revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                    ISSN 2236-2037



apresentação

 


Em seu quinto número, a revista Fevereiro vem excepcionalmente extensa. O que traduz, em parte, o esforço dos editores em levar a cabo uma revista que seja plural e, além disso, que não fuja da complexidade dos problemas que se propõe enfrentar. Um dos eixos em que gira este quinto número é, podemos dizer, o da democracia. E o tomamos, apesar de não estar indicado explicitamente, também porque a democracia, como problema, desafio e impasse, está presente desde sempre na origem da Fevereiro: qual democracia para qual esquerda?

Ela está presente neste quinto número com diferente matizes e, diríamos, em diferentes escalas, enriquecendo sua complexidade: no texto de Maria Caramez Carlotto, que abre nosso número, sobre a crise recente da USP. Sem voltar à chave Universidade e Democracia, mas dando-lhe uma amplitude maior e mais crítica, a autora, em texto claro e agudo, investiga que a Universidade vai se constituindo à medida que vai se tornando cada vez mais explícita a incapacidade de haver minimamente o reconhecimento de que há e pode haver conflito e conflito legítimo. A crise da USP pode ser a crise da universidade brasileira, o que, com as ressalva específicas da USP é, mas pode ser também, sintoma do quão antidemocrática é a própria sociedade brasileira, e o quão regressivo pode ser o mito da cordialidade nacional, como dispositivo de, primeiro, negação do conflito, e, segundo, de supressão abstrata dele.

A democracia e seu lugar também estão presentes no texto de Marilena Chauí acerca do fundamentalismo religioso e da teologia política. Marilena Chauí coordena, com muita pertinácia, uma miríade de elementos que formam o que se pode chamar de nossa atual constelação teológico-política - que desde o governo Reagan, por exemplo, até a última eleição presidencial brasileira faz-se mais e mais presente. Tal esforço não deixa de revelar uma tendência que pode se tornar hegemônica, desde que se realize as condição necessárias à antidemocracia e, no limite, à contrademocracia que ela encarna. A democracia sem lugar para o conflito sucumbe ao dogmatismo do discurso religioso tal como este se constitui contemporaneamente, e que, ao ocupar o espaço público, cria as condições de seu desaparecimento (muito diferente do que a experiência histórica nos informa, sugerindo que pode estar em curso um novo arranjo entre poder e discurso).

Também nos textos de Ruy Fausto o problema da democracia reaparece: está no fecho do tríptico publicado aqui mesmo na Fevereiro (Esquerda/direita: em busca dos fundamentos) e também no que pode ser entendido como o excurso da última parte desse esforço teórico, publicado neste último número com o título “A teoria da história de Zizek”. Pode-se dizer que esse excurso completa o longo ensaio sobre a esquerda e seus limites e, ao completar sua crítica - aqui em sentido amplo -, aos escritos de Zizek, Ruy Fausto pretende atualizar não apenas o que hoje é esquerda, mas o que pode ser um pensamento de esquerda. Também publica um pequeno post scriptum ao recente livro de Vladimir Safatle, “A esquerda que não teme dizer seu nome”, em que, ainda uma vez, o debate em torno de esquerda e democracia reaparece com muita vivacidade.

Em um registro menos teórico e mais conjectural, podemos agrupar os textos que versam sobre a nossa mais recente ditadura. Encabeçando a lista, o que entendemos ser o desenvolvimento de uma primeira reflexão feita sobre nossa transição democrática e seus limites, no primeiro número da Fevereiro, Cícero Araújo retoma e explicita aqueles termos, pensando, agora, mais especificamente, na Comissão da Verdade e nas possibilidades que ela abre para pensar não só os limites de nossa transição como as possibilidades da nossa (tímida) democracia. Como passar do caso à lei, no caso do autoritarismo em geral e da ditadura em particular, também parece ser uma pauta sugestiva para a Comissão da Verdade, que não deve se limitar a apontar os perpetradores de tortura, talvez o mínimo que se espera, mas, além disso, dar melhor conhecimento ao enraizamento desse mecanismo entre nós. Por familiaridade, se juntam a essa reflexão os textos de Yara Frateschi e Alexandre Carrasco em torno daquilo que permanece ou não da nossa ditadura. Pensando o tema a partir de uma tese polêmica da Paulo Arantes, Yara pretende escapar daquilo que considera ser um fatalismo presente em Arantes e que condenaria não apenas nossa democracia, mas qualquer democracia a ser tão somente uma ditadura disfarçada. A questão seria: a crítica à democracia se resolveria assim, no seu esvaziamento radical? O debate permanece aberto e esperamos que seja retomando nos próximos números.

Completando esse largo quadro sobre a democracia e suas possibilidades, agora sim em registro factual, temos o texto de Pierre Magne e Claire Tillier, sobre às eleições francesas - a última eleição presidencial e a eleição legislativa que a segue -, a que se segue uma breve discussão de Cícero Araújo e Ruy Fausto. O debate de Cícero e Ruy permanece, porém, como início do debate. No entanto, o conjunto de textos incorpora, ainda que indiretamente, quase todos os problemas contemplados por vários artigos deste número: democracia, representação, esquerda e direita, capitalismo e crise mundial. No próximo número, aguardamos ainda mais uma contribuição de Pierre Magne e Claire Tillier, de modo que o assunto não se encerra aqui.

Não exatamente no centro dos problemas em torno da democracia, mas certamente no centro da política contemporânea e da experiência contemporânea, temos duas outras contribuições: o texto muito rico de J. A. Lindgren Alves, que propõe um quadro muito sugestivo da dimensão política e suas consequências no que diz respeito ao problema do reconhecimento e da identidade étnicas, e o texto de Jonathan Freedland, publicado com a anuência muito gentil de The New York Review of Books, sobre a vida de palestinos e israelenses em Hebron, um texto muito lúcido e por isso não menos perturbador.

Completando o quadro tem-se ainda três resenhas, feitas por José Luiz Neves (Marx, entre Marx e Faucault, sobre Marx, prénom Karl, de Pierre Dardot e Christian Laval), Daniel Golovaty Cursino (sobre A linguagem do Império, de Domenico Losurdo) e Luiz Damón Santos Moutinho (“O sujeito da democracia”, sobre La démocratie sans demos, de Catherine Colliot-Thélène).

At last, but not least, a nossa tradicional seção literária traz um conto de Panteleimón Románov, “A contabilidade italiana”, na tradução de Moissei Mountian e com posfácio de Daniela Mointian, e ainda dois textos de Henri Michaux, “Conselho a respeito de pinhos” e “Conselho a respeito do mar”, apresentado e traduzido por Érica Zíngano e Marcela Vieira.

Reforçando o que caracteriza o espírito da Fevereiro, a revista continua permanentemente aberta ao diálogo, seja na forma de artigos, seja na forma de réplicas e tréplicas de todos que se sentirem concernidos pelos problemas e textos aqui abordados.

Encerramos fazendo nossas as palavras de Borges: “Deus te livre, leitor de prólogos longos. A máxima é de Quevedo que, para não cometer um anacronismo que facilmente se descobriria, nunca chegou a ler os de Shaw”.

 

Boa leitura!

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