” que so dirigidas por partidos polticos, eles mesmos “dirigidos” por pessoas “que denominamos chefes”.37

Para concluir

A figura do chefe foi objeto de investimentos intelectuais, afetivos, sociais, cognitivos, culturais e polticos, basta que se busque obter um pequeno ttulo de chefe ou ao contrrio tornar-se um grande chefe, que se aceite seguir um chefe ou servir um deles de uma maneira ou de outra, que se tente pensar a sociedade ou simplesmente conceber uma ferramenta cmoda para conduzi-la. Como foi dito, a figura conta apenas com traos positivos e atrativos. Para melhor se distinguir, a figura stalinista do chefe empresta traos daquilo que o chefe no deve ser em outros lugares - ordinrio, modesto, sem preocupao com a sua personalidade, sem dom de orador particular. Mas seria preciso determinar o que a figura do chefe para aqueles que no a promovem, que no gostam dos chefes ou dos seus chefes, que recusam a autoridade e o comando, em outros termos, a figura do contrachefe ou do antichefe. O sculo XX lhe deixou pouco espao. Para as elites que dispem de poder em um domnio ou outro, e at mesmo para uma parte daquelas que foram portadoras dos protestos e das revolues, existia um problema de autoridade e de controle das massas ou das multides e, para todos elas, a soluo era o chefe. muito provvel que no seja assim hoje.

Nesse sentido, para concluir, me parece que convm, em primeiro lugar, compreender as figuras extremas do chefe - a nazista, a fascista e tambm a stalinista - em uma paisagem mais vasta que inclui o liberalismo: por um lado, elas emergem sobre um terreno de discusso idntico sobre a necessidade de chefes ou de um chefe em tempos de produo, de poltica, de guerra e de cultura de massa; por outro, os liberais no recuaram diante do culto do chefe. Em seguida, preciso notar que as cincias sociais, em particular a sociologia, so parte dessa mesma histria, tanto na sua tentativa de coment-la “em tempo real” quanto como interventora a partir das suas proposies. Por fim, emerge a necessidade de sugerir que aps um sculo em que a soluo das questes sociais esteve no chefe, em que dominou a concepo de Le Bon segundo a qual “os homens numa multido no podem ficar sem um mestre”, podemos propor a hiptese de que estamos em um outro perodo, aquele em que as multides recusam os mestres e no querem ser dirigidas: talvez essa a mensagem no apenas do Maio de 68 francs e do ano de 68 no mundo todo, mas aquela dos movimentos que eclodiram cerca de 2010 de Tnis Moscou.






























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ilustrao: Rafael Moralez