revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

   POLÍTICATEORIACULTURA                                                                                                     ISSN 2236-2037

Alexandre CARRASCO

digresso sentimental acerca da privatizao do sistema telebrs

 

Ora, afinal a vida um bruto romance
e ns vivemos folhetins sem o saber.

“Sweet home”, Carlos Drummond de Andrade

 

Em algum dia de 1998, o presidente da Bolsa de Valores de So Paulo batia pela ltima vez o martelo. A ltima empresa desmembrada do antigo sistema Telebrs acabara de ser vendida. Entre 1997 e 1998, privatizando empresas de energia eltrica e telecomunicaes, foi embolsado, pelo Tesouro Nacional, quarenta e um bilhes de dlares. Quatro consrcios estrangeiros financiados pelo BNDES – “e no vers pas nenhum” – arremataram mais esse esplio da herana getulista – “A Eletrobrs foi obstaculizada at o desespero (...) Ao dio respondo com o perdo” – e do desenvolvimentismo nacional. Encerrado esse assunto, mesmo para os jornais, algum se perguntaria se o que resta a ser dito no simplesmente falta de algum assunto, tagarelice. Vamos com calma. Antes de ser privatizado, o sistema submeteuse a uma drstica correo tarifria que atacou o usurio por todos os lados: reajuste nominal de tarifas, reduo do tempo para faturamento do pulso telefnico, reajuste brutal da assinatura bsica da linha telefnica. Desse modo, que se fale menos e que se fale baixo, mais do que isso incomoda.


O fato que dois meses aps tal privatizao, meu telefone branco aderiu a um silncio constrangedor. No vou entrar nos detalhes e revelar publicamente meu dficit domstico e minhas dificuldades de solvncia, que, sendo de ordem privada, e eu, pessoa fsica, a ningum interessa, salvo s estatsticas de inadimplncia. Vou apenas descrever essa situao to sem sentido quanto trivial: em dbito, acabo descredenciado pelo sistema, assim reza o contrato; para mim, entretanto, os desdobramentos tiveram um alcance que no entra em nenhuma estatstica. E uma vez que no conheo nem o presidente, nem o leiloeiro, sequer o presidente do BNDES, certamente no esperaria deles um telefonema a explicarme o aumento de mais de cem por cento na tarifa telefnica, preparando, evidentemente, a empresa para os novos tempos (e que “tempos” so esses?) e para os novos donos. Alis, uma vez que o deputado eleito com meu voto de oposio (por definio) nem mesmo com ele interessaria, a esses senhores, uma conversa. Entretanto, se eu contasse que esperei em vo um telefonema, bem sabedor do quanto tal espera era v, o que s se explica por conta da cegueira do amor (alis, um telefonema to aguardado quanto fora a urgncia do negcio) e exigisse certos direitos no prescritos na letra da lei, o espanto seria geral. Sem medo do ridculo sigo em frente. Por que, poderia se perguntar o telespectador do jornal da noite, tais direitos teriam cabimento?; ao que responderia juntando uma coisa com a outra, isto , as vicissitudes de um amor malamado e a contribuio tucana para o capitalismo brasileiro –  no muito mais que uma gigantesca privatizao de riqueza e recomposio patrimonial – : meu tempo o presente. O amor cego, mudo e, em grande medida, burro. Neste caso, porm, no malinformado.


Nunca sendo pessoal esse tipo de retaliao, afinal, que planejamento sobreviveria a condescendncias dessa ordem?, s me restara esperar pelo impossvel, no amor e na poltica, o que, por definio, no acontece. Como a mocinha no me ligou, como fiquei duas semanas em dbito com a prestadora de servio, como no ouvi mais sua voz, calaramse para mim todos os telefones. (Todas as mulheres resumidas nos esboos de uma nica, que outro chamado poderia me interessar? – o amor uma linha permanentemente ocupada.) Haveria ainda outro agravante: e caso o incio (incio?) conturbado do servio privatizado funcionasse apenas contra mim: teria ela encontrado (ser?) conversa melhor em linha cruzada, ou ouvira, durante a tentativa de ligao, a fatdica mensagem (bem gravada, por sinal): Esquea esse senhor, seguindo assim o conselho? No sendo pontual com meus deveres de usurio – mas no apenas eu, tambm a prestadora do servio –, perdi a boa oportunidade que no amor essencial e crucial, e nunca mais me curei da dor que ser malamado, to pouco amado segundo os critrios de meu imenso corao: a isso tambm chamam fortuna. E custame acreditar que a Embratel, com seu imbatvel sorriso feminino, no saiba o que sofrer de amor – quando se perde a iluso devese sepultar o corao.


***


Em 1961 Braslia inaugurada. Uma parcela dos cronistas de fim de tarde, hoje associados a filsofos, jurisconsultos, diplomatas e intelectuais engajados, versados em muitas e variadas cincias, insistem, entre outras coisas, em culpar a audcia da sua construo por nossas mazelas pretritas e futuras ao mesmo tempo em que consideram os desastres presentes pequenos desvios naturais contra o que pouco se pode fazer, seno retomar um velho programa: esclarecimento e boa vontade. de supor, afinal, que no somos to somente infelizes mas tambm obscurantistas e teimosos – outro efeito colateral de nosso atraso material. (Que se diga, enfim, que marxistas somos todos, eles, ns e os outros.) Do mesmo modo, um pequeno clube de senhores esclarecidos insiste em afirmar e reiterar o inevitvel efeito inflacionrio de nosso desenvolvimentismo tropical, ao mesmo tempo em que desprezam a “megalomania” de uma capitalmonumento: no so, entretanto, as piores tolices que essa terra j produziu, ainda que desde sempre tivramos, mais que qualquer outro, a boa disposio ao esclarecimento e a tenacidade da razo prtica, seu sucedneo: “enquanto na metrpole um espesso vu vitoriano ainda recobria o interesse nu e cru do pagamento em dinheiro, numa longnqua sociedade colonial a explorao prosperava a cu aberto, direta e seca”. Assim, “marca, em quimbundo, se diz Karimu. Karimbo era o ferrete oficial de prata ou ferro esquentado na brasa com que se marcavam os negros no momento do embarque, no ato de cobrana dos direitos de exportao. Da as palavras carimbo e carimbar. Dessa sorte, o substantivo e o verbo – s usados na lngua portuguesa no Brasil – definindo as hierarquias, o escopo da propriedade, a validade dos documentos, a autoridade pblica exercida pelo Imprio e pela Repblica brasileira, derivam do gesto, do instrumento que imprimia chancela legal ao comrcio de humanos. Da palavra que situa o momento preciso de reificao do africano”.


Braslia foi e passou, o Brasil seguiu em direo ao oeste (hoje Braslia o maior marco da arquitetura moderna e o melhor retrato da nossa regresso modernizadora), numa poca que crescamos a taxas de dez por cento ao ano, em mdia. Chega de Saudades. Passamse duas dcadas e o rosto do brasileiro esmaeceuse num espelho opaco.


E se tudo fora um sonho, um sonho vasto, no Cerrado, no Planalto Central, sonho de um monumento ritmado e de um rosto feito de colagens geomtricas – bossa nova, arte de vanguarda, e de repente, inteligncia; sonhvamos dormindo em que tipo de bero esplndido?


Em outros tempos, os sonhos acalentadores se chamaram ideologia. Ideologia: eu quero uma para sonhar.
P.S. de 16 de novembro de 1999.


Os jornais avisam que uma parte significativa dos quarenta e um bilhes que o estado brasileiro arrecadou com as privatizaes vai retornar ao bolso dos compradores sob a forma de reduo no pagamento do Imposto de Renda.


Um exemplo talvez ilumine essa “modernidade”: vejamos a privatizao das rodovias. A empresa que oferece o menor pedgio no leilo ganhava a concesso, tendo como contrapartida a obrigao de modernizar e manter a rodovia. Nada de novo. Eis, contudo, a originalidade: reparos e manuteno vm sendo financiados com emprstimos do BNDES a juros subsidiados. O que seria uma atividade de risco (portanto, eventual fonte de lucro) se transforma em fonte de renda.


Comparese isso com a mfia de fiscais em So Paulo. Vereadores malufistas cobravam ilegalmente dos camels uma propina para permitir a ocupao irregular de um espao pblico: as caladas. O que no caso das rodovias legal e mediado, aqui ilegal e imediato. Para um homem de viso, um leilo “pblico” resolveria tudo, j previsto naturalmente um emprstimo subsidiado para a construo de “barraquinhas”.


Em tempos como esse, o amor negcio de sociedades annimas (Que amor resiste a um ataque especulativo?)


P.S. de 01 de janeiro de 2000.


“Amanhecem de novo as antigas manhs
que no vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrs de tua sombra
Imensa e contrada como letra no muro
E s hoje presente”.


P.S. de 07 de fevereiro de 2006.


“ preciso que tudo isso seja belo. preciso que sbito
Tenhase a impresso de ver uma graa apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor s encontrvel no terceiro minuto da aurora”.


P.S. de 21 de novembro de 2010.


“ preciso que a banda larga no Brasil seja definida como um servio pblico para que possa ser regulamentada, como nos casos da telefonia fixa, luz, gua e esgoto. Acesso internet no um luxo. hoje to ou mais importante que o telefone fixo. Com a banda larga como um servio pblico, ser possvel ao governo estabelecer e exigir o cumprimento de metas. Mesmo ressuscitando a Telebrs, o governo sabe que no poder fazer tudo sozinho e precisar contar com as empresas operadoras para atingir todo o pas.”


Jornal Valor Econmico, 18/11/2010.


“depois de te perder, te encontro com certeza, talvez no tempo da delicadeza. Onde no diremos nada, nada aconteceu. Apenas seguirei como encantado, ao lado teu.”

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