revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037

Jonathan FREEDLAND1

um ngulo exclusivo de Hebron

 

traduo de Renata Massami Hirota

 

Com a exceo de Jerusalm, Hebron possui a maior populao dentre todas as cidades palestinas da Cisjordnia. Ela , assim como Nablus, um centro comercial, e o que hoje sua tumultuada praa de mercado enche-se de vida e comrcio, rudo e vapores. H lojas vendendo mantimentos e eletrnicos, assim como barracas na calada, simples mesinhas com frutas e vegetais, brinquedos, bugigangas, e roupas infantis. Essas lojas esto concentradas principalmente perto do terminal de nibus, com seus nibus pblicos amarelos, e fileiras de taxis e micro-nibus privados, muitos deles em direo ao norte, a Belm. Policiais palestinos, vestindo uniformes palestinos, orientam o trnsito. Se voc no andasse mais, diria que Hebron, que abriga um nmero estimado de 175 mil palestinos, uma prspera cidade rabe.

Isso , at voc se aproximar do ponto de travessia que marca a fronteira de fato entre 80% da cidade, controlada por palestinos, conhecida como H1, e o restante da cidade, controlada por israelenses, conhecida como H2. Nem todos podem atravessar. Desde o comeo da Segunda Intifada, cidados israelenses foram proibidos por seu prprio governo de entrar na H1, da mesma forma como foram barrados de entrar na mais ampla rea A da Cisjordnia, controlada pela Palestina. A deciso baseia-se em motivos de segurana, aps a concluso de Israel de que israelenses visveis, especialmente os colonos assentados, seriam provavelmente atacados, e aps as Foras de Defesa de Israel insistirem que podem garantir a segurana dos cidados israelenses somente naquelas reas que controla.

No entanto, para aqueles que tm a permisso de cruzar a linha que separa H1 de H2, como atravessar a outro domnio completamente diferente. Para H2, que consiste em um pedao substancial da parte oriental da cidade, combinado com o que parece no mapa como um dedo largo e grosso apontando para o oeste, inclui o centro histrico de Hebron. Essafaixa, o dedo no mapa, talvez no abranja mais do que 3%do total da rea geogrfica de Hebron, mas aque voc encontra os lugares que fizeram dele um local reverenciado por muulmanos e judeus, entendidoe de fato osjudeus consideram-no um dos quatro lugaressagrados do judasmo,ao lado de Jerusalm, Tiberades e Safed. a tambm que se encontra uma estranha cidade-fantasma cujos mercados, antes to movimentados, permanecem fechados e desertos, sua populao palestina sujeita a uma poltica de separao e restrio, o que torna a cidade o lugar em que a ocupao de 44 anos de Israel na Cisjordnia mostra sua face mais dura.

Pode-se ouvir a batalha por supremacia entre os aproximadamente 30 mil rabes e 800 judeus assentados que vivem em H2, controlada por israelenses, antes mesmo de v-la. Na manh clara que visitei a rea, havia msica klezmer de estilo hassdico tocando alto no Centro Gutnick, um espao de eventos que recebe visitantes judeus de todas as partes do mundo e especialmente dos Estados Unidos, oferecendo bebidas e passeios. Ostio eletrnicodo centro assegura a qualquer cliente nervoso de que "todos os nibus so blindados". Minutos depois, s melodias da velha Europa Ashkenazi junta-se o muezzin tradicional, cantando o chamado muulmano para a orao. As duas msicas continuavam, no volume mximo, enchendo a praa antiga com o rudo discordante, conflitante. Essa afamosa guerra de alto-falantes de Hebron.

A visita geralmente comea no Tmulo dos Patriarcas, o centro magntico do poder religioso de Hebron. O judasmo considera o local - registrado na Bblia como "Caverna de Machpelah", adquirida por Abrao - como o segundo local mais sagrado,atrs apenas do Monte do Templo, a parte da antiga Jerusalm na qual o Primeiro e o Segundo Templos foram construdos. Dentro, h caixes que dizem conter os restos mortais de Jac, Isaac e do prprio Abrao, reverenciado como patriarca pelas trs antigas religies monotestas.

Como os judeus lembram os visitantes, inclusive o nibus de cristos africanos que chegava, durante 700 anos os judeus foram barrados, pelos governantes mamelucos, otomanos, britnicos e jordanianos da cidade,de entrar nesse lugar sagrado; era-lhes permitido subir somente os primeiros sete degraus emsua direo. Em 1967, quando Hebron e o restante da Cisjordnia foram conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, os judeus puderam finalmente pisar o oitavo degrau, e os outros cinquenta e tantos degraus restantes, e entrar.

Hoje, h entradas separadas aos tmulos para judeus e muulmanos. Mas o que mais surpreendente a estrada que leva ao lugar: ela dividida de acordo com a nacionalidade, com trs quartos da via disponvel para os israelenses, e o restante, mais estreito, reservado para os palestinos. Blocos de concreto separam as duas partes. Os israelenses tm a maior parte porque so autorizados a dirigir por esse caminho, um direito negado aos palestinos.

Nos mapas militares israelenses, o caminho aparece como uma estrada verde, o que significa que carros palestinos no so permitidos. A cor azul usada para as ruas em que carros palestinos no podem circular, e as lojas palestinas no so autorizadas a abrir. Depois, h estradas que so ainda mais restritas: nessas, nenhum palestino pode sequer pr os ps. As Foras de Defesa Israelenses referem-se a essas estradas como tzirsterili, literalmente, uma estrada estril.

Grande parte dos palestinos de H2 que tem o azar de ter suas casas em um tzirsterili tiveram suas portas dianteiras fechadas. Para sair, eles precisam usar uma porta dos fundos, o que muitas vezes significa subir no telhado e descer atravs de uma srie de escadas: ise inconveniente para os jovens em forma, isso difcil, seno impossvel, para os velhos e os doentes. Mais tarde, avisto um homem idoso, com um saco de cimento em seu ombro, andando com um menino que considero serseu neto. Quando ele chega rua a-Shuhada, que j foi a via principal que cruza o centro de Hebron, mas que uma "estrada estril" desde 2000, ele pra e comea a descer uma ngreme srie de toscos degraus, necessrios para andar ao redor da rua, em vez de na prpria rua. Tais degraus os levam por uma srie de caminhos no asfaltados e empoeirados, rota alternativa indireta rua a-Shuhada. Isso acontece para que nem seus ps ou os do menino toquem a estrada proibida - garantindo que continue sterili.

Na rua, h o que costumavam ser lojas, agora fechadas permanentemente sob persianas verdes de metal. Elas esto todas cobertas de pichaes. Em um curto passeio, eu vejo: "rabes fora!" e "Morte aos rabes", assim como o menos familiar "Vocs tm rabes, vocs tm ratos", que foi pintado, mas ainda legvel. O mesmo acontece com "rabes para o crematrio", perto do cemitrio muulmano. (Uma mensagem notria, pintada em ingls, mas coberta h alguns anos, dizia: "rabes para as cmaras de gs.") O punho cerrado, smbolo do partido Kach do falecido rabino MeirKahane, o fundador da Liga de Defesa Judaica, uma vez condenado ao ostracismo como um fascista, aparece em vrios lugares. Mas a imagem mais recorrente tambm a mais chocante. a Estrela de David. Totalmente familiar aos olhos judeus, um choque ver esse smbolo - associado com o prprio Judasmo e a longa histria do sofrimento judaico - usado como uma declarao grosseira de dominao, usado, de fato, como um insulto.

Andamos at o centro da estrada. No h necessidade de usar a calada porque o lugar est vazio, como um set de filmagem abandonado. Meu guia, YehudaShaul, um israelense judeu ortodoxo de barba preta e quip - que depois murmuraria o tradicional bracha, ou a bno, antes de dar uma mordida num sanduche - est intimamente familiarizado com Hebron, tendo servido dois extensos turnos no servio militar da cidade, durante a Segunda Intifada: primeiro como soldado regular em 2001-2002, e depois novamente como comandante e sargento em 2003. Na verdade, ele estava em patrulha quando engenheiros da FDI (Foras de Defesa de Israel) selaram as portas, fechando-as, em 2001.

Ele tambm se lembra das instrues que recebiaparano tocar nos israelenses assentados, que estavam sujeitos lei de Israel, e, portanto, sob jurisdio da polcia israelense, e no do Exrcito, embora pudesse ver que eles estavam envolvidos em uma campanha de assdio populao local, atirando pedras, cortando canos de gua e cabos eltricos. Um soldado deu um depoimento organizao Quebrando o Silncio - fundada por reservistas da FDI determinados a alertar seus companheiros israelenses e judeus por todo o mundo sobre a realidade diria da ocupao militar - informando que uma placa pendurada no quadro de informaes da sua unidade explicava sua misso: "Interromper a rotina dos habitantes do bairro", seja atravs de buscas domiciliares, revistas fsicas ou blitz repentinas, em locais aparentemente arbitrrios.

Shaul no est de uniforme hoje, mas est aqui como parte do seu trabalho no Quebrando o Silncio. Ele est armado com fotografias "de antes" do centro de Hebron, datadas de 1999, que mostram um mercado de frutas animado com pessoas, com produtos, e com vida. O lugar "de aps" encontra-se bem minha frente: o mesmo exato local, agora deserto e silencioso. O que antes ficava aqui foi transferido para H1, ou pelo menos parte disso. O mercado repleto que vi do outro lado , na verdade, parte de Bab a-Zawiya, que, uma vez apenas um bairro de Hebron, hoje seu centro substituto. Alguns desses comerciantes de Bab a-Zawiya costumava morar e trabalhar no que agora H2. Eles j tiveram lojas. Agora, vendem seus produtos em cima de mesas.

E isso no mera impresso. Um estudo feito pelo grupo israelense de direitos humanos B?Tselem mostra que 1.014 moradias - apartamentos ou casas - foram abandonadas pelos seus ocupantes, cerca de 42% do total nesta parte central de Hebron. Uma estimativa sugere que isso equivale a 8ou 9mil pessoas que descobriram que a vida sob tais restries no era mais vivel ou suportvel. Finalmente, vejo uma das raras pessoas que persistiram, permanecendo dentro de H2. Uma mulher rabe estende roupas na sua varanda na rua a-Shuhada. Por todos os lados,ela est cercada deuma malha de fios de metal, inclusive sobre a sua cabea. Isso no acontece por causa de alguma lei ou regulamento; ela se colocou no que parece ser um pequeno galinheiro para sua prpria proteo, para evitar as pedras que seriam atiradas pelos assentados.

O teto da "jaula" est, de fato, sob o peso de pedras. B?Tselem, que distribuiu cmeras para alguns palestinos de Hebron, tem postado diversos vdeos mostrando assentados, inclusive crianas pequenas, jogando pedras nos rabes que esto entre eles - sem restries dos soldados israelenses que esto por perto. Um vdeo particularmente perturbador mostra uma assentada silvando repetidamente a palavra sharmuta, ou prostituta, sua vizinha rabe.

O mercado de frango, agora atrs de altas lajes de concreto, fica prximo. Depois, esta velha estao de nibus, que hoje funciona como uma base da FDI, e tambm serve decasa para seis famlias de assentados que se mudaram. E, depois, virando a esquina, atrs de um porto enferrujado, encontra-seum ferro velho, cheio de lixo, ervas daninhas e bobinas de arame farpado. Shaul tem uma foto que revela que esse lixo costumava ser o mercado de jias de Hebron. (Alguns joalheiros agora continuam com seu comrcio na H1 controlada por palestinos, mas o mercado em si no foi reconstitudo.) Do outro lado da rua, h um yeshiva.

isso - judeus e rabes vivendo prximos uns dos outros - que faz com que o centro de Hebron seja excepcional, pelo menos fora de Jerusalm. Assentados judeus so encontrados por toda a Cisjordnia, mas geralmente esto em topos de morros adjacentes, ou com vista para cidades e aldeias palestinas. Mas, nessa regio de Hebron, eles se encontram no interior, em quatro grupos referidos como assentamentos, mas muitas vezes so apenas algumas casas e prdios cercados por palestinos. Trs deles esto na rua a-Shuhada ou prximos a ela; o quarto fica a uma curta distncia p.

E assim voc s tem que andar alguns passos desde o mercado de frutas esvaziado para chegar aAvrahamAvinu - literalmente, Abrao, nosso pai - o maior dos enclaves judeus em Hebron, onde vivem cerca de quarenta famlias. Dentro, um outro pas. As paredes so feitas de uma pedra chata escovada, que contrasta com o p e a idade do lado de fora. H um parquinho, jovens mes ortodoxas, com suas cabeas cobertas, brincando com as crianas - estas ltimas, aparentemente, ignoram a presena de cerca de 600 soldados da FDI na regio, principalmente para a sua proteo. H uma prateleira para bicicletas e um aroma distinto de canja. Poderia ser qualquer um dos bairros mais abastados de Jerusalm Ocidental. H placaspor todos os lados, uma viso to incomum em Jerusalm - exceto porestas serem,quase todas, em memria spessoas mortas por "terroristas rabes". Os benfeitores a quem agradecem so famlias judaicas de Nova York, Londres, e outros lugares.

Essa diviso de Hebron em H1 e H2 foi o resultado do Protocolo de Hebron, de janeiro de 1997, assinado por Yasser Arafat e Benjamin Netanyahu, ento no seu primeiro mandato como primeiro-ministro. Disposies especiais foram consideradas necessrias para o bem das poucas centenas de colonos judeus assentados em Hebron, a quem Israel acreditava ter que proteger com suas prprias foras. Nos anos que se seguiram, a proteo passou a significar uma srie de medidas mais rigorosas para manter judeus e rabes separados, restringindo a mobilidade dos palestinos em H2. Toda vez que h um ataque terrorista sobre os judeus assentados - sendo o mais notrio deles o assassinato de um beb de dez meses, ShalhevetPass, por uma bala de um franco-atirador em 2001 - os colonos demandam, e geralmente so atendidos, uma maior restrio dos movimentos palestinos, ou a permisso do Estado israelense para expandir, ou at mesmo ambos. Pouco a pouco, o centro de Hebron foi-se esvaziando e os palestinos foram encurralados cada vez mais claustrofobicamente, para que os colonos pudessemmover-se livremente e sem medo, tendo sua segurana garantida pela FDI.

Tentar definir o incio desta situao seria provavelmente em vo. Para a comunidade judaica de Hebron, os ltimos cem anos so um mero interldio, sendo o evento decisivo a aquisio de Machpela por Abrao, h milhares de anos. Ainda assim, muitos consideram 1929 e o massacre de 67 judeus por rabes em Hebron como a data crucial. Eles acreditam que esse evento traumtico revela uma verdade essencial sobre o conflito com os palestinos: que a oposio rabe aos judeus anterior e, portanto, tem pouco a ver com o estabelecimento do Estado de Israel em 1948 ou a ocupao da Cisjordnia em 1967. Para os assentados, o massacre de 1929 mostra que os rabes tm uma intolerncia assassina dos judeus em seu meio. Se uma forte presena militar e medidas de segurana onerosas so necessrias, este o motivo.

At 1929, os judeus representavam nmeros significativos na cidade. No momento imediatamente posterior ao massacre, foras britnicas evacuaram os judeus sobreviventes para Jerusalm, mas, um ano depois, lderes rabes da cidade os convidaram de volta. Cerca de trinta famlias aceitaram o convite, e ento deixaram a cidade outra vez durante os distrbios de 1936. Acredita-se que um leiteiro judeu tenha ficado at 1946, mas, depois disso, durante duas dcadas, no havia ningum. Ainda assim, quando Hebron foi capturada por foras israelenses em 1967, dizem os colonos que era natural que os judeus retornassem. Sua presena ali agora , eles insistem, no um empreendimento colonial estrangeiro, mas um regresso casa, adiado por muito tempo.

A forma do retorno certamente suscetvel criao de mitos. No primeiro Pessach, a Pscoa judaica, aps a "liberao" de Hebron, um grupo de 88 judeus ortodoxos, liderados pelo carismtico rabino MosheLevinger, foram ao Hotel Park, em Hebron, de propriedade de rabes, para realizar o sder, jantar cerimonial judaico. Eles ficaram e recusaram-se a sair. Finalmente, o governo israelense, liderado pelos trabalhistas, sugeriu um acordo: os ocupantes seriam autorizados a mudarem-se para uma base da FDI prxima, onde casas seriam construdas para eles. Assim nasceu KiryatArba, hoje uma cidade com mais de 7mil pessoas prxima a Hebron, o primeiro passo em todo o projeto de assentamento na Cisjordnia. Levinger ainda viria a ser o fundador do GushEmunim (Bloco dos Fiis), e mais tarde recebeupena de priso por atirar e matar um lojista palestino. Mas Hebron foi onde ele assumiu sua posio pela primeira vez.

Seus herdeiros hoje no sentem qualquer necessidade de justificar os efeitos da sua presena nos palestinos que vivem em H2. Ao contrrio, a comunidade judaica em Hebron v-se como vtima. "As pessoas dizem que aqui h um apartheid", diz David Wilder, o porta-voz nascido em Nova Jrsei. "Eu concordo - mas no contra eles, contra ns." Ele aponta o fato de que Casbah, dentro de H2, uma zona militar fechada e, portanto, fora dos limites, salvo por algumas horas no Sabbath, para os judeus. Ele argumenta que, efetivamente, os judeus tm acesso a apenas 3% da cidade, onde a presena de segurana de Israel intensa o bastante, enquanto os rabes tm acesso a todo o resto. Claro, ele admite, h uma rua, talvez um quilmetro, um quilmetro e meio, na qual os rabes no podem caminhar. Noestariaele se referindo rua a-Shuhada? "No sei como eles a chamam. Ns a chamamos de rua David Ha?Melech [Rei David]." A estrada costumava ser aberta at a Segunda Intifada, diz Wilder - de fato, salvo alguns meses, a rota foi barrada para carros palestinos a partir de 1994 - "mas eles comearam a atirar" das colinas prximas.

Mesmo assim, ele insiste, "nunca dissemos que, para que vivssemos aqui, ningum mais podia", enquanto ele acredita queos palestinos no permitiro a presena de judeus em Hebron em um futuro Estado Palestino. So os judeus que so os tolerantes. Quanto s pichaes, ele diz, "Ns no gostamos particularmente disso", mas ele recusa a conden-las, dizendo que so um "escape" para os jovens colonos "frustrados pelos ataques terroristas e as atividades do governo israelense contra eles."

A mensagem de Wilder - de que se os palestinos parassem de ameaar os assentados com violncia, as restries seriam abrandadas - contrria experincia. Quando, por exemplo, Baruch Goldstein, nascido nos Estados Unidos, matou 29 muulmanos palestinos no Tmulo dos Patriarcas em 1994, Israel imps novas restries - no aos assentados, mas aos rabes em Hebron. Os mercados de carne e vegetais foram fechados, e a proibio aos carros palestinos na rua a-Shuhada foi introduzida. ( chocante que, longe de ser insultado como terrorista e assassino em Hebron, Goldstein est enterrado no Memorial MeirKahane, que se encontra sob os auspcios da autoridade municipal de KiryatArba.)

Ainda assim, e apesar da proteo armada 24 horas-Shaul testemunha que, como soldado, suas ordens eram muito claras: "Estamos aqui para protegeros colonos" -, os judeus de Hebron parecem considerar as Foras de Defesa de Israel e o Estado de Israel como seus adversrios. Um pster no bairro de Bab AL-Khan em H2, vazio com a exceo de alguns poucos antigos residentes rabes, e com seus portes para a Cidade Antiga agora fechados e parafusados, declara em hebreu: "Aqui comea o gueto. Proibida a entrada para judeus." Em outro lugar, um slogan pintado de spray denuncia o que considera o Estado ateu de Israel: "Ns no temos f no regime dos infiis, ns seguimos o caminho da Tor." Outro slogan procura um regime governado pela lei religiosa: "Queremos um Estado halacha da Judia agora". Ainda um outro incita, "Morte aos traidores do Rei", o Rei sendo Deus.

Nessa disputa, com os colonos hostis a um governo israelense que lhes nega a administrao de Hebron em sua totalidade, os palestinos ficam em meio ao fogo cruzado. Eles rejeitam a sugesto dos assentados de que os palestinos so barrados em apenas uma pequena frao da cidade, uma restrio relativamente modesta em suas vidas. Issa Amro, 31 anos, ativo na organizao de protestos no violentos em Hebron, diz, "H2 o centro desta cidade... Todos os mercados estavam aqui: de vegetais, frutas, camelos, carne, ferreiro, todos os mercados estavam em H2. o corao da cidade. E se seu corao est doente, seu corpo inteiro ser afetado."

Ele explica que as restries, mesmo aplicadas a reas superficialmente estreitas, tm um efeito de longo alcance. Famlias so divididas entre H1 e H2, fazendo com que seja difcil que parentes se encontrem, especialmente aqueles que vivem em ruas de H2 barradas para carros ou pedestres palestinos. E existeum impacto maior: se voc quiser dirigir de norte a sul por Hebron, deve tomar um caminho longo e complicado por estradas congestionadas. Shaul imagina uma ao equivalente em Jerusalm, fechando a rua Jaffa e a Cidade Antiga. Pode ser que represente apenas 1% do territrio municipal, ele diz, mas incluiria a rua principal e os monumentos histricos. "Qual o impacto que isso tem em uma cidade?"

Alguns admitem que o que se v no centro de Hebron feio, mas se consolam com a ideia de que seja um caso extremo, tpico apenas de si mesmo. Para outros, no entanto, Hebron uma verso intensa e destilada de toda a ocupao israelense. YehudaShaul coloca-se, relutantemente, no ltimo grupo. "Isto um microcosmo", ele me diz. "Ande aqui e voc entender como a Cisjordnia funciona: a separao, a apropriao das terras, as estradas estreis, a violncia".Nem ele se reanima em dizer que Hebron a obra de uns poucos colonos inarredveis. A presena da FDI desmancha essa iluso, assim como a placa do Ministrio de Habitao no prdio de colonos de BeitHaShisha, um selo de aprovao do governo, que data de 2000, quando o suposto lder de centro-esquerda Ehud Barak era primeiro-ministro. Vinte e um nibus partem todos os dias, mais de um por hora, dos assentamentos judeus dentro de H2 para Jerusalm, oferecendo passagens baratas e subsidiadas pelo governo. A queixa de Shaul no apenas com os colonos, mas com o Estado.

Para pessoas como Shaul, patriotas israelenses orgulhosos e judeus conscienciosos, Hebron representa um desafio mais profundo do que pode ser capturado pelo brando diplomats dos "obstculos para a paz" e afins. Para eles, mais do que uma falha geolgica em uma amarga disputa territorial. "O que est sendo feito aqui em nome de Deus e em nome do meu Estado", diz ele, com uma voz muito mais velha do que seus 28 anos.

Shaul bem conhecido em Hebron. Nos degraus do Tmulo dos Patriarcas, um colono o v e grita, vrias vezes, que ele um traidor do seu povo. Mas h um rosto mais conhecido que o seu, que eu vejo logo nos dois minutos seguintes chegada em Hebron. Em uma cadeira de rodas, em consequncia de um derrame sofrido em 2007, encontra-seum senhor de cabelos brancos e chapu panam, empurrado por um jovem, devoto cuidador. Trata-se deMosheLevinger, o homem que deu incio atudo isso, fora de casa, para a sua dose diria de ar fresco. Conversamos, e eu lhe pergunto se, depois de tantos anos enfiado no Hotel Park, ele havia imaginado que aquilo teria esse resultado, o centro de Hebron esvaziado pelo bem de seus colegas assentados. "No", diz o rabino, ele no havia previdonada disso. E aponta um dedo para o cu: " uma bno de Deus".

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1 Publicado em The New York Review of Books n. 3, volume LIX, maro de 2012, sob o ttulo "An exclusive Corner of Hebron".