revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

Ruy FAUSTO

esquerda/direita: em busca dos fundamentos e reflexes crticas

 

com um PS sobre um livro recente de Vladimir Safatle

(concluso)

 

NOTA: A concluso desse texto, que comecei a publicar nos nmeros 3 e 4 de Fevereiro acabou tomando propores excessivas. Reduzi-o o quanto pude, tirei muitas das referncias e decidi eliminar vrias unidades. O conjunto das trs publicaes, uma vez revisto e, em parte, reescrito, ser publicado em forma de livro. - Inseri, no final, um P. S. sobre um livro recente de Vladimir Safatle.



 

IV. 2. Marx e Engels. Marxismo. Reforma e revoluo.

 

a) Marx, Engels, marxismo - Passo agora a Marx e Engels, dos quais j me ocupei um pouco na primeira parte. Vou retomar um esquema de crtica do marxismo, que expus em vrias ocasies, mas iluminado pela experincia do pensamento socialista e comunista do sculo XIX, do qual fiz, na parte anterior, um quase-balano (a crtica est, de resto, en creux no que escrevi sobre os socialistas). Em conexo com a discusso sobre o marxismo, retomo tambm o tema clssico da "reforma ou revoluo" (ou "reforma e revoluo"). Isso porqueessa discusso crtica do marxismo nos ajuda a entender melhor esse problema, aparentemente arcaico, e a dar a ele uma resposta que talvez no seja sem interesse.

Creio que se podem indicar trs registros em que o marxismo oferece dificuldade. H um problema poltico (ou propriamente poltico); um problema econmico-poltico e um problema filosfico. Deixo de lado as questes terico-econmicas mais precisas, relativas ao funcionamento da economia capitalista. Estas devem ser tratadas pelos economistas.

O problema poltico a democracia. A atitude de Marx em relao democracia no parece ter sido inteiramente unvoca, mas, em geral, ele a viu como uma forma poltica que corresponde a um certo tipo de sociedade capitalista1. Uma vez atingido o objetivo final, evidentemente no se tratar mais, para ele, de democracia, mas da construo de uma sociedade comunista transparente, onde, a rigor, no haver mais poltica. Ora, a experincia de um sculo e meio impe discutir a relao entre capitalismo e democracia. Capitalismo e democracia tm duas histrias distintas, embora elas se cruzem. preciso estud-las separadamente. Vimos que j no final do XVIII e, depois, no sculo XIX, a democracia est presente no iderio de alguns socialistas, embora no em todos, nem provavelmente na maioria. Se o limite for 1850, seus melhores promotores parecem ter sido Godwin (embora ele seja anarquista ?no horizonte?) e Leroux. Duas figuras que esto entre as mais esquecidas da tradio socialista. Convm reler seus textos, pois, sobre esse tema, eles falam melhor do que Marx. A obliterao da exigncia democrtica insere-se, em Marx e Engels, na sua concepo geral de histria. Como me ocuparei disto mais adiante, limito-me aqui a observar que o lado positivo do Aufklrung, ou mais precisamente da tradio liberal, que se oblitera. Lado que teria de ficar invisvel nos pais fundadores, dada a ideia que eles tm do progresso.

H, em segundo lugar, um problema econmico-poltico: o da relao entre circulao simples e produo-circulao capitalista. Ou, mais precisamente, h o problema econmico-poltico de saber que atitude devem ter os socialistas em relao circulao simples, simples troca de mercadorias. Essa questo envolve a da propriedade. Marx distingue a circulao simples da produo capitalista, mas a circulao simples um "momento" (em sentido lgico) da produo capitalista. Esse "momento" , entretanto, o oposto dessa produo; porm um oposto que passa necessariamente em seu contrrio. Por isso, mesmo sendo opostos, ou mesmo contraditrios, Marx exige que se faa, ao mesmo tempo, a crtica dos dois. Este procedimento envolvendo a crtica dos dois momentos seria o nico admissvel, aquele que deveria praticar toda crtica realista e cientfica, da economia poltica. Quem visar s o segundo termo - a produo e a circulao do capital - cairia na utopia ou em uma iluso "pequeno-burguesa", o que, para Marx, o que teria ocorrido com os socialistas franceses.

Ora, ainda que a possibilidade de separar os dois momentos no deixe de ser problemtica, ela parece representar, hoje, a nica perspectiva realista para um projeto socialista. De fato, pensar no desaparecimento das trocas e de todo mercado propor simplesmente a comunidade. Por razes tanto histricas como antropolgicas (ou histrico-antropolgicas), a ideia de comunidade, isto , a do comunismo, parece hoje bem mais utpica do que o projeto - sem dvida problemtico, mas sua maneira - de conservar o mercado e a economia individual (isto , a "propriedade"), "neutralizando" o capital. Se essa atitude crtica correta, isto significa que os argumentos de Proudhon contra a comunidade, no volume II do Sistema das Contradies Econmicas ou na Filosofia da Misria, tm pertinncia e atualidade. Significa tambm que a crtica pr-marxista da economia poltica (Thompson, Hodgskin, Bray, o annimo autor da carta a Lord Russell etc.), a daqueles tericos que querem "voltar aos princpios" e salvar a circulao simples contra o capital, continua tendo interesse. Bem entendido, permanece a questo: como assegurar o "mercado", neutralizando o capital? Claro que isso no , imediatamente, evidente. Mas vale, creio eu, como perspectiva. Parece indiscutvel o carter utpico, mesmo "no horizonte", do projeto de liquidao de toda propriedade2 e da troca de produtos. Ao mesmo tempo, o projeto de uma "neutralizao" do poder do capital no parece ter nada de utpico em si mesmo, ainda que no possa ser um projeto a curto prazo.

H, em terceiro lugar, um problema poltico-filosfico.Nesse plano, a questo geral a do lugar da tica, mas ela se abre imediatamente para questes substantivas, principalmente a das condies de legitimidade do uso da violncia. Vimos como grande parte da literatura socialista, e tambm comunista, do sculo XIX tem um teor moralizante bem-marcado. Luta-se pela justia ou pela equidade. Vimos tambm que, mais tarde, Bernstein (a acrescentar os austromarxistas, que ficaram fora deste texto) quem busca, propriamente, um fundamento tico para o socialismo. Marx e Engels ironizam constantemente a linguagem moralizante, rejeitando todo discurso tico, qualquer que seja sua forma. Essa atitude em parte justificvel.Poder-se-ia dizer que, em certo sentido, graas a essa recusa que Marx chega a uma crtica da economia poltica, que deixa longe, em termos cientficos, o que se fizera de anlogo at ento.

Mas existe a uma dificuldade. Ela reside, em parte, no interior mesmo do projeto de Marx, embora a omisso da tica tenha a uma justificativa profunda3. Essa dificuldade vem igualmente de exigncias que decorrem da experincia terrvel do sculo XX.

Qualquer que seja a radicalidade da recusa da tica ou da moral nos textos de Marx e de Engels, tanto no corpus da crtica da economia poltica como nos escritos polticos, a relao do projeto comunista (tal como o concebe Marx) com a tica - o que foram mostrando, desde cedo, certos crticos - mais complexa do que parece. Digamos - como j se disse muitas vezes, mas de um outro modo - que a crtica da economia poltica se faz a partir de certas "pressuposies", mas "pressuposies" em sentido dialtico, no fundamentos, e sim "fundamentos negados" (aufgehoben). Essas pressuposies so, sem dvida, em primeira instncia, de carter poltico, mas elas abrem, por sua vez, um espao para interrogaes de ordem tica. Marx e Engels deixam isso em aberto, o que uma possibilidade e uma opo terica, mas uma opo que, hoje, no aparece como muito defensvel. O melhor desenvolvimento dessas questes na posterioridade de Marx veio, a meu ver, com Lukcs, mas no creio que as solues lukacsianas sejam suficientes. Tentando resumir a dificuldade, eu diriaque o que falta crtica marxiana da economia poltica, como poltica marxiana, pelo menos em primeira instncia - pois, a meu ver, faltam duas intervenes crticas - no uma fundamentao tica, como pretenderam os crticos neokantianos, de extrao tambm marxista ou no. Falta (em primeira instncia) no um discurso que fornecesse um fundamento tico crtica da economia poltica, e poltica,mas um discurso que fundamentasse a recusa de dar um fundamento tico a essa crtica. Isso pode parecer sutil, mas, no plano formal ou lgico, esse o problema, e, com um pouco de boa vontade, poder-se-ia dizer que, no que foi dito, est indicada a soluo. Marx deveria ter fundamentado a no fundao tica de seu projeto (no fundamentao que, no interior desse projeto, repito, tinha certa coerncia). O que significa: falta crtica marxiana um discurso que mostrassea interveno de todo fundamento tico em seu contrrio (isto , que mostrasse que o discurso da no violncia se interverte em discurso da violncia), mas que indicasse, ao mesmo tempo, a impossibilidade de adotar um fundamento antitico (anti-humanismo, tautologia da violncia tout court, distinta da "violncia suprimida (aufgehoben)"cujo horizonte a no violncia). Porm seria necessrio prolongar esse primeiro desenvolvimentonum segundo, este claramente ps-marxista, em que se tematizaria o deslizamento da chamada "violncia revolucionria" em violncia tout court.

b) Algumas implicaes: Teoria das sociedades ocidentais contemporneas. Sobre Foucault [Excurso]. Reforma e revoluo - Analiso agora algumas das implicaes dessa crtica - a rigor do primeiro momento crtico, o que pe em evidncia a democracia - para a teoria e a nominao das sociedades "ocidentais" contemporneas. Ou, mais precisamente, tento mostrar como o refoulement da dialtica leva a perder de vista a possibilidade de pr os conceitos que resultam daquela crtica. Termino esse item retomando o velho problema "reforma ou revoluo".

Um dos resultados mais importantes, seno o mais importante, da crtica do marxismo, deve ser, a meu ver, como j disse, a distino bem-clara - quaisquer que sejam os cruzamentos que a histria operou - entre capitalismo e democracia. As sociedades "ocidentais"de nosso tempo - insisti em outros lugares - devem ser pensadas, no como "sociedades capitalistas", como querem os marxistas, nem como "sociedades democrticas", como pretendem os liberais de toda ordem, mas como "sociedades capitalistas-democrticas", ou, preferindo, "sociedades capitalistas - liberal-democrticas". "Democrtico" ou "liberal-democrtico", como tentei explicar em outros lugares, no indica a um simples predicado de "capitalista", mas um conceito - um predicado se se quiser, mas sui generis - que contradiz,pelo menos tendencialmente, o primeiro conceito (ou seja,o sujeito). Isto significa que essas sociedades so tendencialmente contraditrias, "tendencialmente", claro, porque h tambm foras de adequao da democracia ao capitalismo, mas estas tm limites.

[Excurso]. A meu ver, foi a dificuldade em encontrar essa frmula contraditria (tanto a dificuldade, mais do registro do contedo, em pr cada um dos dois termos, como a outra, mais de ordem lgica, em pr a contradio), para alm de marxistas e de liberais, que leva certos representantes do pensamento poltico de esquerda contempornea a buscar outras caracterizaes, muito sofisticadas, mas que, no fundo, devem valer menos do que aquela. Penso na "governamentalidade" (gouvernementalit), de Foucault. Infelizmente, aqui s posso esboar um argumento crtico. A "governamentalidade" em Foucault uma espcie de universal concreto4. Ele designa uma "era" histrica, mas tem tambm uma significao ou funo universalizante. E isso no s pela amplitude histrica que o termo "era" sugere. De fato, para alm de designao de uma singularidade, e qualquer que seja a amplitude histrica desta, o conceito, um pouco contraditoriamente (mas isso no defeito), parece ter tambm algo de uma dimenso ou de um espao, que as vrias formas sociais preenchem, cada uma sua maneira, e que de algum modo as ilumina. Nesse sentido, ele vai, de certo modo, ocupar, estruturalmente, um lugar anlogo ao que tinha, na teoria clssica, o "capitalismo" (claro, com contedo semntico distinto). Sem dvida, os dois conceitos, "governamentalidade" e "capitalismo" podem coexistir, j que, como dissemos, o ltimo conota, sob um de seus aspectos, toda uma "era histrica". Mas, medida que "governamentalidade" se torna o conceito central,um parece ocupar o lugar do outro. Digamos que na tradio dialtica so os conceitos que designam o capitalismo - ou, para nosso discurso, o capitalismo e a democracia - que funcionam, eles prprios, como universalidade concreta, isto , que tm sentido histrico-dialtico abrangente ou funes lgico-dialticas universalizantes; e isto continua ocorrendo, mesmo quando, como no caso dos frankfurtianos, eles coexistem com conceitos de alcance histrico mais universal (?Aufklrung", por exemplo, no sentido de Frankfurt). Em Foucault, pelo contrrio, so conceitos do tipo desses ltimos (a acrescentar, ponto importante: conceitos cuja carga semntica essencialmente poltica) que assumem aquelas funes, pelo menos enquanto funes que so privilegiadaspelo discurso (porque Foucault no negar que o capitalismo universalize). E, se assim, pergunta-se: diz-se mais ou diz-se menos quando se substitui, como universal concreto central,"capitalismo" ou "capitalismo liberal-democrtico", por "governamentalidade"? Acredito que se diz menos. O chamado "nominalismo" de Foucault, embora intencional - alis, a rigor no se trata de "nominalismo", mas de uma espcie de middle range theory - parece empobrecer a compreenso do objeto. A leitura "essencialista", se ela articular, no plano semntico, economia e poltica, parece ter um contedo mais rico, e s ela indica o horizonte em que se desenham as possibilidades de interveno. Afinal, se h luta pela democracia e contra o capitalismo (tambm contra o produtivismo), no sei bem o que se faz com a "governamentalidade"5. Sem dvida, tudo isso mereceria uma discusso mais ampla. Por ora, fica a impresso de que, partindo de uma dupla insatisfao diante da maneira marxista e da maneira liberal de caracterizar as sociedades contemporneas, insatisfao, alis bastante justificada, Foucault como que se perde no caminho. Preocupado em rejeitar os conceitos"dominantes"6 - ele "neutraliza" o conceito de "capitalismo", e evita o de "democracia" (que est no centro do discurso de Lefort e de Castoriadis) - com o que se torna impossvel pr a contradio. Mas tambm se poderia dizer o inverso: a recusa da contradio, caracterstica, alis, bastante geral do pensamento francs, tem como consequncia a obliterao dos dois termos, o que no significa que os conceitos de Foucault, inclusive a "governamentalidade", no possam ter funcionalidade, mas isso, creio eu, s uma vez formulada uma sempre necessria "definio de essncia", e uma definio de essncia que, em termos semnticos, rena economia e poltica. [Fim do excurso].

Incidentalmente, a crtica do marxismo, no captulo da poltica, leva a reabrir um debate antigo. H uma questo, longamente debatida na tradio marxista (e j em Marx e Engels), e depois mais ou menos esquecida, a famosa questo da "reforma ou revoluo" ou "reforma e revoluo"7.

De fato, se pensarmos e exprimirmos, tal como indiquei, a essncia das sociedades contemporneas, acho que se rearticula o campo das respostas para a questo "reforma ou revoluo" (ou se a reilumina). Isso porque no estamos mais nos perguntando pela atitude reformista ou revolucionria a tomar diante do capitalismo, mas nos perguntando pela atitude - reformista ou revolucionria - a assumir diante de sociedades ao mesmo tempo capitalistas e - mesmo se muito imperfeitamente - democrticas. E, de fato, tudo se passa como se, enquanto no dermos essa definio contraditria (objetivamente contraditria) das sociedades atuais, a pergunta no possa ter uma resposta coerente. Mas se levarmos em conta essa contradio, como preciso fazer, a pergunta tem sentido, e aparece uma resposta - uma dupla resposta - para ela; ou pelo menos, uma elucidao do que ela contm de vlido e de politicamente fecundo. Na realidade, aqui preciso distinguir os dois polos da contradio.Pois vejamos: 1) Em relao democracia - mesmo se imperfeita -, no h razo alguma para ser "revolucionrio". A democracia, imperfeita e, em alguns casos, muito imperfeita8, deve ser melhorada, reformada, mas no, creio eu, "revolucionada". Os que querem "revolucionar" a democracia (por exemplo, substituindo toda representao por plebiscitos) visam na realidade liquid-la (pelo menos correm o risco de serem levados a isto, queiram eles ou no). Outra coisa aperfeioar a democracia, prevendo vrios tipos de conselhos de representao popular alm de plebiscitos, da possibilidade de revogar mandato, eleies primrias, mas sempre como formas que coexistem com a representao universal, isto ,sempre como formas complementares, que no coloquem em xeque a representao popular universal. Ento, para a democracia, a resposta pergunta "reforma ou revoluo?" , apesar de tudo, "reforma".

Ora, em relao ao capitalismo a situao diferente. Se vlido considerar como "revolucionrio" um projeto de neutralizao do capital, mesmo se conservando dinheiro e mercadoria9 e excluindo em princpio10 como meio o recurso violncia, poderamos dizer que, diferentemente do que ocorre para com a democracia, diante da qual a postura socialista s pode ser reformista, a atitude socialista legtima para com o capitalismo no reformista, mas "revolucionria". Se no queremos "neutralizar" a democracia, mas aperfeio-la, queremos sim neutralizar o capital e no aperfeio-lo.

 

Terceira Unidade

 

V. A SEGUNDA CRISE. A NATUREZA. O PROGRESSO. OUTRAS LUTAS

 

1. A segunda crise. A natureza. O progresso.

a) Antecedentes histricos - Se a emergncia trgica do fenmeno totalitrio obriga a desdobrar a dualidade esquerda/direita para integr-la no que chamei de "quadrado poltico" (esquerda/direita; totalitrio/antitotalitrio), certas circunstncias e acontecimentos do sculo XX vieram a impor, de forma indiscutvel, um novo desdobramento. Essa nova dimenso que torna ainda mais difcil, ou pelo menos mais complexo, definir o que seria uma poltica justa, situa-se num registro diferente daquele em que se insere a questo do totalitarismo. Qualquer que seja a originalidade do fenmeno totalitrio, a luta contra ele se move no interior de uma categoria clssica, de uma palavra de ordem que era uma das peas essenciais da primeira revoluo: a liberdade. Ao enfrentar o fenmeno totalitrio, a esquerda, cuja bandeira definidora a igualdade, pe em evidncia a liberdade, mas esta j estava inscrita em seu iderio ao lado da igualdade. Assim, se o fenmeno novo e implica uma reorganizao do discurso e da ao poltica, essa reorganizao se move, at certo ponto, no interior de categorias no s conhecidas, mas que, com maior ou menor relevo, faziam parte dos objetivos da esquerda, desde sua apario. Ora, se os conceitos em torno dos quais vai girar o discurso sobre a segunda ruptura, que se opera em meados do sculo XX, no so desconhecidos, a considerar principalmente a teoria hegemnica na esquerda,o marxismo -, eles se mantinham, entretanto, no interior de uma esfera de "obscuridade". Mais tecnicamente: se eles estavam "l", no estavam presentes como conceitos postos, mas apenas como conceitos pressupostos. Novas circunstncias e novos eventos obrigaro a pr o que estava pressuposto, o que, em boa dialtica, implica uma mudana importante, seno radical, no plano terico e prtico. Os conceitos que mudam de registro so os de "espcie humana" (ou "humanidade") e o de "natureza". De pressupostos, eles passam ao regime da posio. Mas junto com esse deslocamento, paralelamente a ele ou imbricado com ele, muda a maneira de pensar o progresso.

A segunda ruptura ocorre no sculo XX, mas no simples dat-la. Sob certos aspectos, ela poderia se situar no meio dos anos de 1940, sob outros, nos anos de 1970. Ela envolve novidades fundamentais na maneira de pensar o progresso e as relaes entre homem e natureza. Para que se incorporasse uma nova dualidade, seria preciso: 1) que se pusessem os conceitos de homem (ou de humanidade, ou de "espcie humana"); 2) que se pensassem, de forma globalizante ou "csmica", os efeitos negativos da ao do homem sobre o ambiente terrestre, at a catstrofe; que, portanto, se repensasse, de forma radical, a questo dos efeitos do progresso tcnico; 3) que se desse algum valor autnomo natureza e aos objetos naturais.

A tradio, com a grande exceo de Fourier, est longe de ter chegado at a.Com relao a Marx e Engels, h dois aspectos. Um, muito discutido, de diferentes pontos de vista, o da presena e do peso dos temas ecolgicos na obra dos dois fundadores. Outro , digamos, o da situao geral do discurso terico de Marx e Engels em relao aos conceitos de homem e de natureza.

H, nos textos de Marx e Engels, uma srie de passagens que vo bastante longe, na direo de uma crtica ecolgica11; entretanto, os efeitos considerados, embora profundos, no so, propriamente, "csmicos", isto , no se considera a possibilidade de uma destruio ou mesmo de uma alterao global do meio ambiente. Isso pode se explicar, claro, pelo fato de que o problema no se punha na poca. Mas ao mesmo tempo deve-se dizer que houve quem pensasse essa possibilidade, embora em forma no estritamente cientfica. Quanto ao tema geral das relaes homem/natureza, importa distinguir, em Marx, o discurso de juventude do discurso da maturidade, ou, o que remete mesma coisa em forma lgica, ser atento modalidade do discurso, em particular, diferena entre discurso pressuposto e discurso posto12. Na juventude, temos uma filosofia de estilo schilleriano (onde se combina Feuerbach e, em alguma medida, Hegel), discurso que descreve e prope uma espcie de continuidade entre o homem e a natureza, ou uma relao harmnica entre os dois. Na maturidade, os conceitos de "homem" e "natureza" tm outro regime: no que eles desapaream, mas eles so reduzidos a "pressupostos", em sentido dialtico e no lgico-formal,isto , a pontos de partida no fundantes do discurso crtico substantivo13. Quanto ao contedo da relao (pois o contedo est "l", embora no posto), difcil no reconhecer, apesar de tudo, um "prometesmo" no "velho" Marx (e em Engels tambm: ver, por exemplo, seus textos sobre experimentao com animais). Seu ideal de uma conquista progressiva da natureza pelo homem, e, principalmente, o de um desenvolvimento "sem entraves" das foras produtivas14.

Em Fourier, estamos em outro terreno.Na tradio, tanto socialista como comunista, o progresso no exclui regresses, nem processos cclicos, nem se recusa a noo de progresso-regresso (isto , progresso de algum modo afetado de regresso). Mas esses processos regressivos ou cclicos - refiro-me s tradio socialista e comunista - vm sempre de algum modo recobertos por um movimento ascendente, pelo menos como virtualidade. Em Fourier, tem-se um esquema que em muitos pontos se aproxima do de Marx - a decadncia de cada forma o caminho do progresso (no sentido de que a morte de uma forma cria as condies do surgimento da outra). A diferena que,em Fourier, no h um esquema totalizador retilneo (posto ou pressuposto) de progresso. O esquema totalizador ele mesmo cclico. Por outro lado, no final de cada ciclo, chega-se "morte" de nosso mundo (na realidade destruio corprea da terra, porque sua "alma" subsiste e transmigra?)15. A destruio est inscrita no processo, mas a ao destrutiva do homem pode aceler-la. Pensando a interverso global do progresso em destruio e descentrando o homem nesse processo, Fourier se revela como o pensador que,na tradio, mais e melhor anunciou a segunda ruptura.

 

b) Razes da nova configurao. A nova dualidade. - A emergncia de uma nova constelao de problemas (emergncia no plano do grande pblico e da poltica; como veremos, a teoria crtica do sculo XX j se ocupara disto) resultado de trs ordens de processos: 1) um desenvolvimento de processos produtivos no revolucionrios, mas cujo crescimento quantitativo acaba ultrapassando certos limiares (poluio industrial). Nesse contexto, pode-se incluir tambm o crescimento demogrfico; 2)o surgimento de novos setores de produo, que, embora com finalidades pacficas, implicam riscos incomparveis aos que ofereciam as formas tradicionais (principalmente a explorao de novas formas de produo de energia); 3) a emergncia de meios de destruio cujos riscos ultrapassam de longe e, por isso, qualitativamente, tudo aquilo que poderiam implicar os meios tradicionais de destruio (arma atmica, essencialmente).

Como definir a nova dualidade? Como, para o totalitarismo, o termo logicamente primeiro, o que tem valor negativo, a melhor expresso dele provavelmente "produtivismo". A ele se opem um discurso e uma prtica crticas, cuja melhor denominao, ainda que pesada e negativa na forma, "antiprodutivismo". A dualidade produtivismo/ antiprodutivismo vai se acrescentar, assim, s dualidades esquerda/ direita e totalitarismo/ antitotalitarismo.Veremos depois o problema das articulaes entre elas.

A novidade estar no s em pr a relao homem/ natureza (o que significa, constituir como tema no mais, apenas, uma forma social, mas, para alm dela, a relao da espcie com o meio natural), mas tambm numa reviso do valor atribudo ao mundo natural no humano (rompe-se com o antropologismo exclusivista, de tipo cartesiano ou kantiano, que exclui a presena de fins em si, para alm do homem)16, assim como na ideia de que a interveno humana pode ser no apenas nociva para a espcie, ela pode ser propriamente catastrfica. O que implica repensar os limites da produo, mas tambm, do consumo.

 

c) Implicaes tericas: Foucault. [excurso] - Mutao em relao ao marxismo, a teoria hegemnica da esquerda, se apresenta, assim, na forma da posio do homem e da natureza - conceitos at ento pressupostos - e na ideia de uma inverso profunda do progresso com risco de catstrofe. O segundo ponto o mais abrangente, porque vale para definir a mudana para alm do caso da teoria hegemnica. Mas quero me deter um pouco no primeiro aspecto: a posio do homem e da natureza, em particular a posio do homem.Assim, passa-se a pr a espcie humana. Mas o pensamento dos sculos XIX e XX no foi caracterizado por alguns como remetendo a uma famosa "morte do homem"? Ora, se as consideraes anteriores forem pertinentes, estamos diante no da morte do homem, mas de seu nascimento. Marx escreveu que "a histria universal nem sempre existiu"17, mas aqui a emergncia no da histria e sim da espcie. Como se situar diante dessa aparente discrepncia? Claro que no me disponho a fazer aqui uma crtica geral do pensamento de Foucault; quero apenas desenvolver alguns argumentos de ordem crtica. Estaramos no diante da morte do homem, mas, antes, diante de seu nascimento? Vejamos. Para Foucault, o "homem" teria nascido no incio do sculo XIX, como uma figura que sustenta a antropologia ou se sustenta nela; a antropologia iria se decompondo a partir do final do XIX, e, a partir da segunda metade do XX, assistiramos (provvel) decomposio "aguda" do "homem" e da antropologia. Em primeiro lugar, seria preciso esclarecer algumas coisas. "Morte do homem", em Foucault, remete ao fim da figura epistemolgica do homem, no evidentemente morte da espcie (uma banalidade que preciso repetir dada a ambiguidade, talvez no ocasional, com que foi empregada a expresso). Do mesmo modo "nascimento do homem", remete no ao surgimento da espcie, claro, mas posio desta, no plano subjetivo, mas tambm no plano objetivo, o que convm explicar melhor. O "nascimento do homem", de que questo em nosso texto, e a "morte do homem", tal como o concebe Foucault, seriam essas duas ideias compatveis? Para alm da possibilidade de precisar melhor o momento temporal da emergncia de uma coisa e outra e tambm para alm da possibilidade de que os registros respectivos dos dois conceitos sejam de ordem diferente18, creio que h a - guardadas as propores - um problema mais profundo e divergncias reais. Poderamos, em primeiro lugar, perguntar-nos se sustentvel a ideia foucaultiana de uma emergncia da antropologia como "formao" ou "dispositivo" (ou epistem) no incio do sculo XIX, em conexo com o advento da economia, da biologia e da filologia. Vou me limitar economia, ou, mais ainda, ao exemplo, de qualquer modo privilegiado, de Marx. Poder-se-ia dizer que o projeto marxiano, considerado em sentido bastante amplo, remete antropologia. Porm, dever-se-ia precisar: ele remete mais a uma "no" antropologia (a explicitar o carter dessa negao) do que a uma antropologia19 (a mesma coisa para a natureza). Foucault sabe disso - h certos textos que o mostram -, mas para ele a negao irrelevante. E isso por duas razes: uma que ele est preocupado com "formaes" ("dispositivos",epistems; Foucault recusa, em geral, o termo "estrutura") e no com doxas (ou o que ele supe que seja dxico). A outra que ele desconhece, pelo menos em sentido rigoroso, a particularidade da negao hegeliana (porque disto que se trata). Ora, seria importante observar: 1) que o privilgio das "formaes" (ou "dispositivos", ou epistems) sobre as supostas doxas uma possibilidade de leitura; ela no a nica, nem deixa de levantar problemas (ao tentar distinguir um pensamento crtico de um pensamento conservador, eu optei aqui pela perspectiva oposta: a diferena entre o que Foucault chamaria de "doxas" que organiza este texto, o que evidentemente tambm poderia ser objeto de discusso)20; 2) que o desconhecimento da negao hegeliana - e aqui retomo o tema do no hegelianismo de Foucault e, em geral, do pensamento francs, evocado mais acima - tem seu preo: estou convencido de que sem o conhecimento das figuras dialticas, perde-se muito do rigor necessrio para pensar com finura a histria do pensamento (talvez se deva a essa ausncia uma certa simplificao,tanto na compreenso das rupturas como na das continuidades21). No caso presente, eu diria o seguinte. Encontra-se em Marx uma "negao" da antropologia, o que significa que h nele, ao mesmo tempo, antropologia e no antropologia. Ou, mais precisamente, h antropologia, mas pressuposta (em lgica dialtica o "pressuposto" o "negado"). A partir da, so pensveis duas (e, a rigor, veremos logo em seguida, trs) direes, que de resto se efetuaram historicamente: a de um caminho antiantropolgico (mais precisamente anti-humanista), a de uma direo antropolgica ou humanista (que pode ser, bom no esquecer, tambm naturalista, tendo como modelo Feuerbach ou o jovem Marx). - A famosa "morte do homem" de Foucault, lida nesse contexto, visa o curso anti-humanista que aparece na histria do pensamento, principalmente em Nietzsche, e que, na histria poltica da esquerda, vai se manifestar em todas as formas de marxismo autoritrio ou totalitrio. Mas h um outro caminho, que o dos humanismos, presentes, em poltica, na social-democracia e em filosofia, por exemplo, no ltimo (ou penltimo) Sartre. Alm de uma terceira posio que, em grandes linhas, continuaria a perspectiva de Marx: nem antropologia, nem antiantropologia. Entretanto, em meados do sculo XX, ocorrem eventos que vm modificar essa situao, que tm alguma coisa de paradoxal. Tem-se de repente a possibilidade - s a possibilidade, verdade, mas a possibilidade existe - da morte do homem. No morte do homem no sentido do desaparecimento da figura epistemolgica do homem, mas morte pour de bon, morte objetiva - possvel - da espcie. Universalizao negativa. O que resulta desta situao para a histria do pensamento? O evento afeta as trs posies. O anti-humanismo, de certo modo, se confirma (!): o homem morre mesmo, ou pode morrer. Mas essa confirmao, paradoxalmente, enfraquece o anti-humanismo?De fato, a ameaa da morte do homem, exige a posio do homem no discurso: a morte do homem passa a ser um problema efetivo, o que pressupe a tematizao dele, isto , a antropologia, ou o humanismo. Mas o humanismo tambm no tem a ltima palavra, porque a possvel morte do homem aparece como resultado da ao do prprio homem (o homem ameaa a espcie) o que se coaduna mal com os pressupostos angelistas de pelo menos certos humanismos. A terceira posio, mais prxima da posio marxiana, a que se sai melhor dessa nova situao, mesmo se ela tambm tem de repensar seus fundamentos, luz do humanismo, e, de certo modo, tambm do anti-humanismo. Sem dvida o pensamento de Frankfurt, na esteira do "terceiro includo" marxiano, efetua do modo mais rigoroso as modificaes tericas que a nova situao impe.

Conviria acrescentar que h, por parte de Foucault, uma tendncia evidente a acertar contas com o humanismo22. Ora, como tentei mostrar mais de uma vez, se o humanismo, considerado de um ponto de vista bem-rigoroso, efetivamente uma ameaa, ele representa apenas uma das ameaas(terico-prticas). E provavelmente no a mais grave. A outra o anti-humanismo [fim do excurso].

 

VI. CONCLUSO: O TRIEDRO POLTICO. HISTRIA. FRANKFURT

 

1. Histria

Poderamos passar, assim, parte final, retomando os trs registros fundamentais,tentando nomear o movimento global, e estudando suas articulaes. Entretanto,esse trabalho corre o risco de se tornar um pouco formal e, para evitar esse perigo, tentarei chegar a ele repensando um pouco, criticamente -para incio de discusso -, a ideia de histria. De fato, os trs registros banham-se na histria moderna, e, por isso, inversamente, uma reflexo sobre a histria e a ideia de progresso nos conduz diretamente a eles. O fio dessas reflexes o distanciamento que hoje se impe em relao ideia de histria e de progresso que o marxismo propunha.

A apresentao - e no a "teoria", porque, a esse respeito,a rigor no h teoria nocorpus marxiano - da histria em Marx e na melhor tradio marxista (no falemos das piores, que alis sempre foram e continuam a ser as dominantes) complexa, como complexa a ideia marxiana do progresso. A partir de Rousseau, pelo menos, conhecem-se e reconhecem-se as contradies do progresso. Marx pensa um progresso afetado de negao. Em parte, a ideia marxiana do progresso corresponde a uma ideia antiga, a do progresso para a espcie que regresso para o indivduo23. Em parte, ela remete a um progresso que se origina de algo que poderia ser considerado como uma regresso: quanto mais se regride, no sentido de chafurdar numa crise sempre mais profunda, mais se progride, porque se estar, grosso modo, mais prximo do comunismo. Por outro lado: h uma poro de histrias, cada uma correspondente a um modo de produo. A necessidade interna desses modos est mais em sua decadncia do que em sua emergncia (pelo menos sua emergncia primeira no determinada em termos causais, embora s venha a serpossvel se houver certos pressupostos liberados por modos anteriores). No interior de cada modo, h um movimento em curva, de ascenso e declnio Por sobre esse esquema descontinusta, h uma apresentao global no posta, de ordem pressuposta, que recobre sem totalizar o conjunto das histrias dos modos. Essa apresentao global pensvel a partir das noes pressupostas de "homem", "liberdade", "igualdade" e tambm "propriedade" (utilizada, no estgio final, num sentido sui generis). Globalmente, h progresso, no sentido de que, pelo menos com a emergncia do capitalismo, nos aproximamos (provavelmente) do fim da chamada pr-histria (a histria antes do comunismo). H necessidade na passagem ao comunismo? Sim e no. Ela no absolutamente inevitvel, pois depende, subjetivamente, de uma ao que apenas condicionada pela vertente descendente do capitalismo e, objetivamente, dos pressupostos criados pelo capitalismo (cincia, tcnica). Mas necessria, porque as alternativas a ela s poderiam ser aparentemente negativas, em sentido forte: destruio da civilizao, decadncia geral etc. Por tudo isso, tambm no h finalismo, nem interno, nem externo24 (nem a Histria empurra sem mais para o comunismo, nem algum deus ex-machina se encarrega dessa tarefa). Resumindo esse quadro, poderamos dizer: temos, em Marx, histria com progresso afetado por regresso, mas com final positivo; a catstrofe possvel, mas s por um fracasso na constituio do modo final e melhor, determinismo sem fatalismo. Sobre outras aspectos j insisti, pelo menos sobre alguns deles: principalmente, a ideia do que, no ponto de chegada, teramos uma sociedade mais ou menos transparente sem mercado, sem propriedade, sem Estado e, a rigor, at sem leis25.

Como pensar a histria hoje, aps a experincia sinistra do sculo XX, alm de tudo o que de novo nos ensinam os historiadores sobre a histria antiga e moderna? Em primeiro lugar, o determinismo, mesmo sob a forma atenuada (no fatalista) em que aparece em Marx, a rever. Os caminhos da histria so muito mais imprevisveis do que ele havia suposto. Nada nos leva a crer, desejemo-lo ou no, que estamos caminhando em direo ao comunismo. Por outro lado, se h progresso e regresso, eles no ocorrem, provavelmente, como Marx o pensava. Existe um fio de progresso, que de certo modo independente de um processo de progresso-regresso. H um fio: ver - exemplo frequentemente evocado e s vezes ironizado - o curso do feminismo no Ocidente; ver os progressos, insuficientes, mas reais, em lutas micro-histricas (homossexuais, diferenas tnicas); ver - eu diria - o papel no muito sustentado pela fora, mas real e com certa eficcia (exemplo: luta dos dissidentes nos pases "comunistas" da Eursia ou da Amrica) dos direitos do homem. H, assim, um fio - ou fios - de progresso no interior de um processo que de progresso tcnico, mas que regressivo sob mais de um aspecto (aumento da desigualdade, por exemplo). E principalmente: h uma ameaa de catstrofe. Como disse, poder-se-ia dizer que essa ameaa tambm est presente em Marx, porm, por outros motivos ou em outro lugar. Nossa catstrofe, a que temos diante de ns,no vem do fato de que a humanidade no conseguiu chegar ao comunismo. (E, antes de mais nada, cabem as perguntas:valeria a penas chegar a ele? E - pergunta prvia - que , afinal, o comunismo; a sociedade transparente que Marx imaginava para a "Histria"?). Sem dvida, poder-se-ia dizer que a catstrofe ameaa porque no nos desvencilhamos do capitalismo. Isso tem sua verdade, mas diferente do que diz Marx. Porque, se os poderes capitalistas nos empurram para o desastre, ou pelo menos no fazem o suficiente para evit-lo, o chamado socialismo real no fez menos mal, e uma parte da social-democracia tambm continua sonhando, sem mais, com o "progresso" e a "cincia". Isso mostra que mais do que uma forma social o que nos conduz catstrofe, um leque de formas, ou o que est por trs de certas formas - uma tcnica desencadeada, informada por uma funesta ideologia produtivista e de domnio da natureza. Aqui, j estamos, certamente, bastante longe do marxismo. Mas seria preciso acrescentar alguma coisa a esse quadro. Se no marxismo pensava-se tanto num progresso afetado de regresso, como tambm em pocas de regresso, a experincia do sculo XX nos mostra a possibilidade de verdadeiras interverses26 na histria. E h interverses tcnicas como h interverses tico-polticas. Contrariando os hbitos correntes de pensamento,eu acrescentaria que se deveria comparar umas s outras, pondo os dois casos em paralelo. Assim, eu afirmaria que, na histria do sculo XX,tem-se uma grande inverso do progresso social, com a chamada revoluo de Outubro, que foi, a rigor, um golpe de Estado, embora muito sui generis27. E uma grande interverso do progresso tcnico, a quese poderia datar do primeiro lanamento "experimental" da arma atmica, a 16 de julho de 1945 (ou de seu primeiro lanamento in vivo a 6 de agosto do mesmo ano). Temos a duas interverses. No primeiro caso, um grande movimento social, grosso modo, libertrio, mobilizando, desde o final do XIX,o melhor da intelectualidade de esquerda e do centro-esquerda de um pas que desemboca quase imediatamente num governo autocrtico, governo que evoluir - no sem certa ruptura, mas tambm com linhas de continuidade - para uma ditadura totalitria. No outro - bem mais conhecido e reconhecido -, temos o fenmeno do progresso tcnico e cientfico levando produo de instrumentos de destruio de cujo uso resultam no s massacres em grande escala (alguns dos bombardeios com armas convencionais no ficaram longe deles, ou se lhes equivalem pelo menos imediatamente), mas, para alm do massacre imediato, resultam ainda efeitos patolgicos e letais, a mdio e longo prazo, sobre as populaes. Mesmo fazendo abstrao dos desenvolvimentos de que podem ainda ser objeto no futuro, eles desenham, no horizonte humano, a possibilidade de uma liquidao de uma poro considervel da espcie, seno da totalidade dela28. Esse quadro , repito, estranho concepo de histria de Marx. Sem dvida, Marx no podia prever tudo, mas seus clculos no iam nessa direo, o que no foi o caso das elucubraes "fantasmagricas" do terico-poeta Fourier.

 

2. O triedro poltico

 

no quadro dessa histria que temos de pensar as dualidades esquerda/ direita, totalitarismo/ antitotalitarismo e produtivismo/ antiprodutismo. Comecemos por observar que se, ao introduzir a oposio totalitarismo/ antitotalitarismo, chegamos a quatro possibilidades polticas, constituindo o que chamei de "quadrado poltico", agora as possibilidades aumentaram. Um quadro completo, incorporando a terceira dualidade, deveria dar um octgono, mas seria uma representao muito complicada. Melhor seria reunir s os valores positivos. Ter-se-iam trs valores: esquerda, antitotalitarismo, antiprodutivismo; ou esquerda, democracia, harmonia. Se quisermos represent-los num plano, isto poderia dar um tringulo. Mas seria melhor passar a uma representao num espao a trs dimenses. Aproveitando uma figura utilizada, em outro contexto, por Foucault, para alm do "quadrado poltico" e incorporando, portanto, a segunda ruptura, eu falaria no triedro poltico. O triedro no um slido geomtrico, mas tambm uma figura em trs dimenses e no quadro da qual se distinguem faces. Haveria uma face "esquerda", uma face "democracia ou antitotalitarismo" e uma face - gosto pouco do termo "ecologia", que est "desmonetizado", utilizaria antes o termo fourierista (!) - harmonia. Semirretas que partem de um ponto comum, determinam os limites dessas faces, cada uma das quais tem fronteira com as duas outras.

Deixando de lado a geometria, como chamar o processo global, que um processo de luta? No uma luta da esquerda apenas, nem apenas da democracia, nem apenas pela harmonia. Creio que o melhor termo - contrariamente s aparncias,fixar e definir esse termo, como outros anlogos, muito importante, tanto terica como praticamente - emancipao29. "Emancipao" - a ser utilizado, evidentemente, num sentido bastante amplo, incluindo as exigncias harmnicas ou ecolgicas (emancipar-se do produtivismo). As respostas negativas, creio, poderiam ser chamadas, tambm em sentido amplo, servides. H uma servido capitalista, uma servido totalitria, uma servido produtivista. Abrem-se a - no que ser o movimento final deste texto - um certo nmero de problemas, entre os quais o da articulao entre esses registros e o da situao atual nas trs frentes. Essas questes nos reconduziram e nos reconduziro de novo histria, mastambm a uma discusso sobre o pensamento de Frankfurt.

Comeo pelo que deveria ser o fim: a situao atual. Digamos que a razo de ser de cada um daqueles registros est bem presente ou reapareceu. H assim uma inflao de "neos". A luta secular da esquerda toma uma nova figura e um novo impulso com o chamado neoliberalismo, que tem como fundo o peso recente do capital financeiro mundializado e que se empenha em anular as conquistas obtidas nos ltimos 150 anos. Discute-se em que medida ele uma volta ao passado. No existem voltas e, sem dvida, ele est ligado a fenmenos relativamente recentes. Mas ao mesmo tempo, reconhecem-se os temas do passado, inclusive a naturalizao das relaes econmicas, mesmo se sob um discurso que, sem dvida, diferente do da economia vulgar clssica. O totalitarismo recebeu um golpe violento com a decomposio do imprio dito "sovitico" (essa decomposio no foi nenhuma derrota do "socialismo", como pretendem certas almas sinistramente nostlgicas). Mas ele est vivo, de certo modo, e no s, como indiquei, pelo fato de que a esquerda no pode esquecer o delrio genocida a que se entregou sua vertente igualitarista, mas porque - alm do caso da China, que combina um quase-totalitarismo ideologicamente "comunista" com um capitalismo desenfreado - existem, na conjuntura atual, correntes prticas ou tericas totalitrias ou quase-totalitrias, de peso considervel. A esse respeito, eu diria que h, no plano prtico da poltica, uma verdadeira vaga de extrema-direita alimentada pelo tema da imigrao, principalmente de populaes de religio muulmana. Num pas da Europa, a Hungria, um partido de extrema-direita chegou ao poder e instaurou um regime autocrtico no limite do fascismo. Em vrios outros pases da Europa (Frana, Holanda, ustria etc.), o peso da extrema-direita considervel. E ela utiliza abertamente temas xenfobos ou racistas. A direita "republicana" tende a romper os diques que a separa da extrema-direita, mas no sem encontrar resistncias internas. Quanto ao totalitarismo igualitarista (alm da China, Coreia do Norte, Cuba?), ele aparece principalmente no plano terico. Desde h alguns anos, vemos uma proliferao de textos, em geral espalhafatosos e pouco rigorosos, mas com grande penetrao miditica, em que se tenta reabilitar Stlin e o stalinismo, s vezes Mao e o maosmo, ou pelo menos empunhar, sem critica,a bandeira do bolchevismo. Basta ver o que escrevem Losurdo, Luciano Cnfora, Jean Salem, mas tambm Badiou e Zizek30. Vai-se da tentativa de atenuar os horrores do stalinismo at a de desmistificar "a lenda negra de Stlin", passando pelo esforo em levar at o limite a ideia de uma descontinuidade entre leninismo e stalinismo. Tudo sobre o fundo de uma filosofia anti-humanista, desastrosa como projeto, e pouco rigorosa, seno grosseiramente sofstica, em seu desenvolvimento. A emergncia dessa vaga neoleninista e neostalinista, de que seus representantes fazem alarde, evidentemente o resultado da fraqueza da melhor esquerda, na apresentao de seus projetos filosficos e polticos. Enquanto os Losurdos, Badious e Zizeks aparecerem como grandes representantes do pensamento da esquerda contempornea (!?), a esquerda no tem nenhuma possibilidade de conseguir a hegemonia na luta de ideias. Quanto ao produtivismo, a situao particular. Aqui no temos um "neo". No se volta a nada, propriamente. O produtivismo, por ora, est plenamente integrado na paisagem e, sob certos aspectos,at se refora, nos ltimos dez anos. A situao propriamente trgica. Os movimentos verdes no representam o papel que poderiam representar. No que eles tendam a ir direita, como previram alguns, erradamente. Os verdes vo em geral para a esquerda, como se viu na Frana. Mas a dificuldade que eles parecem perder sua fora crtica e andar a reboque das organizaes social-democratas. Quanto a essas ltimas, houve certamente progresso, mas no o suficiente (ver as posies da social-democracia francesa - a alem foi bem mais longe - sobre a energia nuclear). (Notabene: a atitude dos poderes comunistas em relao ao meio ambiente foi provavelmente ainda pior do que a dos poderes capitalistas). A situao atual de crise econmica leva grande parte da esquerda a simplesmente esquecer os problemas ecolgicos, embora a ecologia (as novas energias, por exemplo) seja uma parte da soluo para a crise. Tudo se passa como se faltasse um suporte para a defesa do planeta. Os governos nacionais, mesmo os de esquerda, pensam no pas, no no planeta, como se o pas no existisse no planeta, como se, sem planeta, ainda pudesse existir o pas. Mas alm do capitalismo, do totalitarismo e do produtivismo, apareceu um outro problema, que introduzirei pouco mais adiante: o dos fundamentalismos religiosos. O peso deles na poltica mundial vai aumentando.

Passo agora articulao entre os diferentes registros. Antes disso, entretanto, seria preciso insistir em que a primeira coisa dar toda clareza e realce a cada um deles. Uma das maiores dificuldades da crtica contempornea diante daqueles registros a de bem pensar cada um em sua identidade prpria, condio para pensar a articulao ou a conjuno deles. Vimos a complexidade das relaes entre lutas pela igualdade e lutas antitotalitrias; a articulao entre lutas pela igualdade e pela democracia, de um lado, e lutas pela "harmonia", de outro, tambm nada tem de simples. No que se refere s relaes entre as duas primeiras figuras, no segundo texto desta srie (Fevereiro, nmero 4), perguntei o que seria prefervel, uma esquerda totalitria ou uma direita (suficientemente) democrtica. Comparando Stlin com, por exemplo, De Gaulle, disse que esta ltima seria prefervel primeira. Na realidade, a resposta muito mais complexa. No plano nacional, temos gente bastante eficiente e, at certo ponto, lcida na esquerda e que, entretanto, tem iluses com a China ou com o poder castrista. Devemos preteri-los em favor de uma direita ou de uma extrema-direita que faz alarde de suas convices democrticas, no plano internacional? No, de forma alguma. A esquerda "confusa" certamente melhor, mesmo muito melhor. Mas isso no significa que devamos calar a respeito das insuficincias e confuses dessa esquerda, como em geral se faz. Sobre a articulao esquerda e democracia, de um lado, e ecologia (ou harmonia), de outro, fonte de muita confuso, seria preciso evitar dois perigos: um o de dar luta ecolgica uma supremacia tal que ela liquide completamente o projeto da esquerda ( o que pretende a direita verde e, teoricamente, tambm o projeto de certo fundamentalismo verde, que pe numa mesma escala de valores os homens e os animais, seno as plantas e os objetos inanimados)31. As exigncias ecolgicas no devem por em xeque o iderio democrtico, nem devem obliterar as reivindicaes e os projetos dos movimentos de esquerda. Porm, tambm no se deve anexar simplesmente o iderio ecolgico ao projeto socialista. A emergncia dos temas da "harmonia" modifica consideravelmente o projeto inicial: na realidade mudamos de filosofia. Prolongar o socialismo num ecossocialismo, sem reformular radicalmente suas bases (e sem incluir de forma bem-visvel o combate antitotalitrio) muito insuficiente32.

 

3. Frankfurt ainda uma vez. Sobre a Dialtica do Aufklrung e as Teses de Benjamin.

 

Em que medida a escola de Frankfurt (incluindo nela como momento a Dialtica do Aufklrung, enquanto obra singular e enquanto constelao de teses e temas) satisfaz, no plano terico, quela tripla exigncia (socialismo, democracia, "harmonia"). Na realidade, a importncia da escola de Frankfurt to grande, que nunca demais tentar repens-la, retom-la, critic-la. O corpus de Frankfurt, ou pelo menos uma parte dele, nosso clssico contemporneo e nosso verdadeiro ponto de partida. Por isso, o desenvolvimento anterior desemboca de novo nos frankfurtianos e, atravs deles, ainda uma vez, na reflexo sobre a histria.

Adorno insistir na possibilidade de uma totalizao negativa da histria: costuma-se totalizar a histria sob o signo do progresso; mas haveria a possibilidade - e teramos l uma hiptese mais convincente - de totaliz-la a partir da ideia de violncia ou de destruio: "A afirmao de que se manifesta um plano mundial em direo do melhor seria cnica depois das catstrofes e tendo em vista as futuras.Mas nem por isso se deve negar a unidade que rene os momentos e fases descontnuos, caoticamente dispersos, da histria, a da dominao da natureza, que se prolonga na dominao do homem e finalmente da natureza interior. Nenhuma histria universal conduz do selvagem humanidade, mas h bem uma que conduz da fronda megabomba"33. Mas ainda seria possvel pensar tambm, creio eu, numa histria global considerada como movimento que vai na direo da igualdade, da liberdade e da harmonia. Na direo da igualdade, o que nos remete a Marx, mas tambm a Tocqueville. Refletiu-se o suficiente sobre tudo o que significa aideia de Tocqueville - por regressivas que tenham sido suas posies polticas - de que a histria moderna se revela como um movimento em direo igualdade? Na direo da liberdade: o que, em certo sentido, nos remeteria a Hegel, embora o contedo dessa liberdade deva ir, claro,bem almdos limites do hegelianismo. Na direo da harmonia: o que, de algum modo, remete a Fourier, mesmo se no se trata de assumir, longe disso, a verso fourierista da harmonia.E remete tambm, apesar de tudo, a Frankfurt e, em particular, a Adorno, em cujo pensamento est presente a ideia de "reconciliao"34.

A primeira revoluo teria realizado igualdade e liberdade num plano formal, a segunda iria realiz-la (ou a vai realizando) num plano real, a terceira seria a revoluo planetria que visa a harmonia. Porm - e esta a hiptese forte do texto de Adorno em que se diz que a histria poderia ser pensada sobretudo como movimento negativo em direo catstrofe: h uma segunda histria que no a da igualdade, da liberdade e da harmonia, mas a da desigualdade, da opresso e da catstrofe. sobre o fundo dessas duas possibilidades que devem-se ler as trs faces do triedro da emancipao e as trs dualidades positivo-negativas em torno das quais ele se constri: igualdade/ desigualdade; totalitarismo/ democracia; harmonia/ produtivismo e catstrofe.

Porm o discurso de Frankfurt, considerado em diferentes momentos, d conta suficientemente dessas trs dimenses, tanto da particularidade de cada uma delas como de sua conjuno global? Evidentemente, no poderei fazer aqui uma anlise crtica detalhada do pensamento de Frankfurt, nem mesmo do pensamento de Adorno. Voltarei a ele, em detalhe,em outro lugar.Mas gostaria de estabelecer alguns marcos. Ou arriscar algumas investidas crticas.

Aparentemente, a Dialektik der Aufklrung - comeo por a-contm todos esses momentos crticos. A obra vai bem mais longe do que uma crtica marxista do presente, no sentido de que uma crtica da civilizao, tendo como fundo a relao desta para com a natureza. Por outro lado, o totalitarismo, inclusive o termo "totalitrio"35, tambm est l, se principalmente sob a forma do fascismo, no s sob esta forma. O "outro bloco" tambm aparece e,na realidade, em forma simtrica:

" (?) a humanidade continua dividida num pequeno grupo de blocos armados. Esses blocos competem entre si mais desapiedadamente do que jamais o fizeram as firmas, quando a produo de mercadorias ainda era anrquica, e buscam liquidar-se reciprocamente. Quanto mais louco o antagonismo, mais rgidos os blocos. S quando a total identificao com essas potncias monstruosas impressa nas pessoas concernidas como uma segunda natureza, e todos os poros da conscincia so tapados, so as massas levadas a esse estado de absoluta apatia que as torna capazes de realizaes fantsticas (?). A incompatibilidade das ideologias trompeteada pelos polticos dos dois blocos no passa ela prpria da ideologia de uma cega constelao de poder (?) A escolha do ticket comunista ou do ticket fascista depende da impresso de que o Exrcito Vermelho ou os laboratrios do Ocidente deixam no indivduo"36.

Mas, apesar de tudo, poderamos nos perguntar se a Dialtica do Aufklrung d conta suficientemente dos problemas tericos e prticos diante dos quais se encontravam seus autores (e a fortiori dos problemas que enfrentamos hoje).

A noo de Aufklrung certamente ambgua. Elaremete pelo menos a trs elementos. Uma filosofia do progresso e da dominao da natureza pelo homem (prometesmo, produtivismo). Uma filosofia da Razo, que combate os preconceitos, religiosos principalmente, mas no s (combate, por exemplo, tambm os preconceitos no plano dos costumes). Uma filosofia dos direitos do homem, filosofia da liberdade, e, em certa medida da igualdade. Esses trs aspectos se articulam, mas no se confundem. Observe-se que, s vezes, os frankfurtianos falam de Aufklrung, s vezes, da Razo. Nos trs aspectos h uma dialtica, no sentido de que os trs podem se interverter em seu contrrio e, de fato - embora o destino deles no seja somente este -, vieram a se interverter. A ideia do progresso se interverteu no produtivismo. A Razo se interverteu em desrazo. Mais precisamente, definindo a razo como antissuperstio, a razo antirreligiosa se tornou superstio, o atesmo se transformou em dogmatismo fantico. Finalmente, a doutrina dos direitos do homem pode se transformar (de novo, seu destino no foi s este) em ideologia a servio da explorao e da opresso. De fato, o liberalismo democrtico se interverteu em liberalismo econmico opressivo e explorador que libera no o homem, mas o capital sob a aparncia da liberdade do "homem". Este o quadro completo.Mas, alm do fato de que, como j disse, se nos trs casos h interverso ela no funciona do mesmo modo em cada um deles, nem, digamos,na mesma "intensidade" - importante ter presente que, se h interverses,h tambm identidades: o progresso o progresso, a razo (antirreligiosa e antitradio opressiva) a razo, os direitos do homem so os direitos do homem. H assim, um "lado positivo"37 do Aufklrung e este no igualmente visvel ou mesmo efetivo em cada um desses casos e nas diferentes situaes. Digamos que o problema da Dialtica do Aufklrung de Horkheimer e Adorno que ela no s tende a "misturar" todos esses aspectos (progresso tcnico-cientfico, razo antissupersticiosa e antitradicional, racionalidade poltica), mas tambm "mistura" o positivo com o negativo, ocultando o primeiro no ltimo. Poder-se-ia ir mais longe, ao descrever esse trabalho de "reduo". O livro no s opera essas duas redues, mas nas passagens em que encara mais diretamente a sociedade contempornea, tende a pr todas as formas no mesmo saco, no distinguindo suficientemente a particularidade de cada uma delas.Qualquer que sejam suas qualidades, e, deixemos claro, elas so enormes, a Dialtica do Aufklrung tambm um discurso perigoso, mesmo, acho eu, inutilizvel (como totalidade) para a crticade hoje. A propsito do totalitarismo,ela passa um pouco rapidamente de formas no totalitrias - embora opressivas e autoritrias - a formas propriamente totalitrias (o jogadores de futebol e os camisas negras nazistas38, o estilo dos produtos da indstria da cultura e aditadura nazista etc.39) e, por outro lado, no h um trabalho especfico de anlise de cada uma das grandes formas totalitrias40. No texto citado, vai-se um pouco depressa demais de uma a outra. verdade que ele visa mais de perto o plano internacional, e, nesse plano, esse estilo de crtica poderia se justificar. Mas em geral,temos na Dialtica do Aufklrung um discurso de tipo holstico, que corre o risco de se? interverter - por causa desse holismo - em discurso acrtico. Quem critica tudo, e tudo como sendo mais ou menos o mesmo, corre o risco de no criticar nada (os autores diriam que a reduo est no real, que s o exagero verdadeiro etc. etc., mas esses topos no so sempre convincentes, nem correspondem bem ao objeto). - Voltando aos trs aspectos do Aufklrung. Como j disse, o primeiro, a filosofia do progresso, que se interverte em produtivismo, corresponde ao que tratei como "a segunda ruptura", o que seria, digamos, a terceira revoluo. Ou a terceira vaga. Os outros dois aspectos, remetem primeira e segunda vagas. Eles apontam para as aquisies, em geral formais, da primeira revoluo e que a segunda revoluo quer efetivar,o primeiro, poltica, o segundo ao mundo da cultura. Em seu aspecto positivo, o primeiro se exprime na democracia e nos direitos do homem, o segundo na crtica da superstio e do conservadorismo cultural (em seu aspecto negativo, tambm j disse, o primeiro serve como ideologia do capitalismo ou como justificao do reformismo adesista; o segundo aparece no atesmo totalitrio). - importante ressaltar que aqui se v o lugar de um fenmeno muito importante da poca em que vivemos, a que j me referi: o fundamentalismo. Este - viso essencialmente ao fundamentalismo religioso, sob suas diferentes formas, islmica, judaica ou crist, a islmica a que est mais em evidncia, mas ela no a nica - aparece precisamente como recusa de um dos lados positivos do Aufklrung,a luta contra a superstio e contra os costumes tradicionais retrgrados, e, aparece tambm como recusa da democracia e dos direitos do homem. V-se que o fundamentalismo um anti-Aufklrung, mas no um inimigo do Aufklrung entendido em sentido estrito, como filosofia do progresso (do progresso tcnico e cientfico). Que isto seja verdade, revela-se bem no fato de que, se o fundamentalismo religioso anti-Aufklrung como crtica da superstio e como projeto democrtico, ele , ao mesmo tempo, produtivista. Isto , ele retoma a ideologia do progresso e na sua forma violenta. O poder iraniano quer ao mesmo tempo o vu nas mulheres e a bomba. V-se a complexidade do problema do Aufklrung, complexidade que, entretanto, se resolve, sempre que se fizer uma anlise de seus trs aspectos e, ao mesmo tempo, uma distino entre sua realizao positiva - como cincia etcnica cuja legitimidade no se trata de negar seno no sentido de um Aufhebung, como crtica da superstio e do tradicionalismo retrgado,como democracia e afirmao dos direitos do homem - e sua realizao negativa, intervertida (o produtivismo, o atesmo fantico e a democracia como ideologia a servio do neoliberalismo, espcie de fundamentalismo de mercado, em suas manifestaes nacionais ou internacionais).

At aqui sobre a Dialtica do Aufklrung, que representa um momento da carreira intelectual de Horkheimer e de Adorno e tambm da histria do chamado pensamento de Frankfurt. V-se assim por onde poderia ir uma crtica da obra, que entretanto, responde a muito do que se exigiria de uma crtica emancipadora. A Dialtica do Aufklrung, pelo menos se julgarmos a partir dos comentrio de Habermas a respeito, deve muito a Walter Benjamin. Ela representaria uma virada em direo a Benjamim por parte de Horkheimer, que at ento (salvo dois textos que anunciam a Dialtica do Aufklrung) estaria, apesar de tudo, relativamente prximo de uma posio marxista e representaria tambm uma espcie de radicalizao da convergncia que sempre teria existido, em alguma medida, entre Adorno e Benjamim41. Esse ltimo ofereceria um discurso menos vulnervel crtica do que a Dialtica do Aufklrung? De novo, devo advertir o leitor, que fao apenas algumas incurses crticas e no mais do que isto42. As famosas teses Sobre o Conceito de Histria se impuseram como o grande "fragmento" clssico de crtica do progresso. A tempestade que impede o "Angelus Novus" de Klee de abrir as asas e recolher os mortos, como a imagem do progresso. Benjamin aparece como o iconoclasta que denunciou a "locomotiva" de Marx: "Marx afirma que as revolues so as locomotivas da histria universal. Mas talvez tenha sido totalmente diferente. Talvez as revolues tenham sido o ato de puxar o freio, nesse trajeto (Zge), por parte do gnero humano em viagem"43. E, entretanto algum poderia dizer que Sobre o Conceito de Histria, escrito em 1940,s se refere indiretamente, e pouco, ao totalitarismo "igualitarista". Salvo erro, s na tese X que se pode reconhecer uma crtica aos partidos comunistas, visivelmente a propsito do pacto germano-sovitico. Em compensao, a social-democracia nomeada nas teses XI, XII e XIII. Mas se a reserva ficar por a, ela superficial. O que decisivo que, se Benjamin faz uma crtica das bases filosficas da social-democracia (e diramos, mais rigorosamente, da social-democracia reformista-adesista), ele no faz a crtica das bases filosficas do leninismo e do stalinismo. As teses atacam a concepo continusta do tempo, na linguagem de Benjamin, "o historicismo". (O termo foi usado com outras acepes, s vezes, em sentido oposto ao de Benjamin, mas isso no importa). Conhecemos o tema, que um leitmotiv do autor. "A histria objeto de uma construo cujo lugar no o tempo homogneo e vazio, mas o tempo saturado do ?agora-presente? (Jetztzeit)"44. Este deve ser interrompido pelo "historiador materialista" por um conceito do presente "que no passagem no tempo, mas no qual o tempo embarca e se interrompe (in der die Zeit einsteht und zum Stillstand gekommen ist)"45. Mas a ruptura, nas "Teses", vale tambm e a fortiori no plano prtico da ao poltica (literalmente): " prprio conscincia, s classes revolucionrias, no momento de sua ao, fazer explodir (aufsprengen) o contnuo da histria"46. Temos a a crtica do tempo continusta da social-democracia reformista-adesista. Mas esta teria sido a nica "praga" da esquerda do sculo XX? Ora, o Estado totalitrio "igualitarista" no foi, de forma alguma, uma herana do tempo continusta. Se supusermos - e h srias razes para supor - que o leninismo, embora no se identifique com o stalinismo, preparou sua emergncia (principalmente ao liquidar em poucos meses e antes do que seria propriamente o incio da guerra civil, toda vida democrtica inclusive dentro dos sovietes), seria preciso dizer que o Estado totalitrio igualitarista tem suas razes no numa filosofia da continuidade do tempo, mas pelo contrrio:numa concepo de histria que acentua a ruptura, a descontinuidade. E, poderamos acrescentar: uma concepo de histria qual no so estranhos traos escatolgicos. O bolchevismo promete desde seu surgimento, uma ruptura histrica. Mais do que isto: Lnin rejeita compromissos mesmo com as foras da esquerda democrtica mais radical (Martov), porque expressamente quer garantir o caminho da "comuna"47. ( Essa atitude visvel bem antes de outubro, e, mais tarde, em setembro de 1917, quando surge uma possibilidade concreta de um governo de coalizo de esquerda e at de extrema-esquerda). Para fazer uma crtica completa - e eu diria, rigorosamente dialtica, porque a crtica dialtica se faz sempre contra dois adversrios -, seria preciso criticar simultaneamente o tempo continusta da social-democracia adesista e o tempo de ruptura "abstrata" do bolchevismo. Este ltimo tempo no foi menos fatal do que o primeiro. E se se disser que Benjamin faz essa crtica na tese X, vale a objeo de que ele a faz num plano que fenomenal, em todo caso no filosfico, e por ocasio do grande escndalo que foi o pacto germano-sovitico. Seria preciso criticar num nvel mais profundo, filosfico, e com um pano de fundo bem mais amplo do que o do Pacto. Benjamin parece ter hesitado muito no que se refere ao poder comunista48. E no so as implicaes messinicas do discurso de Benjamin que iro nos ajudar a sair da dificuldade: o messianismo, profano ou no, s agrava a unilateralidade do argumento. Bem entendido, preciso romper a continuidade do tempo, e, nada leva a crer que uma poltica social-democrata que siga infinitamente seu curso nos levar a uma verdadeira transformao social. Mas se ruptura se exige, ela no pode ser "ruptura do tempo", nem pensvel que deva ter conotao messinica, qualquer que seja o carter desse messianismo (contrariamente s aparncias, a dependncia de Benjamin para com a teologia s radicaliza sua posio, mas radicaliza no sentido de um revolucionarismo que se revelou to nefasto quanto o reformismo-adesista). De resto, ela deve ser, em princpio, no violenta. No famoso artigo de juventude de Benjamin "Para a crtica da violncia" (1921), reencontramos a ruptura histrica. Quanto violncia, se Benjamin se esfora por levar at o limite a "violncia fundadora" (em oposio "violncia conservadora"), de modo a esperar que, enquanto "violncia pura", ela reduza a violncia tout court, e se esfora tambm por que ela se autonegue como "fundadora", pois dela no deve resultar novo direito nem Estado, duvidoso que ele escape das ambiguidades sorelianas49 de toda essa construo: nessa filosofia do enfrentamento, a violncia est por toda parte, e o direito sempre tnue cristalizao que deixa transparecer a violncia.

Ao no assumir a crtica do "revolucionarismo", Benjamin prejudica tambm sua campanha contra o produtivismo e o progressismo. Como j vimosentre o totalitarismo de esquerda (e em geral os totalitarismos), de um lado, e o Aufklrung prometeano, de outro, h uma relao complexa (o caso do totalitarismo de direita especial; deixemo-lo de lado aqui). Quem critica o progressismo, mas recalca mais ou menos o fenmeno totalitrio-igualitarista, no completa a crtica do progressismo, porque o totalitarismo (igualitarista) foi um de seus principais vetores (vetor de catstrofes, inclusive Chernobil herana do produtivismo stalinista).

No interior do pensamento de Frankfurt - se podemos falar de "Frankfurt", como uma unidade -, o melhor modelo certamente o do ltimo Adorno, o da Dialtica Negativa, e de alguns outros textos. Para comear, tem-se uma conscincia dos perigos de um "descarrilhamento" da chamada "violncia revolucionria", que estranho a Benjamin, pelo menos em seus escritos mais conhecidos. O texto merece uma longa citao:

"Com a acelerao vertiginosa da histria, [a barbrie]cresceu tantoque ela contamina tudo que resiste a ela. Para muitos, parece plausvel a excusa de que contra a totalidade brbara (barbarische Totalitt) s convm meios brbaros. Mas, no intervalo, se chegou a um limiar. Aquilo - a violncia - que h cinquenta anos podia parecer justificado por um pequeno perodo aos olhos de uma esperana demasiado abstrata e ilusria de uma mudana total (totale Vernderung),depois da experincia do horror nacional-socialista e stalinista e, diante da longevidade da represso totalitria, est inextrincavelmente imbricado naquilo que se deveria mudar. Se o contexto de culpabilidade (Schuldzusammenhang) da sociedade, e, com ele, a perspectiva (Prospekt) da catstrofe se tornou realmente total - e nada nos permite duvidar disto - no h nada a opor a isto seno denunciar aquele contexto de culpabilidade, em lugar de participar dele sua maneira (in eigenen Formen). Ou a humanidade renuncia ao olho por olho (Gleich um Gleich) da violncia, ou a pretensa prtica poltica radical renova o antigo terror. Vergonhosamente, se verifica a sabedoria pequeno-burguesa, segundo a qual o fascismo e o comunismo so a mesma coisa (?.)"50.

A Dialtica Negativa (1966)nos oferece certamente o melhor ponto de partida (alemo, em todo caso), para pensar filosoficamente o conjunto da luta emancipatria, pelo menos para pensar suas bases tericas. O que h nesse texto? Se compararmos a Dialtica Negativa com a Dialtica do Aufklrung, tem-se a impresso de que a ltima faz uma crtica como que "total" de seu objeto, com o que, ela mesma, a crtica que diz o objeto, acaba paradoxalmente "colando" com ele. Ela to completa e totalizante que o sujeito que critica aparece como objeto, de certo modo como fecho ou arremate da m totalidade. Com a Dialtica Negativa, tem-se outra coisa. A crtica no menos radical. Mas ela no engolida pelo objeto, ela segue seu prprio caminho. Sem dvida, no h grande otimismo em relao ao futuro. Mas a crtica "se solta", mesmo se como garrafa atirada ao mar. Isso quanto situao da crtica, ou seu estilo. Em seu contedo, reencontraremos os grandes temas de Adorno e de Frankfurt, em primeiro lugar, a dominao da natureza, que daria uma chave para pensar a unidade da histria51. Mas se a perspectiva da Dialtica Negativa, como a da Dialtica do Aufklrung "abrangente" (melhor do que "totalizante"), a sociedade capitalista, espcie de universal concreto, mas negativo, tambm visada especificamente, de forma direta ou indireta. "O conceito de uma sociedade capitalista no nenhum flatus vocis"52. importante assinalar que Adorno retoma um ponto importante, seno o ponto decisivo, da crtica da economia poltica: a interverso da igualdade das trocas em desigualdade. "O princpio da troca, a reduo do trabalho humano ao conceito geral (allgemein) abstrato de tempo de trabalho mdio, originariamente aparentado com o princpio de identificao (Identifikationsprinzip). (?) a troca de equivalentes constitui desde h muito, [o fato de] que em seu nome se troquem desiguais, que a mais-valia do trabalho seja apropriada"53. "A troca tem verdadeira objetividade (?) e , ao mesmo tempo, objetivamente no verdadeira, ela transgride seu princpio, o princpio da igualdade"54. Mas a crtica das sociedades do "leste" tambm est na Dialtica Negativa: "(?) mquinas terroristas de Estado se entrincheiram, como instituio permanente,sob o pretexto furado de uma (?) ditadura do proletariado h muito tempo administrado (Diktatur des lngst verwalteten Proletariatj), insulto teoria que eles tm na boca. Eles encadeiam seus sditos a seus interesses mais imediatos e os mantm limitados"55.

O que falta Dialtica Negativa (se falta alguma coisa)? Uma teoria da democracia? Mais preciso sobre o que seria o "estado de liberdade" (Stand von Freiheit)?56 Como pensa Adorno a organizao de uma sociedade reconciliada (ou "a situao reconciliada")?57. Como a crtica da forma mercadoria est no centro da teoria crtica e do pensamento de Adorno em particular, e, assim como vimos, tambm a crtica da troca de equivalentes,- devemos concluir que Adorno tem, como horizonte, uma sociedade "comunitria"? A concluso excessiva, porque Adorno no "preenche" o campo do "estado da liberdade". E em um texto pelo menos, poder-se-ia reconhecer a admisso de um lado positivo e justo na troca: "A crtica do principio da troca como do pensamento identificador, quer a realizao do ideal de troca livre e justa que, at nossos dias, foi puro pretexto"58. Haveria a talvez o germe, pelo menos de um reconhecimento da validade das "trocas justas" na sociedade reconciliada. O termo "democracia" em geral pejorativo na Dialtica do Aufklrung. Na Dialtica Negativa no muito diferente; em todo caso, na Dialtica Negativa,ele no assume, salvo erro, nenhuma tese explicitamente democrtica59. A propsito da cultura, faz-se, entretanto, uma comparao entre os dois regimes, e Adorno reconhece a um deles uma pequena vantagem: "Se os Estados do Leste liquidaram a cultura, apesar de um bl-bl-bl afirmando o contrrio, e [a] transformaram em refugo como simples meio de dominao, o que acontece com a cultura, que geme com isto, aquilo que ela merece, e para onde ela tende ardentemente, por sua vez, em nome dos direitos democrticos do homem quilo que os iguala. No Oeste, pelo menos se permite dizer isto"60. Porm, Adorno no se perde num elogioacrtico do "mundo ocidental", como parece ter acontecido com o "velho" Horkheimer.

A Dialtica Negativa nos prope, como indica seu ttulo, uma nova dialtica. No posso desenvolver aqui esse tema, tento apenas relacion-lo com nossos problemas. A crtica da dialtica "positiva" se direciona no sentido de um alm da dialtica, a partir da prpria dialtica. Esse "alm" vai, em parte, no sentido de tentar dizer "o que no se pode dizer"61, isto no sentido de pensar um imediato(tema que converge, aparentemente, com o trabalho de Benjamin). Mas ela visa tambm a um questionamento dos prprios procedimentos da dialtica. Desenvolvendo com liberdade esses temas de Adorno e tentando pens-los em sua relao com as questes de que trato aqui, diria: o pensamento crtico que capaz de arcar com as exigncias do "triedro poltico" , em parte, dialtico, em parte, vai alm da dialtica num sentido que, em alguma medida, representa uma reabilitao do entendimento, em parte vai para alm da dialtica no sentido de abrir caminho para um "imediato". Digamos que a dialtica propriamente a teoria crtica da esquerda (em sentido especfico), isto , da crtica do capitalismo, de que o grande modelo a crtica marxiana da economia poltica. Quando se passa crtica dos totalitarismos, h pelo menos um lugar para o entendimento e contra a dialtica. Se a dialtica se afunda na barbrie com o Diamat,h uma crtica possvel da dialtica, e esta crtica no estranha ao entendimento, um entendimento crtico,evidentemente. A dialtica apresenta as interverses da liberdade e da igualdade em seus contrrios, no interior da formao capitalista. Para a crtica do totalitarismo a tarefa inversa. L onde a dialtica ideologia, a identidade crtica.Onde as interverses viraram ideologia a servio da dominao totalitria e burocrtica, preciso afirmar identidades: a liberdade , apesar de tudo, a liberdade (tambm a igualdade a igualdade). Finalmente, a luta pela "harmonia" nos leva a pensar o imediato, o vivido, numa intensidade maior do que j necessrio nos outros nveis. O natural e o imediato tm de ser percebidos, por um trabalho que no apenas o do conceito. Aqui domina, de algum modo, a imaginao. Mas o papel da dialtica no fica apenas no nvel das lutas de esquerda, em sentido especfico, pois todas as interverses so pensveis a partir de um movimento de pensamento que remete dialtica, no ao entendimento. E as interverses esto presentes na crtica do totalitarismo, como no pensamento ecolgico (a revoluo que se interverteu em contrarrevoluo, o progresso que se interverte em regresso e destruio). Assim, de certo modo, o pensamento dialtico ainda est no centro de tudo.

Tratei do pensamento de Frankfurt, porque ele me parece representar o que h de melhor, como ncleo de pensamento terico para as lutas emancipatrias. Vimos, entretanto, algumas de suas insuficincias.Na realidade, o pensamento de Frankfurt representa o que eu chamaria de "crtica alem da filosofia e da cultura". A esta seria preciso acrescentar a "crtica francesa da poltica", de que os grandes representantes no sculo XX, so, a meu ver, Lefort e Castoriadis. L encontraremos o que h de mais importante a respeito de totalitarismo e democracia (o que no significa que se deva subtra-los a toda crtica)62.

 

P.S.: Sobre A Esquerda que no teme dizer seu nome de Vladimir Safatle (So Paulo, Trs Estrelas, 2012).

 

A primeira unidade de "Esquerda/ direita?" j estava publicada, e a segunda j estava escrita, quando meu amigo Vladimir Safatle me enviou, muito cordialmente, uma primeira verso de seu livro. A ltima - que, fora uma referncia a meu respeito, no parece ser muito diferente da primeira -vim a conhec-la quando meu texto j estava inteiramente escrito. Infelizmente, por razes de espao - elas existem, claro, mesmo para revistas eletrnicas -,tenho de ser sucinto. Abrindo o jogo. Aparte alguns desenvolvimentos, principalmente no final,devo manifestar meu desacordo quase total com as ideias do livro. Este artigo, publicado em trs nmeros sucessivos de Fevereiro, - sem querer - uma resposta ao livro de Safatle. O que funciona mal no livro de Safatle? Muita coisa. Uma recusa em pensar a fundo os horrores do passado cometidos em nome da esquerda, um universalismo estreito, fechado s diferenas, uma recusa "inegocivel" de toda "democracia parlamentar". A acrescentar: a) suas referncias terico-filosficas principais, Badiou - apesar de uma ressalva - e Zizek,e mais,Agamben e Derrida; b) um uso pelo menos curioso de autores que, na realidade, no so solveis nestes que mencionei: Adorno e Lefort. Comecemos pelo final. pgina 39, Safatle cita Lefort, como algum que considera a possibilidade de transgresses democrticas ao Estado de Direito. Mais adiante (p. 49), ele volta a se referir a Lefort. Safatle deveria advertir o leitor de que Lefort se situa numa posio diametralmente oposta sua: entre todos os pensadores polticos de esquerda do sculo XX, provavelmente o que mais defende a democracia, entendida como democracia parlamentar. De resto, isto visvel, j na citao que ele faz: trata-se de considerar transgresses no quadro do Estado democrtico (e Lefort entende por isto a democracia parlamentar), no fora dele. (O argumento de Safatle, de estilo soreliano, passa da transgresso que pode ocorrer numa greve, ou numa manifestao ecolgica, ao questionamento do prprio Estado democrtico. Esse tipo de hiprbole, vou mostrar proximamente, tpico do universo ps-estruturalista francs e de seus cartunistas63, precisamente a dupla j citada). Sobre Adorno64 seria bom lembrar, que se na Dialtica do Aufklrung a noo de "democracia" no tem um sentido positivo, Adorno, que eu saiba, nunca se manifestou contra a democracia representativa - e Horkheimer muito menos,independentemente da deriva final deste ltimo na direo de uma posio unilateralmente"pr-ocidental" -; mais do que isto, em sua ltima fase (cujo significado no deve ser confundido com a do ltimo Horkheimer), Adorno assumiu abertamente a defesa da democracia, entendida como democracia parlamentar65. Alis, realmente espantosa a maneira pela qual o ps-estruturalismo francs, ou, antes,sua caricatura, utiliza o pensamento de Adorno. Eu diria que h um verdadeiro sequestro de seu pensamento. Adorno no foi, de modo algum, anti-humanista, como pretendem alguns (estude-se, entre outras coisas, na obra de Adorno, os temas da emancipao e da reconciliao)66. Mas como Marx, ainda que de um modo distinto, ele tambm no era humanista. No interior de uma posio rigorosamente dialtica, Adorno no foi nem humanista nem anti-humanista. Quanto a juntar Adorno com Zizek e Badiou? Se Adorno lesse algum deles, no tenho dvida de qual seria seu julgamento: "Barbrie?". - Mas Safatle antes de tudo inimigo da "democracia parlamentar" (p. 51, 52, 53?). Em lugar dela,prope o "plebiscito". "O plebiscito simplesmente a essncia fundamental de toda vida democrtica (?)" (p. 56). Plebiscito? Observemos que o plebiscito existe como instituio em muitas democracias (talvez na maioria delas), mas coexiste com instituies representativas. Safatle quer o plebiscito sem essas ltimas. Quais as dificuldades - digo eu - em substituir o poder de cmaras e senado pelo plebiscito? Critica-se o plebiscito, como instituio exclusiva, por trs razes: 1) ele, em geral, s permite um controle descontnuo do poder; 2) ele pode servir a poderes demaggicos ou totalitrios; quem decide os termos do plebiscito? (Safatle diz que Hitler no submeteu a criao de campos de concentrao a plebiscitos: precisamente este o problema) e 3) O juzo popular pode errar e gravemente deixando-se levar por preconceitos (o prprio Safatle d o exemplo do plebiscito antiminaretes na Sua, poder-se-ia acrescentar: um plebiscito na Frana atual provavelmente restabeleceria a pena de morte). Na falta de controle parlamentar, os erros plebiscitrios podem ter as piores consequncias.Safatle pretende evitar esses inconvenientes (ou parte deles), propondo que os plebiscitos se faam no quadro de uma "democracia digital", "que permita a implementao constante de mecanismos de consulta popular" (p. 52). Ou seja, em vez de cmara e senado, o poder, que no seria "nem o Executivo nem o Legislativo", se exerceria atravs de uma manifestao constante do povo atravs da internet?Enfim, eu diria que, na melhor das hipteses, ele quer uma verso eletrnica da democracia direta ateniense. Os problemas para a realizao de um tal projeto aparecem j no texto de Safatle, quando ele discute as questes de governabilidade. Ele insiste em que teoria sobre governo no teoria sobre poder. Mas se haveria governo, apesar do argumento rousseausta, no vejo como no haveria tambm representao (ou ele est pensando na "ditadura revolucionria"? Porm, se este o caso, porque falar de Allende etc.?). De qualquer modo, seu projeto, mesmo se pensvel, fica no horizonte. Um horizonte mais ou menos distante. De imediato, o que temos a liquidao da democracia parlamentar. Ora, essa leitura se impe tanto mais - e tanto mais inquietante - quando se pensa que os modelos principais do pensamento poltico de Safatle, so Zizek e Badiou. Ora, estes dois autores se declaram abertamente inimigos da democracia. Em mais de uma ocasio, declararam que o inimigo no o capitalismo, mas a democracia? Ora, o que que eles querem pr no lugar da democracia? No caso de Badiou, o poder representado pela chamada revoluo cultural chinesa que no foi avara em matria de horrores (Badiou ressalva alguns "abusos"). Quanto a Zizek, ele no esconde seu entusiasmo (apesar de recuadas recentes bem pouco convincentes) pelo terrorismo revolucionrio francs, ou pelo poder bolchevique, inclusive em suas fases mais terroristas. Safatle interpe a esse esquema a "democracia digital". Porm, no intervalo, prega o fim da democracia e comunga com o pensamento poltico de Zizek e Badiou? Afinal, poderamos dizer, talvez um pouco ingenuamente, afinal quais so suas intenes? Sobre o entusiasmo de Safatle por esses dois autores, apesar de uma ressalva - Safatle no poderia quand mme dizer amm ao apoio que d Badiou liquidao de Lavoisier (!)?- voltarei mais adiante. E voltarei ainda questo da revoluo. Mas, antes disso: uma outra tese essencial de Safatle a crtica da poltica das "diferenas". Sou obrigado a ser breve. Ele prega um "universalismo" puro e duro. Se em certo momento, justificou-se ocupar-se da luta das mulheres, dos negros ou dos homossexuais, falar agora disto (ou dar nfase a isto, as duas coisas se confundem no livro de Safatle), seria fazer o jogo dos poderes que visam descentrar a luta de classes. Lamento ter sido obrigado a reduzir muito a ltima parte deste artigo, publicado neste nmero. Mas no pargrafo em que trato da atitude da esquerda clssica diante desses problemas, refiro-me, citando textos, homofobia feroz de Engels -aparentemente, Marx no tinha outra posio -, relativa indiferena da esquerda clssica diante da luta feminista etc. etc.,e aos problemas ecolgicos. Safatle quer indiferena diante das diferenas. Isto numa situao em que a luta pelo respeito pelas diferenas de gnero, tnicas, ou de escolha sexual, est ainda longe de ter sido ganha. E, not least, em que a vida no planeta est beira do abismo. Mas voltemos questo das revolues.Safatle me critica, numa - amistosa - referncia direta, por tender "a criminalizar toda a extenso da histria das revolues" (p. 74, n.). Ora, no nada disso. No sou contra a revoluo de 1848, nem contra a Comuna,nem contra a revoluo russa de Fevereiro, nem contra as revolues rabes, nem contra as revolues "de veludo" no Leste, nem contra? Nem acho que "as revolues tenham sido projetos, em sua essncia, totalitrios" (ib.). Nunca disse isso, nem poderia dizer. O problema (alm do terror robespierrista, que no se confunde com o conjunto da Revoluo Francesa) o destino de certas revolues, ou de certos movimentos considerados como tais, ou, mais especificamente, o do significado da chamada revoluo de outubro. A esse respeito, remeto ao texto que publiquei em Fevereiro 2 e 3. A insurreio de Outubro um problema para os historiadores, e a coisa urgente a fazer estud-la com mincia crtica, como, desculpem, eu tentei fazer durante muitos anos (em geral, para espanto dos filsofos). Para os detalhes do resultado a que cheguei (com a maioria da crtica de esquerda contempornea), remeto ao artigo. O essencial saber que essa insurreio se insere na prtica de um partido, o bolchevique, prtica que havia sido discutida e muito criticada, principalmente por Luxemburgo e o jovem Trotski (Safatle leu esses autores?). Ora, o partido bolchevique no era "a Esquerda", era uma tendncia, tendncia que, salvo talvez um momento, no foi majoritria no interior do proletariado, sem falar do conjunto das massas russas. No vou voltar a discutir mais amplamente os nmeros da insurreio, que pem em questo no s sua amplitude, mas seu prprio carter de revoluo - ou de revoluo proletria. Digamos apenas: de Outubro, da chamada grande"revoluo proletria", devem ter participado,operrios propriamente ditos - excluindo soldados e marinheiros, que alis tambm no foram muito numeroso - no mais do que uns 10 mil em toda a Rssia, para um proletariado global de alguns milhes, algo como 0,005 do total. Em Fevereiro, tinham ido para a rua, s em Petersburgo, algumas centenas de milhares de operrios. Os nmeros no importam? mais grave do que isto o fato de que a ela se seguiu quase imediatamente a constituio do primeiro modelo de polcia poltica, com as consequncias que se pode prever. Lnin fez o que Safatle quer que se faa: fechou a Assembleia Constituinte, que fora livremente eleita em novembro e que, alis, dera maioria absoluta extrema-esquerda (mas no ao bolchevismo). Tudo isso se explicaria pela interveno estrangeira, pela guerra civil etc.? Nada disso, a interveno viria depois, e embora houvesse alguns pequenos focos de resistncia, a guerra civil propriamente dita s comea no meio do ano. Lnin no tinha internet para pr no lugar. Tinha os sovietes. S que, depois de liquidar a Assembleia Constituinte, os bolcheviques, em seis meses, acabaram com toda a autonomia dos sovietes. Isso tudo tem alguma coisa a ver com a ditadura totalitria que surgiria alguns anos depois? A resposta (trotskista) clssica que no. Mas nada nos leva a crer hoje nessa resposta. A ditadura leninista foi, sem dvida diferente, da stalinista, mas h boas razes para acreditar que preparou o leito desta ltima. Resultado: impossivel hipostasiar esse movimento como grande revoluo. (Eu o "criminalizo?" No usei o termo, mas o fechamento da Assembleia Constituinte, se Safatle faz questo do termo, foi mesmo um crime contra a nascente democracia russa, democracia de esquerda e de extrema-esquerda, bom no esquecer). E aqui seria conveniente passar para a atitude geral de Safatle diante do chamado (muito imperfeitamente) "socialismo real". Ele est pronto a admitir que houve erros, horrores etc. Mas, enfim, foi uma tentativa, e todo mundo sabe que a gente no acerta na primeira tentativa. preciso tentar de novo. Essa filosofia malarmeana-vulgar, que pensa a histria como um jogo de dados, Vladimir a herdou de Badiou. E, desculpem, ela de uma pobreza consternante. Com ela, se diz que Stlin tentou, Mao tentou, Pol Pot tentou? No deu certo. Vamos tentar de novo? No, no vamos tentar de novo. No foi "a Esquerda" que tentou, nem "a Revoluo" que se manifestou,quem se manifestou, foi, no incio, uma tendncia da esquerda, numa jogada muito ambgua. Depois,mais importante, deu-se ainstaurao de poderes totalitrios que custaram milhes e milhes de mortos (s na Rssia, no incio dos anos de 1930, uns 7 milhes), tudo isso em nome da esquerda. Ora, preciso ter uma atitude um pouco mais sria em relao a esse fenmeno. Estud-lo em sua essncia e evitar que se repita. No evitaremos a repetio da catstrofe, pela filosofia do "tentar de novo", como se a histria fosse um jogo de dados. Claro que Safatle fala em separar o que era vlido do que no era, porm isso muito pouco, dada a enormidade do que aconteceu e, de certo modo - China - e de uma forma muito sui generis ainda acontece. Essa atitude que consiste em recalcar o passado porque lembr-lo como dizia de forma decepcionante uma amiga economista "enfraquece nossa posio" (sic!), a pior de todas. Recalque o totalitarismo igualitarista, ele volta a galope. E no cavalo da direita, seno no da extrema-direita67.

Bem, devo terminar. Apesar de que o texto de Safatle tem alguns momentos felizes (no final principalmente, quando ele insiste na flexibilidade da poltica, e se abre s reformas, e tambm quando fala do lado melhor do indivduo?), grosso modo, acho que s se pode fazer um balano negativo dele. O problema no ter coragem de dizer o nome da esquerda, em qual nome, j disse, se fez e se faz o pior. Trata-se de pensar criticamente o que ou pode ser a esquerda. De uma forma ou de outra, o livro contm uma pregao antidemocrtica (contra a democracia parlamentar, dir Safatle, mas, em tempos modernos e contemporneos, no h como separar uma coisa da outra) e defende um universalismo dogmtico, tudo alimentado por uma filosofia inspirada pelo ps-estruturalismo francs, ou por sua caricatura. Falta-lhe uma dimenso propriamente histrica: um livro como este teria que refletir criticamente sobre a histria da esquerda (a histria do comunismo reduzida a "tentativa trgica", a histria da social-democracia aparece, de um outro jeito, muito diferente: um pouco em seu pior lado, mas tambm um pouco no melhor, mas sem que o autor tente refletir mais profundamente sobre o conjunto de sua histria, e, comparativamente, sobre a histria dos dois, comunismo e social-democracia). No plano terico, falta uma reflexo crtica sobre a herana dos pensadores de esquerda, principalmente Marx (Badiou no tem nada a dizer a respeito - como o prprio copain Zizek assinalou num momento de lucidez -; Zizek sabe e fala um pouco mais de Marx, mas para inseri-lo como elemento de sua "salada terica", a qual salada, sob certos aspectos, ainda mais indigesta do que a de Badiou). Safatle tira de Marx uma leitura dos direitos do homem em termos de propriedade (esquecendo os direitos de expresso, de reunio etc.) no estilo muito infeliz de Sobre a Questo Judaica de Marx,texto brilhantemente criticado por? Lefort. Quanto ao tema do "homem novo", retomado por Safatle, lembremos que ele foi "moda" nos anos de 1920 e 1930, tanto na extrema esquerda como na extrema direita, com os resultados que conhecemos68. Falta a Safatle como a seus modelos um mnimo de conscincia das tendncias regresso histrica, queemergem frequentemente dos projetos escatolgicos de "salto" no futuro. A filosofia dos Badiou, Zizek etc. desconhece as regresses: um pouco curiosamente tem tambm bastante de "progressismo vulgar". - Paz ao "homem novo". E quanto relao para com o pensamento europeu. Houve poca em que copivamos muito os franceses. Mas nesse tempo, estvamos muito longe deles, ou eles estavam muito longe nossa frente. Hoje, quando h sinais de decadncia de - bem entendido - uma parte desse pensamento (Badiou e Zizek no se impuseram muito nos meios intelectuais franceses, porm penetraram mais do que deveriam), que intelectuais brasileiros de valor se decidam a ouvir acriticamente essas sereias, propriamente lamentvel. E mesmo as figuras mais srias, a que se refere tambm Safatle, pelo menos quanto aos problemas em tela,no vo muito longe. Derrida, por exemplo, o autor de um livro sobre Marx, saudado por certa crtica de extrema esquerda, que superficial, puro fogo de artifcio; um livro, que algum com reais exigncias de rigor,no teria coragem de assinar. Vladimir Safatle gasta boa cera - sua grande capacidade de trabalho e seu talento - com muito maus defuntos.O pior constatar que a partir do que se fez aqui, tem-se- ou tinha-se - elementos para ir organizando algo como uma incipiente filosofia crtica instalada em terras sul-americanas. Isto com base no formidvel poder crtico da dialtica hegeliana, que foi bastante estudada nessas terras,e na riqueza da crtica marxiana da economia poltica (elemento essencial - parece que esqueceram - para entender Adorno). fato que isso tudo se perdeu no ambiente acadmico hipercompetitivo que reinou em certas universidades, ambiente que, de certo modo, liquidou nossas possibilidades crticas.

 

FIM

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fevereiro #

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1Ver a esse respeito o livro de Jacques Texier, Rvolution et Dmocratie chez Marx et Engels, Paris, PUF, 1998.

2O que significa "a propriedade"? O que significa "manter a propriedade"? A questo menos clara do que parece. No se trata de conservar a propriedade dos meios de produo, ainda que se possa discutir, se se devem socializar todos ou uma parte deles. Nem se trata de garantir a propriedade "individual", a dos pequenos objetos mveis de uso imediato, porque os clssicos no pensaram na liquidao desse tipo de "propriedade". O problema aparece entre esses dois casos. Por exemplo, o da propriedade de um imvel. A meu ver, nas circunstncias atuais, certamente necessrio reconhecer esse tipo de propriedade, ainda que se coloque, evidentemente, o problema dos seus limites.

3O que tentarei fazer ser - no paradoxalmente, mas dialeticamente, espero - tematizar essa "recusa justificvel". Com o que ela se suprime (Aufheben).

4"Vivemos na era da governamentalidade", Michel Foucault, Dits et crits, 1954-1988, Paris, Gallimard/ Quarto, 2001 (1994), v. 2 p. 656. Ver tambm Ib., p. 819-821. Assim, "governamentalidade" aponta para uma singularidade histrica, mas o conceito indica tambm uma "tendncia" e um "processo", ou o "resultado de um processo" (Ib., p. 655) e, nesse sentido, ele, ao mesmo tempo, aproxima-se de um universal. Sobre o tema, ver ainda, Id, Michel Foucault, Securit, Territoire, Population, cours au Collge de France, 1977-1978), Paris, Gallimard/ Seuil, 2004, p. 253, 256, 113 e 119-120.

5A "governamentalidade", esse conceito "brumoso" (Foucault), indica o poder (ou a situao de poder) dos governos nacionais sobre o Estado, ou o poder (ou a situao de poder) de instncias no governamentais internacionais sobre governos e Estados nacionais? No ltimo caso, a noo de governamentalidade ganharia uma outra dimenso terica e prtica. Isso o que sugerem alguns. Mas, mesmo pensado nesse segundo sentido, o termo continua sendo da ordem da m abstrao, porque ele no pe o contedo do seu objeto, digamos, a finana internacional ou o mercado mundial. Qualquer que seja a leitura, acho que se descobre em Foucault uma espcie de subrepo do que propriamente do registro da economia: esta sempre instrumento de uma "governana" qualquer. Creio que, com isso, mais se perde do que se ganha em relao ao discurso crtico tradicional, pelo menos se esse discurso for reformulado nos termos em que indiquei.

6A soluo no est em abandon-los e sim em repens-los em sentido dialtico rigoroso.

7Indiquei anteriormente duas possibilidades na distino entre "reforma" e "revoluo". Aqui me refiro aos fins.

8Claro que existem caricaturas e um uso puramente ideolgico do termo "democracia". Mas isso no invalida o meu argumento.

9Mesmo porque h razes para supor que s com essas limitaes a luta contra o capital tem possibilidades de xito.

10Em princpio, porque, uma vez que as reformas tenham adquirido certo grau de radicalidade, no se exclui que haja uma reao violenta por parte dos defensores do sistema - e essa violncia exige uma (contra)violncia.

11Ver a esse respeito Michael Lwy, cosocialisme, l'alternative radicale la catastrophe cologique capitaliste, Fayard/ Mille et Une Nuits, 2011. Creio que o texto mais interessante dos clssicos uma passagem de "Papel do trabalho no vir-a-ser homem do macaco" (Engels, 1876, includo na Dialtica da Natureza), em que se l: "No nos gabemos demais, entretanto, quanto nossa vitria sobre a natureza. Para cada vitria destas, ela se vinga de ns (?) de forma alguma, dominamos a natureza, como um conquistador domina um povo estrangeiro, como algum que est fora da natureza - mas (?) ns pertencemos a ela em carne e sangue e nos situamos no meio dela (?)" (Marx-Engels, Werke, Berlim, Dietz, vol. 20, p. 452-453). Lwy cita esse texto nas pginas 81-82 do seu livro.

12Ver o meu Marx: Lgica e Poltica, investigaes para uma reconstituio do sentido da dialtica, abrevio por MLP, vol. I, So Paulo, Brasiliense, 1983 (2a edio, 1987), passim.

13No ter feito essas distines, o (grave) defeito o livro de John Bellamy Foster, Marx's Ecology, Materialism and Nature, New York, Monthly Review Press, 2000.

14Sem dvida, para Marx, a "verdadeira riqueza" o tempo livre, o que sem dvida mostra os limites desse "produtivismo". Mas sintomtico que, para ele, esse tempo livre deva ser preenchido pelo esforo, por "trabalho efetivamente livre" - ele d o exemplo da composio musical - o que faz valer contra "a viso de 'grisette' de Fourier" (ver Grundrisse der Kritik der politischen konomie (Rohentwurf) 1857-1858, Berlim, Dietz, 1953, p. 505; Manuscrits de 1857-1858 ("Grundrisse"), trad. francesa sob a responsabilidade de Jean-Pierre Lefebvre, Paris, Ed. Sociales, 1953, vol. II, p. 102).

15Ver Fourier, ?uvres Compltes, op. cit., tomo I, p. 38

16Isso no significa, entretanto, que esses fins sejam "equipotentes" aos que se atribui espcie e ao indivduo humano. A nivelao dos fins do humano e do no humano ir caracterizar certas formas de fundamentalismo ecolgico.

17Ver Marx, Grundrisse der Kritik der Politischen konomie, op.cit., p. 30, Manuscrits de 1857-1858, op. cit., I, p. 44. Texto que citei em MLP II, op. cit., p.14, n.

18H textos em que Foucault considera outras possibilidades de escandir a histria do XIX e do XX, e de fato, levando em conta o conjunto de sua obra, ter-se- mais de uma escanso (ver, por exemplo, Michel Foucault, "Sur les Faons d'crire l'Histoire", entrevista com R. Bellour (1967), in Dits et crits I, op. cit., p. 587). Mas preferi no enveredar por esse caminho, que no me parece nem o melhor nem o mais rigoroso, j que dele poderiam resultar compatibilidades talvez fceis.

19Permito-me remeter, de novo, aos meus trabalhos. Ver MLP, principalmente o vol. I.

20O argumento crtico que esboo, nesse ponto, deveria, evidentemente, ser muito mais trabalhado. No fundo, trata-se do seguinte. Foucault reconstri "formaes" (ou "dispositivos", ou epistems), que ocupam um momento do tempo, as quais se separam das outras "formaes" por cortes ou descontinuidades na ordem de sucesso e no interior das quais (as formaes, em geral) ele distingue "doxas". Uma outra ordenao possvel seria: reconstruir "troncos" de pensamento, em sucesso, estabelecendo cortes ou descontinuidades em relao a outros troncos, na ordem da coexistncia ( as doxas deixariam ento de ser doxas e passariam a ser momentos lgico-histricos, no interior desses troncos). Isto significaria recair numa ideia banal e continusta da histria do pensamento? No necessariamente. Se me permitido tentar uma exemplificao, a escola de Frankfurt e Heidegger poderiam, provavelmente, ser integrados como doxas numa epistem que habitasse a primeira metade do sculo XX. (Observe-se que essa maneira de organizar o objeto no inocente e tem consequncias para a compreenso dos objetos e o juzo que se faz deles). Mas, em vez de fazer isto, poderamos privilegiar o "tronco" diacrnico Marx-Lukcs-Frankfurt, o qual instaura uma ruptura essencial (apesar de uma "composio" possvel) em relao a outros troncos contemporneos (no interior de um dos quais se situaria Heidegger). Minha impresso a de que essa organizao em sucesso, aparentemente a mais banal -, desde que elaborada com rigor, mais rica e d melhor conta do seu objeto. De fato, dadas certas condies, ela pode render tanto quanto a outra no plano formal e, em princpio, parece ir mais longe no que toca explorao do contedo.

21Para Foucault, a diferena de sinal (+ ou -) parece no ser mais do que "dxica", e a diferena entre negao dialtica e negao tout court est simplesmente ausente. O conhecimento da negao hegeliana abre um campo da reflexo sobre o significado da diferena entre o positivo e o negativo. Ela no "reduz" a diferena entre o positivo e o negativo, mas a transfigura.

22Ver, por exemplo, Michel Foucault, Entretien avec Madeleine Chapsal (1966), in Dits et crits, op. cit., v. I, p. 516.

23Ver os Manuscritos de 1844 (obra de juventude, embora), comentando os economistas. Marx-Engels, Werke, op. cit., Ergnzungsband, Erster Teil, 1968, p. 560-561. Cf. Schiller, Lettres sur l'ducation esthtique de l'homme, Briefe ber die sthetische Erziehung des Menschen, Paris, Aubier, 1992, p. 121 e 131. (Devo a localizao das referncias a Schiller ao meu amigo Mrcio Suzuki).

24Para todo esse desenvolvimento, ver, ainda, MLP, op. cit.. Como escrevi em outro lugar, uma parte das ideias e das formulaes desses textos, andou saindo, aqui e ali, em forma catica e pouco rigorosa, sob outras penas. que imprudentemente eu discutira em detalhe essas ideias - e fazendo uso de algumas dessas formulaes - com um falso amigo, e ento?

25O papel da economia no esquema marxiano global diferente do que ainda se supe geralmente. Na histria pr-capitalista, a "economia" significa outra coisa. Ver a esse respeito, principalmente MLP II, 1.

26Ao longo de meus artigos e livros, fiz bastante uso do termo "interverso". Devo dizer, em resposta a um colega de banca num concurso, que me criticou - sem me nomear - por ter pretensamente traduzido assim o alemo umkehren (Umkehrung), que o que eu traduzo por "interverso" , na realidade, o verbo umschlagen. E, mais precisamente: ao utilizar o termo "interverso" (Umschlagen) no contexto da crtica marxiana da economia poltica, eu distingo precisamente esse termo do termo Umkehrung, que tem tambm um sentido tcnico, mas diferente, e exige outra traduo.

27Ver, entre muitos outros, o livro de Orlando Figes, A People's Tragedy, The Russian Revolution 1889-1924, Londres, Pimlicos, 1996.Permito-me indicar tambm meu artigo "Sobre a insurreio de outubro e os primeiros meses do poder bolchevista", Fevereiro, nmeros 3 e 4.

28A inveno e uso da arma atmica , na realidade, um marco, mas o perigo vir tambm do uso "pacfico" da energia atmica, alm das outras ameaas: emisso de gases de efeito estufa etc.

29"(?) uma sociedade emancipada (emanzipiert) no seria nenhum Estado unitrio (Einheitstaat), mas a realizao efetiva do universal na reconciliao (Vershnung) das diferenas" (Minima Moralia?, op. cit., p. 114, Minima Moralia?, trad. port., op. cit., p. 89, grifo de RF). "Quando se pergunta pelo objetivo da sociedade emancipada (emanzipiert), obtm-se respostas tais como a realizao das possibilidades humanas ou a riqueza da vida. To ilegtima essa questo inevitvel, to inevitvel o [carter] desagradvel (Abstossende), impositivo (Auftrumpfende) da resposta (?)" (Minima Moralia?, op. cit., p.175-176, Minima Moralia?, trad. port., op. cit., p. 137, grifos de RF).

30Fevereiro publicou, no nmero 4, uma resenha crtica, assinada por Ccero Araujo, de um livro de Losurdo, e publica, no presente nmero 5, uma resenha, assinada por Daniel Golovaty Cursino, de um outro livro do mesmo autor. De minha parte, publiquei um texto crtico sobre Badiou e Zizek, no nosso nmero 1, e volto ao tema, no presente nmero, com uma crtica de Zizek. Por outro lado, no quadro de um colquio sobre filosofia francesa contempornea, promovido pela Universidade Federal do Paran, proferi, em setembro de 2011, uma conferncia sobre Zizek e Badiou. Esta conferncia, a ser publicada nos anais do colquio, resume o conjunto do meu projeto crtico visando esses autores.

31Para a crtica dos fundamentalismos ecolgicos, ver Juliette Grange, Pour une Philosophie de l'cologie, Paris, Pocket, 2012.

32Creio que essas consideraes crticas poderiam se aplicar, em certa medida, ao livro de meu amigo Michael Lwy, cosocialisme, op. cit. Sem dvida, o livro tem o mrito de fazer um balano crtico bastante equilibrado do que h de "ecolgico" em Marx e em Engels. Mas ele no suficientemente radical no sentido de mostrar o que muda no projeto original da esquerda com a emergncia das duas novas "vagas". Ele passa por alto a histria do bolchevismo, no discute o quanto seria necessrio, hoje, o contedo do socialismo e pouco investe nas lutas ecolgicas atuais, as quais nem sempre tm uma colorao socialista, mas, nem por isso, deixam de ter grande significao.

33Theodor Adorno, Negative Dialektik,, Gesammelte Schriften, ed. por Rolf Tiedemann com a colaborao de Grete Adorno, Susan Buck-Morss e Klaus Schultz, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1990 (1973), p. 314. Dialectique Ngative, trad. fr. do grupo de traduo do Collge de Philosophie: Grard Coffin, Jolle Masson, Olivier Masson, Alain Renaut e Dagmar Trousson, posfcio de Hans-Gnther Holl, Paris, Payot, 1978, p. 250. L-se logo em seguida, o que poderia introduzir a passagem citada: "A histria a unidade da continuidade e da descontinuidade" (ib.).

34" precisamente o insacivel princpio de identidade que eterniza o antagonismo, oprimindo o que contraditrio. O que no tolera o que no seria como ele mesmo, se contrape (hintertreiben, faz fracassar) a reconciliao (Vershnung), pela qual ele se toma falsamente" (Adorno, Negative Dialektik, op. cit., p. 146; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 117, grifo de RF). "A ideia de reconciliao (Vershnung) impede sua (de toda construo idntica com a filosofia, RF) posio positiva no conceito" (Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 148-149, Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 119, grifo de RF. Ver ainda Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 374; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 298.

35"O mecanismo que a ordem totalitria pe a seu servio to antigo quanto a civilizao" (Id., Dialektik der Aufklrung, op. cit., p. 212; Id., Dialtica do Esclarecimento, op. cit., p. 174. "O fascismo totalitrio tambm na medida em que se esfora por colocar diretamente a servio da dominao a prpria rebelio da natureza reprimida contra essa dominao" (Id., Dialektik der Aufklrung, op. cit., p. 210; Id., Dialtica do Esclarecimento?, op. cit., p. 172. "A administrao dos Estados totalitrios, que procede ao extermnio daqueles segmentos da populao que se tornaram anacrnicos, apenas o carrasco que executa veredictos econmicos h muito pronunciados" (Id., Dialektik der Aufklrung, op. cit., p. 232; Id., Dialtica do Esclarecimento, op. cit., p. 192). No prefcio nova edio, de 1969, l-se: "Os conflitos no terceiro mundo, o crescimento renovado do totalitarismo, no so meros incidentes histricos, como to pouco o foi, segundo a "Dialtica", o fascismo naquela poca" (Id., Dialektik der Aufklrung, op. cit., p.9 Id., Dialtica do Esclarecimento, op. cit., p. 9).

36Adorno & Horkheimer, Dialektik der Aufklrung, op. cit., p. 230- 231; Dialtica do Esclarecimento, op. cit., p. 190-191.

37Cf. Jrgen Habermas, Nachwort [posfcio a] Horkheimer e Adorno, Dialektik der Aufklrung, philosophische Fragmente, Frankfurt am Main, S. Fischer, 1986 (1969), p. 288: "(?) os aspectos (Zge) libertadores como os aspectos repressivos 'do Aufklrung (?)' devem ser trabalhados (...)" (a passagem um resumo-comentrio por Habermas do que diz Horkheimer num texto preparatrio Dialtica do Aufklrung). Com o que, no estou "assinando" o projeto habermasiano da "teoria da ao comunicacional".

38"O ponta esquerda no futebol, o camisa-negra, o membro da Juventude Hitleriana etc. nada mais so do que o nome que os indica (was sie heissen)". Adorno & Horkheimer, Dialektik der Aufklrung, op. cit., p. 230; Id., Dialtica do Esclarecimento, op. cit., p. 154).

39"Na Alemanha, a paz sepulcral da ditadura j pairava sobre os mais alegres filmes da democracia" (Id., Dialektik der Aufklrung?, op. cit., p.147, Id., Dialtica do Esclarecimento?, op. cit., p.118.).

40Num texto, que antecede de pouco a Dialtica do Aufklrung, Horkheimer supe uma continuidade ente as duas ditaduras totalitrias, sendo a stalinista a sua forma superior, na qual se resolveria a ditadura nazista, uma vez liberada de traos impuros como o racismo. Ver a respeito o referido posfcio de Habermas edio da Fisher da Dialtica do Aufklrung.

41Sobre a Dialtica do Aufklrung, incluindo suas relaes com o pensamento de Benjamin, ver Habermas, no Discurso Filosfico da Modernidade, na Teoria da Ao Comunicativa e no referido posfcio edio Fischer da Dialtica do Aufklrung.

42Advertncia duplamente necessria no caso de Benjamin, ao qual dediquei at aqui bem menos tempo do que a Adorno.

43Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, vol. 1-3, publicadas por Rolf Tiedemann e Hermann Schweppenhuser, Frnkfurt am Main, Suhrkamp, 1990 (1974), p. 1232.

44Tese XIV, Benjamin, Gesammelte Schriften, op. cit., I, 2, p. 701, Benjamin, Oeuvres, trad. de Maurice de Gandillanc, Rainer Rochlitz e Pierre Rusch, Paris, Gallimard, 2000 (1972), III, p.439 (tese XVI)

45Benjamin, Gesammelte Schriften, op. cit., I, 2, p. 702. Benjamin, ?uvres, III, op. cit., p. 440, eu traduzo.

46Benjamin, Gesammelte Schriften, op. cit. I, 2, p. 701, Benjamin, ?uvres, III, p. 440.

47Ver em particular uma carta de Lnin a A.V. Lunatcharsky, de 25/3/17, citada por Israel Getzler em Martov, A Political Biografy of a Russian Social Democrat, Cambridge at the University Press, Melbourne University Press, Melbourne, Cambridge,1967, p. 158). Carta que citei no meu artigo, j referido, sobre o significado de Outubro.

48Ver entre outros textos, Jean-Michel Palmier, Walter Benjamin, Le Chiffonnier, l'Ange et le Petit Bossu, Paris, Klincksieck, 2006, que contm muita informao histrica a esse respeito.

49["Sorelianas", referncia a Georges Sorel (1847-1922), autor das Reflexes sobre a violncia, autor muito apreciado tanto pela extrema-esquerda como pela extrema-direita.]

50Adorno, "Marginalien zu Theorie und Praxis" in Stichworte (1965), Gesammelte Schriften, op. cit. vol. 10, 2, p. 76, 9-770, eu traduzi, em parte. Adorno, "Notes sur la Thorie et la Pratique" (in Rpliques), Modles Critiques, trad. de Marc Jimenez e Eliane Kaufholz, Paris, Payot, 1984, p. 285.

51Ver, por exemplo, Adorno, Negative Dialektik, op. cit., p. 314; Id., Dialectique Ngative, op. cit., 250.

52Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 59 n.; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 46, n.

53Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 149-150; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 119-120. A interverso da igualdade em desigualdade corresponde apropriao da mais-valia, mas as duas coisas no so lgica e socialmente idnticas: a interverso propriamente a transfigurao de uma troca de euivalentes em troca de no-equivalentes sob a aparncia da primeira, o que ocorre sempre que se reitera, em movimento contnuo, o uso da mercadoria peculiar, a fora de trabalho, que se apropriou.

54Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 190; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 151. Traduo modificada. Para algumas dessas citaes, alm do original alemo e da traduo francesa, consultei tambm a traduo inglesa de E. B. Ashton (Id., Negative Dialectics, Londres, Routledge & Kegan, 1973) e, com menor frequncia, a traduo portuguesa de Marco Antonio Casanova e Eduardo Suares Neves Silva (Id., Dialtica Negativa, Rio de Janeiro, Zahar, 2009). A importncia e o rigor da obra, alm da sua dificuldade, justificam o recurso no s, evidentemente, ao original alemo, mas tambm a uma "junta" de tradutores.

55Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 204; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 161-162. Ver tambm Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 204-205; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 162- 163; Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 347- 348; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 276-277 ; Id.,Negative Dialektik, op. cit., p. 56; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p.43.

56Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 281; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 222.

57Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 192; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 152, trad. modificada. Ver tambm os textos indicados na nota 27, infra.

58Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 150; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 120. O texto citado comentado por Michael Theunissen "Negativitt bei Adorno" in Ludwig von Friedeburg e Jrgen Habermas (ed.), Adorno-Konferenz 1983, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1999 (1983), p. 54.

59Mas a assume em outros textos, ver o Post Scriptum deste artigo.

60Adorno, Negative Dialektik, op. cit., p. 360; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 287. Utilizei tambm a traduo brasileira, op. cit., p. 304,grifado por RF.

61"(?) contra Wittgenstein, dizer o que no se pode dizer" (Id., Negative Dialektik, op. cit., p. 21; Id., Dialectique Ngative, op. cit., p. 16).

62Permito-me remeter ao meu texto "L'Hritage de Castoriadis et Lefort, critiques de Marx", apresentado ao colquio "Les Socialismes: tat des doctrines et relectures contemporaines des ?uvres", Cerisy, junho/ julho de 2011, e inserido no livro Les Socialismes, Juliette Grange e Pierre Musso (org.), Paris, Le Bord de l'eau, 2012.

63Os que o caricaturam.

64[Vladimir, que, como eu com o seu texto, leu este P.S. antes da sua publicao, observa que ele no fala de Adorno no seu livro sobre a esquerda. Vale a observao. Sem dvida, a minha crtica vai aqui mais alm do que est em Uma esquerda?, - masno mais alm do que escreve e pensa Safatle].

65"(?) Tudo permite pensar (vieles spricht dafr) que a democracia com tudo [o que vem com ela] (samt allem), marcar mais profundamente os homens do que no tempo de Weimar(?) Na democracia alem de 1945 at hoje [o texto de 1959, RF], a vida material da sociedade se reproduziu de forma mais abundante (reicher) do que [o que se poderia registrar] na memria (seit Menschengedenken), e isto relevante tambm social e psicologicamente. A afirmao de que a democracia alem no vai mal e com ela o acerto efetivo (wirkliche Aufarbeitung) com o passado, desde que se lhe deixe tempo e vrias outras coisas, no sem dvida excessivamente otimista" (Adorno "Was bedeute: Aufarbeitung der Vergangenheit" "O que significa: retrabalhar o passado" in Eingriffe, Gesammelte Schriften, 10, 2 (Kulturkritik und Gesellschaft II), ed. por Rolf Tiedemann, Frankfurt am Main, Surkamp, 1977, p. 568; "Que signifie: repenser le pass?" in Interventions, trad. francs de Marc Jimenez e Eliane Kaufholz, Paris, Payot, 1984, p. 108). H, no mesmo artigo, outras referncias democracia.

66Em um dos seus livros, Safatle utiliza em epgrafe uma referncia ao que , sem dvida, uma boutade de Adorno, pretendendo com isto ilustrar o seu pretenso anti-humanismo.

67Isso o que vem acontecendo no Brasil. A extrema-direita, que vai se constituindo como fora ideolgica, alimenta-se (entre outras coisas, claro) dessa poltica de avestruz de parte da esquerda. O que faz a alegria da mdia. Agora temos "pensadores" de extrema-direita (um horror de superficialidade e carreirismo), para lan-los contra os da esquerda (da extrema-esquerda), em "briga de galo" permanente, na expresso de um colega. O pensamento crtico, que complicado demais, e vende pouco, em geral no convidado a participar (alis, do jeito que vo as coisas na mdia, talvez seja mesmo melhor no participar). Como lembrava meu amigo Daniel Golovaty, camos na poltica do ticket de que falava Adorno. A poltica das duas "chapas": a "nossa" ou a deles.

68Em interveno oral, Safatle exprimiu dvidas quanto aos efeitos funestos da ideia de "homem novo". Seu contra-argumento introduz uma teoria sobre as origens do fenmeno concentracionrio que corre o risco de emprestar dignidade antropolgico-especulativa aos responsveis pelo gulag.